Infotainment, política cognitiva e engenheiros do caos: o caso do Portal Área VIP
- Sérgio Luís Boeira
- 16 de jul.
- 5 min de leitura
Na paisagem digital contemporânea, quase tudo parece virar fofoca, meme ou “conteúdo” desenhado para engajamento imediato. Portais que prometem notícias da TV, celebridades e bastidores, mas que ao mesmo tempo incorporam editorias de política, ocupam um lugar central nesse ecossistema de “infotainment”, em que a fronteira entre informação jornalística e entretenimento é deliberadamente dissolvida em nome de cliques, compartilhamentos e visibilidade.

O Portal Área VIP é um exemplo expressivo desse processo: apresenta-se como portal de notícias da TV e fofocas dos famosos, ao mesmo tempo em que opera uma editoria de política inserida na mesma lógica de circulação acelerada, apelo emocional e busca de viralização.
O poeta Mário Quintana, numa frase frequentemente lembrada, observou que “tudo o que não é matéria de fofoca é poesia”. A frase ajuda a iluminar a situação atual. Quando a economia da atenção transforma o mundo em matéria de fofoca, o que se perde não é apenas a poesia, mas também a possibilidade de um discurso público mais denso, reflexivo e responsável. A política, nesse ambiente, deixa de ser debate de projetos coletivos e passa a ser consumida como escândalo, intriga, performance e entretenimento.
A literatura sobre economia da atenção mostra que plataformas digitais e produtores de conteúdo disputam um recurso escasso: o foco humano. Nesse regime, cada segundo de atenção pode ser convertido em dados, publicidade, alcance e lucro. Os algoritmos privilegiam conteúdos capazes de provocar resposta rápida — indignação, curiosidade, medo, excitação, ressentimento — e rebaixam conteúdos que exigem tempo, contexto e elaboração. O resultado é um ambiente informacional em que o valor de uma mensagem já não depende prioritariamente de sua veracidade ou relevância pública, mas de sua capacidade de reter olhos, dedos e impulsos.
Essa lógica não produz apenas mudanças no mercado de mídia; ela altera também hábitos cognitivos. Estudos recentes indicam que o uso intensivo de redes sociais e ambientes digitais fragmentados está associado à diminuição da capacidade de sustentar concentração prolongada, especialmente entre jovens. Revisões e estudos empíricos apontam relações entre excesso de exposição a redes sociais, irritabilidade, pior rendimento escolar, dificuldades de atenção e prejuízos na leitura e na compreensão de textos mais densos. Pesquisas internacionais têm mostrado ainda correlação entre maior uso de social media e resultados mais baixos em leitura, memória e vocabulário entre adolescentes, sugerindo que o padrão de consumo rápido e fragmentado de informação dificulta o engajamento com materiais que exigem raciocínio elaborado. Isso ajuda a entender por que a economia da atenção favorece não apenas novos formatos de mídia, mas uma nova subjetividade: menos habituada à demora, à dúvida, à complexidade e à leitura crítica.
É nesse ponto que a reflexão de Alberto Guerreiro Ramos se torna particularmente atual. Ao formular o conceito de política cognitiva, o autor procurava mostrar como a linguagem, os conceitos e os esquemas de percepção podem ser intencionalmente reorganizados para naturalizar a centralidade do mercado na vida social. Em estudos que retomam sua obra, a política cognitiva aparece como a dimensão oculta da psicologia da sociedade centrada no mercado, operando por meio da colocação inapropriada de conceitos, da linguagem enganadora e da submissão da experiência humana à racionalidade instrumental. Em vez de descrever apenas um sistema econômico, Guerreiro Ramos identificava uma forma de colonização do pensamento.
Hoje, essa política cognitiva se manifesta de modo muito visível na gramática das plataformas. Termos como “engajamento”, “conteúdo”, “influência”, “performance” e “alcance” passam a organizar o imaginário social de modo mercadocêntrico. O que antes poderia significar participação, compromisso, militância ou criação coletiva é capturado por métricas de interação e monetização. “Engajamento”, por exemplo, já teve forte conotação de compromisso político e intelectual, especialmente em tradições de esquerda; agora, é frequentemente reduzido a número de curtidas, comentários, compartilhamentos e tempo de visualização. Não se trata de uma simples mudança vocabular, mas de uma reprogramação do sentido.
Nesse cenário, o Área VIP pode ser lido como um dispositivo de política cognitiva. O portal se apresenta como pioneiro em TV e famosos, com presença também em redes sociais e plataformas de vídeo, sempre enfatizando celebridades, bastidores, reality shows e entretenimento. Ao agregar a isso uma editoria de política, o que faz não é elevar o entretenimento ao plano do jornalismo, mas frequentemente submeter a política à mesma lógica da fofoca, da superficialidade e da circulação emocional. A consequência é uma degradação do próprio sentido de notícia.
No jornalismo profissional, notícia não é apenas informação que circula. Ela supõe checagem, confronto de versões, prudência diante das fontes, investigação da procedência, ceticismo metodológico e atenção às consequências públicas do que se publica. A cultura de verificação e o fact-checking foram justamente fortalecidos como resposta à disseminação de informações falsas e à pressão por velocidade nas redações. Quando a notícia passa a ser tratada prioritariamente como produto para gerar tráfego, essas mediações se enfraquecem. A informação é empacotada para consumo veloz, não para esclarecimento. O contraponto vira obstáculo à fluidez; a checagem, custo; a prudência, perda de timing.
É justamente essa degradação que permite compreender por que certos portais de infotainment se tornam funcionalmente convergentes com estratégias da extrema-direita, ainda que nem sempre exibam alinhamento doutrinário explícito. As pesquisas sobre redes sociais e política mostram que conteúdos de direita radical e desinformação frequentemente alcançam alto engajamento em plataformas digitais, em parte porque exploram melhor a gramática algorítmica da simplificação, da polarização e do afeto intenso. O problema, portanto, não é apenas o conteúdo ideológico manifesto, mas o ambiente comunicacional que recompensa o escândalo, o ressentimento e o conflito permanente.
Esse ponto dialoga diretamente com o argumento de Giuliano da Empoli em Os engenheiros do caos. O livro descreve como fake news, teorias da conspiração, algoritmos e estratégias de manipulação digital foram mobilizados por consultores e operadores políticos para disseminar ódio, medo e confusão, influenciando eleições e reconfigurando a esfera pública. A força desse diagnóstico está em mostrar que o caos não é simples efeito colateral: ele pode ser cultivado como método. Quanto mais desorganizado o espaço público, quanto mais difícil distinguir jornalismo de propaganda, informação de rumor, crítica de performance, mais fértil se torna o terreno para lideranças autoritárias que prometem ordem em meio à confusão.
Portais como o Área VIP não são, em geral, os engenheiros centrais dessa máquina, mas ajudam a preparar o terreno cultural em que ela prospera. Ao acostumar o público a consumir política como se fosse fofoca de celebridade, ajudam a trivializar o debate público e a reduzir a complexidade social a episódios isolados de impacto rápido. Nesse processo, o caos informacional deixa de parecer exceção e passa a ser percebido como normalidade. A esfera pública torna-se um fluxo contínuo de estímulos, indignações instantâneas e pseudoacontecimentos.
Também por isso a degradação do jornalismo profissional não deve ser vista como um problema corporativo restrito às redações, mas como uma questão democrática e civilizatória. Quando desaparecem os critérios de checagem, contraponto, prudência e responsabilidade com o público, enfraquece-se a própria possibilidade de julgamento político informado. A democracia depende de cidadãos capazes de distinguir evidência de boato, argumento de slogan, conflito real de fabricação algorítmica. Depende também de sujeitos capazes de ler textos longos, sustentar atenção, tolerar ambivalências e raciocinar para além da excitação instantânea.
Recuperar o sentido de notícia e de leitura crítica exige, portanto, uma disputa em vários níveis. Exige enfrentar a economia da atenção como modelo de negócio e como forma de socialização. Exige reconstruir práticas jornalísticas orientadas pela verificação e pelo interesse público. Exige, ainda, disputar a própria linguagem colonizada pelas plataformas, no sentido apontado por Guerreiro Ramos: devolver espessura crítica a palavras como “engajamento”, “participação”, “comunicação” e “informação”. Talvez seja preciso, enfim, recolocar no espaço público algo da intuição de Mário Quintana: se tudo vira fofoca, não perdemos apenas a poesia; perdemos também a capacidade de pensar. E uma sociedade que desaprende a pensar torna-se presa fácil dos engenheiros do caos.
P.S.: Usei IA Perplexity Pro no levantamento de informações e Adapta One na elaboração da imagem que ilustra esse artigo, tendo revisado a versão final, sobre a qual assumo inteira responsabilidade.



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