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Stuenkel e Bueno: história, regras e disputas no mundo dos BRICS

Depois da ascensão


Se Hurrell e Troyjo ajudam a pensar a emergência e a metamorfose dos BRICS, Oliver Stuenkel e Elen de Paula Bueno permitem avançar para outra camada do problema: a da historicização mais completa do grupo e a da disputa em torno das regras da governança global. Em outras palavras, seus livros mostram que já não basta perguntar se os BRICS existem ou se têm relevância; é preciso investigar como se consolidam, o que fazem com essa consolidação e que tipo de reforma institucional pretendem produzir.


A comparação entre ambos é particularmente rica porque cada autor ocupa uma posição distinta no debate. Stuenkel reconstrói a trajetória política e institucional do grupo; Bueno examina suas implicações no plano do direito internacional, das reformas institucionais e dos modelos equitativos de cooperação.


A trajetória do grupo


A página da Editora Record apresenta BRICS e o futuro da ordem global como “a primeira e mais abrangente análise acadêmica da história do termo BRICS” e informa que o livro acompanha a trajetória do conceito e da instituição desde 2001 até 2015. Esse dado é importante porque revela o gesto central de Stuenkel: transformar o BRICS em objeto de narrativa histórica consistente, e não apenas em tema de conjuntura.


Esse movimento tem consequências analíticas relevantes. Ao historicizar o grupo, Stuenkel mostra que sua relevância não depende apenas de indicadores de poder material, mas também de processos de institucionalização, de produção de sentido e de construção diplomática de uma identidade coletiva possível, ainda que sempre incompleta.


De sigla a instituição


A mesma apresentação editorial lembra que o termo foi criado em 2001 por Jim O’Neill, no Goldman Sachs, e que a África do Sul se juntou ao grupo em 2010, formando o BRICS com “s” maiúsculo e reforçando seu significado político por meio da institucionalização. Esse detalhe é central: o livro de Stuenkel está menos interessado na origem financeira do acrônimo como curiosidade histórica e mais no processo pelo qual a sigla foi apropriada pelos próprios Estados e convertida em plataforma diplomática dotada de agenda e visibilidade.


Esse processo não foi automático. Foi preciso que crises internacionais, iniciativas conjuntas e a busca por maior representação em fóruns globais dessem espessura ao agrupamento. O valor do livro está em mostrar que a história do BRICS é também a história da passagem de uma categoria descritiva externa para uma forma de autoarticulação política entre potências emergentes.


A crise como janela


A crise financeira de 2008 aparece, nesse contexto, como ponto de inflexão decisivo. Quando a confiança no centro atlântico se enfraquece, cresce a legitimidade das reivindicações dos emergentes por maior voz na governança global e torna-se mais plausível a ideia de uma ordem menos concentrada no Ocidente.


Stuenkel, portanto, não lê os BRICS como simples produto do crescimento econômico, mas como resultado de uma conjuntura histórica em que a autoridade material e simbólica das potências tradicionais foi parcialmente abalada. Esse enquadramento ajuda a explicar por que o grupo pôde tornar-se referência para o debate sobre multipolaridade sem precisar constituir uma aliança clássica, fechada e homogênea.


Sistema paralelo?


Uma das perguntas mais fortes do livro, explicitada na própria sinopse editorial, é se os BRICS buscarão estabelecer um sistema paralelo, com regras e instituições próprias, rejeitando princípios do internacionalismo liberal, ou se, ao contrário, buscam adotar e disputar as normas da ordem liderada pelo Ocidente. Essa formulação é extremamente fecunda porque condensa um dilema que atravessa quase toda a literatura sobre o grupo.


O valor analítico de Stuenkel está em não responder de forma binária. Os BRICS aparecem como atores que contestam hierarquias, ampliam repertórios institucionais e buscam autonomia, mas o fazem com frequência por meio de linguagens e mecanismos ainda reconhecíveis dentro do universo do multilateralismo existente. O grupo, nessa leitura, pluraliza a ordem mais do que a substitui integralmente.


A força do símbolo


Outro aspecto importante é a dimensão simbólica dos BRICS. O grupo não importa apenas por comércio, finanças ou demografia; importa também porque encarna, no imaginário político internacional, a ideia de deslocamento do centro do mundo e de maior protagonismo de países historicamente situados fora do núcleo decisório ocidental.


Essa força simbólica tem efeitos concretos. Ela reorganiza percepções, reforça coalizões Sul-Sul e ajuda a tornar mais visível o caráter historicamente desigual da representação internacional. Stuenkel mostra, assim, que a política global também é feita de narrativas que se institucionalizam e de instituições que, por sua vez, consolidam narrativas.


O foco de Bueno


É precisamente aqui que o livro de Elen de Paula Bueno introduz contribuição decisiva. Na página da Martins Fontes, a obra é apresentada como estudo sobre o papel dos BRICS e seus impactos no direito internacional do século XXI, com destaque para reforma das instituições, reforço do multilateralismo e modelos equitativos de cooperação. Também se observa que o fenômeno BRICS reúne países de culturas, histórias, ordenamentos jurídicos e localizações geográficas muito distintas, o que lhe confere caráter inovador nas relações internacionais e no direito internacional.


Esse enquadramento desloca o eixo do debate. Bueno não se limita a perguntar como os BRICS surgiram ou como se tornaram relevantes; ela investiga o que significa, do ponto de vista jurídico e institucional, a tentativa de transformar a governança global a partir de uma coalizão tão heterogênea.


Regras em disputa


A contribuição central de Bueno está em lembrar que a ordem internacional não se sustenta apenas por capacidades econômicas ou militares. Ela também é produzida por regras, procedimentos, quotas, critérios de representação, práticas decisórias e formas de legitimidade institucional que frequentemente parecem técnicas, mas têm consequências profundamente políticas.

Quando os BRICS defendem reformas em instituições internacionais, portanto, não estão apenas reivindicando maior espaço material; estão também questionando a distribuição normativa da autoridade global. Essa abordagem ajuda a entender por que a discussão sobre BRICS deve interessar não só à geopolítica e à economia política, mas também ao direito internacional e à teoria das instituições.


Inovação e limite


A sinopse do livro destaca o caráter inovador do BRICS no direito internacional, sobretudo por reunir países distintos em torno de pretensões comuns e mecanismos equitativos de cooperação num contexto de paz. Esse ponto merece atenção, porque diferencia o grupo tanto dos regionalismos clássicos do século XX quanto de alianças formadas sob pressão militar direta.


Mas a inovação não elimina o problema do limite. A heterogeneidade jurídica, histórica e geopolítica dos membros faz do BRICS uma coalizão capaz de abrir novas possibilidades de cooperação, mas também dificulta a formulação de consenso forte sobre o alcance e a direção das reformas pretendidas. O grupo aparece, assim, como inovação real e, ao mesmo tempo, como experimento permanentemente tensionado por suas próprias diferenças constitutivas.


O banco e a reforma


Nesse quadro, o Novo Banco de Desenvolvimento pode ser lido como emblema da proposta BRICS. Ele expressa busca por maior autonomia financeira e por novos arranjos de cooperação, mas também levanta questões sobre governança, legitimidade, responsabilidade institucional e relação com normas já consolidadas no sistema internacional.


A leitura de Bueno é valiosa justamente porque impede simplificações. O NBD não deve ser idealizado como ruptura automática com o velho sistema, mas tampouco reduzido a gesto decorativo. Sua relevância está em introduzir novos centros de decisão e novos mecanismos de negociação em um campo historicamente dominado por instituições nas quais os países emergentes ocupavam posição subordinada.


Conselho e poder


A reflexão sobre a reforma das instituições internacionais alcança ponto especialmente sensível quando pensamos no Conselho de Segurança da ONU. A questão já não é apenas eficiência institucional, mas legitimidade: como sustentar, no século XXI, uma arquitetura de autoridade global ainda tão dependente de um arranjo fixado no pós-guerra?


Inseridos nesse debate, os BRICS aparecem como coalizão ambígua. De um lado, pressionam por maior pluralidade e por revisão das estruturas de representação; de outro, seus próprios membros ocupam posições desiguais diante da ordem vigente, o que faz com que a reforma seja ao mesmo tempo reivindicação coletiva e arena de interesses nacionais diferenciados.


Dois registros, um problema


Comparados entre si, Stuenkel e Bueno operam em registros diferentes, mas claramente complementares. Stuenkel fornece a narrativa histórica de como o grupo se tornou inteligível e relevante; Bueno aprofunda a discussão sobre as estruturas institucionais e normativas que esse mesmo grupo busca reformar.


Essa diferença metodológica é uma vantagem para quem lê os dois livros em sequência. Um ajuda a compreender a trajetória; o outro, a lógica das disputas em torno das regras. Um reconstrói o processo de formação; o outro pergunta o que significa institucionalmente levar esse processo a sério.


O Brasil e a questão da reforma


Para o leitor brasileiro, essa dupla leitura é particularmente fecunda. Ela ajuda a perceber que a participação do Brasil nos BRICS não se resume a busca de mercados, visibilidade diplomática ou associação a potências ascendentes, mas se relaciona também a uma agenda mais ampla de reforma institucional, fortalecimento do multilateralismo e disputa por maior representatividade internacional.


Ao mesmo tempo, os livros mostram que tais aspirações não se realizam automaticamente. Entre demanda por reforma e mudança efetiva existe um campo extenso de bloqueios, negociações, ambiguidades e limites estruturais. É justamente nesse intervalo entre ambição e transformação que a política dos BRICS deve ser analisada.


Por que ler juntos


Ler Stuenkel e Bueno lado a lado permite deslocar o debate dos BRICS para um terreno mais sofisticado. Em vez de perguntar apenas se o grupo “deu certo” ou se “ameaça o Ocidente”, passa-se a investigar como sua trajetória histórica se converte em disputa institucional e como essa disputa, por sua vez, reabre questões fundamentais sobre autoridade, legitimidade e pluralização da ordem global.


Essa talvez seja a principal virtude do diálogo entre os dois livros. Stuenkel mostra como os BRICS ganharam espessura histórica; Bueno mostra que a importância dessa espessura depende, em última instância, de sua capacidade de afetar regras, instituições e formas de cooperação. Entre narrativa e norma, entre biografia e reforma, aparece o núcleo do problema contemporâneo: como mudar a ordem internacional sem dispor de poder suficiente para refundá-la por completo?


P.S.: Usei IA Perplexity Pro no levantamento de informações e Adapta One na elaboração da imagem que ilustra esse artigo, tendo revisado a versão final, sobre a qual assumo inteira responsabilidade.


No dia 19/06/2026 publiquei aqui no blog o artigo BRICS: de conceito de mercado a projeto de ordem multipolar

No dia 26/06/2026 publiquei aqui no blog o artigo Hurrell e Troyjo: da promessa dos BRICS à prova da realidade


Referências em ABNT


STUENKEL, Oliver. BRICS e o futuro da ordem global. São Paulo: Paz e Terra, 2017.

BUENO, Elen de Paula. Direito e relações internacionais: os BRICS e as reformas das instituições internacionais. São Paulo: Editora dos Editores, 2019.

 
 
 

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