A Era da Inteligência Artificial e suas Ambivalências
- Sérgio Luís Boeira
- 7 de fev.
- 6 min de leitura
Atualizado: 15 de fev.
Na condição de professor universitário, tenho lidado com uma pandemia de desatenção em sala de aula, pois os estudantes estão com frequência consultando seus celulares durante as aulas, as redes sociais, embora também possam buscar informações úteis para as aulas, para realizar suas atividades curriculares. Eles são alertados para o fato de que ao circular pela internet e mesmo ao consultar alguma Inteligência Artificial, continuamente deixam rastros, ou seja, dados eletrônicos, que as grandes empresas de tecnologia, as big techs, utilizam de diversas formas, especialmente de seus perfis de consumidores para empresas que, assim, farão uso do chamado marketing digital. Ou seja, ao consumir informação e entretenimento, são também consumidos como dados e objetos do mercado.

A mudança de comportamento do usuário de redes sociais tem sido estudada por diversos pesquisadores, que observam inclusive as consequências políticas, como a tendência à formação de grupos homogêneos, que polarizam politicamente com agressividade entre si, simplificando ideias de esquerda, direita, comunismo, conservadorismo, socialismo, ambientalismo, etc. A exposição de ideias e opiniões em público, ou pelo menos visível por outras pessoas, tende a ser agressiva, reativa, incluindo ofensas que acabam extrapolando as redes sociais e gerando crimes. Um dos estudos mais profundos sobre as transformações do capitalismo pelas bit techs é o de Shoshana Zuboff, A era do capitalismo de vigilância. O subtítulo é esclarecedor: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. A pesquisadora entrevistou centenas de engenheiros e diretores de grandes empresas de tecnologia. Outro estudo que se concentra nas redes sociais, criadas e manipuladas pelas big techs, é intitulado A máquina do caos, de Max Fisher. O subtítulo aqui é uma denúncia: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo. O autor mostra, com base em vasta pesquisa por meio de entrevistas, como as trocas de mensagens nas redes sociais se tornam polarizadas, com estímulo de algoritmos, o que prende mais e mais a atenção de usuários e aumenta os lucros das big techs assim como de suas empresas parceiras. Mostra que a violência é crescente e tende a transcender o espaço virtual para desencadear crimes, ataques físicos, às vezes resultando em mortes. É mesmo uma máquica do caos -- e o caos tem servido aos tiranos/autocratas, inclusive porque a confusão social e política é o terreno mais adequado para o surgimento e para uma certa legitimação de tiranos/autocratas.
A própria democracia tem sido minada pelas fake news, conforme mostram os pesquisadores Sergei Guriev e Daniel Treisman, no livro Democracia Fake: a metamorfose da tirania no século XXI. Não por acaso as empresas de armas têm aumentado seus lucros: tiranos fazem política a favor de soluções armadas pelos cidadãos, a chamada justiça com as próprias mãos, enquanto governos baixam os impostos das empresas e deixam de investir em políticas públicas de segurança que implicam complexas articulações entre os poderes nacionais, subnacionais, municipais, diferentes órgãos de fiscalização, para conter o crime organizado, que cresce utilizando-se também das redes sociais.
Em todas as trocas de mensagens nas redes sociais -- whatsApp, youtube, facebook, instagram, linkedIn, X e outras -- a Inteligência Artificial está presente, de forma explícita e aparente, ou de forma implícita e oculta, capturando dados dos usuários e formatando perfis para comércio e uso político. Não há como circular pela internet sem fazer uso desses sofisticados servomecanismos que parecem mágicos, por conter uma tecnologia embarcada muito complexa, em certo sentido, embora fortemente simplificadora, em outro sentido. Sobretudo, tais tecnologias nos induzem a questionar quem nós somos no mundo em que as máquinas falam como se fossem humanos, em que a linguagem humana é manipulada, com escrita, imagens e sons. O mundo é alterado, as circunstâncias do viver cotidiano são alteradas. E como dizia Ortega Y Gasset, "eu sou eu e minha circunstância". O mundo que era industrial se torna pós-industrial com a emergência do setor de serviços e, neste, os serviços mediados pela tecnologia ganham destaque. Quase tudo o que os seres humanos fazem nas cidades é mediado pela tecnologia, com a IA fortalecendo o mercadocentrismo (sociedade unidimensional, diz Guerreiro Ramos) das big techs e suas parceiras, como as empresas financeiras, que geram crescente desigualdade social, redução de empregos, de custos e aumento da produtividade, fragilizando os poderes e políticas públicas em favor das decisões mais simples das grandes empresas.
A ambivalência da IA começa pelo fato de que, apesar de ser assim denominada, não é nem inteligente, nem artificial. O próprio nome é enganoso, é uma forma de "política cognitiva" (expressão de Guerreiro Ramos) das big techs, é um eufemismo tão poderoso e enganador como o de chamar de "colaborador" o empregado, trabalhador, funcionário. A chamada Inteligência Artificial é na realidade uma pseudointeligência porque não tem organicidade biológica e é social, e não artificial, porque foi construída e é manipulada por humanos em sociedade. A linguagem da IA não interpreta o mundo, as circunstâncias, criativamente, com autonomia, como fazem os humanos, a partir de sua auto-eco-organização. Os humanos são em parte alimentados pela eco-organização, pelas informações que recebem dos alimentos, dos ecossistemas, pelos chamados serviços ecossistêmicos ou ambientais -- como a regulação do ciclo da água, do clima, a fotossíntese, a produção de oxigênio, etc. Já os servomecanismos socioalgorítmicos (SS) chamados IAs são alimentados pelos humanos para buscar imitar a linguagem humana, por meio de algoritmos. A chamada "artificialidade" dessa pseudointeligência é construída socialmente, inclusive as big techs nem existiriam sem os fortes investimentos dos poderes públicos no Vale do Silício, nas startups, etc. Não é uma inteligência artificial, portanto, mas uma tecnologia sofisticada, a serviço especialmente das empresas que, contando não só com os recursos financeiros da economia pública, mas também com os conhecimentos da pesquisa científica gerada publicamente, obtiveram condições de gerar o que elas mesmas denominaram "inteligência artificial".
A propósito da noção de "inteligência", Howard Gardner, um dos mestres dos engenheiros que criaram a IA, escreveu obras como Inteligência: um conceito reformulado. Ele criou a teoria da inteligências múltiplas e entre elas não está a chamada "inteligência artificial". Gardner testou várias inteligências, como a musical, a verbal-linguística, a lógico-matemática, a cinestésica, a visuoepacial, a interpessoal, a intrapessoal, a naturalista, além de refletir sobre a inteligência existencial e até espiritual, que são bem mais difíceis de se testar.
As IAs são ambivalentes na medida em que, construídas para favorecer as big techs e suas parceiras, também favorecem a todos os humanos que sabem utilizá-las, para buscar informações de forma instantânea, para traduzir textos, para comparar informações, fazer resenhas de livros, organizar vídeos -- com texto, imagem e som de forma aparentemente criativa --, desde que tenha o trabalho de humanos como base. Não é preciso insistir nas inúmeras possibilidades abertas pelas chamadas IAs, já que a todo momento são oferecidos cursos nas redes sociais para alavancar os lucros das empresas, para fazer pesquisa (aparentemente sem esforço de pesquisar mesmo), para melhorar a qualidade dos textos, para gerar esboços de projetos industriais, sociais, políticos, para oferecer aconselhamento médico e inclusive de relacionamento entre casais. As IAs fascinam por sua versatilidade na imitação da linguagem humana, ainda que não tenham toda a riqueza da linguagem humana, feita de silêncios, ironias, figuras de linguagem, sentimentos, leitura de ambientes, compaixão, compreensão dos dramas humanos na doença, no luto, ou o entusiasmo nas festas, no sonho, na interação com animais, com as plantas, etc. As IAs não choram nem riem, não sofrem, não têm sentimentos, mas são feitas para fingir, são manipuladas para enganar os humanos que buscam facilidades, que buscam padrões de informações, padrões de ideias, especulações derivadas de deduções automatizadas por algoritmos capazes de fazer conexões e projeções de padrões com base em uma montanha de dados, de centenas de páginas.
O mundo da quantidade -- ou seja, o "espírito de geometria", contra o "espírito de sutileza", segundo Pascal --, é realimentado pelas big techs com as IAs e, com isso, há também um "Colonialismo de Dados", conforme coletânea organizada por Cassino, Souza e Silveira. O subtítulo do livro nos oferece uma pista sobre o conteúdo: como opera a trincheira algorítmica na guerra neoliberal.
As IAs são parte das nossas circunstâncias, mas "nós, quem, cara-pálida?", perguntam os indígenas, os povos marginalizados. As circunstâncias de seres urbanizados e com a vida mediada pela tecnologia se afasta da realidade de milhões de pessoas que não dispõem de condições dignas de vida ou que vivem nas florestas, com uma realidade muito distinta das "nossas".
O fascínio das IAs é uma forma de expressão de poder já conhecida. John Kenneth Galbraith, em sua obra A anatomia do poder, estudou entre outras a forma de poder que ele denominou de "condicionado" -- como um instrumento pelo qual as pessoas são persuadidas a mudar suas crenças e comportamento social. O poder condicionado é tão poderosamente persuasivo quanto o entretenimento que as redes sociais das big techs nos oferecem -- como uma rede eletrônica na qual somos meros peixinhos indefesos.



Parabéns,Sérgio. Texto consistente sobre tema muito atual e relevante. Você tem sabido usar muito bem as potencialidades e o assessoramento da IA.