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Polarização política e religiosa

Atualizado: 28 de fev. de 2021


Uma forma de compreender o que está acontecendo no Brasil é levar em consideração, com alguma profundidade, a nossa história cultural e religiosa -- e as relações desta com a política e a economia. Tradicionalmente somos uma nação com população predominantemente católica, na realidade o país que mais tem católicos no mundo. O catolicismo tem uma tradição anticapitalista em âmbito internacional, mas com viés conservador, hierárquico, que também tem servido como ideologia de manutenção dos interesses dominantes ao longo da história pelo menos desde o final do Império Romano, no quarto século depois de Cristo. A vertente mais radical do catolicismo se voltou para o desprendimento dos bens materiais, elegendo São Francisco de Assis como seu maior santo. Também é conhecida a afeição deste santo aos animais, o que de certa forma contradiz uma vertente cristã fechada num antropocentrismo que apresenta a espécie humana como dominadora das demais espécies. Mas há muitas vertentes cristãs, na realidade, algumas bem abertas e outras mais fechadas à natureza e ao cosmos, algumas mais populares e outras mais esotéricas, que exigem uma interpretação cuidadosa, responsável. Não é aqui o local e o momento para isso.

Apenas quero ressaltar que nas últimas décadas a influência da vertente cristã-católica vem perdendo espaço para a vertente protestante, com diversas igrejas populares, pentecostais, neopentecostais, evangélicas, enfim, diversas variantes (não sou especialista nisso), mas que têm em comum uma concepção de riqueza bem diferente, senão oposta, ao catolicismo. Enquanto no catolicismo o crente vê com suspeita a riqueza material, na vertente protestante o crente vê a riqueza material como sinal de que Deus o elegeu como um exemplo a ser seguido. Nos EUA predomina essa vertente e o capitalismo, na explicação de Max Weber, encontrou nessa cultura um solo adequado para o seu desenvolvimento.

Nessa eleição os dois candidatos estão ligados a eleitorados que têm muito de suas culturas religiosas marcadas por essa clivagem: se Bolsonaro conseguiu apoio de igrejas que antes apoiavam Lula, Dilma ou lideranças do PSDB, agora restou ao PT o segmento mais ativo do catolicismo, que se politizou com a chamada teologia da libertação, ainda na década de 1960. Esta teve seu período de ascensão nas décadas de 70 e 80 e declínio nos anos 90, inclusive por envelhecimento e morte de muitas de suas lideranças. Também enfrentou crítica e autocrítica interna por seus vínculos superficiais com as ciências sociais, especialmente com o marxismo, o que levou a distorções e sectarismos.

Por outro lado, está cada dia mais evidente que igrejas têm como organizações interesses materiais bem definidos, que procuram realizar por meio de apoio a candidatos que têm poder ou perspectiva de alcançar o poder. Há toda uma rede de interesses em manutenção ou expansão do uso de espaços públicos (concessão estatal do espaço aéreo para propagação de ondas eletromagnéticas visando transmissão de dados de Rádio e TV), o que se tornou uma arena de disputas agressivas em face das tecnologias de comunicação. A política e a religão se fundem, até certo ponto, à direita e à esquerda do espectro político, alimentando uma polarização de crenças. Isso precisa ser melhor investigado cientificamente, para além dos pressupostos religiosos, visando-se evitar o declínio da democracia e do Estado laico, bem como uma nova "guerra santa" sem santos.


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