Duas Economias Circulares em Disputa: Reciclagem para o Mercado ou para os Catadores?
- Sérgio Luís Boeira
- 27 de mai.
- 7 min de leitura
Atualizado: 29 de mai.
Enquanto a unidade mecanizada de Brusque exemplifica a circularidade orientada por grandes operadores e fundos, a Fábrica Verde aposta na autogestão dos catadores e na economia solidária
Nos últimos anos, “economia circular” virou palavra‑chave em relatórios de sustentabilidade, apresentações de investidores e planos governamentais. Em tese, trata‑se de prolongar o ciclo de vida dos materiais, reduzindo o desperdício e a pressão sobre os ecossistemas. Mas sob esse mesmo rótulo cabem projetos muito diferentes entre si. A comparação entre a unidade mecanizada de triagem de resíduos em Brusque (SC) e a Fábrica Verde, no Rio de Janeiro, evidencia dois caminhos em disputa: um orientado fundamentalmente pelo mercado e pelos fundos de investimento; outro que tenta enraizar a circularidade na economia solidária, na autogestão e no protagonismo dos catadores.

Brusque: circularidade sob comando do mercado
A chamada “fábrica de reciclagem em Brusque” é, na verdade, uma Unidade de Triagem Mecanizada (UTM) integrada a um ecoparque de resíduos. Seu objetivo principal é processar grandes volumes de lixo domiciliar misturado, separando de maneira automatizada os recicláveis de maior valor e reduzindo o que vai para o aterro. É o tipo de planta que, em apresentações oficiais, aparece acompanhada de números impressionantes: centenas de toneladas por dia, milhares de toneladas de CO₂ evitadas por ano, megawatts de energia gerados a partir do biogás, atendimento a centenas de milhares de habitantes.
Esse arranjo técnico vem acompanhado de uma engenharia financeira igualmente robusta. O empreendimento se ancora em grandes operadores privados de saneamento e gestão de resíduos, articulados com fundos de investimento – inclusive internacionais – e bancos de desenvolvimento. A economia circular, nesse contexto, é apresentada como uma nova fronteira de negócios: os resíduos deixam de ser apenas um custo para se tornarem ativos capazes de gerar receita, créditos ambientais e oportunidades de investimento em “infraestrutura verde”.
Do ponto de vista da política de resíduos, podemos reconhecer méritos: reduzir o envio a aterros, recuperar materiais que hoje seriam enterrados, aproveitar o biogás, integrar o tema resíduos à agenda climática. O problema é que essa leitura é feita a partir de cima, numa perspectiva predominantemente empresarial e financeira. Os atores que historicamente construíram a reciclagem no Brasil – os catadores e as catadoras de materiais recicláveis – entram na narrativa de forma lateral, quando entram.
É comum que, nesse tipo de projeto, apareça a promessa de que a planta “não compete” com a coleta seletiva e com o trabalho das cooperativas. Mas, sem mecanismos concretos – contratos, metas de compra de materiais das cooperativas, participação na governança, repartição de benefícios –, essa promessa tende a ficar no plano retórico. Ao concentrar a triagem e a captura de valor dentro de uma infraestrutura controlada por grandes empresas, corre‑se o risco de deslocar ainda mais o centro de gravidade do sistema em direção ao mercado financeiro e afastá‑lo do trabalho organizado dos catadores.

Fábrica Verde no Rio de Janeiro: autogestão
Fábrica Verde: circularidade com rosto de economia solidária
A Fábrica Verde, em Cordovil (Rio de Janeiro), nasce de outro horizonte. Em vez de uma megaplanta automatizada focada na triagem de lixo misturado, trata‑se de um equipamento público municipal pensado explicitamente como “fábrica de reciclagem para catadores” e associado a uma espécie de fábrica‑escola. A ideia central não é apenas aumentar as taxas de reciclagem, mas mudar o lugar dos catadores na cadeia de valor.
Em vez de vender material quase bruto para atravessadores e grandes recicladoras, os catadores passam a ter acesso a máquinas e processos que permitem lavar, beneficiar, triturar e transformar os resíduos em produtos com maior valor agregado: telhas ecológicas a partir de plásticos, têxteis reciclados, sabão e sabonete a partir de óleo usado, produtos derivados do coco, reaproveitamento de eletroeletrônicos, entre outros. Isso significa reter, no território e nas próprias organizações de catadores, uma parte da renda que antes se concentrava na ponta industrial da cadeia.
A Fábrica Verde também se propõe como espaço de formação e de construção de autonomia. Há previsão de apoio financeiro, capacitações técnicas, participação dos catadores no desenho da unidade e, no médio prazo, perspectiva de autogestão. Em vez de serem apenas “fornecedores de insumo barato” para o mercado, as cooperativas e associações são tratadas como protagonistas de um processo de reindustrialização em pequena escala, articulado com políticas de economia solidária, de trabalho e de desenvolvimento territorial.
Nesse arranjo, a economia circular deixa de ser apenas uma estratégia técnica de gestão de resíduos e se converte em política social: reciclar não é só desviar material do aterro, mas criar trabalho digno, fortalecer coletivos, ampliar capacidades produtivas e democratizar o acesso às tecnologias. É um desenho mais lento, menos vistoso do ponto de vista dos números de tonelagem, mas muito mais denso no que diz respeito à construção de sujeitos coletivos.
Duas formas de circularidade: o que está em jogo?
Quando colocamos lado a lado essas duas experiências, as diferenças ficam mais nítidas se organizarmos a análise em alguns eixos.
Quem controla a infraestrutura e a decisão?
Em Brusque, a infraestrutura é controlada por grandes operadores de saneamento e resíduos, articulados com fundos de investimento; o Estado aparece como indutor e financiador, e os catadores como atores periféricos.
Na Fábrica Verde, a infraestrutura é pública e municipal, pensada desde o início como um bem comum a ser progressivamente autogerido pelos catadores e por suas organizações.
Quem captura o valor econômico da reciclagem?
No modelo mecanizado, o valor tende a se concentrar no interior da planta industrial e nos contratos entre operadores e indústria recicladora. Os catadores podem até continuar a existir, mas sem garantia de participação na “parte nobre” da cadeia.
No modelo solidário, a aposta é ampliar a capacidade das cooperativas de capturar valor: beneficiando o material, transformando‑o em produtos e alcançando diretamente consumidores, políticas públicas e mercados institucionais.
Qual é o papel da tecnologia?
Em Brusque, a tecnologia é o centro da narrativa: sensores, automação, algoritmos, linhas de triagem de alta performance. O humano tende a ser visto mais como custo de operação do que como sujeito político.
Na Fábrica Verde, a tecnologia é meio, não fim. Ela é escolhida e desenhada para ser apropriável, manejável e controlável por catadores e trabalhadoras/es de territórios populares, reforçando capacidades locais.
Como se compreende a economia circular?
Na planta industrial, economia circular é principalmente um novo modelo de negócio para o setor de resíduos e energia: transformar passivos em ativos, monetizar fluxos materiais, ajustar‑se a exigências ambientais usando linguagem climática.
Na iniciativa solidária, economia circular é também um projeto de transição justa: reduzir impactos ambientais e, ao mesmo tempo, enfrentar a desigualdade socioeconômica e o racismo estrutural presentes na base da cadeia da reciclagem.
PNRS, catadores e soberania na política de resíduos
A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) não fala apenas de reciclagem e destinação adequada; ela reconhece explicitamente o papel dos catadores e das cooperativas como atores prioritários, e afirma o princípio da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos. Isso implica que fabricantes, importadores, distribuidores, comerciantes, consumidores e poder público têm obrigações específicas – inclusive financeiras – na gestão dos resíduos.
Se levamos a sério esse espírito da lei, não é suficiente invocar a PNRS como “selo” legitimador de qualquer empreendimento que prometa aumentar a reciclagem. A pergunta central passa a ser: o desenho da política e da infraestrutura fortalece ou enfraquece o protagonismo dos catadores? Promove a inclusão socioeconômica ou reforça assimetrias já existentes? Garante canais de participação e controle social ou concentra decisões em poucos atores econômicos?
Nessa contexto, a planta de Brusque tende a se alinhar mais a uma interpretação minimalista da PNRS: prioriza a eficiência técnico‑ambiental e a atração de investimentos, mas deixa em aberto como se dará, na prática, a inclusão estruturante dos catadores. Já a Fábrica Verde dialoga mais diretamente com a dimensão de economia solidária inscrita no campo das políticas de resíduos: reforça o reconhecimento dos resíduos recicláveis como bem econômico e de valor social, articulado com a geração de trabalho e renda em territórios vulnerabilizados.
Complementaridade possível ou conflito inevitável?
Uma questão importante é evitar a armadilha de pensar que só um modelo pode existir. Em tese, nada impede que infraestruturas industriais em larga escala convivam com equipamentos de economia solidária. A pergunta, porém, é em que termos essa convivência se dá.
Ela pode ser complementar, se houver:
contratos estáveis entre plantas industriais e cooperativas, com preços justos e previsibilidade;
metas claras de aquisição de material oriundo da coleta seletiva solidária;
espaços de governança compartilhada, com assento dos catadores em conselhos e comitês de gestão;
repartição transparente dos benefícios econômicos e ambientais gerados.
Mas também pode ser conflitiva, se o avanço da circularidade empresarial vier acompanhado de:
substituição de iniciativas de coleta seletiva operadas por cooperativas por modelos inteiramente mecanizados;
captura de recursos públicos antes destinados ao fortalecimento das organizações de catadores;
discursos de “modernização” que desqualificam o trabalho dos catadores como atrasado ou ineficiente.
Na prática brasileira, historicamente marcada por desigualdades, racismo ambiental e concentração de renda, não é trivial supor que a complementaridade virá automaticamente. Por isso, debates como esse – que confrontam Brusque e Fábrica Verde – são importantes: eles ajudam a colocar luz sobre escolhas de modelo que, muitas vezes, são naturalizadas como “tecnicamente inevitáveis”.
Reciclagem para quem?
Ao falar em “duas economias circulares em disputa”, a intenção não é negar os ganhos ambientais possíveis de unidades mecanizadas de grande escala, nem idealizar experiências solidárias como se não tivessem desafios de gestão, de sustentabilidade econômica e de escala. A questão é outra: quem gira, de fato, a economia circular hoje no Brasil? E para quem ela gira?
Os catadores e catadoras foram os principais responsáveis por tirar a reciclagem do papel e torná‑la realidade, muito antes de a expressão “economia circular” entrar nos powerpoints corporativos. Se a transição para modelos mais sofisticados de gestão de resíduos não os reconhecer como sujeitos centrais – em termos de decisão, de renda e de acesso à tecnologia –, corremos o risco de produzir uma circularidade excluente: ambientalmente “limpa” no discurso, mas socialmente suja na prática.
Por isso, a pergunta do título permanece aberta como provocação: reciclagem para o mercado ou para os catadores? Talvez a resposta mais interessante não seja escolher um lado de forma abstrata, mas insistir em critérios concretos para julgar cada iniciativa que se apresenta como “circular”: a) há participação real dos catadores nas decisões? b) há fortalecimento das cooperativas e da economia solidária? c) há repartição justa do valor gerado? d) há transparência e controle social?
Quanto mais conseguirmos fazer essas perguntas aparecerem no debate público – em blogs, aulas, formações de movimentos, conselhos – maior é a chance de que a economia circular que está sendo construída no Brasil seja, de fato, uma economia circular com sujeito, e não apenas com fluxos materiais fechados em torno de novos negócios “verdes”.
P.S.: Usei IA Perplexity Pro no levantamento de informações e na preparação desse artigo, tendo revisado a versão final, sobre a qual assumo inteira responsabilidade.



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