BRICS além da retórica: entre a reforma da governança financeira e a construção de novas instituições
- Sérgio Luís Boeira
- há 4 dias
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Objetivo
Refletir sobre o significado político e econômico do BRICS a partir de duas obras recentes — A agenda regulatória dos BRICS (Jonnas Vasconcelos, 2020) e O Novo Banco de Desenvolvimento: um meio de exercício de poder para o BRICS (Robson Cunha Rael, 2022) — mostrando como elas ajudam a compreender os limites e as possibilidades da atuação do bloco na transformação da ordem financeira internacional.

Introdução
Durante muitos anos, o BRICS foi tratado como um fenômeno essencialmente econômico. Brasil, Rússia, Índia, China e, posteriormente, África do Sul apareciam como "mercados emergentes", países de elevado potencial de crescimento capazes de alterar o centro de gravidade da economia mundial. Com o passar do tempo, porém, tornou-se evidente que o agrupamento buscava algo mais ambicioso do que ampliar o comércio entre seus membros.
A criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), em 2014, seguida do Arranjo Contingente de Reservas (ACR), mostrou que o BRICS pretendia construir mecanismos próprios de cooperação financeira e reduzir a dependência das instituições criadas após a Segunda Guerra Mundial, especialmente o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. Essa iniciativa recolocou uma antiga questão das relações internacionais: é possível reformar a ordem global sem provocar rupturas profundas?
As obras de Jonnas Vasconcelos e Robson Cunha Rael oferecem respostas complementares. A primeira examina o BRICS como ator que procura influenciar as normas e instituições da economia mundial. A segunda analisa o principal instrumento criado pelo grupo para transformar essas intenções em ação concreta: o Novo Banco de Desenvolvimento. Lidas em conjunto, elas permitem compreender que a importância do BRICS não reside apenas em seus discursos diplomáticos, mas na lenta construção de uma arquitetura financeira alternativa, ainda limitada, porém cada vez mais relevante.
A reforma da ordem financeira internacional
O livro de Jonnas Vasconcelos parte de um diagnóstico bastante conhecido: a crise financeira internacional de 2007-2008 revelou não apenas fragilidades dos mercados, mas também os limites das instituições responsáveis pela governança econômica global. FMI e Banco Mundial continuavam refletindo uma distribuição de poder herdada do pós-guerra, pouco compatível com o peso crescente das economias emergentes.
Nesse contexto, o BRICS passou a defender reformas em dois níveis. O primeiro consistia em ampliar a participação dos países emergentes nos organismos existentes, reivindicando maior representatividade nos processos decisórios. O segundo envolvia a criação de instituições próprias capazes de oferecer alternativas de financiamento e cooperação.
O mérito da obra está em evitar interpretações simplificadoras. O autor não considera o BRICS um movimento revolucionário destinado a substituir a ordem liberal internacional, mas tampouco o reduz a uma coalizão simbólica sem efeitos concretos. Em vez disso, interpreta sua atuação como um processo de reforma gradual da governança mundial, marcado por avanços e limitações simultâneos.
Essa interpretação parece particularmente convincente. O BRICS atua dentro do sistema internacional, mas procura ampliar seus espaços de decisão. Em vez de romper imediatamente com as instituições existentes, busca criar mecanismos paralelos que aumentem sua autonomia política e financeira.
Quando a política se transforma em instituição
Se Vasconcelos analisa o plano das normas, Robson Cunha Rael concentra sua atenção nas instituições concretas. Seu objeto é o Novo Banco de Desenvolvimento, criado para financiar infraestrutura, inovação e desenvolvimento sustentável nos países membros e em outras economias em desenvolvimento.
O NBD representa uma inovação importante porque rompe parcialmente com características tradicionais dos bancos multilaterais. A distribuição inicial igualitária do capital entre os membros fundadores procura reduzir assimetrias de poder. Além disso, a utilização crescente de moedas nacionais nas operações financeiras busca diminuir a dependência do dólar nas relações econômicas internacionais.
Outro aspecto relevante é a prioridade atribuída a projetos de infraestrutura sustentável, energia renovável, saneamento, mobilidade urbana e adaptação climática. Dessa forma, o banco procura articular desenvolvimento econômico e sustentabilidade ambiental, aproximando-se das demandas contemporâneas por uma transição ecológica mais equilibrada.
Entretanto, Rael também reconhece limites importantes. O volume de recursos do NBD permanece reduzido quando comparado ao Banco Mundial ou ao Banco Asiático de Desenvolvimento. Sua capacidade de financiamento ainda depende das condições dos mercados financeiros internacionais e sua atuação continua relativamente concentrada nos próprios países membros.
Essas limitações não diminuem sua importância histórica. Toda instituição internacional nasce pequena. O aspecto decisivo talvez não seja sua dimensão atual, mas a possibilidade de inaugurar novas formas de cooperação financeira.
Reforma ou transformação?
As duas obras convergem para uma conclusão interessante. O BRICS não representa uma ruptura revolucionária com a ordem econômica internacional, mas tampouco constitui apenas um espaço de retórica diplomática. Sua estratégia parece combinar contestação e adaptação.
Essa característica explica por que muitos analistas têm dificuldade em classificá-lo. Alguns esperavam um enfrentamento direto à hegemonia ocidental. Outros o consideram apenas um fórum de encontros periódicos sem capacidade de alterar a realidade internacional.
As evidências apresentadas pelos dois autores sugerem uma posição intermediária. O BRICS procura ampliar gradualmente sua influência por meio da criação de instituições, do fortalecimento da cooperação Sul-Sul e da diversificação das fontes de financiamento. Trata-se de uma estratégia incremental, baseada na construção paciente de alternativas.
Essa perspectiva ajuda a compreender fenômenos recentes, como a expansão do grupo, o aumento das operações em moedas nacionais, a aproximação entre bancos centrais e o interesse crescente de diversos países em participar das iniciativas do bloco. Esses movimentos indicam que a transformação da ordem internacional tende a ocorrer por acumulação institucional, e não por substituições abruptas.
Muito além do banco
O Novo Banco de Desenvolvimento talvez seja apenas a expressão mais visível de um processo mais amplo. Ao criar mecanismos próprios de financiamento, os países do BRICS experimentam formas de coordenação política que podem produzir efeitos em outras áreas, como comércio, tecnologia, infraestrutura digital, segurança alimentar, transição energética e inovação científica.
Mais do que competir frontalmente com as instituições existentes, o grupo parece apostar na diversificação dos centros de decisão internacionais. Trata-se de uma visão de governança multipolar, na qual diferentes instituições coexistem e oferecem alternativas aos países em desenvolvimento.
Essa estratégia pode contribuir para reduzir assimetrias históricas sem necessariamente provocar uma fragmentação da economia mundial. Em vez de uma lógica de substituição, emerge uma lógica de complementaridade institucional.
Conclusões
As obras de Jonnas Vasconcelos e Robson Cunha Rael mostram que o BRICS deve ser analisado menos pelos discursos produzidos em suas cúpulas e mais pelas instituições que consegue construir.
A agenda regulatória evidencia a busca por maior equilíbrio na governança econômica internacional. O Novo Banco de Desenvolvimento demonstra que parte dessas propostas já começou a assumir forma institucional.
Ainda é cedo para afirmar que essas iniciativas produzirão uma nova ordem financeira internacional. Contudo, também parece precipitado tratá-las como meros gestos simbólicos. As transformações da política mundial costumam ocorrer lentamente, por meio da criação de organizações, normas e práticas que, acumuladas ao longo do tempo, alteram a distribuição do poder.
Nesse sentido, o BRICS talvez represente menos uma ruptura com a ordem internacional do que a abertura gradual de um novo capítulo da governança global. Sua principal contribuição não está em substituir imediatamente as instituições existentes, mas em ampliar o pluralismo institucional do sistema internacional, oferecendo novos instrumentos de cooperação e financiamento para um mundo cada vez mais multipolar.
Referências
BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. BRICS. Brasília: MRE, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mre/pt-br/assuntos/mecanismos-internacionais/mecanismos-inter-regionais/brics. Acesso em: 22 jul. 2026.
BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Novo Banco de Desenvolvimento (NDB). Brasília: MRE, 2024. Disponível em: https://brics.br/pt-br/sobre-o-brics/novo-banco-de-desenvolvimento-ndb. Acesso em: 22 jul. 2026.
BRICS POLICY CENTER. Novo Banco de Desenvolvimento (NDB). Rio de Janeiro: BRICS Policy Center, 2018. Disponível em: https://bricspolicycenter.org/new-development-bank/. Acesso em: 22 jul. 2026.
FUNDAÇÃO ALEXANDRE DE GUSMÃO (FUNAG). O Brasil, os BRICS e a agenda internacional. Brasília: FUNAG, 2015. Disponível em: https://funag.gov.br/loja/download/1032-Brasil_os_BRICS_e_a_agenda_internacional_O.pdf. Acesso em: 22 jul. 2026.
RAEL, Robson Cunha. O novo banco de desenvolvimento: um meio de exercício de poder para o BRICS. 2022. Dissertação (Mestrado em Relações Internacionais) – Universidade de Brasília, Brasília, 2022.
SERRA, Rodrigo; GONZÁLEZ, Bruno; PADULA, Raphael; CASTRO, Lara. BRICS – Novo Banco de Desenvolvimento. Estudos Avançados, São Paulo, v. 30, n. 88, p. 25-46, 2016.
VASCONCELOS, Jonnas. A agenda regulatória dos BRICS. Rio de Janeiro: Dialética, 2020.
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P.S. Utilizei o Chat GPT 5.5 para buscar informações. O texto foi concebido, revisado e editado por mim. Usei a IA Adapta One 26 para obter a ilustração adequada ao conteúdo.



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