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Corrupção, o pemedebismo e novas finanças digitais: notas para pensar a eleição de 2026

Nos debates eleitorais, a pergunta “quem está mais mal acompanhado?” costuma aparecer como slogan moral: de um lado, acusa‑se o PT de ser “o partido mais corrupto do Brasil”; de outro, aponta‑se a “quadrilha bolsonarista” e seu entorno. Essa forma de enquadrar a disputa é pobre porque personaliza e moraliza um problema estrutural: a corrupção não é desvio isolado de alguns indivíduos, mas parte de um modo de funcionamento do sistema político e econômico brasileiro.


Nas últimas décadas, esse sistema passou por duas transformações profundas que tendem a se entrelaçar:

  • a consolidação de um padrão político que Marcos Nobre chamou de pemedebismo – um “sistema de freios” a mudanças estruturais;

  • a ascensão de um capitalismo tecnofinanceiro, no qual bancos, fintechs e big techs passam a ocupar o centro da acumulação, da gestão do tempo e, por consequência, do poder.


O objetivo deste texto é ligar esses pontos, usando a noção de frações de classe de Nicos Poulantzas para pensar como o sistema partidário – especialmente o centrão/direitão – se articula com o sistema financeiro tradicional, as novas finanças digitais e até com o crime organizado.


Do pemedebismo ao centrão 2.0


Marcos Nobre cunhou o termo “pemedebismo” para designar algo que vai muito além do PMDB enquanto sigla. O pemedebismo é uma forma de organização do sistema político que se consolidou na redemocratização: um bloco supra‑partidário que se cola a qualquer governo, de qualquer cor ideológica, para garantir acesso a cargos, verbas e vetos.


Nesse arranjo, a governabilidade é comprada à custa de reformas estruturais. O pemedebismo funciona como um “buraco negro” do sistema político: suga energia de qualquer tentativa de transformação mais profunda e devolve imobilismo. Quem entra nesse circuito – partido, liderança, grupo econômico – aprende rapidamente que o jogo é:

  • evitar conflitos que coloquem em risco posições e privilégios;

  • transformar toda agenda em negociação de cúpula;

  • manter a base social o mais desmobilizada possível.


Partidos que se integram a essa lógica tendem a:

  • abandonar qualquer democracia interna significativa;

  • tratar programa e ideologia como retórica flexível para marketing eleitoral;

  • organizar sua vida cotidiana em torno da disputa por orçamento, tempo de TV, cargos e emendas.


É nesse sentido que se pode falar em pemedebismo como “reação de classe” à democratização: um dispositivo que canaliza e neutraliza as pressões por ampliação de direitos civis, políticos e sociais, mantendo o núcleo duro da ordem social intacto.


Poulantzas, frações de classe e partidos


A teoria de Nicos Poulantzas ajuda a aprofundar essa análise. Ao invés de falar apenas em “burguesia” de forma abstrata, ele trabalha com a ideia de frações de classe:

  • capital industrial, agrário, comercial, financeiro;

  • frações internas e associadas ao capital internacional;

  • frações dominantes e dominadas dentro do próprio bloco burguês.


Cada fração ocupa uma posição específica no processo de acumulação e busca projetar seus interesses no Estado. Os partidos, nesse quadro, não são simples reflexos de classes, mas formas organizadas através das quais as frações lutam por hegemonia. O “bloco no poder” é a combinação instável dessas frações que, em cada período, consegue impor a sua linha como interesse geral.


Aplicando esse olhar ao Brasil recente, podemos perguntar:

  • quais frações do capital se articulam mais estreitamente com o centrão/pemedebismo?

  • como a ascensão da fração financeira (e hoje, tecnofinanceira) reconfigura o sistema partidário?


Aqui entra a financeirização. Desde meados dos anos 1980, o sistema bancário brasileiro se consolidou como um dos mais concentrados do mundo, ao mesmo tempo em que se diversificava internamente, criando uma miríade de aplicações e produtos para reter clientes como “investidores”. O vocabulário de mercado se impôs: toda poupança virou “investimento”, todo cliente virou “trader” em potencial.


Essa transformação não é apenas econômica: é política. A fração financeira do capital avança como fração hegemônica dentro do bloco no poder, e o Estado – mediado por partidos – passa a girar em torno de suas prioridades:

  • juros altos como mecanismo central de controle e de rentabilidade;

  • primazia da “confiança dos mercados” sobre a ampliação de direitos;

  • desenho de políticas sociais cada vez mais submetidas à lógica financeira (crédito, endividamento, vouchers, títulos, fundos).


Fintechs e big techs: o novo núcleo tecnofinanceiro

Se o sistema bancário tradicional é o velho coração do capital financeiro, as últimas duas décadas trouxeram um novo circuito: fintechs e big techs.


As fintechs são empresas financeiras de base tecnológica, com estruturas físicas mínimas, forte uso de aplicativos, inteligência de dados e algoritmos de crédito. Elas operam em segmentos como:

  • contas digitais e meios de pagamento instantâneo;

  • crédito ao consumo, crédito entre pessoas, crédito para pequenos negócios;

  • plataformas de investimento “democratizado”.


Num país de alta bancarização concentrada, o surgimento de centenas de fintechs produziu alguma pressão competitiva, sobretudo sobre tarifas e experiência do usuário. Mas a estrutura de poder não desaparece: grandes bancos adquirem fintechs, criam braços digitais, participam de rodadas de investimento e mantêm o controle dos grandes volumes de ativos.


Em paralelo, as big techs globais migraram para o terreno financeiro: meios de pagamento próprios, carteiras digitais, crédito, seguros. Dados pessoais, geolocalização, histórico de consumo – tudo se converte em insumo para decisões financeiras em tempo real.


No limite, estamos diante de um regime tecnofinanceiro em que:

  • o controle da infraestrutura digital de comunicação e transação (plataformas, nuvem, redes) se funde ao controle do crédito e da moeda;

  • o tempo – velocidade de processamento, liquidação, arbitragem – torna‑se a principal variável de poder: quem controla o tempo da circulação controla o dinheiro e o comando sobre a economia.


Não por acaso, esse mesmo ambiente é fértil para o crime organizado. Investigações recentes da Polícia Federal mostraram que facções como o PCC passaram a usar fintechs e “maquininhas” para lavar dinheiro em larga escala, criando empresas financeiras de fachada, explorando brechas regulatórias, fragmentando operações para escapar de alertas automáticos. Nas margens da inovação financeira, abre‑se um corredor cinzento por onde circulam tanto o capital especulativo quanto o capital criminoso.


Partidos, centrão/direitão e a hegemonia tecnofinanceira


Se olharmos agora para o sistema partidário à luz de Poulantzas e do pemedebismo, é possível enxergar uma reconfiguração:

  • os partidos tradicionais de esquerda (quando no governo) aceitam, em maior ou menor grau, a moldura tecnofinanceira e tentam operar alguma redistribuição “por dentro” dela;

  • a direita e, sobretudo, o centrão/direitão se alinham de forma mais orgânica às frações dominantes do capital financeiro e tecnofinanceiro, assumindo a função de guardiões da estabilidade do regime.


Essa guardiã não aparece necessariamente em discursos explícitos – muitas vezes se apresenta como “defesa da responsabilidade fiscal”, “ambiente de negócios”, “segurança jurídica”. Mas, na prática, concretiza‑se em:

  • vetos a reformas tributárias realmente progressivas;

  • resistência a controles mais firmes sobre fluxos de capitais, regulação de plataformas, limites ao poder das grandes finanças;

  • apoio a mecanismos que socializam riscos e privatizam ganhos (resgates, renúncias fiscais, programas de crédito subsidiado desenhados para grandes grupos).


Ao mesmo tempo, esses partidos mergulham na disputa por rendas públicas: emendas, orçamento secreto, fundos, concessões, privatizações, contratos de tecnologia, regulação feita sob medida. É a luta de classes “por cima”, travada no interior do Estado, para assegurar que o regime tecnofinanceiro siga intocado – ainda que os slogans de campanha falem em “povo”, “família” ou “nação”.


A consequência é dupla:

  • as frações intermediárias – classes médias financeirizadas, pequenos empresários, profissionais de alta renda – são interpeladas como “investidores” e “empreendedores”, convidados a se identificar com o capital financeiro;

  • as frações mais vulneráveis das classes trabalhadoras são tratadas como massa a ser disciplinada via crédito e dívida (cartão, consignado, microcrédito), ou como público de programas sociais compensatórios cujo desenho, muitas vezes, também é subordinado à lógica financeira.


Finanças, tempo e poder: o núcleo do capitalismo mercadocêntrico


A convergência entre bancos, fintechs, big techs e partidos fisiológicos converge para um ponto: a centralidade do tempo. No capitalismo mercadocêntrico contemporâneo, controlar o tempo é controlar o dinheiro – e controlar o dinheiro é controlar o poder.


Controlar o tempo significa:

  • antecipar movimentos de mercado antes de outros;

  • liquidar transações em milissegundos;

  • capturar e processar dados em escala, reduzindo incerteza para quem está “do lado certo” da infraestrutura.


Quem opera as redes (no sentido amplo: redes financeiras, digitais, institucionais) decide quem espera e quem não espera, quem paga juros e quem recebe, quem vive no fluxo e quem fica preso na fila. O “atraso” passa a ser também uma forma de dominação.


Nesse cenário, o sistema político – organizado em torno do pemedebismo, do centrão, dos partidos que trocam de lado conforme o ciclo – tende a abandonar qualquer compromisso sério com mudanças estruturais. O horizonte encolhe: trata‑se de administrar o presente imediato, garantir posições na rede de distribuição de recursos, negociar as regras do jogo tecnofinanceiro sem jamais questionar o jogo em si.


E a corrupção nisso tudo?


Quando recolocamos a corrupção nesse quadro, ela deixa de ser um desvio moral e se torna um sintoma:

  • sintoma de um sistema em que o acesso ao Estado é a principal via de negócios para frações do capital (inclusive tecnofinanceiras);

  • sintoma de um arranjo institucional em que partidos e lideranças são valorizados não por sua representação de interesses populares, mas por sua capacidade de intermediar verbas, contratos, regulações, facilidades.


Nesse contexto, a corrupção se espalha:

  • nas margens legalistas de regimes de incentivos e subsídios;

  • na captura de agências reguladoras;

  • na promiscuidade entre plataformas digitais, bancos, fintechs e agentes públicos;

  • na infiltração do crime organizado em mecanismos formais de pagamento e crédito.


É claro que é importante investigar, punir, moralizar, aperfeiçoar mecanismos de controle. Mas sem encarar o núcleo tecnofinanceiro e pemedebista que estrutura o sistema, a luta contra a corrupção corre o risco de se reduzir à troca de máscaras: sai um “corrupto”, entra outro, a engrenagem continua a mesma.


Para onde olhar?


Se há uma lição desse percurso, ela é dupla:

  1. A disputa eleitoral não pode ser lida apenas em termos de “quem está mais mal acompanhado” em termos morais. É preciso perguntar: quem está mais organicamente integrado ao bloco de poder tecnofinanceiro? Quem se dispõe, ainda que parcialmente, a enfrentar seus privilégios?

  2. Uma agenda crítica hoje passa por mapear, com rigor empírico, as conexões entre:

    • frações do capital (em especial a fração tecnofinanceira);

    • partidos, blocos parlamentares e governos;

    • desenho regulatório do sistema financeiro e digital;

    • novas formas de criminalidade econômica.


É aí que conceitos como pemedebismo, frações de classe e financeirização deixam de ser abstrações e se tornam ferramentas para ler o Brasil de 2026 – um país em que o tempo, o dinheiro e o poder se entrelaçam cada vez mais sob a forma de plataformas, algoritmos, fundos e coalizões fisiológicas.


E é aí também que a crítica à corrupção ganha densidade: não como indignação difusa contra “os políticos”, mas como análise concreta de como o sistema tecnofinanceiro captura o Estado, reorganiza o sistema partidário e naturaliza a indiferença em relação às classes e frações mais vulneráveis.

 
 
 

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