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Redes sociais, status e meritocracia: Veblen, Markovits e Sandel

Narcisismo patológico nas redes sociais resulta da busca de status
Narcisismo patológico nas redes sociais resulta da busca de status

Introdução: Redes sociais como infraestruturas de status


Nota: Esse texto resultou de uma conversa que tive com a IA Adapta ONE 26. Passou por revisão, edição e melhorias tanto no conteúdo quanto na forma, para que ficasse do jeito que desejo. Embora haja aqui um padrão de escrita mais impessoal, ele está adequado ao propósito de uma comunicação mais direta e didática, para uso de professores e estudantes universitários. Ao final há algumas questões que podem ser usadas como exercício em sala de aula.

As redes sociais, inicialmente concebidas como ferramentas de conexão e comunicação, transcenderam sua função original para se tornarem complexas infraestruturas de status. Nesses ambientes digitais, a exibição de estilos de vida, conquistas e opiniões molda percepções e hierarquias sociais. A forma como indivíduos e grupos se posicionam e são percebidos online reflete e amplifica dinâmicas sociais profundas, que podem ser analisadas à luz de pensadores como Thorstein Veblen, Daniel Markovits e Michael Sandel. Este ensaio explora como as redes sociais se tornaram palcos contemporâneos para o consumo conspícuo, a armadilha da meritocracia e a tirania do mérito, impactando a solidariedade e o próprio conceito de bem comum.


Veblen nas redes sociais: Consumo e ócio conspícuos na era digital


Thorstein Veblen, em The Theory of the Leisure Class, descreveu como as elites do século XIX utilizavam o consumo e o ócio conspícuos para sinalizar seu status social. Em vez de simplesmente satisfazer necessidades, o consumo tornava-se uma linguagem pública de superioridade, e a capacidade de exibir tempo livre (ócio) demonstrava a ausência de necessidade de trabalho manual. Nas redes sociais, essa lógica vebleniana encontra um terreno fértil e amplificado.

O consumo conspícuo se manifesta na curadoria de feeds com viagens luxuosas, refeições em restaurantes exclusivos, roupas de grife e gadgets de última geração. A postagem não é apenas sobre a experiência em si, mas sobre a demonstração pública de acesso a bens e serviços que denotam prestígio. Da mesma forma, o ócio conspícuo é performado através de fotos e vídeos de férias prolongadas, rotinas de bem-estar que exigem tempo e recursos, ou a participação em eventos culturais e esportivos de elite. O valor não reside apenas no desfrute, mas na capacidade de comunicar a disponibilidade de tempo e recursos para tais atividades.

A emulação, outro conceito vebleniano, é central nas redes. Usuários aspiram a replicar os estilos de vida de influenciadores e celebridades, buscando validação e pertencimento. As métricas de engajamento – curtidas, seguidores, comentários – funcionam como um placar público de prestígio, incentivando a busca incessante por validação e a conformidade com padrões de sucesso visualmente atraentes. O que Veblen observou nas mansões e salões da elite, hoje se desenrola nos feeds e stories, com a diferença de que a audiência é global e a performance é constante.


Markovits nas redes sociais: Credencialismo e a corrida armamentista digital


Daniel Markovits, em A cilada da meritocracia, argumenta que a meritocracia contemporânea, embora pareça justa, aprisiona tanto os "vencedores" quanto os "perdedores". Ela cria uma elite que trabalha exaustivamente para manter sua posição, enquanto exclui e desmoraliza aqueles que não conseguem competir no mesmo nível. Nas redes sociais, essa "cilada" se manifesta através do credencialismo e de uma "corrida armamentista" digital.

O credencialismo online é evidente na exibição de conquistas acadêmicas e profissionais: diplomas de universidades renomadas, aprovações em concursos concorridos, promoções em grandes empresas, participação em eventos de prestígio. O LinkedIn, por exemplo, é uma plataforma onde o currículo e as credenciais são constantemente atualizados e exibidos, funcionando como um selo de validação social e profissional. A "cultura do hustle" (trabalho árduo e incessante) é glorificada, com posts sobre rotinas de estudo exaustivas, jornadas de trabalho intermináveis e sacrifícios pessoais em nome do sucesso.

Essa exibição de credenciais e performance alimenta uma "corrida armamentista educacional" e profissional. Pais e jovens investem tempo e dinheiro em cursos preparatórios, intercâmbios e atividades extracurriculares, não apenas pelo aprendizado, mas pela vantagem competitiva que essas experiências conferem. Nas redes, os resultados dessa corrida – aprovações em vestibulares concorridos, rankings universitários, estágios em empresas de ponta – são celebrados publicamente, reforçando a ideia de que o sucesso é uma questão de mérito individual e esforço. Isso contribui para um fechamento social, onde as oportunidades são cada vez mais concentradas nas mãos de uma elite com acesso a essas credenciais e redes.


Sandel nas redes sociais: A tirania do mérito e a erosão da solidariedade


Michael Sandel, em A tirania do mérito, critica a ideologia meritocrática por gerar uma sociedade de "vencedores" arrogantes e "perdedores" humilhados, corroendo a solidariedade e o senso de comunidade. Nas redes sociais, essa tirania se manifesta de forma particularmente insidiosa.

A moralização do sucesso é um fenômeno comum online. Narrativas de "eu venci porque me esforcei" e "só depende de você" proliferam, transformando o sucesso material em uma prova de virtude moral e o fracasso em uma falha pessoal. Essa retórica gera o hubris (arrogância) nos "vencedores", que se sentem plenamente justificados em sua posição e, muitas vezes, insensíveis às dificuldades alheias. Ao mesmo tempo, impõe a humilhação aos "perdedores", que internalizam a culpa por sua condição, sentindo-se inadequados ou insuficientes.

A constante comparação social nas redes, impulsionada pelos algoritmos, intensifica essa dinâmica. A vida "perfeita" dos outros, cuidadosamente curada e exibida, serve como um espelho que reflete as supostas deficiências de quem observa. Isso não apenas gera ansiedade e baixa autoestima, mas também mina a empatia e a solidariedade. Se o sucesso é puramente individual e merecido, a ajuda mútua e a preocupação com o bem-estar coletivo perdem seu sentido. A desigualdade, em vez de ser vista como um problema social a ser resolvido, é naturalizada como o resultado justo de um sistema meritocrático.


Síntese: Big Tech, economia da atenção e empreendedorismo de vitrine


As Big Techs e a economia da atenção são catalisadores poderosos dessas dinâmicas. Os algoritmos das redes sociais são projetados para maximizar o engajamento, priorizando conteúdos que geram forte reação emocional, como comparações, aspirações e validação. Isso significa que a exibição de status, a performance de mérito e as narrativas de sucesso/fracasso são constantemente amplificadas, criando um ciclo vicioso onde a busca por validação online se torna uma força motriz.

A ideologia do empreendedorismo de vitrine se encaixa perfeitamente nesse cenário. Startups e seus fundadores são frequentemente apresentados como símbolos de inovação, resiliência e sucesso meritocrático. A jornada empreendedora, muitas vezes romantizada, é exibida nas redes como uma prova de capacidade individual e visão. O "sucesso" de uma startup, mesmo que ainda incipiente, é performado publicamente para atrair investidores, talentos e clientes, transformando a reputação e a imagem em capital. Essa performance de sucesso, no entanto, pode mascarar as complexidades e desigualdades inerentes ao ecossistema empreendedor, reforçando a narrativa de que o sucesso é acessível a todos que "se esforçam o suficiente".


Conclusão: Redes sociais, solidariedade e o espaço público


As redes sociais, ao se tornarem palcos para a exibição de status e a performance do mérito, não apenas geram polarização política ou segmentam grupos de ideias simplificadas. Mais profundamente, elas contribuem para a erosão da solidariedade e a degradação da noção de bem comum, como alertado por Sandel. Ao transformar a vida em uma competição constante por reconhecimento e validação, onde o sucesso é moralizado e o fracasso individualizado, as redes sociais minam a empatia e a capacidade de nos vermos como parte de uma comunidade interdependente.

Não se trata de demonizar a noção de hierarquia ou a ideia de mérito, que podem ter sua consistência e utilidade em determinados espaços e contextos. Reconhecemos que a diferenciação de papéis e o reconhecimento de talentos podem ser construtivos. A crítica central, no entanto, reside na forma como a meritocracia, quando levada ao extremo e amplificada pelas redes sociais, se torna uma "tirania" que esvazia o sentido de responsabilidade coletiva e de destino compartilhado. Ela promove um individualismo radical que dificulta a construção de um espaço público robusto, onde o diálogo e a busca por soluções coletivas prevaleçam sobre a competição e a autoafirmação. As redes sociais, nesse sentido, não são apenas ferramentas; são ambientes que moldam nossa percepção de justiça, de comunidade e do que significa viver juntos.


Perguntas para debate (para usar em sala de aula)

1.       De que forma a "cultura do cancelamento" nas redes sociais pode ser interpretada como uma manifestação contemporânea da "humilhação" descrita por Sandel, e como isso afeta a solidariedade?

2.       Considerando a lógica vebleniana da emulação, como as redes sociais, ao expor constantemente estilos de vida de "sucesso", influenciam as aspirações educacionais e profissionais dos jovens?

3.       Se as redes sociais amplificam a tirania do mérito, quais seriam as responsabilidades das plataformas (Big Techs) e dos usuários na construção de um ambiente digital que promova mais solidariedade e um senso de bem comum?

Referências

●        Markovits, Daniel. A cilada da meritocracia: como o sistema que deveria nos libertar acabou nos aprisionando. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.

●        Sandel, Michael J. A tirania do mérito: o que aconteceu com o bem comum?. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2020.

●        Veblen, Thorstein. A teoria da classe ociosa: um estudo econômico das instituições. São Paulo: Nova Cultural, 1988.

 
 
 

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