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De 1968 a Greta Thunberg: quando os jovens dizem “basta”

De 1968 a Greta Thunberg, há um fio histórico que liga juventudes que ousam dizer “basta” a uma reação imediata das elites econômicas, políticas e midiáticas: a tentativa de transformá-las em problema, exagero, histeria ou manipulação. A guerra é material – feita de repressão, leis de exceção, criminalização – mas é também simbólica: travada em manchetes, editoriais, imagens e rótulos que procuram deslegitimar a juventude em movimento.

Em 1968, estudantes na França, no Brasil e em vários outros países colocaram em xeque o industrialismo produtivista, a burocracia dos partidos, a guerra do Vietnã, o racismo e o patriarcado. Na Ditadura Militar brasileira, essa ousadia custou caro: prisões, torturas, mortes. Mas o modo como essa geração foi apresentada ao grande público passou por um filtro poderoso: o dos jornais e dos aparelhos de Estado. Em vez de sujeitos políticos que criticavam uma ordem autoritária e predatória, os jovens aparecem como “baderneiros”, “subversivos”, “degenerados”, “rebeldes sem causa”. A violência policial e o endurecimento das leis são então justificados: se a juventude é sinônimo de ameaça, conter é “proteger a sociedade”.

Décadas depois, a cena se repete com outros rostos e palavras de ordem. Greta Thunberg, ao iniciar sua greve escolar pelo clima, tornou-se símbolo de uma geração que não aceita herdar um planeta em colapso. Sua imagem foi rapidamente ancorada em representações positivas: “consciência ecológica da juventude”, modelo de coerência ética, voz da ciência diante da omissão dos governos. Milhões de estudantes, inspirados por seu gesto, passaram a ocupar ruas em dezenas de países, inclusive no Brasil. A juventude parecia, mais uma vez, assumir o papel de “má consciência” de um sistema que prefere não olhar para as próprias consequências.

Mas, à medida que o movimento se ampliava, outra narrativa ganhou força. Greta passou a ser acusada de “marionete” de ONGs, partidos ou bilionários; seus discursos foram recortados para enfatizar a emoção, não os argumentos; sua figura foi ridicularizada como “histeria adolescente”, “fanatismo”, “extremismo”. As greves pelo clima, por sua vez, foram tachadas de irresponsabilidade juvenil, doutrinação, ameaça ao desenvolvimento. Em lugar de debater seriamente o modelo econômico que produz o aquecimento global, preferiu-se discutir a personalidade de uma jovem e a maturidade de uma geração.

Essa repetição não é acidental. Ela pode ser compreendida à luz da teoria das representações sociais, formulada por Serge Moscovici e desenvolvida por Denise Jodelet. Toda vez que surge algo novo e ameaçador – como uma juventude que questiona a ordem – a sociedade precisa “fazer sentido” disso. Faz isso por meio de representações sociais: sistemas de imagens, categorias e narrativas que tornam o novo “familiar”. Dois processos são decisivos. O primeiro é a ancoragem: encaixar o inesperado em esquemas já conhecidos. O jovem que enfrenta a polícia ou que bloqueia uma avenida pelo clima é ancorado na figura do “baderneiro”, do “ingênuo manipulado”, do “radical sem noção”. O segundo é a objetivação: condensar ideias abstratas em imagens fortes – a barricada em 1968, a menina chorando na tribuna, o cartaz colorido da greve pelo clima –, que passam a organizar o que as pessoas sentem e pensam sobre esses movimentos.

Quem controla grandes meios de comunicação tem enorme poder de orientar esse processo. No Brasil e em tantos outros lugares, conglomerados midiáticos ligados a bancos, grandes empresas e grupos políticos conservadores tendem a selecionar quais aspectos da juventude em luta serão amplificados. Conflitos com a polícia, casos isolados de vandalismo, frases de efeito fora de contexto ganham manchetes e fotos de capa, enquanto as críticas estruturais ao industrialismo predatório, ao patriarcado, ao racismo e ao capitalismo fóssil são empurradas para segundo plano. O resultado é conhecido: o foco se desloca do sistema que destrói vidas e ecossistemas para o comportamento de quem ousa questioná-lo.

Em 1968, os estudantes eram acusados de “agentes de Moscou”, “instrumentos do comunismo internacional”, justificando uma escalada repressiva em nome da “segurança nacional”. Hoje, jovens climáticos são acusados de servir a interesses obscuros de ONGs estrangeiras ou de potências rivais, como se não fossem capazes de ler um relatório científico ou de analisar a realidade que vivem. Em ambos os casos, nega-se à juventude a condição de sujeito pensante: não passam de massa de manobra. Essa negação é conveniente para elites que se alimentam da continuidade do mesmo modelo de desenvolvimento que está sendo posto em xeque.

Há, porém, uma disputa. Se de um lado prevalece a figura da juventude-problema – instável, perigosa, manipulável –, de outro emerge, com força, a imagem da juventude-sujeito. A geração de 1968, apesar de caricaturada, deixou marcas profundas na vida política, cultural e nos direitos das mulheres. A “geração Greta”, com todas as suas contradições e limites, recolocou a crise climática no centro do debate e aproximou a pauta ambiental de agendas feministas, antirracistas e anticapitalistas. A cada vez que jovens se organizam, criam seus próprios meios de comunicação, escrevem seus manifestos e ocupam espaços, produzem também representações alternativas: de si mesmos, do mundo e do futuro.

Desconstruir as imagens negativas fabricadas pelas elites não é um luxo teórico. É uma tarefa política urgente. Significa estranhar as palavras que se repetem em editoriais e comentários – “baderna”, “radicalismo”, “histeria juvenil”, “marionete” – e perguntar: que interesses elas protegem? Significa recuperar a memória de lutas passadas, como 1968, para lembrar que aquilo que hoje parece óbvio – direitos civis, liberdades democráticas, pautas feministas e ambientais – foi ontem acusado de ameaça à ordem. E significa, sobretudo, disputar a narrativa sobre o que é a juventude: não um problema a ser contido, mas uma potência crítica que, ao dizer “basta”, obriga a sociedade a se olhar no espelho.

Entre a caricatura do “jovem perigoso” e a figura da “juventude que pensa”, há uma escolha. Não apenas dos jovens, mas de todos nós.

 
 
 

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