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Guerreiro Ramos e Bourdieu na compreensão de redes de agroecologia e economia solidária

Atualizado: 12 de jun.

A comparação entre Pierre Bourdieu e Alberto Guerreiro Ramos pode ser muito fecunda quando deslocada do plano genérico das grandes teorias para um problema mais preciso: como cada autor concebe a arquitetura da vida social e como essa arquitetura ajuda a interpretar experiências concretas de agroecologia e economia solidária no Sul do Brasil. Nesse terreno, Bourdieu oferece uma sociologia dos campos e capitais, enquanto Guerreiro Ramos elabora uma teoria da delimitação dos sistemas sociais fundada em enclaves e racionalidades. A comparação não deve forçar equivalências onde elas não existem, mas pode aproximar pares conceituais diretamente alinhados –  campo e enclave, capital e racionalidade, reprodução e mercadocentrismo – para iluminar um mesmo objeto empírico por ângulos distintos (Thiry-Cherques, 2006; Guerreiro Ramos, 1981; 2022; França Filho, 2010; Guedes, 2025).



Essa abordagem se torna particularmente útil diante de dois exemplos: a Rede Ecovida de Agroecologia, articulada em Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, e o Empório Ecosol, instalado no Mercado Público de Florianópolis. A Rede Ecovida reúne núcleos regionais, grupos de agricultores, cooperativas, associações, consumidores e organizações de apoio em torno da agroecologia, da certificação participativa e da circulação de alimentos ecológicos. O Empório Ecosol, por sua vez, se apresenta como espaço de comercialização, encontro, trocas e fortalecimento da economia solidária, articulando geração de renda, autogestão e vínculos comunitários em escala urbana (2016; Perez-Cassarino; Meirelles, 2012; Magnanti, 2008; Univali, 2019; Empório Ecosol, s.d.).

Tomados em conjunto, esses casos permitem ver com nitidez tanto as lutas por legitimação e recursos descritas por Bourdieu quanto a busca por diversificação de enclaves substantivos formulada por Guerreiro Ramos. Eles mostram, ao mesmo tempo, processos de coordenação econômica, disputas por reconhecimento, densidade associativa e tentativas de organizar a vida social para além da lógica estrita do mercado (Thiry-Cherques, 2006; Guerreiro Ramos, 1981; Guedes, 2025; Araújo et al., 2013).


Bourdieu: campos, capitais e lutas por legitimidade


Em Bourdieu, a sociedade não aparece como um bloco homogêneo, mas como um conjunto de campos relativamente autônomos, isto é, microcosmos estruturados por regras próprias, posições diferenciadas e disputas permanentes pelo poder de definir o jogo social. Cada campo é sustentado por formas específicas de capital – econômico, cultural, social e simbólico – cuja distribuição desigual organiza as hierarquias entre os agentes e condiciona suas estratégias. A dinâmica dos campos não é redutível à intenção subjetiva dos atores, pois ela depende também do habitus, entendido como sistema de disposições incorporadas que orienta percepções, preferências e práticas (Thiry-Cherques, 2006; Silva, 2010).


Essa perspectiva é extremamente poderosa para compreender como práticas sociais aparentemente virtuosas ou alternativas continuam atravessadas por relações de força. Redes agroecológicas, empreendimentos solidários, fóruns participativos e iniciativas de comercialização coletiva não existem em um vazio institucional; eles disputam reconhecimento, financiamento, visibilidade e legitimidade em campos já ocupados por agentes dotados de capitais muito superiores. Nesse sentido, a análise bourdieusiana ajuda a compreender por que projetos de economia solidária ou agroecologia precisam, ao mesmo tempo, afirmar valores éticos e acumular recursos estratégicos capazes de lhes garantir permanência e influência (Thiry-Cherques, 2006; Carvalho, 2020; Silva, 2010).


Aplicada à Rede Ecovida, essa abordagem mostra que a agroecologia não é apenas um modo de produzir alimentos, mas também uma posição em disputa nos campos agrícola, político, científico e do consumo. A própria certificação participativa pode ser lida como mecanismo de produção de capital simbólico, ao redefinir o que conta como qualidade, confiança e legitimidade em oposição aos dispositivos convencionais de certificação mercantilizada. Da mesma forma, os circuitos de circulação de alimentos e a articulação entre famílias agricultoras, ONGs e consumidores reforçam capital social e capital político, ampliando a capacidade da Rede de influenciar agendas públicas e padrões de mercado (Magnanti, 2008; Perez-Cassarino; Meirelles, 2012; Rede Ecovida de Agroecologia, 2022a; Rede Ecovida de Agroecologia, 2022b).


Guerreiro Ramos: enclaves, racionalidades e sociedade multicêntrica


Se Bourdieu organiza sua arquitetura do mundo social por meio de campos e capitais, Guerreiro Ramos propõe, em sua última obra, uma leitura baseada na delimitação dos sistemas sociais e na coexistência de diferentes enclaves em uma sociedade multicêntrica. O ponto de partida é a crítica à sociedade mercadocêntrica, na qual o sistema social da economia, regido pela racionalidade instrumental, tende a colonizar dimensões da vida que, por sua natureza, não deveriam ser reduzidas ao cálculo utilitário. Contra essa hipertrofia da economia, Guerreiro Ramos elabora uma teoria em que a vida social precisa ser compreendida pela articulação entre distintos enclaves, cada qual orientado por formas específicas de racionalidade e experiência humana (Guerreiro Ramos, 1981; 2022; França Filho, 2010; Guedes, 2025).


Nesse quadro, três conceitos assumem lugar central: economia, isonomia e fenonomia. A economia, conforme já foi apontado, designa o enclave em que predomina a razão instrumental, isto é, o cálculo de meios e fins, a eficiência, a produtividade e a organização funcional. A isonomia refere-se a contextos de convivência entre pares, marcados por relações horizontais, participação ampliada, cooperação e orientação substantiva da ação. A fenonomia, por sua vez, aponta para espaços de autonomia criativa, vocação e busca autorrealização (sempre incerta), em que a ação humana é avessa a prescrições heterônomas (Guerreiro Ramos, 1981; Boeira, 2023; Araújo et al., 2013; Simon; Boeira, 2020). Guerreiro Ramos defendia a ideia de que em situações mistas de isonomia e fenonomia haveria maior probabilidade de emergência de racionalidade substantiva.


A força da proposta guerreirista está em não demonizar a economia como enclave, mas em recusar seu predomínio absoluto. O problema não é a existência da razão instrumental, e sim sua generalização como critério supremo da vida social. Por isso, a teoria da delimitação dos sistemas sociais defende uma recontextualização da razão instrumental pela razão substantiva, de modo que o mercado seja contido e disciplinado por uma arquitetura social mais rica, capaz de oferecer aos indivíduos múltiplas oportunidades de ação em diferentes enclaves. Nesse horizonte, autorrealização humana e sustentabilidade institucional dependem precisamente da diversificação desses enclaves e da recusa do confinamento do sujeito a uma única lógica organizadora (Guerreiro Ramos, 1981; 2022; Boeira, 2023; Guedes, 2025; Araújo et al., 2013).


Pares conceituais para o confronto


A comparação entre Bourdieu e Guerreiro Ramos ganha consistência quando se trabalha com pares diretamente alinhados, sem apagar as diferenças de fundo entre os dois autores. O primeiro par é campo/enclave. O campo, em Bourdieu, é um espaço relacional de posições e lutas; o enclave, em Guerreiro Ramos, é um tipo de sistema social delimitado por certo padrão de racionalidade e convivência. O segundo par é capital/racionalidade. Em Bourdieu, o capital organiza a distribuição do poder nos campos; em Guerreiro Ramos, a racionalidade organiza a qualidade dos enclaves e o lugar que eles ocupam na arquitetura da vida social (Thiry-Cherques, 2006; Guerreiro Ramos, 1981; 2022; Guedes, 2025).


Um terceiro par é reprodução/mercadocentrismo. Bourdieu oferece um diagnóstico agudo da reprodução das desigualdades mediante a concentração de capitais e a naturalização da dominação por meio da violência simbólica. Guerreiro Ramos, por sua vez, diagnostica a patologia de uma sociedade em que o enclave econômico se expande indevidamente, subordinando à racionalidade instrumental esferas que deveriam ser regidas por critérios substantivos. Um quarto par pode ser formulado como transformação/recontextualização. Em Bourdieu, a mudança depende da modificação das correlações de força nos campos e da disputa pelo monopólio da definição legítima do real; em Guerreiro Ramos, a mudança exige redesenho institucional e político da arquitetura social, de modo a ampliar isonomias e fenonomias e subordinar o mercado a finalidades humanas e ecológicas mais amplas (Thiry-Cherques, 2006; Carvalho, 2020; França Filho, 2010; Guedes, 2025).


Esses pares não indicam simetria perfeita. A sociologia de Bourdieu permanece mais descritiva dos mecanismos de luta e reprodução, embora carregue uma crítica vigorosa da dominação e do neoliberalismo. Já Guerreiro Ramos explicita uma normatividade epistemológica e política ao assumir que toda ciência social é normativa, seja de forma aberta ou velada, e ao reconstruir o horizonte institucional desejável de uma sociedade multicêntrica. Mas justamente por isso o confronto se torna produtivo: um autor mostra com precisão as forças que bloqueiam a transformação, enquanto o outro oferece categorias para pensar a forma institucional de uma transformação substantiva (Carvalho, 2020; França Filho, 2010; Guedes, 2025).


A Rede Ecovida entre campos e enclaves


A Rede Ecovida de Agroecologia constitui um objeto empírico privilegiado para essa dupla leitura. Criada no final dos anos 1990, ela se consolidou como articulação regional capaz de reunir famílias agricultoras, grupos informais, associações, cooperativas, ONGs e consumidores. Seus textos institucionais e sua descrição em trabalhos acadêmicos indicam uma estrutura descentralizada, horizontal e apoiada em princípios agroecológicos, em formas participativas de certificação e em circuitos próprios de circulação de alimentos (Rede Ecovida de Agroecologia, 2022a; Perez-Cassarino; Meirelles, 2012; Magnanti, 2008).


Pelo prisma de Bourdieu, a Rede Ecovida pode ser entendida como agente coletivo que atua simultaneamente em vários campos. No campo agrícola, confronta a hegemonia do agronegócio e do produtivismo convencional. No campo político, busca reconhecimento institucional, apoio a circuitos curtos de comercialização e proteção à agricultura familiar ecológica. No campo do consumo, trabalha para redefinir qualidade alimentar, confiança e vínculo entre produtor e consumidor. A análise bourdieusiana revela a Rede como espaço de lutas por legitimidade, capaz de acumular capitais alternativos e disputar posições com agentes dominantes (Thiry-Cherques, 2006; Magnanti, 2008; Perez-Cassarino; Meirelles, 2012).


Essa luta se dá por meio da conversão entre diferentes capitais. O capital social aparece na densidade dos vínculos de cooperação entre agricultores, técnicos, consumidores e entidades de apoio. O capital cultural manifesta-se nos saberes acumulados sobre produção agroecológica, certificação participativa, manejo ecológico e organização coletiva. O capital simbólico cresce à medida que a agroecologia passa a ser reconhecida não só como técnica de produção, mas como princípio de vida boa, saúde, sustentabilidade e responsabilidade social (Magnanti, 2008; Perez-Cassarino; Meirelles, 2012; Rede Ecovida de Agroecologia, 2022b).


Entretanto, a leitura por campos não esgota o significado da experiência. Pela ótica de Guerreiro Ramos, a Rede Ecovida pode ser compreendida como arranjo multicêntrico em que economia, isonomia e fenonomia se articulam de modo singular. Há economia porque existe produção, circulação e comercialização de alimentos, com exigências de coordenação, trabalho, logística e sustentabilidade material. Há isonomia porque o funcionamento da Rede é assumidamente horizontal e descentralizado, baseado em grupos, associações e cooperativas, com forte peso da cooperação e da construção coletiva. Há fenonomia porque a agroecologia, ali, não se reduz a uma ocupação produtiva: ela envolve estilos de vida, valores, vínculos com o território, saberes tradicionais e formas de autorrealização pessoal e comunitária (Guerreiro Ramos, 1981; 2022; Araújo et al., 2013; Simon; Boeira, 2020; Rede Ecovida de Agroecologia, 2022a; Rede Ecovida de Agroecologia, 2022b).


A Rede Ecovida, nesse sentido, não é apenas um ator que disputa capitais em campos preexistentes; ela é também uma tentativa prática de compor enclaves substantivos capazes de conter o enclave econômico e subordiná-lo a critérios de vida, sustentabilidade e convivência. É isso que lhe confere enorme interesse teórico: a Rede não apenas resiste ao mercado dominante, mas ensaia uma outra arquitetura do viver social, em que a produção de alimentos é inseparável da educação, da saúde, da cultura e do cuidado ecológico (Guerreiro Ramos, 1981; 2022; França Filho, 2010; Guedes, 2025; Rede Ecovida de Agroecologia, 2022b).


O Empório Ecosol como enclave urbano substantivo


O Empório Ecosol, no Mercado Público de Florianópolis, permite deslocar a análise para uma escala mais localizada, urbana e cotidiana. Apresentado como espaço de comercialização, encontro, saberes e trocas, ele reúne práticas de economia solidária em um equipamento tradicional do centro da cidade, articulando geração de renda, visibilidade pública e convivência. Sua inserção em redes de economia solidária e sua vinculação a iniciativas de apoio institucional mostram que se trata de uma experiência pequena em escala, mas rica em densidade sociológica, já que vinculado a uma Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP) universitária (Univali, 2019; Empório Ecosol, s.d.).


Pelo olhar de Bourdieu, o Empório Ecosol pode ser lido como posição frágil, porém ativa, no interior do campo econômico urbano e do campo político-institucional da economia solidária. Seu desafio é transformar capitais limitados em visibilidade, confiança, reputação e legitimidade diante de consumidores, gestores públicos e atores econômicos mais fortes. A presença no Mercado Público implica convivência direta com padrões convencionais de comercialização, turismo, consumo e competição, o que torna ainda mais nítida a assimetria de capitais em jogo (Thiry-Cherques, 2006; Carvalho, 2020; Univali, 2019).


Mas a perspectiva guerreirista permite enxergar no Empório algo mais que uma posição dominada em luta por reconhecimento. O Empório funciona como enclave híbrido: econômico porque comercializa bens e garante renda; isonômico porque se apresenta como espaço de trocas, encontros e fortalecimento da economia solidária; fenonômico porque acolhe dimensões de expressão artesanal, criativa e identitária que não cabem plenamente na lógica empresarial convencional. Sua importância teórica reside justamente em mostrar que a economia urbana não precisa ser lida apenas como mercado competitivo, mas pode abrigar formas substantivas de cooperação e autorrealização mesmo em espaços atravessados por fluxos mercantis intensos (Guerreiro Ramos, 1981; 2022; Araújo et al., 2013; Empório Ecosol, s.d.).


O Empório Ecosol ajuda ainda a perceber que a teoria de Guerreiro Ramos não se aplica apenas a grandes redes ou políticas de escala ampla. Mesmo um espaço local pode ser analisado como dispositivo de diversificação de oportunidades humanas entre enclaves, oferecendo a seus participantes não só renda, mas também pertencimento, participação e reconhecimento de vocações. Em termos de Bourdieu, isso pode ser traduzido como disputa por capital simbólico e capital social; em termos de Guerreiro Ramos, trata-se de verificar até que ponto tal experiência efetivamente amplia a presença da racionalidade substantiva na cidade (Thiry-Cherques, 2006; Guerreiro Ramos, 1981; 2022; Araújo et al., 2013).


Crise ecológica e vantagem heurística de Guerreiro Ramos


Um dos pontos em que a comparação se torna mais assimétrica diz respeito à questão ecológica. Bourdieu oferece instrumentos robustos para analisar como problemas ambientais entram nos campos político, científico e midiático como objetos de disputa simbólica e institucional. Sua teoria permite mostrar quem define legitimamente o problema ecológico, que interesses prevalecem, como se distribuem custos e benefícios e de que modo a racionalidade dominante enfraquece a autonomia do campo político frente ao poder econômico. Contudo, a dimensão biofísica da crise não aparece como princípio estruturante de sua teoria; ela tende a entrar como objeto de luta entre agentes (Thiry-Cherques, 2006; Carvalho, 2020; Silva, 2010).


Em Guerreiro Ramos ocorre o inverso. Nos capítulos finais de sua última obra, a crítica ao paroquialismo do pensamento dominante se articula diretamente à crise ecológica, ao esgotamento de recursos e à necessidade de reconceituar a riqueza das nações para além da expansão abstrata do mercado. A nova ciência das organizações se desdobra em uma nova ciência de alocação de recursos, subordinada à política e a critérios de sustentabilidade e respeito a limites naturais e humanos. É por isso que sua teoria dos enclaves possui clara vantagem heurística quando se trata de pensar agroecologia, economia solidária e transição ecológica: ela não apenas descreve conflitos, mas oferece um léxico para imaginar a redistribuição institucional entre economia, isonomia e fenonomia sob limites biofísicos (Guerreiro Ramos, 1981; 2022; Boeira, 2023; França Filho, 2010; Guedes, 2025).


A Rede Ecovida evidencia exatamente essa vantagem. Seus princípios incluem qualidade de vida, saúde, educação, lazer, cultura e sustentabilidade agroecológica, de modo que o circuito econômico aparece desde o início reordenado por valores substantivos e ecológicos. Isso também vale, em escala distinta, para o Empório Ecosol, que se define por práticas solidárias e conscientes. Em ambos os casos, a leitura de Guerreiro Ramos permite compreender não apenas a luta por espaço social, mas a tentativa de materializar enclaves que respondam simultaneamente à crise do trabalho, à crise ecológica e à crise existencial produzida pela centralidade total do mercado (Rede Ecovida de Agroecologia, 2022b; Univali, 2019; Guerreiro Ramos, 1981; 2022; Guedes, 2025).


Considerações finais


Confrontar Bourdieu e Guerreiro Ramos a partir da arquitetura da vida social não significa decidir qual teoria é superior em termos absolutos. Significa reconhecer que elas operam em registros distintos, mas complementares. Bourdieu continua indispensável para desvendar as estruturas de poder, as disputas de legitimação e os mecanismos de reprodução que atravessam experiências como a Rede Ecovida e o Empório Ecosol. Guerreiro Ramos, por sua vez, torna-se decisivo quando se quer compreender o conteúdo civilizatório dessas experiências, isto é, sua capacidade de instituir enclaves substantivos, reordenar a relação entre mercado e vida e responder a crises ecológicas e existenciais que excedem a gramática das lutas de campo (Thiry-Cherques, 2006; Carvalho, 2020; Guerreiro Ramos, 1981; 2022; Boeira, 2023; Guedes, 2025).


Vistas por essa lente dupla, Rede Ecovida e Empório Ecosol não aparecem apenas como casos de sucesso ou nichos alternativos de mercado. Elas podem ser lidas como experiências concretas em que se testa, no cotidiano, a possibilidade de uma sociedade menos submetida ao mercadocentrismo e mais aberta à pluralização das formas de produzir, conviver e realizar-se. Talvez seja justamente aí que o diálogo entre Bourdieu e Guerreiro Ramos ganhe sua maior atualidade: um ajuda a compreender por que tais experiências precisam lutar tanto para existir; o outro ajuda a pensar por que sua existência importa para além de sua escala imediata, como ensaio de uma outra arquitetura da vida social (França Filho, 2010; Guedes, 2025; Araújo et al., 2013).


P.S.: Usei IA Perplexity Pro no levantamento de informações e Copilot na elaboração da imagem que ilustra esse artigo, tendo revisado a versão final, sobre a qual assumo inteira responsabilidade.

 

Referências

 

ARAÚJO, G. E. et al. Economia solidária à luz do ambiente isonômico de Guerreiro Ramos: vivências do “Grupo de Mulheres Decididas a Vencer”. Revista Eletrônica de Ciências Administrativas (RECADM), Curitiba, v. 12, n. 1, p. 58‑74, 2013.

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GUEDES, L. T. A teoria da delimitação dos sistemas sociais e sua missão social. Estudos de Administração e Sociedade, Niterói, v. 10, n. 2, 2025.

GUERREIRO RAMOS, A. A nova ciência das organizações: uma reconceituação da riqueza das nações. Florianópolis, Enunciado Publicações, 2022.

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MAGNANTI, N. J. Circuito Sul de circulação de alimentos da Rede Ecovida de Agroecologia. Revista Agriculturas: Experiências em Agroecologia, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 26‑29, 2008.

PEREZ‑CASSARINO, J.; MEIRELLES, L. Rede Ecovida de Agroecologia: origens, princípios e sua concepção de comercialização. In: MALUF, R. S.; FLEXOR, G. (org.). Abastecimento alimentar: redes alternativas e mercados institucionais. Rio de Janeiro: IPEA, 2012. p. 237‑263.

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