Retrospectiva sobre minha formação intelectual/emocional: de 1975 a 1982
- Sérgio Luís Boeira
- há 1 dia
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Atualizado: há 5 horas
Nasci em 16 de outubro de 1958, em Caxias do Sul, numa família de classe média-baixa, filho de um caixeiro viajante e de uma balconista numa sapataria. A união deles, um gaúcho e uma catarinense, me fez um “cataúcho”.
Entre 1975 e 1982, a minha formação intelectual/emocional não se deu como uma linha reta de progresso, mas como uma sucessão de tentativas, crises, descobertas e recomeços. Como sofria de bronquite asmática, passei algumas madrugadas em claro, escrevendo, sentado, com o travesseiro nas costas, contra a parede, para poder respirar melhor. Isso me induziu a produzir o que chamei de “cadernos de anotações” ou “diários”. Em 1975, eu já tentava pensar o mundo a partir do que acontecia dentro de mim, e a mim mesmo a partir de problemas históricos, culturais e comunicacionais maiores. Ao longo dos anos seguintes, isso foi se adensando: os cadernos passaram da autoanálise ao ensaio filosófico, do ensaio à tentativa de sistema, do sistema à carta, da carta à crítica política. Em todas essas passagens, o meu núcleo de inquietação foi mais ou menos o mesmo: como ligar vida íntima, linguagem, sociedade e possibilidade de transformação?

1975: autoconhecimento e o mal do mundo
Em 1975, com 17 anos, escrevi textos como “Como eu sou” e “O mal do mundo” tentando me descrever com a maior honestidade que eu conseguia. Eu me via como profundamente instável, agressivo em alguns momentos, preocupado demais com a opinião dos outros, apaixonado por música e por uma certa ideia de harmonia entre as pessoas. Esses textos não eram apenas desabafos; eram uma tentativa de me observar, de compreender meus humores, minhas reações, minha vontade de não ferir e, ao mesmo tempo, a facilidade de ferir (“a língua é fascista”, escreveu Barthes).
Quase ao mesmo tempo, em “O mal do mundo”, eu já tentava aproximar o que sentia do que via nos jornais e na convivência cotidiana. A desordem do mundo aparecia para mim ligada às falhas de comunicação, à incapacidade de nos compreendermos, à pressa em julgar, à dificuldade de perceber o outro para além dos rótulos. Eu começava a intuir que não havia separação nítida entre o que acontecia “lá fora” e o que acontecia dentro de casa, da escola, das relações mais simples.
1978: sistema aberto, suprarracionalismo e escrita como método
Em 1978, já na universidade (jornalismo, na UFSM, depois PUC-RS), meus cadernos ficaram mais conceituais. Comecei a escrever os “Estudos sobre o suprarracionalismo”, que nunca chegaram a ser um sistema fechado, mas funcionaram como um laboratório em que eu misturava psicologia, filosofia, literatura, mística, política e auto-observação.
Chamei de suprarracionalismo uma tentativa de religar intelecto, sentimento, instinto e criação. Eu desconfiava tanto do racionalismo seco quanto do culto ao irracional, e queria um pensamento capaz de levar a sério a função sentimento e a atmosfera afetiva entre as pessoas. A escrita, nesse contexto, virou também método: em textos como “Escrever e jogar fora”, eu propunha justamente isso, usar a escrita para expulsar barbaridades, registrar imagens irracionais, limpar o inconsciente, guardar apenas alguns marcos que me parecessem realmente significativos. Sem eu saber, ali eu já estava desenhando um modo de trabalhar comigo mesmo que hoje reconheço como uma forma de autoinvestigação persistente. Havia algo de terapêutico, de Jung, nesse método, mas também do “artesanato intelectual” de C. Wright Mills (cuja “imaginação sociológica” eu ainda não conhecia).
Porto Alegre: sociabilidade, política e amor não correspondido
No segundo semestre de 1978, mudei-me para Porto Alegre, passei a dividir apartamento com amigos e entrei na FAMECOS-PUC. Levei meus cadernos comigo, mas eles deixaram de ser o único lugar em que eu experimentava ideias. As conversas com colegas, as aulas, os bares, os ônibus, o clima politizado da cidade começaram a testar aquilo que eu vinha escrevendo sozinho.
Havia também, nessa mudança, uma dimensão afetiva decisiva. Eu estava apaixonado por uma garota de Caxias do Sul, por quem sentia um amor incondicional, e essa história pesava muito mais sobre mim do que eu conseguia admitir com clareza. Ela não foi vilã da minha história; ao contrário, sempre foi muito amiga, generosa dentro dos limites dela, embora quisesse de mim apenas amizade, enquanto namorava outro rapaz. O problema não estava em alguma crueldade dela, mas no fato de que nem ela sabia lidar bem com a intensidade do que eu sentia, nem eu sabia lidar com os meus próprios sentimentos. Estar em Porto Alegre significava também estar mais perto dessa possibilidade afetiva, com toda a esperança irracional que isso carregava.
A minha introversão não desapareceu, mas mudou de forma. Eu continuava escrevendo, como um existencialista, muitas vezes de madrugada, mas agora tinha diante de mim pessoas concretas, grupos, redações, reuniões, tensões políticas e afetivas. Porto Alegre funcionou como teste de realidade: minhas hipóteses (pretensiosas) sobre sentimento, atmosfera afetiva, irracionalismo, condicionamento e liberdade começaram a ser confrontadas com práticas políticas, com a imprensa alternativa, com a própria vida em apartamento e com a dor de um amor que não encontrava reciprocidade amorosa, embora encontrasse afeto e amizade.
1979: revelação, crise, morte e observação
Em 1979, os meus cadernos ficaram mais intensos. Escrevi sobre loucura, niilismo, morte, Deus, inconsciente, vontade de desaparecer, vontade de viver, quase sempre tentando tratar essas coisas não apenas como estados pessoais, mas como material de pensamento.
Uma madrugada de fevereiro marcou bastante: registrei o que chamei de “confirmação de Deus”. Durante uma tentativa de meditação, senti um zunido no ouvido e, junto com ele, uma espécie de evidência de que o inconsciente existe como fundo da realidade, independente do tempo físico, e de que a consciência é uma abertura por onde esse fundo se manifesta e se transforma. Pouco tempo depois, anotei na contracapa de A voz do silêncio, de Blavatsky (traduzido por Fernando Pessoa), outro desses “sons misteriosos” (algo como o som de címbalos, que são usados em rituais religiosos), e vi nisso um sinal de algo que eu ainda não sabia interpretar, mas me deixava feliz, de alguma forma.
Hoje me parece claro que parte importante dessas crises existenciais tinha relação com a situação amorosa que eu vivia. Quando escrevi que “a morte é a maior de todas as paixões” e descrevi dias em que atravessava horas inteiras sem ver sentido em nada, com vontade de me desintegrar, eu não estava reagindo apenas a problemas filosóficos abstratos. Havia ali também o sofrimento de amar profundamente uma pessoa que me queria bem, mas não da forma como eu desejava; de ser recebido com amizade quando o que eu queria era reciprocidade amorosa; e de não saber transformar isso em experiência suportável. A certa altura, essa vontade de morrer se transformou em imagem: eu via a morte como um pássaro ganhando liberdade num clarão, subindo cada vez mais alto. Mesmo em crise, porém, eu escrevia, me observava, tentava transformar a dor em imagem e a imagem em conceito. De algum modo, eu já confiava na escrita como forma de atravessar esses estados.
1979–1981: crítica da cultura, contradição e atenção
Ao longo de 1979, 1980 e 1981, fui intensificando uma crítica à cultura de massa, às ideologias fechadas, ao antimaterialismo superficial e ao intelectualismo abstrato. Eu desconfiava tanto dos que odiavam a matéria levianamente quanto dos que adoravam mercadorias e novidades sem perceber o vazio disso.
Comecei a escrever mais sobre condicionamento, sobre a facilidade de confundirmos nossas ideias com a realidade, sobre o perigo de prestar mais atenção aos próprios pensamentos do que ao mundo. A conclusão à qual eu voltava sempre era que a inteligência precisava se transformar em observação: observar os pensamentos, observar o corpo, observar a cidade, a natureza, observar as relações, sem me precipitar em julgamentos. Talvez porque sofresse tanto com aquilo que não conseguia resolver afetivamente, fui dando um valor cada vez maior à atenção ao momento presente. Educar a atenção me parecia algo difícil, mas necessário, uma tarefa de longo prazo para não viver apenas reagindo às minhas próprias projeções.
Literatura, autenticidade e profissão
Nesses mesmos anos, a minha relação com a literatura foi se redefinindo. Eu queria ser escritor, mas percebia que não bastava acumular leituras ou fazer exercícios de estilo; era preciso encontrar uma forma de escrever que fosse fiel ao que eu realmente vivia e pensava. Curtia autores como Dostoiévski, Stendhal, Virgínia Woolf, Kafka, Nabokov, Henry Miller, García Márquez, Cortázar e outros, além de autores brasileiros. Escrevi contos, experimentei formas mais tradicionais, com começo, meio e fim, tentando dar mais atenção ao conteúdo, à alma dos textos, e menos a certos experimentalismos que já não me satisfaziam.
Ao mesmo tempo, eu sabia que não podia depender dos meus pais indefinidamente. Por isso, busquei o Jornalismo, depois História, e tentei ligar a vontade de escrever a uma profissão concreta. Eu já intuía que a maturidade literária não viria apenas de livros, mas da "escola da vida" (como dizia meu pai): trabalho, cidade, ativismo socioambiental, doença, família, amor, crise.
1981–1982: politização da interioridade
A partir de 1981, minhas cartas à família começaram a carregar mais claramente o peso da política. Escrevi à minha mãe sobre capitalismo, patriarcalismo e opressão das mulheres, moral cristã decadente; à minha irmã, sobre classe dominante, televisão, revistinhas, ideologia; ao meu pai, sobre a imprensa, o jornal Denúncia (um jornal de oposição ao governo daquela época) a diferença entre jornalismo comercial e alternativo.
As leituras de Krishnamurti (Uma nova maneira de agir, entre vários outros), Hermann Hesse (Siddhartha, Demian, etc) e, depois, Rajneesh (autor de A harmonia oculta: discursos sobre os fragmentos de Heráclito), misturaram-se com o ativismo, com o PT, com a crítica à ditadura, à dívida externa, ao FMI. Eu não via espiritualidade e política como coisas opostas: para mim, descentralizar o poder em casa, questionar o “autoritarismo” do pai (algo também muito contraditório e ambivalente na minha perspectiva), duvidar da moral religiosa que pesava sobre a minha mãe, lutar contra a alienação na escola, participar de um jornal independente, tudo isso fazia parte de um mesmo movimento contraditório (como é a própria vida, um fenômeno complexo e não linear por natureza, por mais que isso ameace nossas buscas de segurança ontológica).
1982: desemprego, crise e “alma grande”
Em 1982, a prova veio pela via material. Eu precisava trabalhar e não conseguia emprego. Andei quilômetros, bati em portas de rádios, jornais, editoras, preenchi fichas, ouvi recusas, senti na pele a famosa crise econômica que até então era, para mim, sobretudo um tema de leitura e conversa. Nas cartas, liguei diretamente a minha situação ao contexto maior: FMI, generais, dívida externa, entrega das riquezas ecológica nacionais, saturação do mercado de trabalho.
Esse período me levou ao limite em termos de esperança e desânimo. Escrevi a meus pais dizendo que oscilava entre otimismo e pessimismo, que às vezes dava vontade de chorar, que eu já não sabia se queria ser jornalista, que desconfiava até das minhas escolhas. E, no entanto, nessa mesma carta, falei de uma “alma grande” que abraçava tudo e de uma estranha desconfiança de ser imortal, não num sentido religioso barato, mas como imagem da minha capacidade de recomeçar. Ao escrever isso, eu estava tentando confiar que toda aquela formação — cadernos, leituras, meditações, críticas, experiências ecopolíticas e afetivas — serviria justamente para atravessar momentos assim, sem endurecer por dentro nem desistir de pensar (ou melhor, sentipensar).
Fechamento provisório
Quando olho hoje para esse período de 1975 a 1982, vejo menos uma história de promessas e mais um longo treinamento em atenção, autocrítica e coragem para não me deixar capturar por sistemas prontos. Eu buscava, ao mesmo tempo, autoconhecimento, literatura, filosofia, espiritualidade, política, amor e uma profissão, sem conseguir separar claramente essas áreas. O que foi se consolidando, aos trancos e barrancos, foi um modo de pensar que tenta sempre religar o íntimo e o social, o cotidiano e o histórico, o corpo e a linguagem, a crítica e a imaginação.
Anos depois, quando li Edgar Morin, Guerreiro Ramos e outros autores, reconheci em suas ideias algo que eu já vinha tateando: a necessidade de uma razão aberta e complexa, a crítica da razão instrumental, a valorização do cotidiano, a relação hologramática entre parte e todo. Mas, entre 1975 e 1982, eu ainda não tinha esses nomes; o que eu tinha eram cadernos, cartas, crises, alguns livros decisivos e a sensação de que, se eu não escrevesse sobre tudo isso, a minha alma ficaria menor do que poderia ser.
P.S. Para elaborar esse texto digitalizei alguns escritos iniciais de meus "cadernos de anotações" e usei IA Adapta One 26 para transformar uma foto minha de 1974 (16 anos).



Bjs. primo