Sustentabilidade e epistemologia: visões sistêmica, crítica e complexa
- Sérgio Luís Boeira
- 22 de fev.
- 4 min de leitura
Nota: em 2012 publiquei capítulo com esse título acima numa coletânea (ver referência no final), que por ser bastante extensa (1.108 páginas), com capa dura, de custo relativamente alto, ficou inacessível a muitos estudantes. Como o tema ainda é muito atual, fiz uma síntese com uso de Servomecanismo Socioalgorítmico (SS), vulgo IA, do tipo Adpata ONE 26. Deixei o texto com o estilo padronizado pela tecnologia, em terceira pessoa do singular. Só fiz breves alterações na forma.

Por que discutir sustentabilidade como problema epistemológico?
Neste capítulo, Sérgio Luís Boeira parte de uma hipótese forte: a crise da sustentabilidade não é apenas ambiental, econômica ou tecnológica — ela é também uma crise de conhecimento, isto é, uma crise na forma como a modernidade organizou o saber, separou disciplinas, hierarquizou métodos e transformou problemas complexos em questões “setoriais”.
A ideia central é que a sustentabilidade, por envolver interdependências ecológicas, conflitos sociais, decisões políticas, valores culturais e disputas econômicas, exige mais do que diagnósticos pontuais e soluções técnicas. Exige um deslocamento epistemológico, capaz de enfrentar o reducionismo e a fragmentação do conhecimento institucionalizado, especialmente no ambiente universitário.
Nesse sentido, o capítulo dialoga com críticas ao que Cristóvão Buarque chamou de “fetichismo econômico”: a tendência de reduzir dilemas sociais e ecológicos a variáveis econômicas, como se a economia fosse a linguagem final e suficiente para interpretar (e governar) o mundo. Quando isso acontece, temas como justiça ambiental, diversidade cultural, vínculos comunitários e limites ecológicos entram como “apêndices” — e não como dimensões constitutivas do problema.
2) Três chaves de leitura: Capra, Boaventura e Morin
Para sustentar sua tese, o texto organiza um percurso por três concepções epistemológicas que, embora venham de tradições distintas, convergem ao questionar o paradigma moderno disciplinar e linear: a visão sistêmica (Fritjof Capra), a visão crítica (Boaventura de Sousa Santos) e a visão complexa (Edgar Morin).
Capra e a visão sistêmica: interdependência e mudança de percepção
Em Capra, a sustentabilidade aparece vinculada a uma mudança de percepção: trocar a lente do mundo como máquina pela lente do mundo como rede de relações. O que está em jogo não é apenas “adicionar” meio ambiente ao desenvolvimento, mas reformular o modo como se pensa a vida social, econômica e ecológica.
A noção de paradigma aqui é decisiva: para enfrentar a crise, seria preciso deslocar o pensamento de uma orientação de autoafirmação (controle, competição, expansão ilimitada) para uma orientação de integração (cooperação, limites, ciclos, interdependência). Capra ainda é apresentado como articulador de debates como ecologia profunda, ecologia social e ecofeminismo, que ajudam a mostrar que sustentabilidade envolve também valores, poder e modos de vida — não só gestão ambiental.
Boaventura e a visão crítica: injustiça cognitiva e ecologia de saberes
Com Boaventura de Sousa Santos, o foco se desloca para o caráter excludente do paradigma científico moderno. O capítulo enfatiza que a modernidade não produziu apenas conhecimento — produziu também ignorâncias, isto é, apagamentos e desqualificações sistemáticas de saberes locais, populares, tradicionais e não hegemônicos.
Daí a importância de expressões como “ecologia de saberes”, “sociologia das ausências” e “sociologia das emergências”: trata-se de ampliar o que conta como conhecimento válido e de reconhecer que muitos caminhos para a sustentabilidade dependem de práticas e experiências invisibilizadas por critérios estreitos de cientificidade e por formas tecnocráticas de governança.
A sustentabilidade, nessa chave, é inseparável de uma luta contra a injustiça cognitiva: não haverá transição sustentável robusta se persistirem mecanismos que concentram voz, autoridade e legitimidade em poucos centros (institucionais, geopolíticos e culturais).
Morin e a visão complexa: transdisciplinaridade, incerteza e política de civilização
Em Edgar Morin, o capítulo encontra uma formulação particularmente radical contra o “grande paradigma” disjuntivo do Ocidente — aquele que separa sujeito e objeto, natureza e cultura, fato e valor, ciência e ética. A sustentabilidade, no registro da complexidade, não pode ser tratada como um problema resolúvel por simplificação. Ela exige pensar o tecido de interações, as retroações, os paradoxos e as incertezas.
Conceitos como autoeco-organização ajudam a mostrar que sistemas vivos e sociais se organizam em relação constante com seus ambientes, de modo que soluções sustentáveis não se resumem a “corrigir falhas”; implicam reorganizações de modos de viver, produzir e decidir.
O horizonte moriniano aponta para uma “política de civilização”, isto é, uma política que recoloca no centro a humanização, a responsabilidade, os limites ecológicos e a qualidade das relações sociais — indo além de indicadores e da lógica de crescimento.
3) Convergências: quando o debate vira crítica da universidade e das políticas públicas
Um dos méritos do capítulo é mostrar que, apesar das diferenças entre os autores, há convergências claras:
● Todos criticam a racionalidade simplificadora que orientou o industrialismo e parte significativa da ciência aplicada no capitalismo moderno.
● Todos sugerem que enfrentar a crise requer reforma do pensamento, e não apenas inovação técnica.
● Todos tensionam a forma como universidades e políticas públicas operam com compartimentalização, “especialismos” e respostas lineares para problemas que são estruturalmente complexos.
O texto, assim, funciona como um convite a uma ciência e a uma formação voltadas para uma cidadania da sustentabilidade: mais reflexiva, transdisciplinar e atenta às dimensões éticas, políticas e culturais envolvidas na crise socioambiental.
4) Comentário final
Lido hoje, o capítulo permanece atual justamente porque desloca a pergunta: em vez de “qual tecnologia resolve a sustentabilidade?”, ele nos força a perguntar “que tipo de conhecimento sustenta (ou impede) a sustentabilidade?”. Ao aproximar Capra, Boaventura e Morin, a discussão deixa de ser apenas bibliográfica e vira um diagnóstico das limitações do imaginário moderno: a crença em controle, previsibilidade, crescimento e separação disciplinar como se fossem garantias de progresso.
A resenha indica que a sustentabilidade é, no fundo, um debate sobre modelos de mundo — e que a disputa por futuros sustentáveis passa por disputar também os critérios do que chamamos de “razão”, “evidência”, “progresso” e “desenvolvimento”.
Referência
BOEIRA, Sérgio Luís. Sustentabilidade e epistemologia: visões sistêmica, crítica e complexa. In: PHILIPPI JR., Arlindo; SAMPAIO, Carlos Alberto Cioce; FERNANDES, Valdir (eds.). Gestão de natureza pública e sustentabilidade. Barueri, SP: Manole, 2012. p. 211-246. (Coleção ambiental). ISBN 978-85-204-3114-6.



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