Guerreiro Ramos, Agnes Heller e Hannah Arendt: vida boa, produtivismo e política
- Sérgio Luís Boeira
- 3 de abr.
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Introdução
A retomada contemporânea do termo bem viver por movimentos sociais e por cosmologias indígenas latino‑americanas recoloca no centro do debate crítico uma pergunta fundamental: o que significa viver bem em sociedade? Para além do crescimento econômico e da eficiência institucional, essa questão desafia um horizonte moderno marcado pelo produtivismo – uma racionalidade que tende a reduzir a vida humana à lógica do trabalho, da administração e da acumulação (GUERREIRO RAMOS, 1981; HELLER, 1987; ARENDT, 2007).
Nesse contexto, este artigo aproxima três tradições teóricas distintas – Alberto Guerreiro Ramos, Agnes Heller e Hannah Arendt – e argumenta que, apesar de suas diferenças, elas convergem na crítica à colonização da existência pela racionalidade instrumental. A partir desse diálogo, torna‑se possível reconstruir um horizonte normativo que articula vida boa, racionalidade substantiva e política, abrindo espaço para um diálogo com formulações contemporâneas do bem viver andino (ACOSTA, 2016; SALGADO, 2010).

Vida boa, paraeconomia e homem parentético em Guerreiro Ramos
Nas obras maduras, especialmente em A nova ciência das organizações (GUERREIRO RAMOS, 1981; 2022), Guerreiro Ramos formula o paradigma paraeconômico como alternativa à hegemonia do mercado na organização da vida social. A partir da distinção entre enclaves econômico, isonômico e fenonômico, o autor sustenta que o mercado não deve ser o princípio regulador de toda a vida humana associada. O produtivismo – entendido como redução da existência ao funcionalismo, ao utilitarismo, ao gerencialismo – coloniza a sociedade por meio da lógica da eficiência e da acumulação, transformando indivíduos em seres operacionais ajustados às exigências das organizações.
O paradigma paraeconômico procura recolocar a economia em seu devido lugar, como um enclave específico entre outros. Enclaves isonômicos – voltados à deliberação, ao autogoverno e à igualdade – e enclaves fenonômicos – dedicados ao autocultivo, à convivência, à criatividade – passam a ser concebidos como espaços institucionais indispensáveis à vida boa. Politizar a economia, para Guerreiro Ramos, significa subordiná‑la a uma racionalidade substantiva, orientada por critérios de justiça, autorrealização e qualidade de vida, e não apenas por índices de crescimento (BOEIRA, 2023).
Nesse quadro ganha destaque a figura da atitude ou homem parentético, conceito que designa o indivíduo capaz de suspender momentaneamente a adesão acrítica à vida operacional. O homem parentético introduz “parênteses” na rotina funcionalizada, autoquestionando-se, conquistando distanciamento reflexivo em relação às pressões sistêmicas. Essa suspensão abre espaço para introspecção, autocultivo, criatividade e deliberação ética, evitando que a socialização se esgote na reprodução de papéis e na obediência à racionalidade instrumental. O homem parentético é, portanto, a contraface subjetiva do paradigma paraeconômico: sem sujeitos capazes de reflexão parentética, os enclaves isonômicos e fenonômicos não passam de estruturas vazias. Ele sintetiza a aposta de Guerreiro Ramos em uma forma de vida que não exaure as energias humanas no trabalho, mas reserva tempo e espaço para o desenvolvimento das potencialidades e para a busca de uma vida boa em sentido forte.
Agnes Heller: necessidades radicais, vida cotidiana e autorrealização
Agnes Heller recoloca o problema da vida boa a partir da ética da vida cotidiana e da teoria das necessidades. Em A Theory of Need in Marx (HELLER, 1976) e Beyond Justice (HELLER, 1987), a autora distingue entre necessidades adaptativas, que podem ser satisfeitas dentro das estruturas sociais vigentes, e necessidades radicais, cuja realização exige transformações profundas na forma de vida e na organização da sociedade. As necessidades radicais apontam para uma vida decente, que não se confunde com o mero consumo de bens ou com a adequação ao status quo, mas pressupõe liberdade, dignidade e participação em relações socialmente justas.
Heller sustenta que a modernidade produz, ao mesmo tempo, novas possibilidades de autorrealização e formas sofisticadas de heteronomia, tanto no capitalismo quanto em experiências burocrático‑socialistas. A “ditadura sobre as necessidades” se expressa quando o Estado ou o mercado definem de fora aquilo de que as pessoas “precisam”, colonizando desejos, expectativas e modos de vida. Em Beyond Justice, Heller critica concepções puramente procedimentais de justiça e insiste que qualquer teoria da justiça precisa ser ancorada em valores supremos, como vida, liberdade e dignidade. A justiça formal é necessária, mas insuficiente; a vida boa exige escolhas éticas conscientes em um mundo sem teleologias garantidas.
Vista a partir dessa ética da vida cotidiana, a figura do homem parentético ganha um contorno helleriano preciso. Tal como o sujeito que passa do self‑being (auto-ser) ao self‑acting (auto-agir) (HELLER, 1987), o homem parentético rompe com o plano existencial ingênuo, distanciando‑se de rotinas acríticas para assumir responsabilidade por seus valores e por seu estilo de vida. Em ambos os casos, trata‑se de recusar a redução do indivíduo a função ou papel organizacional, reforçando a necessidade de espaços de reflexão, de autorrealização e de escolhas substantivas. A autorrealização não é mera autoexpressão; ela se dá no entrelaçamento de necessidades radicais, valores universais e práticas cotidianas, em diálogo com outros e com a história.
Hannah Arendt: vita activa, homo faber e limites da introspecção
Hannah Arendt elabora sua crítica ao produtivismo ao reinterpretar a vita activa em A condição humana (ARENDT, 2007). A distinção entre labor, obra e ação permite mostrar como a modernidade tende a elevar o labor – atividade ligada à mera reprodução da vida – e o homo faber – figura que transforma o mundo em matéria de fabricação – ao centro da existência. A “sociedade do trabalho” promove um modo de vida funcionalizado, em que a experiência humana é empobrecida pela centralidade da necessidade e da utilidade, em detrimento da ação política livre.
A crítica arendtiana ao animal laborans e ao homo faber ressoa com a denúncia de Guerreiro Ramos ao “homem operacional”: em ambos os casos, trata‑se de apontar o empobrecimento da condição humana quando a existência é capturada pela lógica do desempenho, da utilidade e do cálculo. Ao reduzir o sujeito a trabalhador ou produtor, esvazia‑se o espaço da ação, da pluralidade e da iniciativa.
Arendt, porém, acrescenta uma dimensão decisiva ao recolocar em cena a vita contemplativa em A vida do espírito (ARENDT, 2000). Pensar, querer e julgar são atividades indispensáveis para a responsabilidade moral e política. De certa forma, o homem parentético de Guerreiro Ramos pode ser aproximado dessa figura que suspende automatismos para examinar a si e ao mundo. No entanto, para Arendt, a contemplação só cumpre plenamente seu papel quando reencontra o mundo comum. A introspecção que não retorna ao espaço público corre o risco de se converter em isolamento apolítico. A plenitude da condição humana exige, portanto, a complementaridade e a tensão entre contemplação e ação: refletir para poder agir de forma responsável, e agir para não romper o vínculo com a pluralidade dos outros.
Bem viver andino, razão substantiva e imaginação utópica
O diálogo entre Guerreiro Ramos, Heller e Arendt permite iluminar aproximações fecundas com o bem viver andino, elaborado contemporaneamente por autores como Alberto Acosta (2016) e Francisco Salgado (2010). O bem viver (buen vivir, sumaq kawsay) se apresenta como uma alternativa ao paradigma do desenvolvimento e do crescimento indefinido, enfatizando reciprocidade comunitária, equilíbrio ecológico, tempo livre, suficiência, qualidade das relações e pluralidade cultural.
Esses valores convergem com a crítica de Guerreiro Ramos à centralidade absoluta do enclave econômico e com sua defesa de uma racionalidade substantiva e de um paradigma paraeconômico, no qual a economia seja politicamente limitada e subordinada à emancipação humana. Convergem também com a insistência de Heller em necessidades radicais e vida decente, bem como com a defesa arendtiana de uma esfera pública viva, na qual a liberdade e a pluralidade possam florescer.
Francisco Salgado (2010), em particular, interpreta o sumaq kawsay como um horizonte organizacional afinado com o pensamento de Guerreiro Ramos. Ao articular a noção andina de bem viver à delimitação de sistemas sociais proposta pelo autor brasileiro, Salgado mostra como isonomias e fenonomias podem ser lidas como espaços organizacionais e comunitários coerentes com a racionalidade substantiva e com a crítica à colonização mercantil. Nessa leitura, o bem viver andino funciona como nome local para a vida boa que Guerreiro Ramos reivindica: um modo de existência em que a economia é recolocada em seu lugar, a política é revalorizada e a autorrealização humana é possibilitada em termos comunitários e ecológicos. Isso dialoga diretamente com a busca helleriana por uma vida decente ancorada em valores de vida, liberdade e dignidade, e com a preocupação arendtiana com a preservação de um mundo comum.
Conclusão
Tomados em conjunto, Alberto Guerreiro Ramos, Agnes Heller e Hannah Arendt oferecem três perspectivas complementares para enfrentar o produtivismo e reconstruir a política em torno da vida boa. No plano institucional, Guerreiro Ramos mostra que nenhuma ética substantiva se sustenta se a arquitetura social permanecer organizada apenas para a eficiência econômica. O paradigma paraeconômico e a figura do homem parentético apontam para a necessidade de delimitar o enclave econômico e de fortalecer enclaves isonômicos e fenonômicos, bem como de formar sujeitos capazes de reflexão, criatividade e autocontenção. No plano biográfico e cotidiano, Heller evidencia que a vida boa exige uma ética das necessidades e da personalidade, em que sujeitos reorganizam seu cotidiano à luz de necessidades radicais e valores universais, recusando tanto a heteronomia do mercado quanto a das burocracias. No plano da experiência política, Arendt lembra que nenhuma concepção de bem viver se mantém se o espaço público for reduzido à gestão técnica ou colonizado pelo econômico: a dignidade humana implica a possibilidade de agir e falar em comum, inaugurando novos começos.
O bem viver andino, ao enfatizar reciprocidade, suficiência e cuidado com a natureza, oferece uma ressonância contemporânea desse triplo diagnóstico crítico. A tarefa teórica e política que emerge desse diálogo é imaginar – e instituir – formas de vida que não esgotem as energias humanas no trabalho e no desempenho, mas reservem espaço duradouro para reflexão, convivência e ação coletiva substantiva. Em vez de abandonar a ideia de vida boa por temor de seu caráter normativo, Guerreiro Ramos, Heller e Arendt mostram que é precisamente por meio da reconstrução crítica desse horizonte que se pode enfrentar o produtivismo e reabrir possibilidades para um futuro mais justo, plural e sustentável.
Referências
ACOSTA, Alberto. O Bem Viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo: Autonomia Literária, 2016.
ARENDT, Hannah. A condição humana. 11. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.
ARENDT, Hannah. A vida do espírito. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2000.
BOEIRA, Sérgio L. Atualidade da obra de Guerreiro Ramos: as novas gerações de guerreiristas. Curitiba: Appris, 2023.
GUERREIRO RAMOS, Alberto. A nova ciência das organizações: uma reconceituação da riqueza das nações. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getulio Vargas, 1981.
GUERREIRO RAMOS, Alberto. A nova ciência das organizações: uma reconceituação da riqueza das nações. 1. ed. da nova tradução. São Paulo: Enunciado Publicações, 2022.
GUERREIRO RAMOS, Alberto. The New Science of Organizations: A Reconceptualization of the Wealth of Nations. New York: Praeger, 1981.
HELLER, Ágnes. A Theory of Need in Marx. London: Allison & Busby, 1976.
HELLER, Ágnes. Beyond Justice. Oxford: Basil Blackwell, 1987.
SALGADO, Francisco. “Sumaq Kawsay: the birth of a notion?”. Cadernos EBAPE.BR, Rio de Janeiro, v. 8, n. 3, p. 503-515, 2010.



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