top of page

Entre fertilidade importada e solo vivo: uma política civilizatória diante da emergência climática e da insegurança alimentar

Atualizado: há 1 hora


Como é possível que um país megadiverso, com solos, climas e biomas dos mais ricos do planeta, tenha se tornado dependente de importar cerca de 85% dos fertilizantes que consome e ao mesmo tempo bater recordes na liberação de agrotóxicos? A resposta não está apenas em decisões técnicas ou em variações conjunturais de preço, mas numa história de mais de três décadas em que se consolidou, no Brasil, um verdadeiro “complexo cinza”: a aliança entre fertilizantes químicos, pesticidas e um modelo de modernização agrícola que se apresenta como “verde”, enquanto empobrece a vida dos solos, contamina águas e amplia a vulnerabilidade ecológica e geopolítica do país.



Dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda) e de estudos estratégicos do Ministério da Agricultura mostram que, em 2021, pouco mais de 40 milhões de toneladas de fertilizantes foram consumidos no país, dos quais aproximadamente 85% foram importados — um salto em relação aos 76% de dependência externa registrados em 2017. Em 2025, essa dinâmica se intensificou: o Brasil importou cerca de 43–45,5 milhões de toneladas de fertilizantes, enquanto a produção nacional ficou em torno de 7,2 milhões de toneladas, mantendo a dependência em torno de 85–93% segundo diferentes levantamentos.


Nada poderia ser mais contrário à realidade tropical do que esse pacote químico-industrial. Em ambientes tropicais, a fertilidade do solo é inseparável da diversidade e da intensidade de vida: micro-organismos, fungos, bactérias, raízes profundas, ciclagem rápida de nutrientes, coberturas vegetais complexas. O paradigma que se consolidou no Brasil desde meados da década de 1990, porém, foi outro: monoculturas de alta resposta a insumos, solos tratados como substrato inerte para receber NPK solúvel, pesticidas como solução padrão para pragas e doenças, e um sistema de pesquisa, crédito e política agrícola orientado para essa lógica.


Entre 1998 e 2021, as importações de fertilizantes aumentaram cerca de 440%, passando de algo em torno de 7 milhões para quase 33 milhões de toneladas, enquanto a produção nacional se manteve estagnada ou em declínio, reforçando a opção por fertilidade importada. Em documentos oficiais sobre o Plano Nacional de Fertilizantes, o governo reconhece que o Brasil responde por cerca de 8–8,5% do consumo global de fertilizantes, ocupando a quarta posição mundial, mas com uma produção doméstica que representava apenas 17% da oferta em 2024.


A expressão “revolução verde”, aplicada ao caso brasileiro, é um exemplo claro de política cognitiva, no sentido trabalhado por Guerreiro Ramos. Ao chamar de “verde” um processo que depende de adubos sintéticos e pesticidas, a indústria e as elites agrárias produzem uma representação social favorável à expansão de seus mercados, deslocando o foco da destruição da biodiversidade do solo e da dependência de insumos importados para a retórica de produtividade, progresso e “alimentar o mundo”. Trata-se, na realidade, de uma revolução muito mais cinza — química, industrial e simplificadora — do que verde no sentido ecológico da palavra.


Guerreiro Ramos chamava atenção para como categorias, rótulos e discursos funcionam como instrumentos de poder — uma política cognitiva que molda o modo como a sociedade mercadocêntrica percebe seus problemas e suas alternativas. A indústria de insumos agrícolas operou exatamente nessa política cognitiva ao difundir expressões como “revolução verde” e “defensivos agrícolas”. Essas denominações ocultam o que está em jogo: pesticidas que contaminam, fertilizantes que geram dependência externa e degradam a vida do solo, pacotes tecnológicos que reduzem a autonomia dos agricultores e concentram renda na cadeia de insumos.


Os números recentes da política de agrotóxicos são eloquentes. Em 2025, o Brasil atingiu o maior número de liberações de agrotóxicos e defensivos biológicos da série histórica iniciada em 2000: foram 912 registros aprovados pelo Ministério da Agricultura, um aumento de mais de 37% em relação a 2024, quando já havia sido registrado um recorde com 663 autorizações. Desse total, 589 registros se referem a produtos formulados, que chegam diretamente ao uso agrícola, e 323 a produtos técnicos, usados como matéria-prima na indústria de pesticidas; 162 correspondem a defensivos biológicos, indicando um movimento ainda tímido na direção de alternativas de menor impacto.


Chamar pesticida de “defensivo” e fertilizante sintético de “nutrição” é, nesses termos, parte de uma estratégia cognitiva que normaliza a expansão desse complexo cinza, reduzindo o espaço mental para pensar agroecologia, bioinsumos e políticas de solo vivo como horizonte principal.


Grande parte da ecologia política contemporânea, marcada por leituras marxistas, tem sido valiosa para revelar as relações de classe, as formas de espoliação e a lógica de acumulação envolvidas na expansão do agronegócio. No entanto, essa matriz nem sempre dá conta de uma dimensão que parece central: a da política civilizatória, tal como sugerida por Edgar Morin, e a da crítica à própria racionalidade organizacional e cognitiva, como desenvolvida por Guerreiro Ramos.


Morin insiste que as ciências sociais e os governos privilegiaram as relações entre indivíduos e sociedades, marginalizando a noção de espécie. Com isso, retardaram a emergência de uma consciência de espécie da humanidade, capaz de se reconhecer como comunidade de destino diante das ameaças ecológicas globais. No campo agroalimentar, isso significa que seguimos discutindo produtividade, competitividade e “alimentar o mundo” como se estivéssemos apenas diante de escolhas setoriais, quando na verdade estamos diante de decisões que comprometem as bases de sobrevivência da espécie humana.


No Brasil, costuma-se discutir as escolhas agrícolas em termos de “projeto de país”: agronegócio exportador versus agricultura familiar voltada ao mercado interno; Ministério da Agricultura voltado para exportações versus Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, voltado para reforma agrária, territórios e segurança alimentar. Essa clivagem é real e importante, mas insuficiente.


A opção ecopolítica que hoje se coloca — agroecologia, bioinsumos, biofertilizantes, sistemas agroflorestais, transição para uma economia de cuidados com o solo e com a água — não é apenas uma alternativa de desenvolvimento nacional. É uma opção de civilização. Persistir na “revolução cinza” significa aceitar que o Brasil continuará importando fertilidade de regiões em conflito, com percentuais como 39% do potássio vindo da Rússia e 35% do Canadá em 2024, e quase toda a ureia e sulfato de amônio dependentes de fornecedores externos.


Ao mesmo tempo, significa naturalizar a expansão de agrotóxicos e a contaminação de rios, aquíferos e alimentos, ampliando riscos de saúde pública e de degradação dos ecossistemas em plena emergência climática.


Os dados de preços mostram o quanto essa opção é também economicamente frágil. Em crises recentes, como a guerra na Ucrânia e a escalada de conflitos no Oriente Médio, fertilizantes como a ureia chegaram a registrar aumentos entre 30% e 35% em poucos meses, com altas acumuladas superiores a 200% desde 2020 em determinados momentos. Estudos da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) e de consultorias indicam que fertilizantes podem responder por aproximadamente 40% do custo de produção de várias culturas, de modo que choques de preço se traduzem em pressão inflacionária sobre os alimentos.


Em 2025, segundo dados compilados por Insper Agro Global, o Brasil importou 43,32 milhões de toneladas de fertilizantes, com 15,8% dos nitrogenados vindo do Oriente Médio e mais de 70% desse tipo de insumo concentrado em poucos fornecedores como China, Rússia e Nigéria, o que torna o país altamente exposto a guerras, sanções e bloqueios logísticos. É uma arquitetura de segurança alimentar sustentada por rotas e fontes que o país não controla, exatamente num momento em que a crise climática torna a estabilidade produtiva ainda mais crucial.


Se, desde meados da década de 1990, governos e empresas escolheram um caminho elitista, neoliberal e conservador — abertura comercial para insumos, desoneração de importações, desindustrialização de fertilizantes, prioridade à competitividade externa, alinhamento com o agronegócio exportador —, essa escolha não é neutra do ponto de vista civilizatório. Ela reforça um padrão de relação com a terra e com a alimentação que nos afasta da consciência de espécie proposta por Morin e da crítica à política cognitiva de Guerreiro Ramos.


Uma ecologia política ancorada nesses autores lembra que não se trata apenas de trocar um insumo por outro, ou um modelo de propriedade por outro, mas de revisar profundamente nossas representações sobre o que é “progresso”, “modernização”, “defensivo” e “verde”. Enquanto aceitarmos que fertilizantes importados e agrotóxicos em expansão sejam o preço inevitável de alimentar o mundo, continuaremos presos à política cognitiva do complexo cinza.


É justamente ao recusar essa narrativa que se abre espaço para um outro horizonte: o de uma política civilizatória que veja no solo vivo, na água limpa, na diversidade de espécies e na segurança alimentar ecologicamente enraizada não obstáculos econômicos, mas a condição maior da nossa existência coletiva. A ecopolítica, nesse sentido, deixa de ser um tema setorial da agricultura para se tornar o coração de um projeto de civilização diante da catástrofe anunciada.


Agenda ecopolítica mínima


Diante desse quadro, uma agenda ecopolítica mínima precisaria, ao menos, de quatro movimentos articulados:


a) colocar os bioinsumos, os defensivos biológicos e os biofertilizantes no centro da política agrícola e industrial, com pesquisa, crédito e compras públicas orientados para substituir gradualmente o complexo químico por um complexo da vida, capaz de reduzir a dependência externa e a contaminação dos ecossistemas.


b) assumir a agroecologia como referência estratégica — não como nicho —, integrando agricultura familiar, cooperativas, economia solidária e experiências de transição agroflorestal em um projeto de segurança alimentar enraizado em territórios vivos.


c) reorientar o Plano Nacional de Fertilizantes: em vez de apenas diversificar fornecedores externos, redefinir o objetivo como soberania em fertilidade do solo, combinando produção interna de insumos de menor impacto, manejo ecológico de nutrientes e fortalecimento de cadeias locais de adubação orgânica e remineralizadores.


d) fazer da política de solo vivo um eixo explícito de política civilizatória: proteger e regenerar a vida dos solos como condição material da existência da espécie humana, ligando agro, clima, água e saúde em uma mesma ecopolítica que rompa com a “revolução cinza” e abra espaço para uma revolução verdadeiramente verde — no sentido ecológico e civilizatório da palavra.


P.S.: Usei IA Perplexity Pro no levantamento de informações e Adapta One na elaboração da imagem que ilustra esse artigo, tendo revisado a versão final, sobre a qual assumo inteira responsabilidade.

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

©2019 by Prof. Dr. Sérgio Luís Boeira. Website construido com tecnologia Wix.

bottom of page