Pesquisa qualitativa multidimensional: o pensamento complexo e a renovação epistemológica das Ciências Humanas
- Sérgio Luís Boeira
- 21 de jul.
- 16 min de leitura
Atualizado: 23 de jul.
Resumo
Este ensaio visa compreender em que medida o pensamento complexo de Edgar Morin contribui para a renovação epistemológica da pesquisa qualitativa nas Ciências Humanas, desenvolvendo a noção de pesquisa qualitativa multidimensional como um horizonte de compreensão da investigação contemporânea. Fundamenta-se no diálogo entre a obra de Edgar Morin e a literatura sobre pesquisa qualitativa, especialmente autores que discutem sua evolução epistemológica e metodológica (1,2,3). Argumenta-se que o paradigma da complexidade não propõe um novo método de pesquisa, mas oferece fundamentos epistemológicos para compreender a investigação qualitativa como uma prática multidimensional, estrategicamente orientada e voltada à produção de conhecimento pertinente (3). Sustenta-se que a crescente pluralidade de abordagens qualitativas, longe de representar fragmentação, expressa um movimento de ampliação do campo, cuja inteligibilidade pode ser fortalecida pelo pensamento complexo. Nessa perspectiva, a pesquisa qualitativa multidimensional não constitui uma nova escola metodológica, mas uma orientação epistemológica capaz de mobilizar diferentes recursos heurísticos em função da compreensão contextual, histórica, relacional e reflexiva dos fenômenos humanos. Por fim, discutem-se os desafios colocados pela inteligência artificial, pela digitalização da pesquisa e pelas pressões institucionais por produtividade, argumentando-se que tais transformações exigem menos inovação metodológica do que renovação epistemológica.
Palavras-chave: pesquisa qualitativa; pensamento complexo; Edgar Morin; epistemologia; multidimensionalidade.

Introdução
A pesquisa qualitativa consolidou-se, ao longo do século XX, como uma das principais formas de produção de conhecimento nas Ciências Humanas e Sociais. Inicialmente concebida como alternativa às abordagens predominantemente quantitativas, ampliou progressivamente seu campo de atuação e passou a reunir diferentes tradições teóricas, estratégias investigativas e procedimentos metodológicos voltados à compreensão dos significados, das experiências vividas, das relações sociais e dos contextos históricos. Atualmente, mais do que uma metodologia específica, constitui um campo plural de investigação, caracterizado pela diversidade de perspectivas epistemológicas e pela crescente articulação entre diferentes formas de produzir conhecimento (1,2).
Essa consolidação, entretanto, não eliminou os desafios epistemológicos da pesquisa qualitativa. Ao contrário, sua expansão tornou mais evidente a necessidade de refletir sobre os fundamentos que conferem unidade a um campo marcado pela diversidade de métodos, referenciais teóricos e objetos de investigação. Soma-se a isso um contexto científico profundamente transformado pela intensificação da especialização disciplinar, pela digitalização da pesquisa, pela disponibilidade crescente de grandes bases de dados e pelo desenvolvimento recente da inteligência artificial. Nessas condições, a questão central deixa de ser apenas quais métodos utilizar e passa a ser como produzir conhecimento pertinente diante de fenômenos cuja complexidade resiste às formas tradicionais de fragmentação do saber (3).
É nesse cenário que o pensamento complexo de Edgar Morin adquire especial relevância. Sua contribuição não consiste em propor uma nova metodologia de pesquisa qualitativa nem em substituir os procedimentos consolidados pelas diferentes tradições interpretativas. Seu aporte situa-se em outro plano: o da epistemologia. Ao criticar o paradigma da simplificação e defender a contextualização, a religação dos conhecimentos e a multidimensionalidade dos fenômenos, Morin oferece um horizonte conceitual que permite compreender de maneira mais ampla o desenvolvimento contemporâneo da pesquisa qualitativa (3,4).
Essa perspectiva conduz à principal tese deste ensaio. Argumenta-se que a evolução da pesquisa qualitativa já vinha apontando para formas cada vez mais plurais, flexíveis e multidimensionais de investigação (1,2). O pensamento complexo não cria esse movimento, mas fornece os fundamentos epistemológicos capazes de torná-lo mais consciente, coerente e teoricamente consistente (3). Nesse sentido, a noção de pesquisa qualitativa multidimensional não designa uma nova escola metodológica, nem pretende substituir as diferentes tradições existentes; trata-se de uma orientação epistemológica voltada à compreensão da investigação qualitativa como estratégia heurística aberta, contextual, reflexiva e capaz de mobilizar diferentes recursos de pesquisa em função do problema investigado.
Essa interpretação também permite superar dicotomias que ainda marcam parte do debate metodológico. A oposição entre qualitativo e quantitativo, entre teoria e empiria ou entre rigor e flexibilidade perde força quando se reconhece que a pertinência da investigação depende menos da natureza das técnicas empregadas do que da coerência entre problema de pesquisa, fundamentos epistemológicos, estratégias heurísticas e interpretação dos resultados. A multidimensionalidade, nesse contexto, não significa ampliar indefinidamente o objeto, mas preservar as relações fundamentais que lhe conferem inteligibilidade (3).
Ao situar a pesquisa qualitativa nesse horizonte epistemológico, este ensaio procura contribuir para o debate contemporâneo sobre seus fundamentos, dialogando com a tradição da pesquisa qualitativa e com a obra de Edgar Morin. Defende-se que, diante da crescente complexidade dos problemas científicos e sociais, a renovação da pesquisa qualitativa depende menos da criação de novos procedimentos metodológicos do que do fortalecimento de princípios epistemológicos capazes de orientar a produção de conhecimento pertinente (3).
O artigo está organizado em três seções. A primeira reconstrói a emergência da pesquisa qualitativa e sua consolidação como campo científico, destacando a busca por fundamentos epistemológicos capazes de responder à crescente pluralidade de abordagens investigativas. A segunda examina as contribuições do pensamento complexo de Edgar Morin, desenvolvendo a noção de pesquisa qualitativa multidimensional como uma orientação epistemológica para a investigação dos fenômenos humanos. A terceira discute os desafios contemporâneos decorrentes da digitalização da pesquisa e da expansão da inteligência artificial, argumentando que essas transformações reforçam a necessidade de uma renovação epistemológica da pesquisa qualitativa. Por fim, as considerações finais retomam a tese central do ensaio e apontam perspectivas para o aprofundamento desse debate.
1. A pesquisa qualitativa e a renovação epistemológica das Ciências Humanas
A consolidação da pesquisa qualitativa ao longo do século XX representou uma das transformações mais significativas na história das Ciências Humanas. Mais do que incorporar novos procedimentos metodológicos, essa tradição de investigação modificou profundamente a maneira de compreender a produção do conhecimento científico. O deslocamento da explicação causal para a compreensão dos significados, da busca de regularidades para a interpretação dos contextos, do isolamento do objeto para sua contextualização e da pretensão de neutralidade absoluta para a reflexividade do pesquisador expressa uma mudança epistemológica cujos desdobramentos permanecem em aberto. A expansão da pesquisa qualitativa, entretanto, não eliminou os desafios relativos aos seus fundamentos; ao contrário, tornou mais evidente a necessidade de compreender como sua crescente pluralidade pode ser articulada em um horizonte epistemológico comum (2).
Embora frequentemente apresentada como reação ao positivismo, a emergência da pesquisa qualitativa possui raízes históricas e intelectuais mais amplas. Conforme observam Vidich e Lyman, sua formação está associada ao desenvolvimento da antropologia, da sociologia compreensiva, da Escola de Chicago e de outras tradições que reconheceram a impossibilidade de compreender os fenômenos humanos apenas por meio da identificação de regularidades estatísticas ou leis gerais (8). A observação participante, a etnografia, as histórias de vida e os estudos de comunidade consolidaram a convicção de que a realidade social é constituída por significados produzidos historicamente pelos próprios sujeitos e, por isso, exige procedimentos interpretativos capazes de considerar simultaneamente ações, contextos e relações sociais.
Essa mudança não significou o abandono do rigor científico, mas a ampliação de seu significado. A crítica formulada pela tradição qualitativa dirigiu-se menos à objetividade em si do que à insuficiência de um modelo epistemológico que tendia a tratar os fenômenos humanos como objetos isolados de seus contextos históricos, culturais, institucionais e políticos. A interpretação passou a ser compreendida como dimensão constitutiva da investigação científica, reconhecendo que a produção do conhecimento resulta da interação entre teoria, empiria, experiência e reflexão crítica.
Nas décadas seguintes, a pesquisa qualitativa deixou de constituir um conjunto relativamente homogêneo de procedimentos para transformar-se em um campo multiparadigmático e metodologicamente plural. Conforme destacam Denzin e Lincoln, coexistem nesse campo diferentes tradições teóricas, epistemológicas e metodológicas, cujas diferenças não impedem a existência de preocupações comuns relacionadas à compreensão da experiência humana, à contextualização dos fenômenos e à produção de interpretações fundamentadas (2). Creswell, por sua vez, sistematiza essa diversidade ao identificar múltiplas abordagens qualitativas — como a fenomenologia, a etnografia, a teoria fundamentada nos dados, a pesquisa narrativa e o estudo de caso — evidenciando que a unidade do campo não decorre da adoção de um método único, mas de pressupostos epistemológicos compartilhados (1).
Essa observação é particularmente importante para o argumento desenvolvido neste ensaio. A diversidade metodológica da pesquisa qualitativa não representa uma fragilidade, mas uma consequência da própria complexidade dos fenômenos investigados. Diferentes problemas científicos exigem diferentes estratégias heurísticas, diferentes formas de aproximação empírica e diferentes combinações entre teoria e observação. A pluralidade metodológica, portanto, não deve ser confundida com fragmentação epistemológica.
É precisamente nesse ponto que a reflexão de Elisabete M. Marchesini de Pádua adquire especial relevância. Ao aproximar a pesquisa qualitativa do pensamento complexo, a autora mostra que a renovação proposta por Edgar Morin não consiste na substituição de um paradigma por outro, mas na reconstrução da racionalidade científica diante da complexidade crescente dos objetos de conhecimento (7). Como sintetiza a epígrafe utilizada por Pádua, retomando Morin, "o objeto não deve somente ser adequado à ciência; a ciência deve igualmente ser adequada ao seu objeto". Essa inversão desloca o centro da discussão metodológica: em vez de adaptar os fenômenos às exigências de um método previamente estabelecido, torna-se necessário construir estratégias de investigação compatíveis com a natureza do problema estudado.
Essa perspectiva permite compreender por que a pesquisa qualitativa não pode ser definida apenas pelas técnicas que emprega. Entrevistas, observações participantes, grupos focais, documentos, narrativas, registros audiovisuais ou dados quantitativos podem integrar uma mesma investigação, desde que sua utilização seja orientada pelo problema de pesquisa e por fundamentos epistemológicos coerentes.
O elemento decisivo deixa de ser a natureza dos procedimentos e passa a ser a lógica que organiza sua mobilização na produção do conhecimento. Sob essa perspectiva, também perde sentido a oposição rígida entre pesquisa qualitativa e quantitativa. A distinção entre ambas não decorre da natureza dos dados utilizados, mas da orientação epistemológica que preside sua produção, interpretação e contextualização. Indicadores estatísticos, séries históricas ou grandes bases de dados podem desempenhar papel relevante em pesquisas qualitativas quando contribuem para compreender processos sociais complexos; da mesma forma, entrevistas ou narrativas podem integrar investigações predominantemente quantitativas sem alterar sua lógica epistemológica. O critério decisivo permanece sendo a pertinência da estratégia investigativa diante do problema formulado.
Essa evolução evidencia que a pesquisa qualitativa passou por um processo de amadurecimento que ultrapassa a simples diversificação de métodos. O desenvolvimento de diferentes abordagens, a incorporação de novos objetos e a ampliação das possibilidades de investigação apontam para uma transformação mais profunda: a busca de fundamentos epistemológicos capazes de conferir inteligibilidade a um campo cada vez mais plural. É justamente nesse contexto que o pensamento complexo de Edgar Morin se torna particularmente fecundo. Mais do que acrescentar uma nova metodologia ao repertório existente, ele oferece princípios inteligibilidade de fenômenos complexos, epistemológicos – como o princípio dialógico, sistêmico ou organizacional, o princípio do anel recursivo, do anel retroativo, hologramático, o princípio da auto-eco-organização e o da reintrodução daquele que conhece em todo conhecimento – permitem compreender essa pluralidade como expressão da multidimensionalidade dos fenômenos humanos, preparando o terreno para a discussão desenvolvida na seção seguinte (3, 7). Tais princípios somente são aplicados na medida em que se mostram necessários e pertinentes, jamais como uma cartilha ideológica ou dogma.
2. O pensamento complexo e a pesquisa qualitativa multidimensional
A contribuição de Edgar Morin para a pesquisa qualitativa não consiste na proposição de um novo método de investigação. Sua obra situa-se em um plano mais profundo: o da epistemologia. Ao questionar o paradigma da simplificação e defender uma racionalidade aberta à incerteza, à contextualização e à articulação entre diferentes níveis da realidade, Morin propõe uma renovação das bases do conhecimento científico que possui importantes implicações para a investigação nas Ciências Humanas (3,4).
O paradigma da simplificação, predominante na ciência moderna, fundamenta-se em operações de separação, redução e abstração que foram decisivas para o extraordinário desenvolvimento científico dos últimos séculos. Entretanto, quando aplicadas aos fenômenos humanos e sociais, essas operações tendem a fragmentar processos que somente podem ser compreendidos em sua organização relacional. O conhecimento produzido permanece válido, mas torna-se insuficiente quando desconsidera as interações entre as partes, o contexto em que elas se inserem e as propriedades emergentes do conjunto (4). Enquanto o paradigma da simplificação prioriza a disjunção, a redução e o determinismo disciplinares, o paradigma da complexidade prioriza os processos de associação sem fusão (confusão), distinção sem separação entre disciplinas e saberes (3, 7).
A crítica de Morin não implica rejeição da especialização científica nem dos procedimentos analíticos. O problema não está na análise em si, mas em sua transformação em princípio exclusivo de conhecimento. Para o autor, compreender exige simultaneamente distinguir e relacionar, separar e religar, analisar e contextualizar. A produção do conhecimento torna-se, assim, um movimento permanente entre diferentes níveis de organização da realidade, evitando tanto o reducionismo quanto a generalização abstrata (3).
Essa perspectiva conduz ao conceito de conhecimento pertinente. Em vez de acumular informações cada vez mais especializadas, a ciência é chamada a produzir conhecimentos capazes de situar os fenômenos em seus contextos, reconhecer suas múltiplas determinações e compreender as relações que estabelecem entre si. O conhecimento pertinente não elimina a especialização, mas procura integrá-la em uma visão mais ampla dos problemas investigados (6).
Aplicada à pesquisa qualitativa, essa concepção modifica a própria compreensão do método. O método deixa de ser entendido como sequência rígida de procedimentos previamente estabelecidos e passa a constituir uma estratégia de investigação construída ao longo do próprio processo de pesquisa. O pesquisador permanece orientado por princípios epistemológicos relativamente estáveis, mas adapta continuamente seus procedimentos às características do objeto investigado, às descobertas produzidas durante o trabalho de campo e às novas questões que emergem no desenvolvimento da investigação (5).
Essa compreensão aproxima-se do movimento já observado na evolução da pesquisa qualitativa contemporânea. Em diferentes tradições investigativas, o planejamento inicial da pesquisa é constantemente reelaborado em função das evidências empíricas, das interpretações produzidas e das interações entre pesquisador e participantes. A flexibilidade metodológica, longe de representar improvisação, constitui uma condição necessária para compreender fenômenos marcados pela historicidade, pela singularidade e pela complexidade das relações sociais.
É nesse contexto que se propõe a noção de pesquisa qualitativa multidimensional. Essa expressão não designa uma nova abordagem metodológica nem pretende substituir as diferentes tradições já consolidadas da pesquisa qualitativa. Trata-se, antes, de uma orientação epistemológica inspirada no pensamento complexo, segundo a qual os fenômenos humanos devem ser compreendidos mediante a articulação de suas múltiplas dimensões — histórica, cultural, institucional, econômica, política, ética, simbólica e subjetiva — evitando tanto o reducionismo disciplinar quanto a fragmentação do conhecimento (3).
A multidimensionalidade refere-se, portanto, menos à quantidade de variáveis consideradas do que à qualidade das relações estabelecidas entre elas. Um fenômeno social não se torna complexo porque incorpora um número maior de fatores, mas porque esses fatores interagem de maneira dinâmica, produzindo propriedades emergentes que não podem ser deduzidas a partir da análise isolada de cada elemento. A tarefa da pesquisa consiste justamente em compreender essas relações e não apenas descrever seus componentes.
Nessa perspectiva, diferentes técnicas de pesquisa podem ser utilizadas de forma complementar. Entrevistas, observações participantes, análise documental, grupos focais, registros audiovisuais, diários de campo ou mesmo informações quantitativas deixam de ser compreendidos como recursos pertencentes a paradigmas incompatíveis e passam a constituir instrumentos que podem ser articulados conforme as exigências do problema investigado. A unidade da pesquisa não decorre da uniformidade metodológica, mas da coerência epistemológica que orienta a escolha e a integração desses procedimentos.
No paradigma da complexidade, a articulação entre dados quantitativos e qualitativos não é simétrica. A incorporação de informações quantitativas amplia as possibilidades de compreensão dos fenômenos, mas não modifica o princípio epistemológico segundo o qual todo conhecimento permanece inseparável dos processos de interpretação, contextualização e atribuição de sentido. Em consequência, a relevância dos dados quantitativos não decorre de uma suposta objetividade intrínseca, mas de sua contribuição para a compreensão multidimensional, contextualizada, aberta e reflexiva do problema investigado.
Essa compreensão também redefine o papel do pesquisador. Em vez de ocupar a posição de observador externo e neutro, ele reconhece sua inserção no processo de produção do conhecimento, exercendo continuamente uma atitude reflexiva sobre suas escolhas teóricas, metodológicas e interpretativas. A reflexividade deixa de representar uma limitação da objetividade científica para tornar-se uma condição de sua qualidade, na medida em que explicita os pressupostos envolvidos na investigação e amplia a transparência do processo de pesquisa.
A pesquisa qualitativa multidimensional, assim concebida, não constitui ruptura com a tradição da pesquisa qualitativa. Ao contrário, representa uma forma de compreender e integrar sua crescente diversidade metodológica à luz de fundamentos epistemológicos capazes de religar conhecimentos, contextualizar problemas e reconhecer a complexidade inerente aos fenômenos humanos. Nesse sentido, o pensamento complexo oferece menos um novo repertório de técnicas do que um novo horizonte para compreender a própria natureza da investigação científica (3).
3. Pesquisa qualitativa multidimensional e os desafios contemporâneos
A pesquisa qualitativa encontra-se hoje diante de um cenário profundamente distinto daquele em que consolidou seus principais referenciais epistemológicos. A expansão das tecnologias digitais, a disponibilidade crescente de grandes bases de dados, a internacionalização da produção científica, a intensificação das redes de pesquisa e o rápido desenvolvimento da inteligência artificial modificam as condições de produção do conhecimento. Essas transformações ampliam as possibilidades da investigação científica, mas também tornam ainda mais evidente a necessidade de fundamentos epistemológicos capazes de orientar criticamente sua utilização.
O crescimento exponencial da informação não implica, por si só, ampliação do conhecimento. Ao contrário, a abundância de dados pode intensificar processos de fragmentação, dificultando a compreensão das relações que conferem sentido aos fenômenos investigados. A produção científica passa, assim, a enfrentar um paradoxo: nunca houve tanta informação disponível e, ao mesmo tempo, tornou-se tão necessária a capacidade de contextualizar, selecionar, interpretar e integrar conhecimentos provenientes de diferentes campos científicos (3, 7).
Nesse contexto, a inteligência artificial representa uma das transformações mais significativas da pesquisa contemporânea. Ferramentas capazes de organizar grandes volumes de informação, identificar padrões, sintetizar literatura científica e apoiar diferentes etapas da investigação tendem a ocupar espaço crescente nas atividades acadêmicas. Entretanto, essas tecnologias não substituem a interpretação, o julgamento crítico nem a responsabilidade epistemológica do pesquisador. A produção do conhecimento permanece inseparável da capacidade humana de formular problemas relevantes, estabelecer relações significativas e construir interpretações fundamentadas.
A contribuição do pensamento complexo torna-se particularmente relevante nesse cenário. Em vez de compreender a inteligência artificial como ameaça ou como solução para os desafios da pesquisa científica, Morin convida a situá-la em uma perspectiva mais ampla, na qual toda inovação tecnológica deve ser analisada em suas relações com os contextos culturais, sociais, éticos e políticos em que se insere (3). O problema central deixa de ser a tecnologia em si e passa a ser a racionalidade que orienta sua utilização.
Essa perspectiva também permite compreender os limites das atuais formas de avaliação da produção científica. Em muitos contextos institucionais, indicadores quantitativos de produtividade passaram a exercer influência crescente sobre as práticas de pesquisa. Número de publicações, índices de impacto, métricas de citação e critérios bibliométricos desempenham funções importantes na organização da atividade científica, mas tornam-se insuficientes quando passam a substituir a avaliação da qualidade, da relevância e da originalidade do conhecimento produzido.
Uma abordagem epistemologicamente complexa não rejeita esses indicadores, mas reconhece que eles representam apenas uma dimensão da atividade científica. A qualidade de uma pesquisa depende igualmente de sua capacidade de produzir conhecimento pertinente, dialogar com problemas socialmente relevantes, integrar diferentes perspectivas analíticas e ampliar a compreensão da realidade investigada. A avaliação da ciência exige, portanto, critérios compatíveis com a própria complexidade da produção do conhecimento (6).
Nesse contexto, a noção de pesquisa qualitativa multidimensional adquire especial importância. Mais do que ampliar o repertório metodológico disponível ao pesquisador, ela propõe uma forma de compreender a investigação científica como processo aberto, reflexivo e permanentemente contextualizado. Sua principal contribuição consiste em deslocar o foco da discussão metodológica para os fundamentos epistemológicos que orientam a escolha, a articulação e a interpretação dos diferentes procedimentos de pesquisa.
Essa orientação possui implicações importantes para a formação de pesquisadores. Em vez de privilegiar apenas o domínio técnico de métodos específicos, torna-se necessário desenvolver competências relacionadas à contextualização dos problemas, à integração de conhecimentos provenientes de diferentes disciplinas, à reflexão crítica sobre os próprios pressupostos da investigação e à responsabilidade ética diante das consequências da produção científica. O pesquisador deixa de ser apenas um especialista em técnicas de investigação para assumir o papel de intérprete da complexidade dos fenômenos humanos.
Nessa perspectiva, a pesquisa qualitativa multidimensional não representa uma ruptura com a tradição consolidada da pesquisa qualitativa, mas uma possibilidade de aprofundar seus fundamentos epistemológicos diante dos desafios contemporâneos. A crescente complexidade dos problemas sociais, ambientais, culturais e tecnológicos exige investigações capazes de articular diferentes escalas de análise, reconhecer a interdependência entre processos distintos e produzir interpretações contextualizadas que preservem a riqueza dos fenômenos estudados.
Em síntese, o pensamento complexo oferece uma contribuição decisiva para compreender que o futuro da pesquisa qualitativa depende menos da criação de novos métodos do que do fortalecimento de uma epistemologia capaz de religar conhecimentos, reconhecer a multidimensionalidade da realidade e orientar a produção de conhecimento pertinente em um mundo cada vez mais interdependente (3).
Considerações finais
Este ensaio teve como objetivo discutir as contribuições do pensamento complexo de Edgar Morin para a renovação epistemológica da pesquisa qualitativa nas Ciências Humanas, propondo a noção de pesquisa qualitativa multidimensional como uma orientação epistemológica capaz de compreender e integrar a crescente diversidade das abordagens qualitativas contemporâneas.
Ao longo do texto, argumentou-se que a expansão da pesquisa qualitativa não pode ser reduzida à multiplicação de métodos e técnicas de investigação. Sua evolução revela um movimento mais profundo de transformação epistemológica, no qual a compreensão dos fenômenos humanos exige contextualização, articulação entre diferentes níveis de análise, integração de saberes e reconhecimento da complexidade inerente à realidade social. Nesse sentido, a pluralidade metodológica constitui uma consequência da complexidade dos objetos investigados e não uma fragilidade do campo científico (2,3).
Essa breve interpretação da obra de Edgar Morin permitiu evidenciar que sua principal contribuição para a pesquisa qualitativa não reside na elaboração de um novo método, mas na construção de fundamentos epistemológicos capazes de orientar a produção de conhecimento pertinente. O paradigma da complexidade amplia as possibilidades de compreensão da investigação científica ao valorizar simultaneamente análise e síntese, autonomia e interdependência, ordem e incerteza, especialização e religação dos conhecimentos (3,4). Enquanto o paradigma da simplificação prioriza a disjunção, a redução e o determinismo disciplinares, o paradigma da complexidade prioriza os processos de associação sem fusão (confusão), distinção sem separação entre disciplinas e saberes.
Com base nessa perspectiva, propôs-se compreender a pesquisa qualitativa multidimensional não como uma nova escola metodológica, mas como uma orientação epistemológica que favorece a articulação de diferentes estratégias investigativas em função da natureza dos problemas estudados. Sua unidade não decorre da adoção de procedimentos homogêneos, mas da coerência entre fundamentos epistemológicos, escolhas metodológicas e interpretação dos resultados.
Também se procurou mostrar que os desafios contemporâneos — entre eles a expansão da inteligência artificial, a crescente disponibilidade de dados digitais e as transformações nos sistemas de avaliação científica — reforçam a importância de uma epistemologia capaz de preservar a contextualização, a reflexividade e a responsabilidade ética na produção do conhecimento. Quanto mais sofisticadas se tornam as tecnologias de pesquisa, maior tende a ser a necessidade de pesquisadores capazes de interpretar criticamente os processos investigados e de situar seus resultados em contextos históricos, sociais e culturais mais amplos (3,6).
As reflexões desenvolvidas neste ensaio não pretendem esgotar o tema. Ao contrário, procuram abrir novas possibilidades de investigação acerca das relações entre pensamento complexo, epistemologia e pesquisa qualitativa. A noção de pesquisa qualitativa multidimensional poderá ser aprofundada por meio de estudos teóricos, análises metodológicas e investigações empíricas que examinem sua aplicabilidade em diferentes campos das Ciências Humanas e Sociais.
Conclui-se, portanto, que a principal contribuição do pensamento complexo para a pesquisa qualitativa consiste menos na criação ou adoção de novas técnicas do que na ampliação do horizonte epistemológico da investigação científica, compreendendo o método (méthodos = caminho) como uma estratégia de conhecimento que mobiliza, de forma reflexiva, as múltiplas capacidades cognitivas do pesquisador em função da natureza do problema investigado. Em um contexto marcado pela crescente complexidade dos problemas contemporâneos, a produção de conhecimento pertinente depende cada vez mais da capacidade de religar saberes, contextualizar fenômenos e compreender a multidimensionalidade da realidade humana (3, 7).
Referências
CRESWELL, John W.; POTH, Cheryl N. Qualitative inquiry and research design: choosing among five approaches. 4. ed. Thousand Oaks: Sage, 2018.
DENZIN, Norman K.; LINCOLN, Yvonna S. (org.). The Sage handbook of qualitative research. 5. ed. Thousand Oaks: Sage, 2018.
MORIN, Edgar. Ciência com consciência. 16. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2015.
MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. 5. ed. Porto Alegre: Sulina, 2015.
MORIN, Edgar. O Método 6: Ética. Porto Alegre: Sulina, 2005.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 12. ed. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2011.
MORIN, Edgar. O método do método: o original perdido. Porto Alegre: EdiPUCRS; São Paulo: Educ; Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2025.
PÁDUA, Elisabete Matallo Marchesini de. Metodologia da pesquisa: abordagem teórico-prática. 18. ed. Campinas: Papirus, 2016.
VIDICH, Arthur J.; LYMAN, Stanford M. Qualitative methods: their history in sociology and anthropology. In: DENZIN, Norman K.; LINCOLN, Yvonna S. (org.). The Sage handbook of qualitative research. 5. ed. Thousand Oaks: Sage, 2018. p. 37–84.
P.S.: Utilizei a IA (Chap GPT-5.5) na busca de informações para o artigo, que foi concebido, editado e revisado por mim. Também usei a IA Adapta One 26 para a elaboração da ilustração.



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