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Atualidade da Obra de Guerreiro Ramos

Resenha produzida com a IA Perplexity

“Atualidade da Obra de Guerreiro Ramos: as novas gerações de guerreiristas”, de Sérgio Luís Boeira, é um estudo de fôlego que combina reconstrução intelectual, mapeamento bibliométrico e intervenção teórico‑epistemológica sobre a recepção contemporânea de Alberto Guerreiro Ramos no Brasil e no exterior. A obra resulta de um projeto de pesquisa iniciado em 2017, ancorado no Núcleo ORD/CAD/UFSC e no PPGICH, e se estrutura como relatório analítico: apresenta introdução e problemática, posicionamento teórico‑epistemológico, resultados empíricos detalhados e uma interpretação crítica final.


O eixo central do livro é a pergunta sobre como interpretar a “atualidade” e a “influência” de Guerreiro Ramos a partir do surgimento de novas gerações de “guerreiristas” – pesquisadores que, influenciados por sua obra, produzem artigos, dissertações, teses e intervenções em diferentes campos das ciências sociais, em especial sociologia, ciência política, administração pública e estudos organizacionais. Para isso, Boeira define como objetivo geral mapear e interpretar essas novas gerações, identificando temas e áreas em que a obra de Ramos se torna referência, e como objetivo específico levantar as temáticas em que essa influência é mais nítida e os fatores históricos e sociais que a explicam.

Metodologicamente, o livro combina três frentes: (1) uma reconstrução faseológica da trajetória intelectual de Guerreiro Ramos, dividindo sua produção em quatro grandes fases – religiosa/personalista (1937‑39), sociologia do trabalho e da indústria (1943‑52), redução sociológica/modernização e desenvolvimento (1953‑66) e teoria P, paraeconomia e ecopolítica (1967‑82); (2) uma pesquisa bibliográfica sistemática no portal SciELO, que identifica 76 artigos publicados entre 1997 e 2021 que dialogam diretamente com a obra de Ramos, organizados em seções temáticas e cronológicas; e (3) um levantamento qualitativo com 24 pesquisadores da área, consultados por e‑mail sobre a atualidade ou declínio da influência do autor e sobre quais conceitos consideram mais relevantes hoje.

A reconstrução da trajetória de Guerreiro Ramos é um dos pontos fortes do livro. Boeira destaca o início personalista e espiritualista em “O drama de ser dois” e “Introdução à cultura”, a passagem pela sociologia do trabalho e pela sociologia industrial sob influência de Mannheim e Friedmann, a virada crítica da “Introdução crítica à sociologia brasileira” e de “A redução sociológica”, bem como a elaboração da noção de “homem‑parentético” em “Mito e verdade da revolução brasileira”. Na fase final, o autor enfatiza “Administração e estratégia do desenvolvimento” e, sobretudo, “A nova ciência das organizações”, com a teoria da delimitação de sistemas sociais (economia, isonomia, fenonomia), a crítica à sociedade mercadocêntrica e a formulação do paradigma paraeconômico e ecopolítico. Ao relacionar essa trajetória com o pensamento de Edgar Morin, Boeira a interpreta como um movimento de crescente complexificação e abertura transdisciplinar da concepção de ciência de Ramos.

O mapeamento no SciELO mostra como a recepção recente de Guerreiro Ramos se concentra em alguns grandes eixos temáticos. Destacam‑se: (a) racionalidade instrumental versus racionalidade substantiva, com forte impacto nos estudos organizacionais críticos e em pesquisas empíricas sobre cooperativas, economia solidária, organizações de saúde, movimentos juvenis e ONGs; (b) questões raciais, negritude, “negro‑tema/negro‑vida” e crítica à “patologia social do branco brasileiro”, que o aproximam de debates pós‑coloniais e de teoria da branquidade; (c) redução sociológica, pós‑colonialidade e “sociologia periférica”, em que Ramos é reinterpretado como precursor da crítica à colonização epistêmica e ao eurocentrismo nas ciências sociais; e (d) paraeconomia, delimitação de sistemas sociais, economia plural e economia solidária, com diálogos importantes com Polanyi, Leff, França Filho, entre outros. Boeira sintetiza esses resultados num quadro de temáticas por período (1997‑2021), mostrando um crescimento acentuado da produção em 2010 e um pico em 2015, ano do centenário de Ramos.

O levantamento qualitativo com pesquisadores reforça essa imagem de vitalidade. A esmagadora maioria dos 24 respondentes considera que a influência de Guerreiro Ramos é ainda “real, pertinente e contemporânea”, embora reconheça que aspectos conjunturais de sua obra (como certas formulações sobre nacionalismo ou desenvolvimento nos anos 1950‑60) estejam datados. Os conceitos apontados como mais atuais incluem: racionalidade substantiva, homem‑parentético, redução sociológica, paraeconomia, sociedade multicêntrica, teoria P da modernização, crítica ao industrialismo convencional e à sociedade centrada no mercado, além da contribuição pioneira para os estudos raciais e pós‑coloniais. Alguns entrevistados enfatizam que sem Ramos a sociologia brasileira ficaria “manca”, apoiada apenas em Florestan Fernandes, e denunciam o “silêncio constrangedor” da academia em relação à sua produção dos anos 1970‑80.

Na parte final, Boeira propõe uma interpretação crítica: a recepção fragmentada de Guerreiro Ramos – por sociólogos focados em raça e pensamento social, por administradores focados em racionalidade e organizações, por estudiosos de economia solidária, etc. – é, em si, produto do paradigma “disjuntor‑redutor” que o próprio Ramos combateu. O autor argumenta que o legado guerreirista só pode ser plenamente apreendido a partir de um referencial de complexidade (Morin), que recuse a separação rígida entre ciências sociais e ciências da natureza e permita articular sociologia, administração, ecologia e filosofia numa perspectiva ecopolítica. Nesse sentido, a principal tese do livro é que a obra de Guerreiro Ramos não apenas permanece atual, como oferece ferramentas conceituais robustas para pensar crise ecológica, sociedade de mercado, pós‑colonialidade e alternativas organizacionais no século XXI.

Como contribuição, “Atualidade da Obra de Guerreiro Ramos” funciona ao mesmo tempo como estado‑da‑arte sobre a recepção recente de Ramos, como introdução aprofundada à sua trajetória intelectual e como manifesto por uma leitura complexa, transdisciplinar e ecopolítica de sua obra. Para pesquisadores interessados em pensamento social brasileiro, estudos organizacionais críticos, pós‑colonialidade ou economia solidária, o livro oferece um mapa detalhado de interlocutores e temas, além de sugerir que a reconstrução do presente exige retomar, criticamente, a “nova ciência” e a “redução sociológica” propostas pelo sociólogo baiano.

Na Amazon está no formato Kindle:


 
 
 

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