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Mercadocentrismo e liberal-conservadorismo: o Estadão, São Paulo e as contradições do desenvolvimento brasileiro

há 6 dias
20 min de leitura

Objetivo

Analisar/interpretar criticamente as relações entre mercadocentrismo, liberal-conservadorismo e desenvolvimento brasileiro, tomando como referências o discurso editorial do jornal O Estado de S. Paulo e a formação histórica e contemporânea da economia paulista. A investigação procura compreender as contradições entre liberdade de mercado e preservação de tradições, as convergências e divergências entre liberal-conservadorismo e bolsonarismo e os limites de uma concepção de desenvolvimento orientada predominantemente pela racionalidade econômica.


Resumo

O liberal-conservadorismo contemporâneo combina, em diferentes proporções, a defesa da liberdade econômica e da iniciativa privada com a valorização de determinadas instituições, costumes e formas de autoridade. Essa combinação apresenta tensões históricas, pois a expansão dos mercados também transforma relações familiares, valores culturais, territórios e ecossistemas. O artigo examina essas contradições articulando as contribuições de Karl Polanyi, Guerreiro Ramos, Anthony Giddens, André Lara Resende e Edgar Morin. O discurso editorial do Estadão e a experiência histórica paulista constituem referências para investigar as relações entre racionalidade econômica, conservadorismo político e democracia. A interpretação da formação da riqueza brasileira, apoiada em Jorge Caldeira e John Manuel Monteiro, permite reconhecer a pluralidade das economias indígenas, a exploração colonial e as transformações socioecológicas. Argumenta-se que o conservadorismo político não se confunde com o conservacionismo socioecológico e que a centralidade econômica paulista não autoriza sua universalização como modelo de desenvolvimento. Conclui-se que a superação do mercadocentrismo exige reconhecer a pluralidade das racionalidades, a diversidade cultural e territorial brasileira e as interdependências entre economia, democracia e sustentabilidade.


 

Introdução


A economia de mercado constitui uma das instituições centrais das sociedades contemporâneas. Entretanto, sua importância histórica não significa que todas as dimensões da vida social possam ser compreendidas ou organizadas segundo critérios mercantis. A expansão dos mercados transforma a produção, o consumo, o trabalho, as instituições políticas, os costumes e as relações entre sociedade e natureza.


Essas transformações produzem tensões entre diferentes concepções de liberdade, autoridade, tradição, democracia e desenvolvimento. Uma delas aparece no liberal-conservadorismo contemporâneo, orientação que combina, em diferentes proporções, a defesa da liberdade econômica, da propriedade privada e da iniciativa empresarial com a valorização de determinadas instituições e tradições sociais.


A combinação não é homogênea. Existem correntes liberal-conservadoras comprometidas com o pluralismo e as instituições democráticas, enquanto outras estabelecem relações mais próximas com movimentos nacionalistas, religiosos ou autoritários. Entretanto, uma contradição atravessa diferentes manifestações dessa orientação: como preservar determinadas tradições quando se defende uma economia cuja dinâmica transforma continuamente instituições, relações humanas e costumes?


Anthony Giddens identificou essa tensão ao examinar as transformações do conservadorismo contemporâneo. Em Beyond Left and Right, observou que setores da direita passaram a defender a radicalização das forças de mercado, mesmo quando sua expansão enfraquece tradições que o conservadorismo historicamente procurou preservar [1].


Essa interpretação pode ser aprofundada mediante o diálogo com Karl Polanyi, que examinou a transformação histórica da sociedade de mercado, e Guerreiro Ramos, cuja crítica à racionalidade instrumental permite compreender os limites de uma sociedade centrada no mercado [2][3].


No Brasil, essas questões adquirem características particulares. A formação econômica nacional combina colonização, escravização, desigualdades regionais, industrialização, modernização tecnológica e extraordinária diversidade cultural e ecológica. A história da riqueza brasileira não pode ser compreendida exclusivamente pela expansão dos mercados, assim como o desenvolvimento não pode ser avaliado apenas pelo crescimento do Produto Interno Bruto.


O jornal O Estado de S. Paulo, conhecido como Estadão, constitui um objeto relevante para investigar como determinadas interpretações econômicas e políticas são formuladas e difundidas. Sua tradição editorial permite examinar tanto a defesa de princípios liberais quanto suas posições diante das transformações da direita brasileira.


A experiência econômica de São Paulo acrescenta uma dimensão histórica e territorial. Frequentemente representado como locomotiva econômica do país, o estado concentra atividades industriais, financeiras e tecnológicas de grande importância nacional. Entretanto, sua formação envolveu colonização, exploração do trabalho, concentração de recursos, intervenções estatais e transformações ambientais que não podem ser reduzidas à eficiência dos mercados.


A questão central deste artigo consiste em compreender em que medida o discurso editorial do Estadão expressa orientações mercadocêntricas e liberal-conservadoras, quais tensões aparecem em suas relações com o bolsonarismo e como essas orientações podem ser examinadas diante da história paulista e da diversidade brasileira.


O artigo desenvolve quatro movimentos argumentativos. Inicialmente, examina os fundamentos históricos e epistemológicos do mercadocentrismo e do liberal-conservadorismo. Em seguida, analisa o Estadão como instituição que participa da produção de interpretações econômicas e políticas. A terceira seção recupera a formação histórica da riqueza paulista, destacando as economias indígenas e a distinção entre conservadorismo político e conservacionismo socioecológico. A quarta seção discute os limites da generalização da experiência paulista diante das desigualdades regionais e das exigências contemporâneas do desenvolvimento.


Trata-se de um ensaio interpretativo apoiado em bibliografia acadêmica, documentos jornalísticos identificados e dados institucionais. A análise dos editoriais não pretende substituir uma pesquisa sistemática de conteúdo, mas estabelecer hipóteses fundamentadas e identificar questões que exigem aprofundamento documental.


1. Mercadocentrismo e liberal-conservadorismo: fundamentos e contradições


O liberalismo não constitui uma ideologia homogênea. Richard Bellamy, em Liberalismo e sociedade moderna, demonstra que suas diferentes correntes resultaram de transformações históricas e disputas sobre liberdade, propriedade, igualdade, Estado e democracia [4].


Reconhecer essa diversidade, entretanto, não elimina as relações históricas entre liberalismo econômico e expansão das instituições mercantis. Determinadas correntes atribuíram ao mercado uma capacidade privilegiada de coordenação social, considerando a concorrência e a iniciativa individual fundamentos essenciais da prosperidade.


Karl Polanyi demonstrou que a consolidação da economia de mercado moderna representou uma transformação institucional profunda. Em A grande transformação, argumentou que a novidade histórica não foi a existência de mercados, presentes em diferentes sociedades, mas a tentativa de organizar a economia como um sistema autorregulado, relativamente separado das instituições sociais e políticas [2].


Para Polanyi, as atividades econômicas sempre estiveram inseridas nas relações sociais. Sua transformação em esfera aparentemente autônoma envolveu o tratamento do trabalho, da terra e do dinheiro como mercadorias.


O caráter problemático dessa transformação decorre da natureza dessas dimensões. O trabalho corresponde à própria atividade humana; a terra representa a natureza e seus ecossistemas; o dinheiro depende de instituições sociais e políticas. Sua submissão à lógica mercantil produz consequências que ultrapassam o domínio econômico.


Guerreiro Ramos aprofunda essa crítica em A nova ciência das organizações [3]. Para o autor, a sociedade centrada no mercado tende a generalizar a racionalidade instrumental, transformando critérios de eficiência, produtividade e cálculo econômico em referências dominantes para a organização da vida humana.


A crítica não implica negar a utilidade da racionalidade instrumental, mas questionar sua pretensão de exclusividade. A racionalidade substantiva envolve a capacidade de orientar a ação por valores, finalidades humanas e reflexão crítica sobre os objetivos da existência.


A teoria da delimitação dos sistemas sociais, proposta por Guerreiro Ramos, permite compreender a economia como uma dimensão importante, mas não exclusiva, da vida associada. Diferentes espaços de convivência, participação e realização humana possuem finalidades que não podem ser adequadamente subordinadas ao cálculo mercantil.


Anthony Giddens acrescenta uma contradição particularmente relevante para compreender o liberal-conservadorismo. O conservadorismo tradicional valoriza a continuidade institucional e a preservação de costumes, enquanto a dinâmica capitalista frequentemente exige inovação, mobilidade, competição e transformação das relações sociais [1].


A combinação entre liberalismo econômico radical e conservadorismo moral pode, portanto, produzir tensões internas. A defesa da família tradicional, por exemplo, convive com uma economia que transforma o trabalho, o consumo, a divisão das responsabilidades familiares e as condições de convivência.


A mercantilização da vida cotidiana pode converter relações anteriormente organizadas por obrigações sociais, reciprocidade e pertencimento em serviços e transações monetárias. O cuidado de crianças e idosos, as atividades domésticas e diferentes formas de convivência passam a ser influenciados pelas exigências do mercado de trabalho e da capacidade de consumo.


Isso não significa que os mercados necessariamente eliminem os vínculos familiares ou que todos os conservadores defendam sua expansão irrestrita. Significa reconhecer uma tensão estrutural entre a transformação econômica permanente e a pretensão de conservar determinadas formas de organização social.


Essa contradição pode aparecer também na atuação do Estado. Projetos políticos que defendem sua redução na esfera econômica podem, simultaneamente, reivindicar maior intervenção estatal na regulação dos costumes, na educação, na segurança pública ou na afirmação de determinadas concepções morais.


A crítica de André Lara Resende à macroeconomia convencional acrescenta uma dimensão epistemológica. Em Consenso e contrassenso e Camisa de força ideológica, o autor questiona pressupostos frequentemente apresentados como consensos técnicos, especialmente nas interpretações sobre moeda, juros, dívida pública e política fiscal [5][6].


Sua contribuição permite investigar como determinadas concepções econômicas adquirem autoridade pública e passam a restringir a percepção das alternativas disponíveis. Isso não significa que restrições econômicas sejam inexistentes, mas que sua interpretação depende de teorias, instituições e circunstâncias históricas sujeitas à controvérsia científica.


A perspectiva da complexidade de Edgar Morin oferece fundamentos adicionais para superar essa fragmentação. Em O método 1: a natureza da natureza, o autor examina a organização dos sistemas e as relações entre ordem, desordem e interações, permitindo questionar interpretações que isolam a economia de suas condições sociais e ecológicas [7].


Em O método 3: o conhecimento do conhecimento, Morin aprofunda a reflexividade epistemológica e a necessidade de examinar os próprios processos de produção do conhecimento [8]. Essa contribuição permite compreender que as teorias econômicas não são representações neutras e definitivas da realidade, mas construções sujeitas a pressupostos, limites e revisões.


O diálogo entre esses autores permite compreender o mercadocentrismo como fenômeno simultaneamente histórico, institucional, político e cognitivo. Sua crítica não se limita à discussão sobre a presença do Estado na economia, mas envolve os critérios utilizados para definir racionalidade, riqueza, liberdade e desenvolvimento.


2. O Estadão, a política cognitiva e os sistemas de ideias do liberal-conservadorismo


A imprensa participa da construção pública dos problemas econômicos e políticos. Além de transmitir informações, seleciona acontecimentos, estabelece prioridades, organiza interpretações e oferece critérios para avaliar governos, instituições e políticas públicas.


Essa atividade não implica necessariamente manipulação ou ausência de compromisso com a verdade factual. Entretanto, permite reconhecer que a produção jornalística envolve escolhas editoriais e pressupostos interpretativos que podem ser examinados criticamente.


O Estadão possui uma longa tradição de intervenção no debate público brasileiro. Fundado em 1875, o jornal reivindica uma identidade liberal e republicana. Em retrospectiva publicada em abril de 2025, por ocasião de seus 150 anos, apresentou essa tradição como elemento de continuidade de sua atuação na discussão das políticas econômicas brasileiras [11].


Essa autodefinição constitui evidência documental de sua orientação histórica, embora não demonstre, isoladamente, adesão a todas as formas contemporâneas de liberal-conservadorismo.


O conceito de política cognitiva, desenvolvido por Guerreiro Ramos, oferece uma perspectiva relevante para examinar como determinadas interpretações adquirem legitimidade social e passam a orientar a percepção pública da realidade [3].


Na sociedade centrada no mercado, a política cognitiva não precisa assumir a forma de uma manipulação deliberada ou de uma conspiração. Ela pode operar por meio da naturalização de pressupostos, da seleção de critérios de avaliação e da apresentação de determinadas interpretações como expressões evidentes da racionalidade.


No discurso econômico, esse processo pode manifestar-se quando conceitos e indicadores são apresentados como parâmetros suficientes para avaliar fenômenos complexos.


A responsabilidade fiscal, a estabilidade monetária, a segurança jurídica e a eficiência administrativa são objetivos relevantes. Entretanto, sua interpretação depende das relações que estabelecem com investimentos públicos, distribuição de renda, proteção social, desenvolvimento regional e sustentabilidade ambiental.


A hipótese mercadocêntrica torna-se pertinente quando esses critérios passam a ocupar posição dominante, subordinando outras dimensões da vida coletiva.


A contribuição de Edgar Morin permite aprofundar essa análise. Em O método 4: as ideias, o autor examina a ecologia das ideias, sua relativa autonomia e suas formas de organização em teorias, doutrinas e sistemas de pensamento [9].


Essa perspectiva permite investigar o liberal-conservadorismo como uma configuração de ideias que articula concepções econômicas, políticas, morais e institucionais. A importância dessa abordagem está em evitar que as posições editoriais sejam tratadas como manifestações isoladas. Uma orientação ideológica pode estabelecer relações relativamente estáveis entre diferentes temas, mesmo quando apresenta tensões internas.


No caso do Estadão, a investigação precisa distinguir os editoriais institucionais das reportagens e das opiniões de articulistas. Também deve diferenciar as posições efetivamente documentadas das hipóteses interpretativas formuladas pelo pesquisador.


A relação do jornal com o bolsonarismo oferece um campo especialmente interessante para examinar essas tensões. Em 18 de junho de 2025, o editorial O golpismo corre nas veias condenou declarações de Flávio Bolsonaro que condicionavam o apoio político de seu pai a compromissos relacionados a indulto e confronto com o Supremo Tribunal Federal. O jornal interpretou essas posições como expressão de desrespeito às instituições democráticas [12].


O documento é importante porque permite identificar uma divergência institucional explícita entre o Estadão e práticas políticas associadas ao bolsonarismo. A condenação de ameaças à ordem constitucional, entretanto, não demonstra uma divergência equivalente em matéria econômica. Um jornal pode defender a economia de mercado e, simultaneamente, rejeitar práticas autoritárias de lideranças que também se apresentam como liberais ou conservadoras.


Essa distinção impede duas simplificações. A primeira seria considerar o Estadão politicamente identificado com o bolsonarismo apenas por compartilhar determinadas orientações econômicas. A segunda seria concluir que suas críticas às práticas antidemocráticas do bolsonarismo eliminam possíveis convergências em políticas de privatização, redução da intervenção estatal ou valorização da iniciativa privada.


O caso de Tarcísio de Freitas acrescenta outra dimensão à análise. Sua trajetória política combina identificação com o bolsonarismo, defesa da economia de mercado e apresentação pública de uma imagem de competência administrativa. Essa combinação permite investigar como liberalismo econômico, conservadorismo e pragmatismo institucional se articulam em uma experiência concreta de governo.


Entretanto, a proximidade entre determinadas posições econômicas não elimina divergências sobre democracia, autoridade, instituições ou estratégias políticas. Uma reportagem publicada pelo Estadão em junho de 2025 registrou que Tarcísio atribuía parte das dificuldades econômicas paulistas às políticas fiscais federais e à manutenção de juros elevados, ao mesmo tempo que preservava relações institucionais de cooperação com o governo Lula [13].


Esse registro não constitui uma posição editorial do jornal, mas documenta uma dimensão relevante do discurso econômico do governador. Sua interpretação exige distinguir as declarações do agente político, o trabalho informativo dos repórteres e os juízos institucionais do periódico.


A hipótese central desta seção é que as tensões entre o Estadão e o bolsonarismo podem estar relacionadas não apenas às diferenças entre projetos econômicos, mas também às distintas interpretações sobre a legitimidade das instituições e os limites do exercício do poder.


Essa hipótese precisa ser examinada sem pressupor que o liberal-conservadorismo constitua uma posição necessariamente autoritária ou que todas as suas correntes apresentem a mesma relação com a democracia.


A contribuição de Giddens permite ampliar a análise. O problema não está apenas na relação entre mercado e instituições políticas, mas também na contradição entre a expansão das forças mercantis e a preservação de costumes tradicionais.


A questão torna-se especialmente significativa quando se observa que o mercado pode transformar as próprias instituições que determinados projetos conservadores pretendem proteger. Assim, a crítica ao mercadocentrismo editorial não deveria limitar-se à identificação de posições favoráveis à iniciativa privada ou à redução da intervenção estatal. Seria necessário investigar como o jornal interpreta as relações entre economia, família, religião, democracia, desigualdade social e sustentabilidade.


O diálogo entre Guerreiro Ramos e Morin permite compreender que essas interpretações não operam apenas no plano das opiniões individuais. Elas integram sistemas de ideias que podem organizar a percepção pública da realidade, orientar decisões políticas e influenciar a definição dos problemas considerados relevantes.


3. São Paulo: formação da riqueza, colonização e conservacionismo socioecológico


A imagem de São Paulo como locomotiva econômica brasileira está associada à industrialização, à concentração empresarial, à urbanização e ao desenvolvimento de atividades financeiras e tecnológicas.


Entretanto, essa representação tende a privilegiar determinados períodos e dimensões da história econômica paulista, deixando em segundo plano processos anteriores à consolidação da economia capitalista moderna.


Jorge Caldeira, em História da riqueza no Brasil, oferece uma contribuição importante para reconsiderar essa trajetória [14]. Sua investigação combina documentação histórica, antropologia e métodos quantitativos para recuperar a importância de circuitos econômicos internos, redes de trocas e formas de produção frequentemente subestimadas pelas interpretações tradicionais.


Caldeira questiona narrativas que identificam a formação da riqueza brasileira quase exclusivamente com a grande propriedade exportadora. Sua abordagem evidencia a importância de atividades descentralizadas e de formas de organização econômica que não se enquadram integralmente nas categorias utilizadas para descrever os grandes empreendimentos coloniais.


Essa interpretação deve ser articulada criticamente com Polanyi. A existência de mercados e redes de trocas não implica que as sociedades nas quais operavam fossem organizadas segundo o princípio de mercados autorregulados.


Nas sociedades indígenas, diferentes formas de produção e circulação de bens estavam relacionadas a instituições sociais, conhecimentos ecológicos, sistemas de parentesco, reciprocidade e cosmologias próprias.


A riqueza, nesses contextos, não pode ser reduzida à acumulação monetária ou à produção destinada ao mercado. Envolve também conhecimentos, vínculos comunitários, condições territoriais e relações com os demais seres que integram os ecossistemas.


A historiografia de John Manuel Monteiro permite aprofundar essa discussão no caso paulista. Em Negros da terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo, o autor demonstra a importância da exploração do trabalho indígena na formação da sociedade colonial de São Paulo [15].


A expansão das atividades econômicas envolveu apropriação territorial, escravização, deslocamentos forçados e desestruturação de numerosas formas indígenas de organização social e econômica.


Esses processos contribuíram para a formação da riqueza colonial, mas também produziram perdas humanas, culturais e ecológicas que não podem ser adequadamente representadas pelos indicadores tradicionais de crescimento econômico.


É importante evitar, entretanto, a ideia de desaparecimento completo das economias indígenas. A colonização envolveu violência e destruição, mas também resistências, adaptações, continuidades e reelaborações culturais. Os povos indígenas permanecem como sujeitos históricos e contemporâneos, com formas próprias de organização social, econômica e territorial.


Essa dimensão permite introduzir uma distinção conceitual fundamental: o conservadorismo político e moral não se confunde com o conservacionismo socioecológico.


O conservadorismo político está relacionado à valorização da continuidade de determinadas instituições, tradições e formas de autoridade. Suas diferentes correntes podem atribuir importância à família, à religião, à propriedade e à estabilidade da ordem social.


O conservacionismo socioecológico, por sua vez, envolve a proteção e o manejo das condições ecológicas que sustentam a vida, incluindo biodiversidade, territórios, recursos hídricos e relações entre sociedades humanas e ecossistemas.


No caso de muitos povos indígenas, entretanto, a própria expressão conservacionismo precisa ser utilizada com cautela. As relações com a natureza não correspondem necessariamente à concepção ocidental de proteção ambiental como atividade separada da economia e da cultura.


Florestas, rios, animais e territórios podem integrar sistemas de relações sociais, espirituais e simbólicas que não se enquadram na separação moderna entre sociedade e natureza. Essas culturas não devem ser idealizadas como sociedades que jamais transformaram seus ambientes. Diferentes povos indígenas desenvolveram práticas de agricultura, manejo florestal, uso do fogo, circulação territorial e transformação das paisagens. O que importa reconhecer é a diversidade de conhecimentos e instituições que orientam essas relações.


Essa compreensão encontra apoio na perspectiva de Morin sobre a condição humana. Em O método 5: a humanidade da humanidade, o autor questiona as concepções redutoras do ser humano e propõe compreender sua constituição simultaneamente biológica, cultural, social, afetiva e simbólica [10].


A crítica ao homo oeconomicus torna-se particularmente relevante. O ser humano não pode ser compreendido apenas como agente calculador orientado pela maximização de interesses individuais. Suas relações econômicas integram formas mais amplas de existência, pertencimento, cooperação, conflito e produção de significados.


Essa perspectiva permite compreender por que as relações indígenas com os territórios não podem ser reduzidas à exploração de recursos naturais. Os territórios constituem também condições de reprodução cultural, organização social e continuidade histórica.


A distinção torna-se especialmente relevante diante das contradições do liberal-conservadorismo contemporâneo.


Um projeto político pode defender a preservação de determinados costumes e instituições familiares e, simultaneamente, apoiar atividades econômicas que transformam profundamente territórios, paisagens e modos de vida tradicionais.


Isso não significa que o conservadorismo político seja necessariamente incompatível com a proteção ambiental. Existem tradições conservadoras comprometidas com a conservação da natureza. Entretanto, a preservação de costumes e a conservação das condições ecológicas da vida constituem compromissos distintos, cuja articulação precisa ser investigada historicamente.


A expansão colonial paulista oferece um exemplo de como processos de acumulação econômica podem transformar relações sociais e ecológicas preexistentes. Posteriormente, a economia cafeeira, a escravização de africanos e seus descendentes, a imigração, a industrialização e a urbanização ampliaram a capacidade produtiva do estado, mas também produziram desigualdades e transformações ambientais profundas.


A formação da riqueza paulista não pode, portanto, ser atribuída exclusivamente à eficiência empresarial ou à liberdade de mercado. Ela resultou de relações complexas entre trabalho, instituições, políticas públicas, conhecimentos, infraestrutura, conflitos sociais e apropriação da natureza.


A perspectiva de Morin permite compreender essas relações sem separar artificialmente economia, sociedade e ecologia. A contribuição de Guerreiro Ramos acrescenta uma questão decisiva: a expansão da produção mercantil não constitui, por si só, demonstração de desenvolvimento substantivo. A história paulista oferece, assim, um campo privilegiado para investigar os limites de uma concepção de riqueza orientada predominantemente por indicadores monetários.


4. O modelo paulista contemporâneo e os limites de sua generalização nacional


São Paulo permanece como a maior economia estadual brasileira. Sua estrutura produtiva concentra atividades industriais, financeiras, comerciais, tecnológicas e de serviços que exercem influência sobre o conjunto do país.


Entretanto, sua centralidade econômica não significa que sua trajetória possa ser interpretada como modelo universal de desenvolvimento. As Contas Regionais do IBGE permitem acompanhar a participação paulista na produção nacional e suas transformações ao longo do tempo [16]. A interpretação desses dados exige distinguir crescimento absoluto, participação relativa e mudanças na estrutura produtiva brasileira.


A participação relativa de um estado depende também do crescimento das demais regiões, de mudanças setoriais e de alterações nos preços relativos. Por isso, variações na participação paulista no PIB brasileiro não podem ser atribuídas automaticamente ao desempenho de um único governo estadual.


A avaliação da economia paulista contemporânea exige considerar diferentes dimensões. Crescimento do PIB, desempenho industrial, investimentos, emprego, distribuição de renda, arrecadação, contas públicas e condições ambientais não apresentam necessariamente a mesma evolução.


Também é necessário distinguir processos estruturais de longa duração dos efeitos de políticas adotadas por governos específicos. No caso do governo Tarcísio de Freitas, iniciado em 2023, a análise das políticas de privatização, concessões, investimentos públicos e administração fiscal deve considerar objetivos declarados, medidas efetivamente implementadas e resultados observáveis.


A defesa de privatizações não demonstra, por si só, fundamentalismo de mercado. Essa caracterização exigiria verificar se os argumentos utilizados atribuem superioridade universal à gestão privada, independentemente das características dos serviços, das estruturas regulatórias e dos resultados sociais.


Da mesma forma, uma avaliação de desempenho não pode atribuir automaticamente ao governo estadual efeitos decorrentes da política monetária federal, das condições internacionais ou de transformações produtivas anteriores.


A crítica epistemológica de André Lara Resende pode contribuir para questionar simplificações no debate econômico, mas suas reflexões sobre moeda e dívida soberana não devem ser transferidas mecanicamente à administração financeira de um estado federado, que não dispõe de soberania monetária.


O problema central está nos critérios utilizados para avaliar o desenvolvimento. Uma concepção predominantemente mercadocêntrica tende a privilegiar crescimento econômico, competitividade, confiança empresarial e desempenho financeiro. Uma concepção multidimensional precisa incorporar também a qualidade dos serviços públicos, as desigualdades sociais, a organização territorial, a participação democrática e a sustentabilidade ecológica.


Essa exigência não depende apenas de uma interpretação teórica. O artigo 170 da Constituição Federal de 1988 estabelece uma ordem econômica fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, orientada à existência digna e à justiça social. Entre seus princípios estão a função social da propriedade, a defesa do meio ambiente e a redução das desigualdades regionais e sociais [17].


A Constituição brasileira não estabelece, portanto, uma oposição simples entre liberdade econômica e responsabilidade social. Ela reconhece a livre iniciativa, mas a insere em um conjunto mais amplo de princípios.


A contribuição de Celso Furtado torna-se relevante nesse ponto. Sua interpretação da formação econômica brasileira evidencia que as desigualdades regionais resultam de processos históricos de concentração econômica e diferenciação das estruturas produtivas [18].


As regiões brasileiras não representam simplesmente etapas diferentes de uma trajetória uniforme de modernização. Suas características históricas, sociais e ambientais exigem políticas diferenciadas e articuladas nacionalmente.


A diversidade dos biomas brasileiros amplia essa exigência. Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa apresentam dinâmicas ecológicas distintas, associadas a diferentes formas de ocupação territorial, produção econômica e organização social.


Políticas adequadas a uma região altamente urbanizada e industrializada podem não responder às necessidades de territórios nos quais a segurança hídrica, a conservação florestal, a agricultura familiar, as economias tradicionais ou a adaptação climática constituem questões centrais.


A experiência paulista pode oferecer conhecimentos e instrumentos relevantes, mas sua eventual aplicação a outras regiões exige adaptações institucionais, produtivas e ecológicas. Essa constatação também modifica a compreensão do liberal-conservadorismo.


A defesa da liberdade econômica pode produzir transformações profundas nas relações sociais e ambientais, enquanto a preservação de determinadas tradições políticas ou morais não assegura, necessariamente, a continuidade das condições ecológicas e culturais que sustentam diferentes modos de vida.


A contradição examinada por Giddens adquire, assim, uma dimensão territorial e socioecológica. A questão não se limita à preservação da família tradicional diante das transformações do mercado. Envolve também a relação entre expansão mercantil, conservação dos ecossistemas e continuidade de culturas historicamente vinculadas a seus territórios.


A articulação entre Polanyi, Guerreiro Ramos e Morin permite compreender essa contradição como parte de um problema mais amplo: a subordinação de dimensões heterogêneas da vida social a uma racionalidade econômica que não é capaz de representar adequadamente sua complexidade.

Nesse contexto, a experiência paulista oferece uma referência para investigar como discursos de modernização e eficiência econômica interpretam os custos sociais e ecológicos do desenvolvimento.


O Estadão, por sua influência no debate público, constitui um espaço relevante para examinar essas interpretações. A questão central é verificar se seus editoriais reconhecem a pluralidade das condições históricas e territoriais brasileiras ou se tendem a apresentar determinadas experiências econômicas como referências generalizáveis.


Essa investigação precisa permanecer aberta às evidências. A orientação editorial do jornal não pode ser deduzida exclusivamente de sua tradição histórica ou de sua localização paulista. Entretanto, o confronto entre discurso econômico, história regional e diversidade socioecológica oferece um caminho consistente para examinar os limites do mercadocentrismo e as contradições do liberal-conservadorismo.


Considerações finais — Desenvolvimento, democracia e pluralidade das racionalidades


A análise desenvolvida neste artigo permite compreender o mercadocentrismo e o liberal-conservadorismo como fenômenos relacionados, mas conceitualmente distintos.


O mercadocentrismo refere-se à tendência de transformar os critérios mercantis em parâmetros dominantes de organização e avaliação da sociedade. O liberal-conservadorismo reúne orientações que procuram articular liberdade econômica, propriedade privada e iniciativa empresarial à preservação de determinadas instituições e tradições.


Essa combinação pode apresentar tensões históricas, especialmente quando a expansão dos mercados transforma relações sociais e culturais que determinados projetos conservadores procuram preservar.


Karl Polanyi demonstrou que a autonomização da economia mercantil representa uma transformação institucional profunda. Guerreiro Ramos ampliou essa crítica ao questionar a centralidade da racionalidade instrumental e propor uma concepção multicêntrica da organização social.


Anthony Giddens evidenciou as contradições de correntes políticas que procuram conservar tradições enquanto defendem a radicalização das forças de mercado. André Lara Resende acrescenta a necessidade de submeter os pressupostos macroeconômicos convencionais ao debate científico.


A contribuição de Edgar Morin permite aprofundar essa interpretação em diferentes dimensões. O primeiro volume de O método fundamenta a compreensão das interdependências organizacionais; o terceiro amplia a reflexividade epistemológica; o quarto permite investigar os sistemas de ideias e sua relativa autonomia; e o quinto contribui para superar as concepções redutoras da condição humana.


A história da riqueza brasileira, examinada a partir de Jorge Caldeira e John Manuel Monteiro, demonstra a importância de reconhecer a pluralidade das formas de produção e organização econômica. No caso paulista, a formação da riqueza esteve associada tanto à expansão de atividades produtivas quanto à exploração do trabalho, à apropriação territorial e à transformação de sociedades e ecossistemas.


A distinção entre conservadorismo político e conservacionismo socioecológico constitui uma consequência importante dessa interpretação. A preservação de determinadas tradições sociais não equivale à conservação da biodiversidade, dos territórios e das condições de reprodução de diferentes culturas.


No caso dos povos indígenas, essa diferença exige reconhecer formas de organização econômica e relações com a natureza que não podem ser adequadamente compreendidas pelos critérios da racionalidade mercantil.


A experiência paulista contemporânea acrescenta outra dimensão à análise. Sua importância econômica não autoriza a transformação automática de suas políticas e instituições em modelo nacional de desenvolvimento.


As desigualdades regionais e a diversidade dos biomas brasileiros exigem uma concepção de desenvolvimento capaz de reconhecer diferentes trajetórias históricas, estruturas produtivas, necessidades sociais e condições ecológicas.


O Estadão oferece um campo relevante para investigar como essas questões aparecem no debate público. A documentação original examinada confirma a defesa institucional de uma tradição liberal e republicana e registra uma crítica explícita a práticas antidemocráticas do bolsonarismo.


Entretanto, a extensão das convergências e divergências econômicas e culturais entre o jornal, o governo paulista e diferentes correntes da direita exige investigação documental mais abrangente.

A contribuição deste ensaio consiste em formular uma perspectiva que articula crítica epistemológica, história econômica, análise do discurso e sustentabilidade socioecológica.


Superar o mercadocentrismo não significa negar a importância dos mercados, mas reconhecer seus limites como princípios de organização social. Do mesmo modo, compreender o liberal-conservadorismo exige examinar suas diferentes correntes, suas relações com a democracia e as tensões entre transformação econômica e preservação das tradições.


O desenvolvimento brasileiro não pode ser reduzido à reprodução de um modelo regional nem à aplicação de critérios econômicos considerados universais. Uma concepção democrática e substantiva de desenvolvimento precisa reconhecer a pluralidade das racionalidades, das culturas, dos territórios e das relações entre sociedade e natureza.


A riqueza de uma sociedade não se mede apenas pelo que seus mercados produzem, mas também pelas condições humanas, culturais, institucionais e ecológicas que ela é capaz de sustentar.


Referências

(1) GIDDENS, Anthony. Beyond Left and Right: The Future of Radical Politics. Stanford: Stanford University Press, 1994.

(2) POLANYI, Karl. A grande transformação: as origens de nossa época. Rio de Janeiro: Campus, 1980.

(3) GUERREIRO RAMOS, Alberto. A nova ciência das organizações: uma reconceituação da riqueza das nações. Tradução de Francisco G. Heidemann e Ariston Azevedo. Enunciado Publicações, 2022.

(4) BELLAMY, Richard. Liberalismo e sociedade moderna. São Paulo: Editora UNESP, 1994.

(5) RESENDE, André Lara. Consenso e contrassenso: por uma economia não dogmática. São Paulo: Portfolio-Penguin, 2020.

(6) RESENDE, André Lara. Camisa de força ideológica: a crise da macroeconomia. São Paulo: Portfolio-Penguin, 2022.

(7) MORIN, Edgar. O método 1: a natureza da natureza. 2. ed. Porto Alegre: Sulina, 2003.

(8) MORIN, Edgar. O método 3: o conhecimento do conhecimento. 2. ed. Porto Alegre: Sulina, 1999.

(9) MORIN, Edgar. O método 4: as ideias: habitat, vida, costumes, organização. 3. ed. Porto Alegre: Sulina, 2002.

(10) MORIN, Edgar. O método 5: a humanidade da humanidade: a identidade humana. 2. ed. Porto Alegre: Sulina, 2003.

(11) ALCÂNTARA, Eurípedes. Estadão critica tarifaços desde 1875; veja como jornal cobriu planos e crises econômicas em 150 anos. O Estado de S. Paulo, 26 abr. 2025. Disponível em: https://www.estadao.com.br/150-anos/economia-em-transformacao/estadao-critica-tarifacos-desde-1875-veja-como-jornal-cobriu-planos-e-crises-economicas-em-150-anos/.

(12) O ESTADO DE S. PAULO. O golpismo corre nas veias. O Estado de S. Paulo, Editorial, 18 jun. 2025. Disponível em: https://www.estadao.com.br/opiniao/o-golpismo-corre-nas-veias/.

(13) FIGUEIREDO, Pedro Augusto; GOMES, Bianca; HENUD, Hugo. Tarcísio prevê cortes em 2026 em SP e culpa Lula por ter que frear investimentos. O Estado de S. Paulo, 1 jun. 2025. Disponível em: https://www.estadao.com.br/politica/tarcisio-preve-cortes-em-2026-em-sp-culpa-lula-enquanto-oposicao-ve-artimanha-eleitoral/.

(14) CALDEIRA, Jorge. História da riqueza no Brasil: cinco séculos de pessoas, costumes e governos. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2017.

(15) MONTEIRO, John Manuel. Negros da terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

(16) INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Sistema de Contas Regionais: Brasil 2023. Rio de Janeiro: IBGE, 2025. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/contas-nacionais/9054-contas-regionais-do-brasil.html.

(17) BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Art. 170. Disponível em: https://www.tse.jus.br/legislacao/codigo-eleitoral/constituicao-federal/constituicao-da-republica-federativa-do-brasil.

(18) FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1959.


P.S.: Usei a IA GPT 6.1 na busca e organização das informações, e na elaboração de uma ilustração para o texto, que foi concebido, editado e revisado por mim.

 
 
 

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