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Sustentabilidade e epistemologia: visões sistêmica, crítica e complexa


Nota: em 2012 publiquei capítulo com esse título acima numa coletânea (ver referência no final), que por ser bastante extensa (1.108 páginas), com capa dura, de custo relativamente alto, ficou inacessível a muitos estudantes. Como o tema ainda é muito atual, fiz uma síntese com uso de Servomecanismo Socioalgorítmico (SS), vulgo IA, do tipo Adpata ONE 26. Deixei o texto com o estilo padronizado pela tecnologia, em terceira pessoa do singular. Só fiz breves alterações na forma.

Capa da coletânea na qual o capítulo foi publicado
Capa da coletânea na qual o capítulo foi publicado

Por que discutir sustentabilidade como problema epistemológico?


Neste capítulo, Sérgio Luís Boeira parte de uma hipótese forte: a crise da sustentabilidade não é apenas ambiental, econômica ou tecnológica — ela é também uma crise de conhecimento, isto é, uma crise na forma como a modernidade organizou o saber, separou disciplinas, hierarquizou métodos e transformou problemas complexos em questões “setoriais”.


A ideia central é que a sustentabilidade, por envolver interdependências ecológicas, conflitos sociais, decisões políticas, valores culturais e disputas econômicas, exige mais do que diagnósticos pontuais e soluções técnicas. Exige um deslocamento epistemológico, capaz de enfrentar o reducionismo e a fragmentação do conhecimento institucionalizado, especialmente no ambiente universitário.


Nesse sentido, o capítulo dialoga com críticas ao que Cristóvão Buarque chamou de “fetichismo econômico”: a tendência de reduzir dilemas sociais e ecológicos a variáveis econômicas, como se a economia fosse a linguagem final e suficiente para interpretar (e governar) o mundo. Quando isso acontece, temas como justiça ambiental, diversidade cultural, vínculos comunitários e limites ecológicos entram como “apêndices” — e não como dimensões constitutivas do problema.


2) Três chaves de leitura: Capra, Boaventura e Morin


Para sustentar sua tese, o texto organiza um percurso por três concepções epistemológicas que, embora venham de tradições distintas, convergem ao questionar o paradigma moderno disciplinar e linear: a visão sistêmica (Fritjof Capra), a visão crítica (Boaventura de Sousa Santos) e a visão complexa (Edgar Morin).


Capra e a visão sistêmica: interdependência e mudança de percepção

Em Capra, a sustentabilidade aparece vinculada a uma mudança de percepção: trocar a lente do mundo como máquina pela lente do mundo como rede de relações. O que está em jogo não é apenas “adicionar” meio ambiente ao desenvolvimento, mas reformular o modo como se pensa a vida social, econômica e ecológica.


A noção de paradigma aqui é decisiva: para enfrentar a crise, seria preciso deslocar o pensamento de uma orientação de autoafirmação (controle, competição, expansão ilimitada) para uma orientação de integração (cooperação, limites, ciclos, interdependência). Capra ainda é apresentado como articulador de debates como ecologia profunda, ecologia social e ecofeminismo, que ajudam a mostrar que sustentabilidade envolve também valores, poder e modos de vida — não só gestão ambiental.


Boaventura e a visão crítica: injustiça cognitiva e ecologia de saberes


Com Boaventura de Sousa Santos, o foco se desloca para o caráter excludente do paradigma científico moderno. O capítulo enfatiza que a modernidade não produziu apenas conhecimento — produziu também ignorâncias, isto é, apagamentos e desqualificações sistemáticas de saberes locais, populares, tradicionais e não hegemônicos.


Daí a importância de expressões como “ecologia de saberes”, “sociologia das ausências” e “sociologia das emergências”: trata-se de ampliar o que conta como conhecimento válido e de reconhecer que muitos caminhos para a sustentabilidade dependem de práticas e experiências invisibilizadas por critérios estreitos de cientificidade e por formas tecnocráticas de governança.

A sustentabilidade, nessa chave, é inseparável de uma luta contra a injustiça cognitiva: não haverá transição sustentável robusta se persistirem mecanismos que concentram voz, autoridade e legitimidade em poucos centros (institucionais, geopolíticos e culturais).


Morin e a visão complexa: transdisciplinaridade, incerteza e política de civilização


Em Edgar Morin, o capítulo encontra uma formulação particularmente radical contra o “grande paradigma” disjuntivo do Ocidente — aquele que separa sujeito e objeto, natureza e cultura, fato e valor, ciência e ética. A sustentabilidade, no registro da complexidade, não pode ser tratada como um problema resolúvel por simplificação. Ela exige pensar o tecido de interações, as retroações, os paradoxos e as incertezas.


Conceitos como autoeco-organização ajudam a mostrar que sistemas vivos e sociais se organizam em relação constante com seus ambientes, de modo que soluções sustentáveis não se resumem a “corrigir falhas”; implicam reorganizações de modos de viver, produzir e decidir.

O horizonte moriniano aponta para uma “política de civilização”, isto é, uma política que recoloca no centro a humanização, a responsabilidade, os limites ecológicos e a qualidade das relações sociais — indo além de indicadores e da lógica de crescimento.


3) Convergências: quando o debate vira crítica da universidade e das políticas públicas


Um dos méritos do capítulo é mostrar que, apesar das diferenças entre os autores, há convergências claras:

●        Todos criticam a racionalidade simplificadora que orientou o industrialismo e parte significativa da ciência aplicada no capitalismo moderno.

●        Todos sugerem que enfrentar a crise requer reforma do pensamento, e não apenas inovação técnica.

●        Todos tensionam a forma como universidades e políticas públicas operam com compartimentalização, “especialismos” e respostas lineares para problemas que são estruturalmente complexos.

O texto, assim, funciona como um convite a uma ciência e a uma formação voltadas para uma cidadania da sustentabilidade: mais reflexiva, transdisciplinar e atenta às dimensões éticas, políticas e culturais envolvidas na crise socioambiental.


4) Comentário final


Lido hoje, o capítulo permanece atual justamente porque desloca a pergunta: em vez de “qual tecnologia resolve a sustentabilidade?”, ele nos força a perguntar “que tipo de conhecimento sustenta (ou impede) a sustentabilidade?”. Ao aproximar Capra, Boaventura e Morin, a discussão deixa de ser apenas bibliográfica e vira um diagnóstico das limitações do imaginário moderno: a crença em controle, previsibilidade, crescimento e separação disciplinar como se fossem garantias de progresso.


A resenha indica que a sustentabilidade é, no fundo, um debate sobre modelos de mundo — e que a disputa por futuros sustentáveis passa por disputar também os critérios do que chamamos de “razão”, “evidência”, “progresso” e “desenvolvimento”.

 

Referência

BOEIRA, Sérgio Luís. Sustentabilidade e epistemologia: visões sistêmica, crítica e complexa. In: PHILIPPI JR., Arlindo; SAMPAIO, Carlos Alberto Cioce; FERNANDES, Valdir (eds.). Gestão de natureza pública e sustentabilidade. Barueri, SP: Manole, 2012. p. 211-246. (Coleção ambiental). ISBN 978-85-204-3114-6.

 
 
 

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