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Nossas bolhas culturais

Atualizado: 28 de fev. de 2021


Desde que nascemos, saímos parcialmente de uma bolha de sobrevivência biológica, do ventre materno, e passamos a conhecer (co-nascer) uma bolha cultural. Aprendemos que nosso corpo está separado biologicamente do corpo de nossa mãe e que temos uma identidade diferente daquela que achávamos ser a nossa: um "eu", um "mim", uma frágil identidade separada que nos constrange a viver quase de forma isolada de tudo o que mais amávamos. Não é à toa que as crianças têm os olhos "vidrados" e são atraídas por "rostos humanos", por expressões de amor.

Crescemos reforçando essa bolha cultural, que nos acompanha como uma "sombra" -- na família, na vizinhança, na escola, na vida entre amigos.

O que nos ameaça fortalece, por reação, as nossas convicções, por mais irracionais que sejam. O desconhecido mundo dos outros nos ameaça com a incompreensão, e assim vamos construindo nossa bolha cultural, que nas ciências sociais chama-se "representações sociais", ou seja, aquela coleção de imagens, crenças, ideias, formas simbólicas que emergem de nossas interações com outras pessoas e que, ao se firmarem, retroagem sobre os nossos corpos, sobre os nossos comportamentos, condicionando nossas formas tanto de agir quanto de pensar. Nossas representações sociais sobre o mundo, sobre a sociedade, sobre nós mesmos, sobre qualquer assunto que nos toque de forma mais ou menos duradoura são as nossas âncoras, o nosso refúgio -- o substituto do ventre materno. Na medida em que fazemos autocrítica, nós nos desenvolvemos como seres reflexivos, colocando em questão os limites de nossa bolha cultural, em qualquer direção, sobre qualquer assunto. Vivemos no limite. Sob tensão.

Não é à toa que as emoções existenciais e espirituais são mais duradouras à medida que a idade avança. Nós as enfrentamos e as acolhemos, fazendo com que nossa bolha cultural se amplie, torne-se mais esgarçada, permeada por momentos de intuição sobre o que está além das palavras e de qualquer representação social. O sofrimento amplia, dilata e ameaça nossas representações sociais mais íntimas, traduzindo-se como aprendizado existencial. Isso nos remete também para a biologia, novamente -- para as rugas, cabelos brancos, dores, limitações físicas de toda ordem. Aquela crescente independência biofísica que a cultura nos indicava e estimulava na primeira parte da vida começa a revelar-se ilusória. Somos todos dependentes de nossos corpos, de nossas emoções mais profundas, de nossas redes neurais e de nossas limitações físicas. Somos humanos espiritualmente limitados, bloqueados por nossas representações sociais e também por nossa saúde biofísica e mental.

Os espaços sociais se ampliam nas sociedades em processo de democratização e se fecham nas sociedades em que há crescentes instituições que separam as pessoas umas das outras. Nas sociedades em processo de democratização há espaço para ser jovem, mesmo para os que não são mais jovens do ponto de vista biofísico. Nas sociedades que se fecham, não. Todos envelhecem mais rapidamente, com medo do desconhecido, dos outros, da incompreensão dos outros.

As democracias dependem da criatividade e da crescente compreensão dos indivíduos, dos grupos sociais, das classes e das instituições, enquanto as autocracias e todos os regimes fechados dependem do medo e da crescente incompreensão destes mesmos indivíduos, grupos, classes e instituições. Há assim uma tensão entre forças instituintes, renovadoras, e forças instituídas, que restringem direitos. Há muitas possibilidades de desequilíbrio na medida em que as sociedades se tornam mais complexas. As chamadas redes sociais aguçam a complexidade das interações sociais, mas também fortalecem bolhas culturais.

Como espécie humana também somos limitados, dominadores, exploradores das outras espécies, embora em muitos aspectos a convivência com estas nos humanizem, pois aprendemos a arte do cuidado, as diferentes formas de vida, o mistério da natureza.

O que prevalerá em nossas vidas pessoais, em nossa sociedade e em nossa espécie? As forças da renovação ou do medo e do fechamento?

Há uma política da espécie humana emergindo? Há uma política civilizatória emergindo em meio aos conflitos sociais? Ou avançamos para a barbárie da incompreensão, da violência, da arrogância?


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