Racismo, interseccionalidade e complexidade: notas para um debate brasileiro
- Sérgio Luís Boeira
- há 1 dia
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Objetivo
Discutir o racismo como fenômeno histórico e epistemológico de longa duração, articulando a epistemologia da complexidade de Edgar Morin, a sociologia crítica de Alberto Guerreiro Ramos e o conceito de interseccionalidade, com foco no caso brasileiro e em suas múltiplas formas de hierarquização racial.

Resumo
Este ensaio propõe uma primeira abordagem da questão do racismo a partir de um pano de fundo complexo. Em diálogo com Edgar Morin, argumenta-se que o racismo não pode ser reduzido à modernidade nem entendido apenas como preconceito individual, pois atravessa corpo, cultura, história, organização social e ecologia/geografia. A interseccionalidade é apresentada como uma abordagem para mapear os cruzamentos entre raça, gênero, classe e nacionalidade, enquanto a complexidade moriniana impede que esses eixos sejam tratados como somas mecânicas, recolocando-os como sistemas vivos de co-determinação (ou seja, auto-eco-organização). No contexto brasileiro, o texto destaca a contribuição de Guerreiro Ramos, que critica o racismo epistêmico das ciências sociais, questiona o reducionismo classista e enfrenta a ideologia do embranquecimento, ao mesmo tempo em que afirma a negritude como horizonte político e epistemológico. A combinação entre Morin, interseccionalidade e Guerreiro Ramos é apresentada como semente para uma reflexão mais ampla sobre racismo, complexidade e Terra-pátria.
O racismo é um problema histórico, social e epistemológico complexo demais para caber apenas na narrativa da modernidade. A modernidade europeia foi, sem dúvida, o momento em que a ideia de “raça” se tornou linguagem de Estado, ciência e colonização. Mas a desigualdade entre humanos, organizada por hierarquias de cor, pureza, casta, religião e nacionalidade, além de continentes e regiões, tem raízes mais antigas e se desdobra em múltiplas formas contemporâneas. Reduzir o racismo ao século XVIII é perder de vista a sua longa duração e a sua plasticidade.
Ao mesmo tempo, pensar o racismo apenas como “preconceito” individual é esquecer que ele se inscreve em estruturas de poder, em regimes de conhecimento e em formas de organização coletiva. É por isso que, ao abordar o tema, vale tomar como pano de fundo uma epistemologia capaz de articular história, corpo, cultura, política e ecologia/geografia. A epistemologia da complexidade de Edgar Morin é apresentada aqui como a abordagem apropriada para isso.
Morin: complexidade e auto-eco-organização
Morin é conhecido por criticar a fragmentação do saber e propor um pensamento que religue aquilo que nossa tradição intelectual separou: natureza e cultura, indivíduo e sociedade, razão e mito, parte e todo. Em vez de buscar explicações únicas, ele fala em complexidade, isto é, em sistemas onde ordem e desordem, conflito e complementaridade se entrecruzam.
A noção de auto-eco-organização é central nesse quadro. Um ser vivo, uma sociedade, um sistema cultural não se organizam “de fora”, como se fossem objetos passivos. Eles se produzem a si mesmos, em interação constante com o meio físico, biológico, geográfico, social e simbólico. Toda autonomia é, nesse sentido, uma autonomia dependente: um organismo não existe fora do ecossistema; um indivíduo não existe fora da sociedade; uma sociedade não existe fora das pessoas que a produzem.
Aplicada ao racismo, essa ideia é potente. Em vez de tratar o racismo como mera opinião ou como único efeito da economia, ela obriga a considerar como corpos, imaginários, instituições, territórios e regimes jurídicos se coproduzem. A cor da pele (a melanina depende da exposição ao sol especialmente em regiões tropicais, áridas), a forma de nomear diferenças, as hierarquias de valor, as políticas de migração e os sistemas de escolarização entram juntos na produção de desigualdades racializadas.
Interseccionalidade e nacionalidade
Nos últimos anos, o conceito de interseccionalidade ganhou centralidade, sobretudo a partir do feminismo negro e das pesquisas sobre direitos e políticas públicas. Interseccionalidade significa, em termos simples, reconhecer que os eixos de dominação – raça, gênero, classe, sexualidade, idade, deficiência, religião, nacionalidade – não operam isoladamente, mas em combinação.
Uma mulher negra periférica não vive o racismo da mesma forma que um homem negro de classe média; um migrante racializado não enfrenta as mesmas barreiras que um cidadão nacional branco; uma pessoa indígena, uma pessoa trans, uma pessoa negra religiosa experimentam articulações específicas de exclusão e resistência. A interseccionalidade oferece a gramática para descrever esses cruzamentos.
Mas há um risco: se tomada apenas como lista de categorias, a interseccionalidade pode virar uma soma mecânica de eixos, sem olhar para as relações vivas entre eles. É aqui que a complexidade moriniana volta a ser útil. Ela permite pensar que raça, gênero, classe e nacionalidade não são blocos independentes, mas dimensões que se co-determinam historicamente. Em vez de somar opressões, trata-se de compreender sistemas de relação.
Terra-pátria: unidade e diversidade religadas
A ideia de Terra-pátria, formulada por Morin, amplia ainda mais esse horizonte. Em vez de pensar o mundo como conjunto de nações isoladas, ela propõe vê-lo como uma comunidade de destino planetária. Não se trata de negar identidades nacionais, culturais e religiosas, mas de religá-las numa consciência de que partilhamos o mesmo planeta, os mesmos riscos, a mesma vulnerabilidade ecológica.
Essa perspectiva é politicamente importante porque permite criticar dois extremos: o universalismo abstrato, que apaga diferenças e produz um “humano” sem rosto; e os particularismos fechados, que erguem fronteiras identitárias e alimentam xenofobias e racismos. A Terra-pátria sugere que unidade e diversidade devem caminhar juntas, em diálogo e conflito, mas sem pretensão à homogeneização.
Num mundo marcado por fronteiras, guerras, migrações forçadas e hierarquias globais, essa visão ajuda a recolocar o racismo na escala em que ele opera de fato: não apenas na relação entre indivíduos, mas na arquitetura do sistema-mundo, nos regimes de circulação de pessoas e mercadorias, nos dispositivos que selecionam quem tem valor, quem pode ser descartado, quem merece empatia.
Brasil: mestiçagem, embranquecimento e racismo
No Brasil, o problema ganha contornos ainda mais singulares. Aqui, a herança da escravidão, a ideologia da democracia racial, a mestiçagem, o projeto de embranquecimento e as desigualdades regionais se combinam para produzir uma experiência racial muito específica.
É nesse cenário que a contribuição de Guerreiro Ramos se torna decisiva. Sociólogo negro, ele foi um dos pioneiros nos estudos do racismo no Brasil, mas, mais do que isso, foi um crítico radical da forma como as ciências sociais tratavam a população negra. Em diversos textos, Guerreiro Ramos denuncia o que chama de racismo epistêmico: a transformação do negro em objeto exótico de conhecimento, em “tema” sociológico, em problema a ser explicado, e não em sujeito histórico.
Ao mesmo tempo, ele recusava o reducionismo classista que dissolvia a questão racial na luta de classes. Para Guerreiro, isso poderia submergir a negritude e as tradições africanas num discurso que não dava conta da especificidade da dominação racial brasileira. A mestiçagem, tão celebrada em certas leituras, não podia servir como álibi para negar o racismo; o embranquecimento não podia ser naturalizado como caminho de ascensão; as diferenças regionais não podiam ser apagadas em nome de uma teoria única.
Guerreiro Ramos propõe, assim, uma sociologia situada, capaz de olhar o Brasil “desde dentro”, sem submissão acrítica a modelos importados. Isso o aproxima, em certo sentido, da preocupação moriniana com a complexidade: ambos rejeitam a pretensão de um olhar universal abstrato que ignora contextos e singularidades.
Existência, organização e palco
Há ainda um aspecto muitas vezes esquecido: a dimensão existencial e organizacional do pensamento de Guerreiro Ramos. Ele não discute apenas ideias; discute formas de vida, formas de organização, formas de ação. A aproximação com o existencialismo, a reflexão sobre isonomia e fenonomia, o interesse por psicodrama e sociodrama como ferramentas de conscientização negra mostram um autor atento à articulação entre estrutura social, subjetividade e prática.
O palco psicodramático, por exemplo, pode ser pensado como espaço de reelaboração dos efeitos subjetivos do racismo, onde corpos, memórias e narrativas são mobilizados para criar novas formas de reconhecimento e de liberdade. A teoria organizacional de Guerreiro Ramos, por sua vez, discute modelos de organização que favoreçam autonomia e participação, e não mera reprodução de hierarquias.
Tudo isso reforça a ideia de que, no Brasil, o racismo não é apenas questão de política estatal, nem apenas questão de “atitudes” individuais. Ele atravessa instituições, corpos, afetos, linguagens e formas de organização. E é justamente essa multiplicidade que exige que o pensamento seja complexo.
Semente para um texto acadêmico
A combinação entre interseccionalidade e complexidade, entre Morin e Guerreiro Ramos, oferece um caminho promissor para desenvolver uma abordagem mais robusta do racismo brasileiro e mundial. A interseccionalidade mostra como raça, gênero, classe, nacionalidade e outros eixos se cruzam na produção de desigualdades. A complexidade explica por que esses cruzamentos não podem ser tratados como somas lineares, mas como sistemas vivos de co-determinação.
No Brasil, essa articulação ganha corpo em um pensamento que denuncia o racismo epistêmico, critica o embranquecimento, afirma a negritude e explora modos de organização e intervenção que levam a sério a experiência negra. Em diálogo indireto com Morin, Guerreiro Ramos parece oferecer uma das leituras mais sofisticadas do racismo como problema histórico, político e existencial.
Bibliografia mínima
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MORIN, Edgar. O método 1: A natureza da natureza. 2. ed. Porto Alegre: Sulina, 2002.
MORIN, Edgar. O método 2: A vida da vida. 2. ed. Porto Alegre: Sulina, 2004.
P.S.: Usei IA Perplexity Pro no levantamento de informações e Adapta One na elaboração da imagem que ilustra esse artigo, que foi concebido, editado e revisado por mim.



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