Do MEL ao ambientalismo complexo- multissetorial
- Sérgio Luís Boeira
- 16 de jul.
- 9 min de leitura
Uma hipótese sobre a gênese de um conceito
Entre as várias formas possíveis de revisitar a história do ambientalismo brasileiro, uma das mais fecundas é acompanhar a formação de seus conceitos a partir do cruzamento entre ativismo civil, pesquisa empírica e elaboração teórica. A hipótese defendida neste texto é que o conceito de ambientalismo complexo-multissetorial, formulado por Eduardo Viola e desenvolvido em diálogo com outros autores, teve uma fonte empírica decisiva na experiência do Movimento Ecológico Livre (MEL), em Florianópolis, na década de 1980, e uma fonte teórica fundamental na obra de Edgar Morin sobre complexidade e transdisciplinaridade.

Essa hipótese não afirma que o conceito tenha nascido de uma única experiência local, nem que possa ser reduzido a um caso catarinense. O argumento é mais preciso: a experiência do MEL funcionou como um observatório privilegiado de uma configuração política e cognitiva emergente, na qual atores e setores distintos começavam a se articular em rede em torno da questão ecológica; mais tarde, essa percepção local foi reforçada por pesquisa empírica sistemática e ganhou densidade teórica ao ser pensada à luz da complexidade.
O que o MEL revelou
As reconstituições históricas do Movimento Ecológico Livre o apresentam como uma das articulações ambientalistas pioneiras de Florianópolis, ativa desde o início dos anos 1980, em campanhas ligadas ao uso do solo urbano, à expansão imobiliária, ao saneamento, ao lixo, à proteção de áreas naturais e à criação de unidades de conservação, como o Parque Municipal da Lagoa do Peri. A amplitude dessa agenda já indica algo importante: o ecologismo ali não se organizava apenas em torno da proteção da natureza em sentido estrito, mas como crítica ao modelo urbano, ao padrão de ocupação territorial e à forma de tomada de decisões sobre a cidade.
Mais importante ainda era o modo como essa atuação se estruturava. Pesquisas sobre o movimento ambientalista em Florianópolis e em Santa Catarina registram a presença, em torno do MEL, de estudantes, pesquisadores universitários de diversas áreas (direito, engenharia sanitária, sociologia, ecologia, entre outras), lideranças de bairros, técnicos de órgãos públicos na área ambiental, comunicadores de rádio e jornal, parlamentares sensíveis à pauta ecológica e militantes de entidades ecologistas diversas. Em vez de um agrupamento homogêneo ou setorial, o que se observava era uma articulação plural, composta por atores com diferentes formações, posições institucionais e linguagens políticas.
Esse traço se tornava ainda mais visível quando o MEL atuava não sozinho, mas em conexão com outras organizações. A formação da Federação de Entidades Ecologistas Catarinenses (FEEC) respondeu justamente à necessidade de estruturar um movimento ambiental forte por meio da articulação de entidades de várias regiões do estado. A FEEC ampliava o horizonte do MEL: o que em Florianópolis já aparecia como cooperação entre atores distintos ganhava, em escala estadual, forma de rede organizada, com circulação de informações, campanhas conjuntas e afirmação pública de uma identidade ecologista comum.
Valores ecologistas e a passagem à autorreflexão
Nesse processo, a aprovação pelo MEL do documento Os Valores Ecologistas pode ser lida como um momento de inflexão. Veja artigo sobre Os Valores Ecologistas nesse blog (link abaixo), que desenvolve os seguintes tópicos: 1. Relação equilibrada entre homem-mulher e a natureza; 2. Relações igualitárias no interior da sociedade humana; 3. Democracia radical; 4. Ecodesenvolvimento; 5. Não-violência ativa; 6. Contra o machismo; 7. Descentralização e autogestão; 8. Cotidiano alternativo e criativo; 9. Flexibilidade e abertura no pensar e agir ; 10. A autonomia do movimento ecológico.
Estudos sobre a trajetória do movimento e memórias militantes mostram que o ecologismo catarinense daqueles anos foi marcado por forte reflexão sobre seus princípios, sua cultura política e seus modos de articulação. Isso ajuda a compreender por que um documento desse tipo é tão importante: ele não apenas expressa ideias, mas organiza uma autoconsciência coletiva do movimento.
A formulação de “valores” tem aqui um duplo sentido. De um lado, trata-se de explicitar um horizonte normativo: crítica ao produtivismo, defesa da qualidade de vida, valorização da participação cidadã, proteção da base ecológica da vida. De outro, trata-se de reconhecer que a luta ambiental não se esgota em um saber especializado, mas exige a convergência entre saberes, práticas e experiências distintas. Nessa chave, o multissetorialismo não aparece somente como composição sociológica de atores, mas como princípio político de articulação.
É justamente por isso que a experiência do MEL importa para a história do conceito. Ela mostra, em escala local, que o ambientalismo ganhava força quando aproximava estudantes e pesquisadores, moradores e técnicos, militantes e parlamentares, imprensa e entidades civis. O que depois apareceria como formulação conceitual já estava, antes, sendo ensaiado como prática.
Eduardo Viola entre observação e participação
A literatura sobre o ambientalismo brasileiro e sobre o caso catarinense situa Eduardo Viola como um dos principais formuladores de um modelo explicativo do movimento ambientalista no país, ao mesmo tempo em que reconhece a relevância de sua proximidade com a cena catarinense, particularmente em Florianópolis e no entorno da FEEC. Essa dupla inserção é decisiva para a hipótese defendida aqui. Viola não era apenas um pesquisador externo que observava o movimento; participava também como cidadão e intelectual engajado em um ambiente em que o ecologismo se fazia no encontro entre ação pública, debate normativo e experimentação política.
Essa posição liminar entre análise e participação tem consequências importantes. Em contextos assim, conceitos não surgem apenas de leitura bibliográfica nem apenas de descrição de dados: eles emergem do esforço de nomear, interpretar e generalizar uma realidade em transformação. A cena ambientalista de Florianópolis oferecia precisamente isso: um microcosmo em que se tornava visível a articulação entre setores diferentes em torno de uma mesma problemática. O conceito posterior de ambientalismo complexo-multissetorial pode ser lido, portanto, como uma elaboração teórica que condensou uma experiência histórica observada de perto.
Da fonte empírica local à pesquisa empírica sistemática
A experiência do MEL, contudo, não basta por si só para explicar a formulação do conceito. Ela funcionou como fonte empírica local, como uma espécie de laboratório no qual se tornava perceptível a emergência de novas formas de articulação ambientalista. Para ganhar estatuto de conceito mais geral, essa percepção precisou ser confrontada com pesquisa empírica mais sistemática, capaz de mostrar que aquilo não era um caso isolado, mas parte de uma transformação mais ampla do ambientalismo brasileiro.
É nesse ponto que entra a pesquisa posterior sobre o campo ambiental no Brasil. Trabalhos de síntese de Viola sobre o período 1974-1986 descrevem a passagem de um ambientalismo mais restrito, centrado em entidades especializadas e em setores técnicos do Estado, para um ambientalismo mais amplo, que incorpora empresários, cientistas, parlamentares, movimentos sociais, mídia e outras instâncias sociais. Essa passagem deixa de ser apenas intuição local e se torna padrão interpretativo: o que antes se podia perceber em Florianópolis e em Santa Catarina revelava uma tendência nacional.
A força desse deslocamento aparece também nas leituras posteriores do conceito. Pesquisas acadêmicas que retomam a noção de “ambientalismo complexo-multissetorial” insistem justamente no fato de que ela descreve um fenômeno no qual a questão ecológica passa a atravessar campos diversos, reunindo atores governamentais, empresariais, científicos, comunitários e midiáticos em arranjos variáveis. Em outras palavras, a pesquisa empírica sistemática deu base para generalizar aquilo que a experiência local havia ajudado a tornar visível.
A outra fonte: Edgar Morin e a complexidade
Se o MEL foi uma fonte empírica decisiva, a outra fonte fundamental do conceito foi teórica. A obra de Edgar Morin, especialmente sua crítica à fragmentação disciplinar e sua defesa do pensamento complexo, oferecia instrumentos potentes para pensar a crise ecológica não como um problema isolado, mas como uma crise que liga natureza, sociedade, técnica, cultura, economia e política.
A contribuição de Morin importa aqui em dois níveis. Primeiro, porque a complexidade permite compreender que os problemas ambientais não podem ser tratados por uma única disciplina, nem por uma única racionalidade. Eles exigem a articulação entre saberes diferentes, capazes de apreender relações, interdependências e retroalimentações. Segundo, porque a transdisciplinaridade sugere que essa aproximação não é apenas epistemológica; ela tem também implicações sociais e políticas, já que diferentes saberes estão encarnados em diferentes atores e instituições.
Foi nesse horizonte que a ideia de aproximar saberes diferentes pôde ser convertida na ideia de aproximar setores e atores diferentes. Se a ecologia exige o encontro entre conhecimentos científicos, técnicos, sociais, culturais e políticos, então o ambientalismo que lhe corresponde não pode ser apenas setorial. Ele tende a ser, ao mesmo tempo, complexo e multissetorial: complexo porque envolve múltiplas dimensões da vida social; multissetorial porque mobiliza atores diversos portadores de saberes, interesses e linguagens distintos.
Aproximar saberes, aproximar atores
Esse ponto talvez seja o coração da hipótese aqui defendida. A inspiração moriniana não serviu apenas para sofisticar intelectualmente uma descrição sociológica do ambientalismo. Ela ofereceu uma chave para reinterpretar o que movimentos como o MEL já vinham praticando. Em Florianópolis, a articulação entre cientistas, estudantes, moradores, técnicos públicos, parlamentares e imprensa mostrava, na prática, que a defesa do meio ambiente exigia cooperação entre campos antes separados. O pensamento da complexidade ajudava a dar nome e coerência a essa experiência.
Assim, não se tratava de justapor setores de modo mecânico, como se bastasse colocar atores diferentes lado a lado. O que se buscava era uma rede de interações em que saberes diversos pudessem convergir em torno de problemas comuns. A rede ambientalista não era apenas organizativa; era também cognitiva e política. Nela, o pesquisador trazia conceitos, o morador trazia experiência vivida do território, o técnico trazia instrumentos administrativos, o jornalista ampliava a esfera pública, o parlamentar traduzia demandas em arena institucional, e as entidades ecologistas ajudavam a manter a coerência normativa do conjunto.
Essa descrição ajuda a entender por que o adjetivo “multissetorial” é inseparável do adjetivo “complexo”. O primeiro nomeia a pluralidade dos atores; o segundo, a natureza relacional do fenômeno. Sem complexidade, o multissetorialismo pode virar mera listagem de setores. Sem multissetorialidade, a complexidade corre o risco de ficar apenas no plano abstrato. O conceito ganha força justamente porque junta as duas coisas.
O ambientalismo complexo-multissetorial pressupunha uma abordagem para além das noções mais simples de ambientalismo como "grupo de pressão" (dominante nos EUA) ou "movimento social" (dominante na Europa), pois as envolvida na ideia de movimento histórico, vital (portanto complexo) e civilizatório.
Do caso local à interpretação do ambientalismo brasileiro
Uma das contribuições mais interessantes dessa reconstrução é mostrar como uma experiência local pode iluminar uma transformação nacional. O MEL não “explica” sozinho o ambientalismo brasileiro, mas ajuda a perceber um movimento histórico mais amplo: a passagem de um ecologismo relativamente minoritário, concentrado em nichos especializados, para um campo ambiental mais plural, poroso e articulado. Florianópolis, nesse sentido, foi menos uma exceção do que um laboratório avançado de tendências que depois se tornariam mais evidentes em outras escalas.
Isso também ajuda a reler a produção teórica posterior. Quando a literatura passa a falar em ambientalismo complexo-multissetorial, não está apenas descrevendo a ampliação do número de atores envolvidos na pauta ecológica. Está registrando uma mudança de qualidade na própria estrutura do ambientalismo: a questão ambiental passa a ser atravessada por interações entre ciência, política, gestão pública, mobilização comunitária, comunicação e redes associativas. O MEL e a FEEC anteciparam, em chave local e regional, essa mudança de qualidade.
Uma hipótese de gênese
Diante disso, parece plausível sustentar a seguinte formulação: a gênese do conceito de ambientalismo complexo-multissetorial resultou da convergência entre três planos. O primeiro foi a experiência concreta do MEL e da FEEC, que ofereceu uma fonte empírica local onde já se podia observar a articulação em rede entre setores distintos. O segundo foi a pesquisa empírica sistemática posterior, que mostrou que esse padrão não era casual, mas expressava uma tendência mais ampla do ambientalismo brasileiro. O terceiro foi a inspiração teórica de Edgar Morin, que forneceu a linguagem da complexidade e da transdisciplinaridade para pensar o encontro entre saberes e, por extensão, entre atores e setores.
Essa hipótese não precisa ser entendida como exclusivista. Outras influências certamente também estiveram em jogo, tanto na história intelectual de Viola quanto na formação do campo ambiental no Brasil. Mas reconhecer o papel do MEL e de Morin ajuda a tornar mais concreta e historicamente situada a formação do conceito. Em vez de vê-lo como uma abstração repentina, passa-se a compreendê-lo como produto de uma interlocução entre prática militante, observação sistemática e elaboração teórica.
Por que isso importa hoje
Retomar essa história não é apenas um exercício de memória. A questão colocada pelo conceito continua atual. O enfrentamento da crise climática, da degradação urbana, do colapso dos resíduos, da perda de biodiversidade e das desigualdades socioambientais exige, mais do que nunca, articulações entre saberes e setores distintos. A lição mais forte do MEL, da FEEC e da própria ideia de ambientalismo complexo-multissetorial talvez seja esta: a política ambiental se fortalece quando consegue tecer redes entre diferenças, sem apagar a especificidade dos atores que as compõem.
Numa época marcada tanto pela hiperfragmentação quanto por soluções simplificadoras, essa tradição oferece um contraponto poderoso. Ela lembra que a ecologia é, ao mesmo tempo, conhecimento e ação, crítica e construção institucional, conflito e cooperação. E lembra também que certos conceitos importantes nascem menos de modas acadêmicas do que do esforço de compreender experiências históricas vividas intensamente por quem participou delas.
P.S.: Usei IA Perplexity Pro no levantamento de informações e Adapta One na elaboração da imagem que ilustra esse artigo, tendo revisado a versão final, sobre a qual assumo inteira responsabilidade.
Link para o artigo sobre Os Valores Ecologistas



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