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Capitalismo digital e democracia: Castells, Srnicek e Zuboff em perspectiva crítica

O meu objetivo nesse texto é fazer uma introdução introdutória e crítica às convergências e divergências entre Manuel Castells, Nick Srnicek e Shoshana Zuboff na interpretação do capitalismo digital, comparando suas posições político‑ideológicas e suas propostas (ou limites) em relação à democracia e à regulação das big techs.



Introdução


A hegemonia das plataformas digitais e das big techs impôs à teoria social o desafio de pensar não apenas “a sociedade em rede”, mas a própria forma contemporânea do capitalismo e suas implicações para a democracia. Manuel Castells, Nick Srnicek e Shoshana Zuboff são três referências incontornáveis nesse debate, porém falam de lugares teóricos e político‑ideológicos distintos.


Castells parte de uma tradição mais ampla de sociologia crítica das redes, apostando na ambivalência da infraestrutura digital e na possibilidade de contrapoder; Srnicek inscreve as plataformas no interior de uma economia política de inspiração marxista, preocupada com regimes de acumulação; Zuboff, por sua vez, formula uma crítica liberal‑democrática radical ao “capitalismo de vigilância”, centrada na defesa da autonomia e da privacidade como fundamentos da vida democrática. Comparar esses três autores ajuda a refinar o vocabulário crítico com que pensamos capitalismo digital, poder e emancipação.


1. Três diagnósticos do capitalismo digital


Manuel Castells ficou conhecido como o principal formulador da noção de “sociedade em rede”, articulando transformações tecnológicas, econômicas e culturais em uma nova estrutura social baseada em redes digitais. Em sua fase recente, especialmente em “Sociedade digital” e em entrevistas sobre democracia e novas tecnologias, ele enfatiza que as big techs formam um oligopólio com “controle oligárquico sem precedentes”, ao mesmo tempo em que insiste na ambivalência da internet: a mesma infraestrutura que amplia a capacidade de comunicação e organização cidadã amplifica polarizações, desinformação e autoritarismos.


Nick Srnicek, em “Platform Capitalism”, aborda o fenômeno a partir da economia política: plataformas são formas organizacionais específicas, resposta a crises de rentabilidade e à financeirização, que estruturam um “capitalismo de plataforma” centrado na extração, processamento e monetização de dados. Ele propõe uma tipologia (publicidade, nuvem, industriais, de produto, “lean”) para mostrar a diversidade de modelos de negócio, mas insiste em uma lógica comum de concentração, efeitos de rede e imperialismo de dados, com poucas empresas ocupando posições de meta‑infraestruturas globais.


Shoshana Zuboff, por sua vez, nomeia a fase atual como “capitalismo de vigilância”: um regime que expropria sistematicamente a experiência humana, transformando-a em matéria-prima para práticas comerciais de previsão e modificação de comportamentos. Ela insiste que o núcleo desse modelo não é apenas a coleta de dados, mas a construção de uma arquitetura de controle comportamental (“instrumentarismo”), em que plataformas e big techs buscam moldar condutas em larga escala, ameaçando a própria possibilidade de autogoverno democrático.


2. Posições político‑ideológicas: entre sociologia crítica, marxismo e liberalismo radical


Do ponto de vista político‑ideológico, Castells se inscreve em uma tradição de sociologia crítica próxima de um progressismo democrático: sua obra combina influências de marxismo heterodoxo, teoria da informação e estudos urbanos, mas evita uma linguagem explicitamente revolucionária ou programática. Em “Sociedade digital” e em entrevistas recentes, ele se apresenta como defensor de uma democracia ampliada, preocupado com autoritarismos, fascismos e colapsos ecológicos, e aposta em formas de regulação democrática das plataformas, mesmo reconhecendo as limitações dos Estados contemporâneos.


Srnicek, por outro lado, escreve a partir de uma economia política claramente situada no campo da esquerda marxista e pós‑marxista. “Platform Capitalism” se ancora em categorias como regime de acumulação, financeirização, imperialismo e crise, e seus trabalhos com Alex Williams (como “Inventing the Future”) dialogam com correntes aceleracionistas e pós‑trabalho, defendendo a necessidade de uma esquerda que se aproprie da tecnologia para além do horizonte social-democrata tradicional. Sua posição é explicitamente anticapitalista: o problema não é apenas regular plataformas, mas transformar relações de propriedade, coletivizar infraestruturas e reorganizar o tempo social.


Zuboff parte de um liberalismo democrático forte, ancorado na defesa da privacidade, dos direitos fundamentais e do Estado de direito. Ainda assim, seu diagnóstico é mais contundente do que muitas leituras de esquerda: ao falar em “capitalismo de vigilância” como mutação do capitalismo industrial e ao caracterizar as big techs como um poder “sem precedentes” na história, ela aproxima o novo regime tanto de formas totalitárias quanto de colonização da “natureza humana”. Sua agenda é a de uma “contrarrevolução democrática” que limite radicalmente o poder das plataformas e estabeleça uma democracia digital capaz de conter o “Big Other”.


Assim, se quisermos resumir: Castells está em um reformismo crítico de matriz progressista; Srnicek opera em um horizonte marxista/anticapitalista; Zuboff ocupa um liberalismo radicalizado pela percepção de que a própria base normativa do liberalismo (autonomia, privacidade) está sendo corroída.


3. Convergências: nomear o poder das plataformas


Apesar das diferenças, há convergências importantes. Primeira, todos rompem com a narrativa ingênua da “internet libertadora”, reconhecendo que plataformas e big techs se tornaram atores centrais, com poder econômico e político desproporcional.


Segunda, todos atribuem aos dados e algoritmos um papel estrutural: para Srnicek, dados são a matéria-prima do capitalismo de plataforma, que reorganiza cadeias de valor e relações de classe; para Castells, a digitalização reorganiza a estrutura social, produzindo uma sociedade em rede mediada por fluxos de informação e poder comunicacional; para Zuboff, a captura da experiência e a modulação comportamental constituem o núcleo do capitalismo de vigilância.


Terceira, todos apontam a concentração e o oligopólio como característica central: Srnicek insiste na tendência monopolista das plataformas e no imperialismo de dados; Castells fala explicitamente em oligopólio de plataformas com controle sem precedentes; Zuboff descreve as big techs como um poder “sem rival” em sua capacidade de vigiar, prever e influenciar comportamentos.


4. Divergências de ênfase: acumulação, comunicação, vigilância

As divergências aparecem na forma de recortar o objeto e na hierarquização das dimensões de poder. Em Srnicek, o eixo é o regime de acumulação: o capitalismo de plataforma é uma fase histórica do capitalismo, com formas específicas de extração de valor, dependentes da captura de dados e de infraestruturas globais. Sua crítica privilegia relações capital‑trabalho, cadeias globais de valor, financeirização e imperialismo, ainda que reconheça a importância de debates sobre vigilância e governamentalidade.


Castells pensa a partir da estrutura social em rede: seu foco é a reorganização das relações de poder, da esfera pública e da experiência subjetiva. As plataformas aparecem como infraestruturas de comunicação e poder simbólico: elas ampliam a capacidade de comunicação de atores sociais, mas também ampliam a capacidade de manipulação, desinformação e polarização, sobretudo quando articuladas a autoritarismos e fascismos.


Zuboff desloca o eixo para a vigilância e o controle comportamental: o capitalismo de vigilância não é apenas uma nova forma de acumulação, mas uma mutação qualitativa no modo de exercício do poder, orientado à modulação de conduta. Se Srnicek enfatiza “como se acumula” e Castells “como se comunica e se exerce poder”, Zuboff enfatiza “como se vigia e se modela comportamento”, com forte conotação de colonização da subjetividade.


5. Implicações democráticas e estratégias de enfrentamento


Nas implicações democráticas, as diferenças político‑ideológicas se tornam nítidas. Castells insiste na ambivalência: as redes ampliam a comunicação social e podem sustentar movimentos de resistência, mas também reforçam polarizações e autoritarismos; sua aposta está em uma combinação de regulação democrática e protagonismo da sociedade civil, ainda que ele se mostre cético quanto à disposição dos Estados para enfrentar seriamente o poder das plataformas.


Srnicek enfatiza mais a necessidade de transformações estruturais: regulação é insuficiente se não se mexer na propriedade e no controle das infraestruturas. Em entrevistas, ele advoga por plataformas públicas ou cooperativas, políticas industriais digitais e formas de socialização da infraestrutura, articuladas a agendas de pós‑trabalho e redistribuição radical do tempo social.


Zuboff, assumindo a gramática liberal, coloca a democracia no centro: capitalismo de vigilância e democracia liberal são, para ela, incompatíveis se o primeiro não for contido por uma “contrarrevolução democrática” que reinstaure limites ao poder das corporações digitais. Sua proposta não é socialista, mas exige um endurecimento democrático capaz de proibir determinadas práticas de extração e manipulação de dados, analogamente ao modo como democracias do século XX contiveram (parcialmente) o poder de oligopólios industriais e financeiros.


Conclusões


A comparação entre Castells, Srnicek e Zuboff mostra que não existe uma única “teoria crítica” do capitalismo digital, mas um campo em disputa, atravessado por diferentes tradições teóricas e projetos políticos. Castells, vindo da sociologia da sociedade em rede, oferece uma leitura ambivalente, sensível às potencialidades emancipadoras da comunicação em rede e às novas formas de autoritarismo, sem romper com um horizonte reformista democrático.


Srnicek, situado em uma economia política de viés marxista, nomeia o “capitalismo de plataforma” como regime de acumulação específico, destacando a centralidade dos dados, das infraestruturas e da financeirização e apontando para a necessidade de transformações estruturais na propriedade e no controle das plataformas.


Zuboff, a partir de um liberalismo democrático radicalizado, formula talvez a crítica mais contundente à intencionalidade das big techs: a construção de um “capitalismo de vigilância” que visa não apenas explorar, mas moldar comportamentos em massa, corroendo os fundamentos normativos da própria democracia liberal que dizemos defender.


Para uma crítica consistente do capitalismo digital, nenhum desses três enfoques é suficiente isoladamente. Articular a economia política de Srnicek, a análise sociopolítica de Castells e a denúncia do instrumentarismo em Zuboff pode ser um caminho para pensar tanto as raízes estruturais quanto as formas contemporâneas de poder, vigilância e dominação. A aposta política, no entanto, permanece em aberto – entre reformar, regular, socializar ou limitar radicalmente o poder das plataformas – e talvez seja justamente nessa tensão que se jogam hoje as possibilidades (e os limites) de um futuro democrático em meio ao capitalismo digital.


P.S.: Usei IA Perplexity Pro no levantamento de informações e Adapta One na elaboração da imagem que ilustra esse artigo, tendo revisado a versão final, sobre a qual assumo inteira responsabilidade.

 

 
 
 

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