Hurrell e Troyjo: da promessa dos BRICS à prova da realidade
- Sérgio Luís Boeira
- 26 de jun.
- 6 min de leitura
Um debate que mudou
Escrever sobre os BRICS hoje exige cautela diante de dois exageros frequentes: o primeiro transforma o grupo em alternativa histórica pronta para substituir o Ocidente; o segundo o reduz a uma sigla inflada, sem densidade política real. A leitura conjunta de Os BRICS e a ordem global, de Andrew Hurrell e colaboradores, e de A metamorfose dos BRICS, de Marcos Troyjo, ajuda justamente a escapar desses polos, porque cada obra examina um estágio diferente da trajetória do grupo e o faz a partir de perguntas distintas.

Hurrell escreve em 2009, quando a crise financeira internacional ainda repercute como sinal de esgotamento da autoconfiança ocidental e como oportunidade de ascensão para as grandes economias emergentes. Troyjo escreve em 2016, quando o entusiasmo da década anterior já foi parcialmente substituído por uma atmosfera de incerteza, desaceleração, reacomodações estratégicas e crise mais ampla da ordem liberal. Comparar os dois livros, portanto, não significa pedir a ambos a mesma coisa, mas observar como a reflexão sobre os BRICS muda quando o contexto histórico também muda.
O momento Hurrell
A obra organizada por Hurrell parte de uma pergunta forte e simples: até que ponto Brasil, Rússia, Índia e China podem funcionar como novos pilares da ordem global? A pergunta é reveladora porque não presume nem o colapso da ordem vigente nem o triunfo inevitável dos emergentes; ela procura medir as possibilidades reais de deslocamento de poder num sistema ainda fortemente hierarquizado.
A sinopse da Editora FGV indica que o livro examina as estratégias de política externa dos BRICS, com atenção especial às relações com os Estados Unidos, bem como às características, estratégias e tensões inscritas no comportamento desses países nas relações internacionais. Isso significa que o foco do livro não está apenas em indicadores econômicos, mas na forma como esses Estados se posicionam diplomaticamente, negociam reconhecimento e tentam ampliar influência em instituições multilaterais.
Reforma, não ruptura
Um dos aspectos mais fecundos da leitura de Hurrell é a recusa de imaginar os BRICS como força necessariamente revolucionária. Em vez de apostar na imagem de uma substituição frontal de hegemonias, a obra trabalha com a ideia de que essas potências buscam reformar gradualmente a ordem internacional, pressionando por maior voz, maior representação e maior pluralidade institucional.
Essa perspectiva continua importante porque evita um erro recorrente no debate público: supor que toda contestação à centralidade ocidental equivalha automaticamente à construção de uma ordem alternativa plenamente formada. No caso de Hurrell, a ênfase está numa disputa interna à própria ordem global, uma disputa por reposicionamento, por redistribuição de espaços de decisão e por redefinição de legitimidades, não por destruição pura e simples do multilateralismo.
Países diferentes, agenda comum
Outro mérito decisivo do livro é não tratar os BRICS como bloco homogêneo. O elenco autoral informado pela própria página da Editora FGV — Andrew Hurrell, Maria Regina Soares de Lima, Monica Hirst, Neil Macfarlane, Rosemary Foot e Amrita Narlikar — já sugere uma abordagem plural, voltada para as especificidades nacionais e para as tensões comparativas do grupo.
Esse ponto é central porque a coesão dos BRICS nunca se baseou em identidade cultural, proximidade geográfica ou uniformidade institucional. O que torna o agrupamento relevante é justamente sua capacidade de articular interesses convergentes apesar de profundas diferenças históricas, políticas e estratégicas entre seus membros. A obra mostra, assim, que os BRICS só podem ser compreendidos como formação relacional e pragmática, cuja unidade é sempre parcial, negociada e sujeita a rearranjos.
O caso do Brasil
A relevância do Brasil dentro desse quadro não pode ser entendida apenas por tamanho econômico ou por seu lugar entre os “emergentes”. O interesse brasileiro nos BRICS está ligado também a uma tradição diplomática que valoriza o multilateralismo, a diversificação de parcerias e a busca de autonomia por meio da participação ativa em fóruns internacionais.
Lido a partir dessa chave, o Brasil aparece menos como apêndice de uma coalizão dominada por outros e mais como formulador interessado em ampliar margens de negociação num sistema desigual. A presença de Maria Regina Soares de Lima entre os autores reforça essa leitura, já que sua trajetória intelectual ajudou a pensar o país como potência intermediária com ambições globais e limitações estruturais persistentes.
Um livro de 2009
Lido hoje, o livro de Hurrell também funciona como retrato de um clima histórico específico. Em 2009, ainda fazia sentido perguntar se a crise financeira havia aberto uma janela para a emergência de uma ordem mais multipolar, mais negociada e menos concentrada no eixo atlântico tradicional.
Essa atmosfera ajuda a entender o tom da obra. Ela é crítica, mas não cínica; cautelosa, mas não derrotista. Há ali a percepção de que os BRICS podiam se tornar agentes importantes de redistribuição de poder, mesmo sem abolir os fundamentos centrais da ordem liberal.
A virada de Troyjo
Quando se chega a A metamorfose dos BRICS, o cenário já é outro. O próprio título indica uma passagem: os BRICS deixaram de ser apenas uma categoria formulada por observadores externos e passaram a adquirir espessura institucional, agenda diplomática mais nítida e instrumentos próprios de coordenação.
A página de divulgação de Stuenkel na Record ajuda indiretamente a fixar esse pano de fundo, ao lembrar que o BRICS ganhou significado político por meio de um processo de institucionalização e que essa institucionalização se consolidou ao longo dos anos 2000 e da primeira metade dos anos 2010. É justamente nesse intervalo que se insere o livro de Troyjo: ele observa o momento em que a promessa da emergência precisa converter-se em prática institucional e capacidade de permanência.
Da sigla ao ator
A metamorfose a que Troyjo se refere diz respeito à mudança de status do agrupamento. Os BRICS já não são apenas objeto de expectativa financeira; tornam-se ator que realiza cúpulas, constrói linguagem comum, participa de disputas de governança e cria mecanismos como o Novo Banco de Desenvolvimento e o Arranjo Contingente de Reservas, marcos centrais do processo de institucionalização discutido também na literatura posterior sobre o grupo.
Essa mudança é fundamental porque desloca o centro do debate. Se em Hurrell a grande questão é o potencial dos BRICS como novos pilares da ordem global, em Troyjo a pergunta passa a ser outra: como sustentar coesão e relevância num mundo mais instável, com menos otimismo liberal e mais competição geopolítica?
A ordem em crise
Entre 2009 e 2016, a própria ordem liberal entrou em zona de turbulência mais aguda. O tema já não era somente a ascensão dos emergentes, mas também a crise interna das democracias liberais centrais, o crescimento de agendas protecionistas e nacionalistas e a erosão da confiança em mecanismos multilaterais tradicionais.
Esse deslocamento torna a análise de Troyjo menos voltada à possibilidade abstrata de mudança e mais focada nas condições concretas de adaptação estratégica. Os BRICS aparecem então como arranjo submetido a provas: precisam demonstrar que conseguem produzir coordenação efetiva, criar instituições minimamente operacionais e sustentar relevância em ambiente internacional mais fragmentado.
Instituições contam
É nesse ponto que a institucionalização do grupo ganha centralidade. O Novo Banco de Desenvolvimento não é apenas símbolo; ele representa uma tentativa de responder à lentidão e aos limites das reformas nas instituições de Bretton Woods, ao mesmo tempo em que amplia o repertório de financiamento e cooperação disponível para os países emergentes.
O mesmo vale para a dimensão mais ampla da coordenação BRICS. Quanto mais o grupo passa a depender de instituições próprias, mais precisa enfrentar perguntas sobre governança, assimetrias internas, sustentabilidade política e alcance real de sua proposta de reforma da ordem global.
O Brasil em outra fase
O contraste entre Hurrell e Troyjo também ajuda a perceber a mudança da posição brasileira ao longo do período. No primeiro, o Brasil aparece no ambiente mais afirmativo da diplomacia de coalizão e do multilateralismo ativo; no segundo, já entra em cena num quadro de maiores ambiguidades domésticas e externas, em que a capacidade de sustentar protagonismo se torna menos evidente.
Essa diferença não reduz a importância brasileira no grupo, mas a recoloca em termos mais sóbrios. Em vez de potência ascendente em curva contínua, o Brasil passa a ser observado como ator cuja inserção internacional depende fortemente de suas inflexões internas, de sua estabilidade política e de sua capacidade de formular estratégia de longo prazo.
Dois tempos da mesma história
Lidos em sequência, Hurrell e Troyjo ajudam a compreender duas etapas de uma mesma história. Hurrell registra o momento da promessa: a emergência dos BRICS como sintoma de redistribuição do poder mundial e como possibilidade de reforma gradual da ordem internacional. Troyjo examina o momento da prova: quando essa promessa precisa traduzir-se em instituições, coordenação e capacidade de resistência num sistema mais tenso e mais imprevisível.
É justamente por isso que os dois livros se complementam. Um oferece a moldura conceitual e histórica do surgimento dos BRICS como problema internacional; o outro permite ver o que acontece quando esse problema deixa de ser apenas questão de expectativa e se converte em realidade institucional, com todas as dificuldades que isso implica.
P.S.: Usei IA Perplexity Pro no levantamento de informações e Adapta One na elaboração da imagem que ilustra esse artigo, tendo revisado a versão final, sobre a qual assumo inteira responsabilidade.
No dia 19/06/2026 publiquei aqui no blog o artigo BRICS: de conceito de mercado a projeto de ordem multipolar
Referências em ABNT
HURRELL, Andrew; LIMA, Maria Regina Soares de; HIRST, Monica; MACFARLANE, Neil; FOOT, Rosemary; NARLIKAR, Amrita. Os BRICS e a ordem global. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2009.
TROYJO, Marcos. A metamorfose dos BRICS. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2016.



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