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Startups, crise climática e novos caminhos: por que precisamos distinguir entre “verde” e “transformador”?

Nos últimos anos, o discurso sobre inovação e empreendedorismo se pintou de verde: termos como greentech, cleantech, climate tech e “startups sustentáveis” apareceram em relatórios, editais de fomento e campanhas de marketing de grandes empresas. Ao mesmo tempo, a emergência climática se agravou, com eventos extremos, enchentes, desmoronamentos de encostas e impactos concentrados sobre os grupos mais vulnerabilizados. Ficou evidente que “tecnologia verde” não é, por si só, sinônimo de transformação estrutural.


Daí a importância de ir além da retórica da inovação e construir uma tipologia mais crítica das startups: diferenciar aquelas que apenas otimizam o sistema produtivo atual (ecoeficiência), daquelas que contribuem para alterar a lógica de produção, consumo e poder que está na raiz da crise socioecológica. As tabelas abaixo organizam três ideais‑tipos: startups convencionais (tipo A), greentechs/cleantechs (tipo B) e startups sustentáveis transformadoras, ligadas à justiça climática e à economia solidária (tipo C).

O tipo A é o “caso padrão” do ecossistema de startups: ele traduz, em forma empresarial, a lógica de crescimento acelerado, financeirização e expansão do consumo, e por isso tende a reproduzir — e muitas vezes intensificar — os mesmos mecanismos que alimentam a crise socioecológica e as injustiças climáticas.


As chamadas “Big Techs” – Microsoft, Apple, Alphabet/Google, Amazon, Meta/Facebook – são hoje exemplos extremos de como startups convencionais do tipo A podem evoluir para estruturas de poder altamente concentradas, apoiadas em décadas de pesquisa e investimento público em tecnologias digitais fundamentais, como internet, GPS, microchips e interfaces de usuário. Ao tomar essas trajetórias como horizonte aspiracional para o ecossistema de inovação, o debate sobre startups “verdes” tende a naturalizar a ideia de que a transição climática se fará por meio de novos campeões privados, reproduzindo a mesma lógica de socialização de riscos e privatização de benefícios que marcou a ascensão das Big Techs.


Abaixo aprofundo essa caracterização em quatro eixos: racionalidade de crescimento, papel dos investidores, efeitos sobre trabalho e território, e implicações para justiça climática.


Tipo A: startups convencionais


1. A racionalidade do “startup de crescimento”


Quando se fala em “startup de crescimento”, a referência é a empresas desenhadas para escalar rapidamente em mercados incertos, buscando posições dominantes e altas taxas de retorno para investidores. Nessa racionalidade:

  • O objetivo central é aumentar valor de mercado e captar rodadas sucessivas de investimento, mais do que construir um negócio estável e enraizado territorialmente.

  • Escala, tração e “market size” são critérios fundamentais de avaliação, frequentemente acima de considerações socioambientais.

  • A tecnologia é usada como alavanca para reduzir custos, automatizar processos e expandir fluxos de mercadorias, dados e serviços — não como instrumento prioritário de recomposição ecológica ou justiça social.


Estudos recentes sobre valuation de startups mostram que investidores consideram tamanho de setor, potencial de crescimento e intensidade em P&D na hora de precificar as empresas, reforçando a lógica de “crescer rápido em mercados grandes”. Isso significa que soluções voltadas a nichos socioambientais específicos, comunidades vulneráveis ou circuitos solidários tendem a ser vistas como menos atrativas para esse modelo de capital.


2. Investidores, escala e o imperativo de expansão


O ciclo típico das startups convencionais envolve entrada de capital de risco, busca por product‑market fit e, uma vez encontrado, aceleração agressiva de crescimento. Esse imperativo de expansão tem efeitos concretos:

  • Pressão por “crescer a qualquer custo”: rodadas sucessivas de investimento geram expectativa de multiplicação rápida de receita e usuários, muitas vezes em detrimento de condições de trabalho, relações com comunidades e impactos ambientais.

  • Incentivo à captura de mercados inteiros: plataformas tendem a buscar posição de gatekeeper, intermediando fluxos de transporte, consumo ou serviços de forma concentrada, o que aumenta poder de definição de regras e externalização de custos.

  • Deslocamento de riscos para os usuários e trabalhadores: no modelo de plataformas de entrega e mobilidade, por exemplo, a empresa retém controle sobre algoritmos, marca e dados, enquanto transfere custos de equipamentos, tempo e riscos de acidentes para trabalhadores “autônomos”.


Essa configuração é coerente com a lógica financeira: quanto mais escalável, replicável e “asset light” for o modelo, mais fácil é multiplicar o valor percebido pelos investidores. Do ponto de vista socioecológico, porém, isso significa expandir um sistema que já é intensivo em energia, transporte motorizado, uso de embalagens e precarização do trabalho.


3. Startups convencionais, trabalho precarizado e territórios


A plataforma de entrega sob demanda é um exemplo paradigmático de startup do tipo A. Pesquisas sobre a “uberização” no Brasil e em outros países mostram como essas empresas:

  • Prometem flexibilidade e autonomia, mas constroem relações de trabalho marcadas por ausência de vínculo formal, baixa proteção social e dependência forte de algoritmos opacos.

  • Transferem para trabalhadores todos os riscos (acidentes, manutenção de veículos, flutuação de demanda), enquanto centralizam dados, reputação e poder de decisão sobre tarifas e acesso à plataforma.

  • Ao se expandirem nas periferias urbanas, intensificam circulação de motos e carros em áreas já vulneráveis, aumentando exposição a acidentes e poluição, sem contrapartidas estruturais em infraestrutura ou direitos.


Do ponto de vista territorial, a difusão dessas startups reforça padrões de mobilidade, consumo e trabalho que agravam desigualdades: o centro da cidade se beneficia de hiperconveniência, enquanto periferias concentram fluxos de risco, desgaste físico e insegurança. O mesmo pode ser dito de marketplaces voltados para consumo rápido ou fintechs que ampliam crédito ao consumo sem critérios socioambientais: ampliam circulação de mercadorias e dívidas em contextos já marcados por vulnerabilidade.


Nesse sentido, a crítica às startups convencionais não é apenas econômica ou trabalhista, mas também espacial e ecológica: elas reorganizam a cidade e o território em função de conveniência de consumo e eficiência logística, sem abordar diretamente as condições de habitabilidade, segurança climática e justiça ambiental.


4. Implicações para justiça climática


A partir da perspectiva da justiça climática, o tipo A tende a atuar como um vetor de agravamento de problemas, ainda que isso não seja seu objetivo explícito:

  • Aumento de emissões e uso de recursos: ampliação de serviços de entrega e mobilidade sob demanda significa mais veículos em circulação, mais energia consumida, mais embalagens, em geral sem contrapartida equivalente em redução de outras atividades.

  • Produção de vulnerabilidades ambientais e sociais: ao intensificar circulação de veículos em áreas periféricas, sem garantir proteção a trabalhadores ou melhoria ambiental, essas startups contribuem para concentrar riscos de acidentes, poluição e estresse urbano sobre grupos já vulneráveis.

  • Invisibilização das causas estruturais: ao oferecer “soluções” centradas na conveniência individual e na eficiência logística, elas deslocam o debate das causas profundas da crise — modelo de produção, desigualdade, urbanização excludente — para a esfera do consumo, reforçando a ideia de que basta escolher melhor serviços e apps.


Por isso, é importante marcar que startups do tipo A são coerentes com o paradigma de crescimento contínuo, financeirização e consumo intensivo. Elas podem introduzir melhorias marginais (alguma compensação de emissões, embalagens levemente menos impactantes), mas o núcleo do modelo permanece orientado à expansão do sistema que está na raiz da emergência climática.


Quando se fala em “inovação para o clima” ou “startups sustentáveis”, é essencial não confundir esses modelos com iniciativas de transição socioecológica. A crítica, como você sugere, é sistêmica: trata‑se de nomear que tipo de racionalidade está em jogo, que tipo de mundo essas empresas ajudam a construir, e distinguir claramente entre tecnologias que apenas tornam esse mundo um pouco mais eficiente e aquelas que buscam transformá‑lo em sua estrutura.


A seguir, está uma tabela que sintetiza dimensões e características do tipo A.

 

Tipo A: startups convencionais

Dimensão

Caracterização

Propósito central

Escalar negócios, capturar mercado, gerar lucro e valorização de capital para fundadores e investidores.

Relação com consumo

Em geral reforça padrões de consumo intensivo e expansão de mercados; tecnologia usada para acelerar produção, circulação e venda de mercadorias.

Governança e propriedade

Propriedade privada concentrada (fundadores, acionistas, fundos de venture capital); decisões orientadas ao retorno financeiro.

Impacto socioambiental típico

Pode ser neutro ou negativo: intensifica fluxos de transporte, embalagens, dados e energia sem critério socioambiental forte; muitas vezes precariza trabalho (uberização)

Relação com justiça climática

Não tem justiça climática como objetivo explícito; pode agravar vulnerabilidades de grupos já expostos a riscos urbanos, ambientais e trabalhistas.

Exemplos ilustrativos

Plataformas de entrega sob demanda, aplicativos de mobilidade com modelo de intermediação, marketplaces de consumo rápido, fintechs de crédito ao consumo.

 

Tipo B: greentechs/cleantechs


O tipo B reúne as greentechs e cleantechs que procuram reduzir impactos ambientais do sistema produtivo por meio de tecnologias limpas, gestão de resíduos, eficiência energética, rastreabilidade e economia circular; elas são relevantes para a transição ecológica, mas nem sempre alteram a lógica concentradora e consumista do regime econômico dominante.


Em outras palavras, são startups que “limpam” o sistema mais do que o transformam estruturalmente, o que as torna ao mesmo tempo indispensáveis e insuficientes sob a ótica da justiça climática e da economia solidária.


1. O que caracteriza o tipo B


A literatura usa os termos greentech, cleantech e, em alguns casos, climate tech para designar empresas que desenvolvem soluções voltadas à redução de impactos ambientais e à melhoria da eficiência no uso de recursos. Em geral:

  • Greentech funciona como termo mais amplo, cobrindo tecnologias e práticas que diminuem impacto ambiental e promovem sustentabilidade.

  • Cleantech costuma ser um subconjunto mais focado em redução de poluição, emissões e dependência de combustíveis fósseis, incluindo energia renovável, eficiência energética, água, resíduos e materiais de baixo carbono.

  • Muitas dessas startups operam em economias circulares, bioeconomia e digitalização de fluxos ambientais, com ênfase em rastreabilidade, compliance (ou conformidade regulatória e ética) e reaproveitamento de materiais.


Seu traço definidor é o seguinte: a variável ambiental está no centro do modelo de negócio, e não como adereço reputacional. Diferentemente do tipo A, aqui a proposta de valor depende diretamente de reduzir resíduos, emissões, consumo de água, energia ou matérias-primas.


2. Como essas startups atuam no sistema produtivo


As startups do tipo B atuam em pontos específicos da cadeia produtiva para torná-la menos destrutiva. Elas costumam operar em cinco frentes principais:

  • Gestão e rastreabilidade de resíduos, com plataformas que acompanham a geração, transporte, tratamento e destinação final de resíduos industriais e urbanos.

  • Logística reversa e economia circular, reinserindo materiais descartados no ciclo produtivo e reduzindo demanda por matérias-primas virgens.

  • Eficiência energética e energias renováveis, com tecnologias solares, biogás, hidrogênio (principalmente o verde) e outras formas de substituição fóssil.

  • Monitoramento e compliance ambiental, automatizando indicadores, relatórios, licenças e obrigações regulatórias.

  • Novos materiais e bioeconomia, como embalagens biodegradáveis, biomateriais e insumos de menor impacto.


Nesse sentido, o tipo B opera como infraestrutura técnica da transição ecológica. Ele permite que empresas, indústrias, cidades e cadeias logísticas reduzam danos, cumpram regulações e avancem em metas de descarbonização e circularidade.


3. Exemplos brasileiros de greentechs e cleantechs


O ecossistema brasileiro de cleantechs cresceu de forma acelerada no início da década, com aumento de 83% no número dessas startups entre 2020 e 2021, segundo dado reportado pela Associação Brasileira de Startups em matéria da ANBA (Agência de Notícias Brasil‑Árabe). Esse crescimento ajuda a explicar a diversidade atual de soluções ambientais no país.


Entre os exemplos brasileiros mais úteis para pensar o tipo B estão:

  • GreenPlat, que desenvolveu plataformas SaaS para gestão ambiental, controle e rastreabilidade de cadeias de suprimentos e, depois, ampliou sua atuação para gestão de água e efluentes, exemplificando a digitalização da gestão operacional ambiental (back office ambiental).

  • MyWaste (MeuResíduo), plataforma digital que rastreia o percurso dos resíduos industriais desde a geração até a destinação ou transformação final, entregando indicadores de sustentabilidade, governança, compliance e transparência.

  • Eva Energia, apresentada como caso de valorização energética de resíduos, convertendo rejeitos não recicláveis em eletricidade, calor ou combustíveis alternativos (waste-to-energy), coprocessamento e digestão anaeróbia.

  • Oka Bioembalagens, citada como exemplo de criação de materiais biodegradáveis no contexto da bioeconomia e da circularidade.

  • Orizon, mencionada como exemplo de produção de créditos de carbono a partir de resíduos e de inserção da gestão de resíduos na economia circular brasileira.


Esses casos mostram que o tipo B não é homogêneo. Algumas empresas se concentram em software e dados; outras em infraestrutura material, energia ou materiais alternativos. O ponto comum é que todas procuram reduzir externalidades ambientais sem necessariamente alterar a estrutura de propriedade, poder e consumo que organiza o mercado. Os casos de valorização energética de resíduos representam, geralmente, incineração, que começa com materiais não recicláveis e, depois que os fornos são ligados, se amplia com materiais recicláveis. Por isso mesmo O Movimento Nacional de Catadores de Materiais Reciclávens (MNCR) se opõe às formas de incineração e pirólise, gaseificação, CDR (Combustível Derivado de Resíduos). Do ponto de vista ambiental e de saúde pública, esses processos geram emissões de poluentes orgânicos persistentes, cinzas contaminadas, gases de efeito estufa e riscos concentrados justamente em territórios populares, periferias e comunidades vulneráveis.


4. Por que o tipo B é importante


Uma crítica consistente ao capitalismo fóssil não dispensa tecnologias limpas. A transição ecológica depende de soluções capazes de:

  • reduzir emissões em setores intensivos;

  • ampliar reciclagem, compostagem e reaproveitamento de materiais;

  • melhorar a qualidade de dados ambientais e a rastreabilidade de cadeias;

  • substituir energia fóssil por renováveis;

  • criar novos mercados para materiais reciclados e produtos circulares.


Nesse aspecto, as greentechs e cleantechs cumprem papel decisivo. O próprio Plano Nacional de Economia Circular do governo federal define a transição do modelo linear para o circular como processo de retorno de resíduos ao sistema produtivo, redução da demanda por recursos naturais, inovação tecnológica, rastreabilidade e responsabilidade ao longo do ciclo de vida dos produtos. Isso coincide diretamente com o campo de atuação do tipo B.


Além disso, estudos sobre economia circular no Brasil destacam que esse modelo pode reduzir impactos ambientais, inclusive emissões de carbono, ao mesmo tempo em que cria empregos e novos modelos de negócio. Portanto, seria equivocado reduzir o tipo B a “greenwashing”: muitas dessas startups produzem ganhos ambientais efetivos e mensuráveis.


5. Os limites do “verde” tipo B


O problema aparece quando se confunde contribuição ambiental setorial com transformação socioecológica ampla. A maior parte das startups do tipo B:

  • continua organizada como empresa privada convencional, orientada à escala, rentabilidade e vantagem competitiva.

  • opera para tornar cadeias produtivas mais eficientes, mas não necessariamente menores, mais democráticas ou menos dependentes de consumo crescente.

  • mede sucesso sobretudo por indicadores técnico-ambientais, como toneladas recicladas, emissões evitadas ou litros economizados, sem integrar de forma central desigualdade, território e democratização econômica.


Esse limite é decisivo para a justiça climática. Uma startup pode reduzir emissões de uma fábrica ou melhorar a destinação de resíduos de grandes empresas e, ainda assim, não contribuir para redistribuir benefícios ambientais, reduzir vulnerabilidades territoriais ou ampliar autonomia de comunidades periféricas e populações expostas a riscos. Em alguns casos, pode até reforçar desigualdades, quando a inovação ambiental vira ativo competitivo acessível apenas a grandes corporações ou mercados mais capitalizados.


6. Tipo B e justiça climática


Sob a ótica da justiça climática, o tipo B ocupa uma posição intermediária. Ele é melhor do que o tipo A porque enfrenta problemas ecológicos reais e cria instrumentos concretos de redução de danos. No entanto, ele raramente enfrenta sozinho as perguntas centrais da justiça climática:

  • Quem controla a tecnologia verde?

  • Quem se apropria dos ganhos econômicos da descarbonização?

  • Quem recebe a infraestrutura de proteção ambiental e quem continua exposto à poluição e ao risco?

  • A inovação reduz só a intensidade do dano ou também altera as desigualdades que distribuem esse dano?


Essa distinção é importante porque uma política pública centrada apenas em greentechs pode produzir modernização ecológica sem democratização ecológica. Ou seja: menos carbono por unidade produzida, porém sem enfrentar concentração de renda, desigualdade territorial, precarização do trabalho e exclusão de populações vulneráveis dos benefícios da transição.


7. Relação com economia solidária

É justamente aqui que aparece a fronteira entre tipo B e tipo C. O tipo B pode dialogar com economia solidária, mas isso não é intrínseco ao seu desenho. Em sua forma dominante, ele continua baseado em:

  • propriedade privada concentrada;

  • governança empresarial verticalizada;

  • escalabilidade mercantil;

  • inserção competitiva em mercados verdes.


Para aproximar-se da economia solidária, uma greentech precisaria avançar para modelos com participação comunitária, governança compartilhada, compromisso territorial explícito e distribuição mais democrática dos benefícios da inovação ambiental. Sem isso, ela permanece como tecnologia limpa para o mercado, e não como inovação socioambiental transformadora.


Em síntese, o tipo B é indispensável para reduzir os danos materiais do sistema produtivo, mas não basta para enfrentar suas raízes sociais e políticas. Ele limpa fluxos, melhora processos e viabiliza metas climáticas; porém, só se torna efetivamente transformador quando se articula a justiça climática, democratização econômica e formas cooperativas ou solidárias de produção e gestão.


A seguir, uma tabela sintetiza dimensões e características de startups do tipo B.


Tipo B: greentechs / cleantechs (economia verde e circular)

Dimensão

Caracterização

Propósito central

Reduzir impactos ambientais do sistema produtivo via tecnologias limpas, ecoeficiência, descarbonização e economia circular

Relação com consumo

“Limpa” cadeias de produção e consumo, tornando-as menos intensivas em carbono e resíduos, sem necessariamente questionar o paradigma de crescimento e consumo

Governança e propriedade

Empresas privadas com foco em escala e lucro; frequentemente medem sucesso com métricas ambientais (CO₂ evitado, resíduos reciclados, energia renovável gerada)

Impacto socioambiental típico

Impacto ambiental positivo claro: redução de emissões, aumento de reciclagem, economia de água e energia; contribui para metas climáticas setoriais e regulatórias

Relação com justiça climática

Apoia políticas de justiça climática como infraestrutura técnica (logística reversa, reciclagem, monitoramento), mas nem sempre atua em territórios vulneráveis ou com democratização da propriedade

Exemplos ilustrativos

Reciclagem de painéis solares, plataformas de gestão de resíduos e ESG, empresas de energia renovável e eficiência energética, greentechs de construção sustentável e bioeconomia

 

Tipo C: startups sustentáveis transformadoras


O tipo C diz respeito a startups que articulam tecnologia com justiça climática e economia solidária, buscando não apenas reduzir impactos, mas mudar relações de produção, consumo e poder que alimentam a crise socioecológica.


Enquanto o tipo B melhora o sistema produtivo existente, o tipo C tenta reconfigurá‑lo de forma mais democrática, inclusiva e enraizada em territórios e comunidades.


1. Da startup verde à startup transformadora


A literatura sobre “sustainable startups” indica que há uma diferença entre empresas que integram variáveis ambientais ao negócio e aquelas que efetivamente atuam como “sustainability transformers”, isto é, agentes de transformação de sistemas socioeconômicos. Startups transformadoras:

  • colocam objetivos sociais e ambientais no centro, acima da maximização de lucro, alinhando‑se à lógica da economia social e solidária, que prioriza pessoas e propósito sobre capital.

  • operam com governança participativa e, frequentemente, formas de propriedade compartilhada (cooperativas, associações, empresas sociais), aproximando‑se da definição da ONU de economia social e solidária.

  • buscam atuar nas causas das injustiças climáticas — desigualdade, vulnerabilidade territorial, racismo ambiental, precarização do trabalho — e não apenas nos sintomas ecológicos.


Nesse sentido, startups tipo C não são apenas “negócios verdes”; são experiências de reorganização do econômico, em que tecnologia aparece como ferramenta para fortalecer autogestão, bem comum e direitos coletivos.


2. Justiça climática como eixo orientador


Documentos recentes de organizações internacionais definem justiça climática como a busca de soluções para a crise climática que também enfrentem desigualdades sociais, raciais, territoriais e de gênero. Isso implica três deslocamentos importantes:

  • Colocar pessoas e direitos no centro, não apenas carbono e eficiência.

  • Planejar transições econômicas de forma justa, garantindo que trabalhadores e comunidades possam se adaptar e se beneficiar das mudanças.

  • Compartilhar de forma equitativa os custos e benefícios das políticas climáticas, evitando que os mais vulneráveis paguem o preço das transições enquanto os mais ricos capturam os ganhos.

Startups tipo C são aquelas que se deixam orientar por esses princípios. Elas perguntam, por exemplo: quem controla a infraestrutura energética e digital? Quem se beneficia das tecnologias de adaptação? Quem decide sobre o uso de dados socioambientais? Quem recebe proteção contra enchentes, deslizamentos e secas, e em que condições?


Essa abordagem coincide com iniciativas como as que o Centro Brasileiro de Justiça Climática propõe: ampliar o debate público e influenciar políticas que conectem clima e equidade racial, territorial e social. A startup transformadora, nesse quadro, é uma peça de um ecossistema mais amplo de atores que trabalham por transição justa.


3. Economia social e solidária como base institucional


A ONU e diversas redes internacionais definem a economia social e solidária (ESS) como conjunto de atividades econômicas e relações que priorizam objetivos sociais e ambientais sobre o lucro, envolvendo cooperativas, associações, mutualidades, fundações e empresas sociais. A ESS:

  • enfatiza cooperação, ajuda mútua, governança democrática e primazia das pessoas sobre o capital.

  • busca recuperar controle social sobre a economia e religar economia, sociedade e natureza, em oposição à lógica de mercantilização generalizada.

  • propõe formas de justiça redistributiva e transformações sistêmicas, articulando questões sociais e ecológicas.


Quando se fala em startups tipo C, é útil enxergá‑las como entidades que se inscrevem nesse campo: elas inovam em modelos de negócio, tecnologias e arranjos organizacionais, mas sem abandonar os princípios da ESS. Iniciativas de cooperativismo de plataforma no Brasil — plataformas digitais de entregadores ou motoristas de propriedade e gestão coletiva — são um exemplo dessa articulação entre tecnologia e economia solidária, ainda que enfrentem desafios de escala e sustentabilidade.


Em vez de replicar a racionalidade da startup convencional, essas experiências buscam uma “economia digital solidária”, em que dados, algoritmos e infraestrutura digital são usados em favor da democratização do trabalho e da renda.


4. Dimensões de atuação das startups tipo C

Startups sustentáveis transformadoras costumam atuar em quatro dimensões articuladas:

  • Mitigação climática com democratização econômica: projetos de energia renovável comunitária, cooperativas de painéis solares em periferias urbanas, redes de geração distribuída com participação de moradores na governança e na apropriação dos benefícios.

  • Adaptação e proteção de territórios vulneráveis: iniciativas de educação climática, mapeamento participativo de riscos, sistemas comunitários de alerta precoce e projetos de infraestrutura verde em encostas e margens de rios.

  • Reorganização de cadeias produtivas com justiça: empreendimentos solidários que reorganizam trabalho de recicladores, agricultores familiares, artesãos e outros grupos, agregando tecnologia para gestão, comercialização e visibilidade, mas mantendo autogestão e cooperação como princípios.

  • Plataformas cooperativas e tecnologias de commons: plataformas digitais desenhadas como bens comuns, com propriedade compartilhada e regras de uso definidas coletivamente, que funcionam como alternativa ao modelo de plataforma capitalista.


O traço comum é que a tecnologia não é neutra nem apenas um meio de “eficiência”; ela é desenhada para reforçar solidariedade, participação e justiça, e para atuar explicitamente nos nós críticos onde injustiças climáticas se produzem: acesso desigual à energia, à proteção ambiental, ao trabalho digno e ao território seguro.


5. Exemplos e tendências


Embora muitos casos ainda sejam pouco visíveis em bases nacionais, há tendências claras que ilustram o tipo C:

  • Energia comunitária e cooperativa: cooperativas de energia renovável em bairros populares ou comunidades rurais, em que famílias e pequenos produtores coinvestem em infraestrutura solar ou de biogás, repartindo benefícios e fortalecendo autonomia energética, alinhadas a princípios da ESS.

  • Plataformas cooperativas de trabalho: iniciativas de cooperativismo de plataforma em que entregadores ou motoristas controlam a aplicação, definem algoritmos e regras de remuneração, buscando superar a uberização; estudos sobre essas experiências no Brasil mostram tanto seu potencial quanto os desafios de financiamento e escala; há também bancos comunitários que já investem em moeda social eletrônica, com incentivo do Instituto E‑Dinheiro Brasil.

  • Tecnologias de apoio à agricultura familiar e povos tradicionais: projetos que desenvolvem ferramentas de gestão, monitoramento ambiental e comercialização para agricultores familiares, quilombolas ou povos indígenas, integrando saberes locais com tecnologias digitais em moldes cooperativos.

  • Iniciativas urbanas de ESS ligadas ao clima: redes de cooperativas e associações em cidades europeias mostraram, no pós‑pandemia, como ecossistemas de economia solidária podem ser usados para reconstrução social e climática, com foco em democracia, direitos e desenvolvimento sustentável.


No Brasil, debates sobre justiça climática e equidade racial, como os promovidos pelo Centro Brasileiro de Justiça Climática, indicam um terreno fértil para startups tipo C que se articulem com movimentos sociais, coletivos de periferia e redes de economia solidária, especialmente em grandes regiões metropolitanas.


6. Diferença em relação ao tipo B


Comparando tipo B e tipo C, é possível sintetizar a diferença em três pontos:

  • Escopo de transformação: o tipo B foca em fluxos materiais e energéticos (redução de emissões, resíduos, consumo de água); o tipo C foca também em fluxos de poder, renda e decisão, buscando redistribuição e democratização.

  • Base institucional: o tipo B se ancora em empresas privadas convencionais; o tipo C se ancora em entidades da ESS — cooperativas, associações, empresas sociais — com governança participativa e primazia das pessoas sobre o capital.

  • Relação com justiça climática: o tipo B contribui para metas climáticas, mas não necessariamente altera a distribuição desigual de riscos e benefícios; o tipo C declara como propósito enfrentar essas desigualdades e construir transição justa.


Isso não significa que todas as greentechs sejam “ruins” e todas as startups solidárias sejam “boas”. Significa que, quando se fala em transição socioecológica, é preciso distinguir entre tecnologias que viabilizam uma modernização ecológica do regime e aquelas que participam de processos de transformação de regime, articulando clima, democracia e solidariedade.


7. O papel das startups tipo C na transição socioecológica


Relatórios e debates em espaços como COP28 e COP29 apontam a economia social e solidária como “potencial inexplorado” na luta ecológica e como modelo fundamental para um futuro realmente sustentável. Essa visão sugere que:

  • sem ESS, transições verdes podem aprofundar desigualdades e injustiças, ao serem capturadas por grandes corporações.

  • com ESS, há chance de que a inovação climática se faça de forma territorializada, participativa e redistributiva.


Startups tipo C são parte desse movimento. Elas funcionam como laboratórios concretos em que se experimentam novos arranjos entre tecnologia, trabalho, território e natureza, numa abordagem de complexidade que articula múltiplas dimensões — ecológica, social, econômica, cultural — em vez de tratar o “verde” como atributo isolado.


Para análise acadêmica e para desenho de políticas, isso implica reconhecer que “startups sustentáveis” não formam um bloco homogêneo. Há startups verdes que estabilizam o regime, startups verdes que o tornam mais eficiente, e startups socioambientais que contribuem para transformá‑lo. Nomear o tipo C é um passo importante para que iniciativas de justiça climática e economia solidária ganhem visibilidade e apoio, em vez de ficarem diluídas no rótulo genérico de inovação verde.


A seguir, uma tabela sintetiza as dimensões e características do tipo C.

Dimensão

Caracterização

Propósito central

Transformar estruturalmente relações econômicas e ecológicas, integrando sustentabilidade ambiental, justiça social e democracia econômica

Relação com consumo

Atuam “em sentido contrário” às causas da emergência climática: reduzem demanda material e energética, promovem modos de vida menos consumistas e circuitos territoriais de cuidado

Governança e propriedade

Formas de propriedade compartilhada e autogestão (cooperativas, associações, empresas sociais, empreendimentos da economia solidária), com participação comunitária nas decisões

Impacto socioambiental típico

Combina mitigação (descarbonização, energia comunitária) com adaptação e proteção de grupos vulneráveis (prevenção de desastres, reconstrução de territórios, fortalecimento de bens comuns)

Relação com justiça climática

Relação direta: estas iniciativas colocam a questão climática em diálogo com desigualdade, trabalho, território e direitos, buscando redistribuição de poder econômico e garantia de condições dignas de vida

Exemplos ilustrativos

Cooperativas de energia renovável comunitária; plataformas cooperativas de mobilidade/logística; bancos comunitários com moeda social eletrônica; projetos de educação climática e prevenção de desastres em encostas e periferias; iniciativas tecnológicas de apoio à agricultura familiar e povos tradicionais vinculadas à economia solidária

 

Conclusão


Nesse contexto, distinguir entre startups do tipo A, B e C torna‑se decisivo: sem essa diferenciação, corre‑se o risco de celebrar greentechs e cleantechs tipo B como se fossem agentes de transformação estrutural, abrindo caminho para que algumas delas se tornem futuras “Big Techs verdes” apoiadas em recursos públicos, dados e infraestruturas coletivas, mas organizadas segundo a mesma racionalidade concentradora das gigantes digitais atuais. Uma agenda de transição socioecológica orientada pela justiça climática e pela economia social e solidária exige reconhecer o papel do investimento público na criação de tecnologias e, ao mesmo tempo, condicionar esse apoio a arranjos institucionais que favoreçam startups do tipo C – cooperativas, empresas sociais, plataformas solidárias – capazes de socializar de forma duradoura os benefícios da inovação, em vez de reproduzir o ciclo que levou das startups de garagem às corporações tecnológicas hegemônicas.

 

P.S.: Usei IA Perplexity Pro no levantamento de informações e Adapta One na elaboração da imagem que ilustra esse artigo, tendo revisado a versão final, sobre a qual assumo inteira responsabilidade.

 
 
 

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