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A erosão da cidadania democrática: consumo, capitalismo de vigilância e extrema direita nas eleições brasileiras de 2026

6 de out.
14 min de leitura

Objetivo

Analisar o avanço eleitoral do campo bolsonarista no primeiro turno das eleições brasileiras de 2026 mediante o diálogo entre Consumido, de Benjamin Barber, A era do capitalismo de vigilância, de Shoshana Zuboff, e Como salvar a democracia, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Busca-se compreender como a mercantilização da experiência social, o poder das plataformas digitais e a semilealdade de atores políticos podem se articular no enfraquecimento das condições de formação e exercício da cidadania democrática.


Resumo

O primeiro turno das eleições brasileiras de 2026 recoloca o problema das relações entre capitalismo, comunicação digital e democracia. O desempenho do campo bolsonarista e a votação expressiva de candidatos com forte presença nas redes sociais exigem uma análise que ultrapasse tanto a descrição dos resultados quanto a atribuição de todo o processo aos algoritmos. Este artigo desenvolve um ensaio interpretativo a partir de três obras. Benjamin Barber permite compreender a expansão de uma cultura de consumo que estimula a gratificação imediata e desloca problemas coletivos para o âmbito das escolhas privadas. Shoshana Zuboff identifica uma lógica de acumulação que se apropria da experiência humana para produzir conhecimento, previsão e intervenção sobre comportamentos. Steven Levitsky e Daniel Ziblatt examinam a contribuição de atores políticos semileais para a normalização do autoritarismo e a deterioração das instituições democráticas. A concepção das organizações como sistemas epistemológicos, de Guerreiro Ramos, oferece uma mediação entre esses enfoques. Sustenta-se que a ascensão eleitoral da extrema direita deve ser investigada considerando as relações entre conflitos sociais, estratégias políticas e ambientes cognitivos organizados por corporações digitais. A defesa da democracia exige, nessa perspectiva, reconstruir a cidadania e submeter poderes econômicos, tecnológicos e políticos a limites públicos.



1. Introdução: o resultado eleitoral e as condições da cidadania


O primeiro turno das eleições brasileiras, realizado em 4 de outubro de 2026, trouxe elementos relevantes para a discussão sobre a permanência e a capacidade de reprodução eleitoral do bolsonarismo. Na divulgação do Tribunal Superior Eleitoral, com 100% das urnas apuradas, Flávio teve 56,1 milhões de votos (47,03%), e Lula, 53,8 milhões (45,16%). Ambos passaram ao segundo turno (4). Nas disputas legislativas, Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato ultrapassaram, cada um, três milhões de votos, evidenciando o desempenho de candidaturas que possuem forte presença digital (5).


Esses resultados não encerram a interpretação da eleição. Eles abrem uma questão sobre a relação entre a experiência cotidiana dos cidadãos, as formas de comunicação política e a consolidação de um campo de extrema direita. A votação expressiva de figuras associadas ao bolsonarismo exige compreender como insatisfações, expectativas, identidades e antagonismos são produzidos, interpretados e organizados politicamente. A presença nas redes sociais integra esse processo, mas sua importância não se reduz à quantidade de seguidores ou à habilidade individual dos candidatos.


O problema envolve a formação da cidadania em ambientes nos quais comunicação, publicidade, entretenimento e mobilização política se entrelaçam. As plataformas participam da organização desses ambientes mediante decisões empresariais sobre coleta de dados, seleção de conteúdos, distribuição de visibilidade e possibilidades de interação. Assim, o encontro entre eleitor e mensagem política ocorre dentro de estruturas econômicas e organizacionais que precisam integrar a análise.


O diálogo entre Barber, Zuboff, Levitsky e Ziblatt permite examinar diferentes dimensões desse fenômeno. Os autores não constituem uma escola teórica comum. Barber investiga as consequências do capitalismo de consumo para a cidadania; Zuboff analisa a apropriação da experiência humana pelo capitalismo de vigilância; Levitsky e Ziblatt examinam comportamentos políticos e arranjos institucionais que favorecem a erosão democrática (1–3). Sua aproximação é uma construção interpretativa deste artigo.


O desenvolvimento começa pela transformação do cidadão em consumidor e passa à análise do poder das plataformas digitais. Em seguida, discute como a comunicação política pode converter atenção em identificação e apoio eleitoral. A seção posterior aborda a semilealdade democrática e reexamina o diagnóstico sobre o Brasil apresentado por Levitsky e Ziblatt em 2023. Finalmente, são discutidas as condições necessárias para reconstruir a cidadania diante da concentração de poderes econômicos, informacionais e políticos.


2. Barber: quando a escolha privada ocupa o lugar da cidadania


Em Consumido, Barber investiga uma transformação histórica do capitalismo. Enquanto a ética associada à sua formação valorizava disciplina, trabalho, poupança e adiamento da satisfação, o capitalismo de consumo necessita estimular desejos continuamente. Sua reprodução depende da ampliação dos mercados, da renovação de produtos e da formação de consumidores dispostos a buscar novas gratificações. A infância torna-se um mercado e a vida adulta passa a incorporar disposições que o autor reúne sob o conceito de ethos infantilista (1).


Esse conceito possui sentido social e político. Barber analisa instituições e práticas que favorecem o fácil, o rápido e o simples em detrimento de experiências que exigem elaboração, espera e enfrentamento de dificuldades. A questão é como tais disposições, estimuladas comercialmente, podem repercutir na vida pública. Decisões coletivas requerem negociação, reconhecimento de interdependências, consideração de consequências e disposição para aceitar limites. Essas exigências entram em tensão com uma cultura que apresenta a satisfação individual imediata como medida principal da liberdade (1).


A privatização da experiência social aprofunda o problema. O indivíduo pode desejar, como consumidor, vantagens que entram em conflito com aquilo de que necessita como cidadão. Pode procurar reduzir seus custos particulares e, simultaneamente, depender de serviços públicos cuja manutenção exige financiamento coletivo. Pode valorizar facilidades de consumo e sofrer as consequências ambientais e sociais das condições que as tornam possíveis. Barber descreve essa tensão mediante a expressão “esquizofrenia cívica”, empregada como metáfora da fragmentação entre escolha privada e responsabilidade pública (1).


Essa interpretação permite examinar uma dimensão da comunicação eleitoral contemporânea. Promessas políticas podem circular como ofertas de satisfação imediata, enquanto candidatos são apresentados como marcas capazes de resolver problemas complexos por meio de vontade pessoal. O debate sobre políticas públicas tende então a perder espaço para a construção de personagens, a repetição de slogans e a identificação afetiva com figuras públicas.


Em Barber, o ethos infantilista é uma disposição cultural ativamente produzida pelo capitalismo de consumo, cuja expansão depende de estimular desejos, enfraquecer a capacidade de autolimitação e favorecer o fácil sobre o difícil, o simples sobre o complexo e o rápido sobre o lento. A infantilização dos adultos possui, portanto, uma função econômica e um custo político: enquanto o mercado estimula a satisfação privada imediata, a cidadania exige discernimento, responsabilidade coletiva e disposição para enfrentar problemas que não se resolvem pela escolha individual de mercadorias (1). À luz dessa crítica, a comunicação autoritária pode ser interpretada como uma exploração política das disposições que o mercado cultiva: oferece soluções instantâneas, personaliza as causas dos conflitos e promete eliminar obstáculos mediante a força de uma liderança. A simplificação deixa, assim, de ser apenas um recurso de linguagem e passa a favorecer a desqualificação da reflexão, da negociação e dos limites ao poder, precisamente as exigências da vida democrática que a cultura de consumo contribui para enfraquecer.


3. Zuboff: a apropriação da experiência e o poder das plataformas


Zuboff acrescenta uma transformação decisiva ao diagnóstico de Barber. No capitalismo de vigilância, a experiência humana é apropriada como matéria-prima para a produção de dados comportamentais. Parte desses dados serve ao funcionamento dos serviços; outra parte alimenta processos de previsão e comercialização. A acumulação de capital passa a envolver a produção de conhecimento sobre comportamentos e a ampliação das capacidades de intervir nas condições em que eles ocorrem (2).


O alcance dessa crítica excede o problema da privacidade. Está em questão uma relação de poder na qual organizações privadas acumulam conhecimento sobre populações, enquanto essas populações possuem acesso limitado às operações que as classificam e procuram influenciá-las. A assimetria de conhecimento se converte em assimetria de capacidade de ação. Os indivíduos participam de ambientes que oferecem comunicação e conveniência, mas cujos critérios de funcionamento permanecem amplamente subordinados a interesses empresariais (2).


A contribuição de Zuboff não deve ser reduzida à observação de que empresas utilizam dados para melhorar publicidade. Sua crítica alcança a apropriação unilateral de dimensões da experiência humana e a expansão de um poder voltado à previsão e à condução do comportamento. O que se comercializa envolve capacidades de antecipar e influenciar ações. A autonomia torna-se, portanto, uma questão política ligada à própria organização desses ambientes.


As grandes corporações tecnológicas precisam aparecer como atores dessa análise. A sigla GAFAMI designa Google, Apple, Facebook — atualmente integrado à Meta —, Amazon, Microsoft e IBM. Entretanto, suas atividades e modelos empresariais são diferentes. Para compreender a circulação política digital, é necessário considerar especificamente serviços como Facebook, Instagram e WhatsApp, da Meta; YouTube, do Google; TikTok, da ByteDance; e X. A análise deve investigar o que cada ambiente permite conhecer, selecionar, recomendar e monetizar.


A utilização desses serviços para acompanhar acontecimentos políticos insere a esfera pública em infraestruturas organizadas por interesses privados. O cidadão não recebe apenas mensagens de candidatos. Interage com sistemas que ordenam aquilo que aparece, facilitam certas formas de circulação e oferecem indicadores de popularidade. As possibilidades de expressão coexistem com uma concentração de poder sobre as condições de visibilidade.


Guerreiro Ramos oferece uma mediação importante. Sua compreensão das organizações como sistemas epistemológicos permite examinar como estruturas organizacionais induzem formas de perceber e interpretar a realidade. As políticas cognitivas das organizações afetam os critérios pelos quais seus participantes reconhecem relevância, legitimidade e sucesso (6). Nas plataformas, métricas como visualizações, compartilhamentos e reações podem favorecer a identificação entre importância pública e desempenho de audiência. Essa aproximação entre os autores permite investigar o poder digital como poder econômico e também como organização da experiência cognitiva.


4. Da visibilidade digital à identificação política


A votação de candidatos com forte presença nas redes sociais fornece um ponto de partida para essa investigação. O levantamento publicado após o primeiro turno identificou votações recordes de influenciadores de direita em nove estados (7). Esses resultados documentam a associação entre protagonismo digital e êxito eleitoral; isoladamente, porém, não demonstram quanto dos votos foi produzido pelas plataformas nem quais mecanismos tiveram maior influência.


A interpretação proposta aqui considera que a atuação digital pode construir relações políticas duradouras. A repetição de conteúdos, a familiaridade com a imagem do candidato e o compartilhamento de referências produzem comunidades de identificação. O seguidor acompanha uma figura pública em situações que combinam comentário político, humor, vida pessoal e confronto. Essa presença continuada pode transformar reconhecimento em confiança e confiança em disposição eleitoral.


Barber ajuda a compreender a construção do candidato como marca. Zuboff permite investigar os ambientes empresariais nos quais essa marca encontra públicos, testa mensagens e recebe respostas. A passagem entre ambos revela uma relação recursiva: atores políticos adaptam suas práticas ao desempenho dos conteúdos; os públicos respondem e circulam mensagens; as plataformas organizam a distribuição segundo critérios próprios. A ação política passa a considerar permanentemente as condições de obtenção de atenção.


Para investigar a extrema direita, é necessário acrescentar o conteúdo dessa comunicação. Antagonismos podem ser construídos pela apresentação de adversários como ameaças à família, à religião, à segurança ou à própria nação. Quando conflitos políticos assumem essa forma, a negociação tende a aparecer como cumplicidade, e a derrota eleitoral pode ser vivida como perigo existencial. Trata-se de uma hipótese interpretativa que precisa ser confrontada com mensagens, discursos e práticas concretas das campanhas.


Essa dinâmica se articula com conflitos anteriores às redes sociais. Desigualdade, insegurança, preconceitos, ressentimentos e disputas sobre valores possuem trajetórias históricas próprias. As plataformas oferecem meios de reorganizar e intensificar sua circulação. A análise ganha densidade quando acompanha o encontro entre essas experiências sociais, as estratégias das lideranças e as condições empresariais da comunicação digital.


O desempenho eleitoral também possui consequências organizacionais. No sistema proporcional, uma votação expressiva contribui para a força partidária e pode favorecer outras candidaturas. A cobertura sobre Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato destacou justamente esse efeito de suas votações na eleição de outros deputados do PL (5). A visibilidade individual pode, assim, participar da produção de poder institucional coletivo.


5. Levitsky e Ziblatt: a semilealdade como condição do autoritarismo


Levitsky e Ziblatt introduzem uma dimensão que a crítica do consumo e das plataformas não resolve: a responsabilidade dos atores políticos diante de comportamentos antidemocráticos. Em Como salvar a democracia, mostram que lideranças autoritárias podem depender da colaboração de políticos convencionais. Esses aliados não precisam desejar explicitamente uma ditadura. Podem facilitar sua formação quando protegem extremistas, relativizam violações ou subordinam compromissos democráticos a vantagens partidárias (3).


A noção de semilealdade, recuperada de Juan Linz, permite compreender essa colaboração. O teste decisivo está na atitude diante dos autoritários do próprio campo. Condenar adversários possui baixo custo político; romper com aliados capazes de fornecer votos, recursos e mobilização exige compromisso mais consistente. Democratas leais aceitam esse custo, enquanto os semileais preservam relações que tornam o autoritarismo politicamente viável (3).


Essa contribuição desloca a análise da personalidade de um líder para as relações que sustentam sua influência. Empresários, dirigentes partidários, autoridades e parlamentares podem normalizar sucessivamente comportamentos que, examinados em conjunto, corroem a competição democrática. Cada concessão pode ser apresentada como pragmatismo, mas sua acumulação altera os limites do aceitável.


A aproximação com Barber permite formular uma hipótese sobre a temporalidade política. A busca de vantagens imediatas pode prevalecer sobre a preservação das condições futuras da democracia. Uma liderança aceita a violência verbal ou a deslegitimação institucional de um aliado porque espera ganhar a próxima eleição. O benefício presente se sobrepõe ao compromisso com regras que também devem proteger adversários e gerações futuras. Essa aproximação é uma interpretação deste artigo, não uma tese demonstrada conjuntamente pelos autores.


No caso brasileiro, a semilealdade oferece critérios para investigar o comportamento das elites diante do bolsonarismo. Reconhecimento dos resultados eleitorais, responsabilização por ações antidemocráticas, recusa da violência e respeito ao direito dos adversários de governar constituem dimensões centrais dessa avaliação. A classificação precisa decorrer de comportamentos documentados. Isso permite examinar a extrema direita com precisão e também identificar a contribuição daqueles que lhe oferecem legitimidade e sustentação institucional.


6. O Brasil de 2026 e os limites do diagnóstico de 2023


No prefácio brasileiro, escrito em 2023, Levitsky e Ziblatt apresentaram uma comparação favorável ao Brasil. Destacaram que importantes lideranças de direita reconheceram a vitória de Lula em 2022 e que a tentativa de contestação do resultado não recebeu apoio suficiente das elites políticas e militares. Interpretaram esse comportamento como diferença relevante em relação à proteção oferecida a Donald Trump por lideranças republicanas nos Estados Unidos (3).


O reconhecimento da vitória de Lula e a resistência institucional à ruptura foram importantes para a preservação da democracia. Contudo, a capacidade de impedir uma tentativa de ruptura não equivale à superação das condições sociais e políticas que a tornaram possível. O relativo isolamento de uma liderança pode coexistir com a permanência de suas redes, referências culturais, bases eleitorais e estruturas partidárias.


O primeiro turno de 2026 torna necessário distinguir esses processos. O desempenho de Flávio Bolsonaro e de candidaturas associadas ao campo bolsonarista permite questionar a expectativa de que o enfraquecimento político de Jair Bolsonaro conduziria ao enfraquecimento duradouro do movimento. A continuidade eleitoral desse campo sugere que sua reprodução ultrapassa a presença de uma única liderança.


Esse resultado, entretanto, não informa sozinho o grau de lealdade democrática dos aliados. A investigação precisa acompanhar suas posições diante das práticas autoritárias e da responsabilização institucional. Reconhecer uma eleição pode constituir um compromisso democrático, mas esse compromisso precisa persistir quando impõe perdas políticas. A categoria de semilealdade é útil justamente porque permite examinar a distância entre adesão formal às instituições e defesa efetiva de suas condições de funcionamento.


Em Como salvar a democracia, Levitsky e Ziblatt desenvolvem sua crítica institucional tomando como referência os Estados Unidos. Mostram como o Colégio Eleitoral, a representação desigual dos estados no Senado e outros mecanismos podem permitir que minorias políticas conservem um poder desproporcional à sua votação. Sua proposta de democratização das instituições procura enfrentar esse descompasso entre apoio eleitoral e capacidade de governar. Nesse contexto, salvar a democracia exige reformar arranjos que favorecem persistentemente determinados grupos e podem proteger forças autoritárias da necessidade de conquistar maiorias. A proteção dos direitos das minorias não deve ser confundida com a preservação de mecanismos que lhes permitem exercer domínio político sobre a maioria (3).


A aproximação dessa análise com o Brasil requer uma mudança de foco. Em uma sociedade marcada por profundas desigualdades socioeconômicas, o problema democrático envolve as condições materiais e sociais que tornam tão desigual o exercício de direitos formalmente iguais. O direito ao voto convive com enormes diferenças de renda, patrimônio, escolarização, segurança, tempo disponível e acesso à informação. Essas diferenças afetam a capacidade de participar de organizações, formular demandas, acompanhar decisões públicas e influenciar representantes. A igualdade eleitoral constitui uma conquista indispensável, mas sua existência não elimina a concentração dos recursos pelos quais determinados grupos conseguem transformar interesses particulares em prioridades do Estado.


Nesse ponto, o diálogo com Barber e Zuboff amplia a discussão para além do diagnóstico institucional norte-americano. Barber permite investigar como a redução da liberdade à escolha de consumo enfraquece a responsabilidade pública; Zuboff evidencia a concentração empresarial das capacidades de conhecer e influenciar comportamentos. No Brasil, esses processos encontram uma estrutura social profundamente desigual, na qual a autonomia dos cidadãos é limitada também pela precariedade material e pela distribuição desigual dos recursos de participação. A interpretação proposta neste artigo é, portanto, que salvar a democracia brasileira exige articular a defesa e a democratização das instituições ao enfrentamento das desigualdades socioeconômicas e à limitação do poder das corporações sobre a formação da opinião pública. Essa articulação amplia o debate dos autores a partir das condições brasileiras, sem atribuir a eles um diagnóstico que seu livro não desenvolve.


7. Reconstruir a cidadania e limitar poderes concentrados


O diálogo entre os três livros aponta para uma concepção exigente de defesa democrática. Eleições competitivas são indispensáveis, mas dependem de condições sociais que permitam compreender conflitos, avaliar argumentos, participar de organizações e reconhecer os direitos dos adversários. A cidadania requer experiências de responsabilidade e decisão coletiva que não podem ser substituídas pela liberdade de escolher produtos ou consumir mensagens políticas.


Barber permite recuperar a importância de subordinar o mercado às necessidades humanas e às decisões públicas (1). Zuboff mostra que essa tarefa alcança as infraestruturas digitais e a apropriação da experiência humana (2). Levitsky e Ziblatt acrescentam a responsabilidade de partidos e lideranças na contenção dos autoritários e na construção de instituições capazes de sustentar igualdade política (3).


A contribuição de Guerreiro Ramos amplia essa perspectiva ao reconhecer a pluralidade das formas de organização social. Associações, cooperativas, movimentos, universidades e espaços comunitários podem proporcionar experiências regidas por finalidades que ultrapassam a acumulação econômica (6). Nesses ambientes, os indivíduos podem desenvolver capacidades de diálogo, autolimitação e construção compartilhada de critérios de ação.


A reconstrução da cidadania também exige capacidade pública para investigar o funcionamento das plataformas. Conhecer seus critérios de seleção, suas práticas de coleta de dados e seus efeitos sobre a circulação política é condição para discutir limites democráticos ao poder empresarial. A regulação desse poder deve permitir que a liberdade de expressão conviva com transparência e responsabilização, evitando que o controle privado das infraestruturas seja confundido com liberdade plena dos seus usuários.


Na disputa política, essa perspectiva exige mais do que aperfeiçoar técnicas de comunicação. O enfrentamento da extrema direita depende de compreender experiências sociais concretas, construir vínculos e disputar interpretações sobre problemas públicos. Uma comunicação democrática precisa alcançar os cidadãos e, ao mesmo tempo, criar condições para que eles participem da elaboração dos sentidos da vida coletiva.


8. Considerações finais


O primeiro turno de 2026 fornece um problema empírico relevante para o diálogo entre Barber, Zuboff, Levitsky e Ziblatt. O avanço eleitoral do campo bolsonarista e o desempenho de candidaturas com forte presença digital exigem examinar como conflitos sociais encontram formas de comunicação e estruturas organizacionais capazes de produzir identificação, mobilização e poder institucional.


Barber permite compreender a tensão entre cultura de consumo e responsabilidade pública. Zuboff revela a apropriação da experiência humana por organizações que acumulam capacidades assimétricas de conhecimento e intervenção. Levitsky e Ziblatt mostram como atores semileais podem facilitar a normalização do autoritarismo. Guerreiro Ramos ajuda a relacionar essas dimensões ao poder das organizações de estruturar ambientes cognitivos.


A articulação desses enfoques não oferece uma explicação causal pronta para os resultados eleitorais. Oferece um programa de interpretação e investigação: acompanhar experiências materiais, mensagens políticas, operações das plataformas e comportamentos institucionais. Sua contribuição consiste em compreender a cidadania dentro das relações de poder que organizam suas possibilidades de formação e exercício.


A democracia pode resistir a uma tentativa de ruptura e continuar socialmente vulnerável. Sua preservação exige que cidadãos possam compreender e disputar as condições em que suas escolhas são produzidas, que partidos assumam os custos de enfrentar autoritários do próprio campo e que poderes empresariais permaneçam sujeitos a decisões públicas. É nessa relação entre autonomia, responsabilidade coletiva e limitação do poder que a defesa democrática adquire profundidade.



Referências

(1) BARBER, Benjamin R. Consumido: como o mercado corrompe crianças, infantiliza adultos e engole cidadãos. Tradução de Bruno Casotti. Rio de Janeiro: Record, 2009.

(2) ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.

(3) LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como salvar a democracia. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.

(4) BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) vão disputar o 2º turno para a Presidência da República. 5 out. 2026. Dados divulgados com 99,99% das urnas apuradas. Tribunal Superior Eleitoral

(5) UOL. PL elege deputado federal mais votado em 11 estados; PT, só em dois. 4 out. 2026, atualizado em 5 out. 2026; Mais votados, Nikolas e Pavanato ajudaram a eleger 20 deputados. 5 out. 2026. noticias.uol.com.br

(6) GUERREIRO RAMOS, Alberto. A nova ciência das organizações: uma reconceituação da riqueza das nações. Florianópolis: Enunciado Publicações, 2022.

(7) FOLHA DE S.PAULO. Influenciadores de direita tiveram votação recorde para deputado em 9 estados. 5 out. 2026.


P.S.: Usei a IA GPT 5.6 na busca e organização das informações, e na elaboração da ilustração para o texto, que foi concebido, editado e revisado por mim.

 
 
 

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