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Santa Catarina: competitividade, mercadocentrismo e os limites do desenvolvimento

26 de out.
19 min de leitura

(Poder político, publicidade governamental, contradições socioambientais e alternativas paraeconômicas)


Objetivo

Analisar as relações políticas, institucionais e cognitivas entre o modelo catarinense de desenvolvimento, a centralidade atribuída à competitividade econômica e a consolidação eleitoral do bolsonarismo. O artigo examina a publicidade governamental e as contradições socioambientais desse modelo, confrontando-as com a crítica de Guerreiro Ramos ao mercadocentrismo, a economia plural de Genauto Carvalho de França Filho e o paradigma da complexidade de Edgar Morin.


Resumo

Santa Catarina apresenta uma combinação significativa de dinamismo econômico, liderança em indicadores de competitividade e fortalecimento político da extrema direita. Em 2026, a eleição de Caroline De Toni e Carlos Bolsonaro para o Senado, a reeleição de Jorginho Mello e o expressivo desempenho presidencial do bolsonarismo evidenciaram a consolidação dessa configuração política. O artigo argumenta que esses acontecimentos devem ser compreendidos em suas relações com a concepção de desenvolvimento predominante no estado, sem reduzi-los a uma causalidade econômica ou eleitoral linear. A análise examina a competitividade como referência de legitimação política, o papel da publicidade governamental na construção de representações seletivas da realidade e as contradições socioambientais associadas à expansão econômica. Com base em Guerreiro Ramos, Genauto Carvalho de França Filho e Edgar Morin, propõe-se uma alternativa ao paradigma mercadocêntrico, fundamentada na racionalidade substantiva, na economia plural, na cooperação, na democracia e na sustentabilidade ecológica.



1. Introdução


Santa Catarina constitui um caso especialmente relevante para compreender as relações contemporâneas entre desenvolvimento econômico, poder político e cultura ideológica. O estado apresenta uma economia diversificada, tradição industrial, forte presença empresarial, experiências cooperativas e indicadores socioeconômicos relativamente favoráveis. Entretanto, também convive com problemas históricos de saneamento, desigualdades territoriais, conflitos socioambientais e crescente exposição aos riscos associados às mudanças climáticas.


Em 2026, Santa Catarina alcançou a liderança no Ranking de Competitividade dos Estados, elaborado pelo Centro de Liderança Pública (CLP), resultado amplamente valorizado pelo governo Jorginho Mello (1). A competitividade passou a ocupar posição destacada na narrativa oficial de sucesso administrativo e econômico.


No mesmo contexto, as eleições de 2026 evidenciaram a consolidação política do bolsonarismo. Jorginho Mello foi reeleito governador, enquanto Caroline De Toni e Carlos Bolsonaro conquistaram as duas vagas catarinenses em disputa para o Senado. Com Jorge Seif, eleito em 2022, o Partido Liberal passará a ocupar as três cadeiras de Santa Catarina no Senado a partir de fevereiro de 2027 (2).


Essa combinação de resultados não deve ser tratada como simples coincidência. A liderança em indicadores de competitividade, a centralidade do discurso empresarial e a consolidação eleitoral da extrema direita constituem dimensões de uma configuração histórica e política que merece investigação.


Não se trata de afirmar que a competitividade econômica produza automaticamente a extrema direita. O problema é compreender as relações de convergência, reforço e legitimação entre uma concepção mercadocêntrica de desenvolvimento e determinados projetos políticos conservadores e autoritários.


A questão torna-se ainda mais relevante quando consideramos as estratégias de comunicação governamental, a utilização de recursos públicos para publicidade institucional e as controvérsias relacionadas à proteção ambiental.


Este artigo dá continuidade a duas análises anteriores: O outro lado do modelo catarinense de desenvolvimento: poder, acumulação e externalidades socioambientais e Mercadocentrismo e liberal-conservadorismo: o Estadão, São Paulo e as contradições do desenvolvimento (3; 4).


O objetivo agora é aprofundar a interpretação das relações entre economia, política e produção social do conhecimento, incorporando a noção de política cognitiva de Guerreiro Ramos e confrontando o paradigma mercadocêntrico com as alternativas oferecidas pela paraeconomia, pela economia plural e pela complexidade.


2. Competitividade econômica e racionalidade instrumental


A competitividade constitui uma categoria central das economias contemporâneas. Empresas competem por consumidores, mercados e investimentos. Estados e municípios passaram também a ser avaliados por sua capacidade de atrair empreendimentos, oferecer infraestrutura e proporcionar condições favoráveis à expansão econômica.


O Ranking de Competitividade dos Estados procura comparar diferentes dimensões da gestão pública, incluindo infraestrutura, educação, segurança, sustentabilidade social, sustentabilidade ambiental e eficiência administrativa (1).


Essa abrangência precisa ser reconhecida. Entretanto, a inclusão de indicadores sociais e ambientais não elimina a questão epistemológica: a reunião dessas dimensões sob a categoria geral de competitividade expressa uma concepção específica de desenvolvimento.


Guerreiro Ramos demonstrou que a sociedade centrada no mercado tende a transformar a racionalidade instrumental em referência predominante para a organização da vida coletiva (5). A racionalidade instrumental permite selecionar meios eficientes para alcançar determinados objetivos. Entretanto, não determina, por si mesma, quais finalidades são legítimas ou socialmente desejáveis.


Uma política pública pode apresentar elevada eficiência administrativa e, simultaneamente, contribuir para a reprodução de desigualdades ou para a degradação ambiental. Da mesma forma, uma atividade econômica pode produzir riqueza e empregos, mas gerar custos ecológicos que não são integralmente incorporados às decisões empresariais.


O problema, portanto, não consiste em negar a importância da eficiência ou da competitividade. Consiste em questionar sua transformação em critérios privilegiados de avaliação do desenvolvimento.


A educação, por exemplo, pode contribuir para a produtividade econômica, mas suas finalidades incluem a formação humana, a autonomia intelectual e a cidadania. A conservação ambiental pode reduzir riscos econômicos, mas possui também importância ecológica e social que não depende de sua contribuição ao ambiente de negócios.


Quando essas dimensões são subordinadas à competitividade, ocorre uma redução de suas finalidades substantivas. A liderança catarinense no ranking representa um resultado favorável segundo determinada metodologia. Entretanto, não constitui demonstração suficiente de que Santa Catarina tenha alcançado o melhor desenvolvimento democrático, social ou ecológico do país. Essa distinção é fundamental para compreender o significado político atribuído ao ranking pelo governo estadual.


3. Estado, mercado e formação histórica do modelo catarinense


A valorização contemporânea da competitividade precisa ser situada na formação histórica do modelo catarinense de desenvolvimento. O dinamismo empresarial de Santa Catarina não resultou exclusivamente da iniciativa privada. Sua construção envolveu investimentos públicos, planejamento, infraestrutura, crédito, incentivos econômicos e diferentes modalidades de intervenção estatal.


Ido Luiz Michels demonstrou a importância das relações entre planejamento governamental, acumulação privada e poder político na formação desse modelo (6). Essa interpretação permite questionar uma contradição frequentemente presente no discurso liberal-conservador: a valorização da iniciativa privada pode coexistir com intensa mobilização de recursos públicos para favorecer determinadas atividades econômicas.


A questão fundamental não consiste em saber se o Estado intervém ou deixa de intervir, mas compreender em benefício de quais finalidades, grupos sociais e setores produtivos ocorre sua intervenção.


A formação da riqueza catarinense dependeu de relações entre Estado, empresas, trabalhadores, comunidades e natureza. Entretanto, os benefícios e custos desse processo não foram necessariamente distribuídos de maneira equilibrada.


A expansão industrial, agroindustrial, urbana e imobiliária produziu empregos, infraestrutura e arrecadação, mas também passivos ambientais, pressão sobre recursos hídricos e conflitos territoriais.


Os estudos de Cristiano Lenzi e Gert Schinke, considerados no artigo anterior, contribuem para compreender as relações históricas entre propriedade, poder político e apropriação territorial (3; 7; 8).


O desenvolvimento catarinense não pode, portanto, ser explicado exclusivamente por atributos culturais como empreendedorismo, disciplina do trabalho ou capacidade empresarial. Esses fatores possuem importância, mas atuaram em um contexto histórico de políticas públicas, disputas sociais e transformações ambientais.


A crítica ao modelo catarinense exige reconhecer suas capacidades produtivas sem ignorar as condições políticas e ecológicas de sua formação.


4. Competitividade, liberal-conservadorismo e consolidação da extrema direita


As eleições de 2026 acrescentam uma dimensão decisiva à análise. Caroline De Toni recebeu 2.694.918 votos para o Senado, correspondentes a 33,46% dos votos válidos destinados aos candidatos. Carlos Bolsonaro recebeu 2.041.840 votos, equivalentes a 25,35%. Ambos foram eleitos pelo PL, partido do governador Jorginho Mello e do ex-presidente Jair Bolsonaro (2). Com Jorge Seif, eleito em 2022, o PL passará a ocupar as três cadeiras catarinenses no Senado.


Esse resultado demonstra uma concentração política particularmente expressiva. Não se trata apenas da eleição de dois candidatos conservadores, mas do fortalecimento de um projeto partidário e ideológico identificado com o bolsonarismo.


A eleição de Carlos Bolsonaro possui significado adicional. Sua trajetória política foi construída no Rio de Janeiro, onde exerceu sucessivos mandatos de vereador. Sua transferência de domicílio eleitoral para Santa Catarina ocorreu em 2025, pouco antes da disputa pelo Senado.


Sua vitória demonstra a capacidade de mobilização da identidade bolsonarista para além das relações tradicionais entre representantes e territórios.


A eleição de Caroline De Toni, por sua vez, expressa a consolidação de uma liderança catarinense identificada com o mesmo campo político. Esses resultados, associados à reeleição de Jorginho Mello e à votação presidencial do bolsonarismo, evidenciam uma configuração política que não pode ser dissociada da concepção de desenvolvimento predominante no estado.


A valorização da competitividade, a defesa de condições favoráveis à acumulação privada, as controvérsias sobre flexibilização ambiental e a comunicação governamental constituem dimensões relacionadas de um mesmo contexto histórico e institucional.


Essa relação não significa que todos os empresários sejam bolsonaristas, que todos os eleitores conservadores defendam o liberalismo econômico ou que a competitividade produza necessariamente autoritarismo.


Significa reconhecer que determinadas orientações econômicas e políticas podem estabelecer relações de convergência e reforço mútuo. O liberalismo econômico, especialmente quando reduz a atuação estatal à promoção da competitividade e à proteção dos interesses mercantis, pode encontrar afinidades práticas com projetos políticos conservadores que defendem hierarquias sociais, propriedade privada e determinadas concepções de autoridade.


Entretanto, essas afinidades não são universais. Existem tradições liberais comprometidas com direitos individuais, pluralismo político e instituições democráticas, assim como correntes conservadoras que defendem formas relevantes de proteção social e ambiental.


A questão específica do caso catarinense consiste em compreender como determinadas versões do liberalismo econômico e do conservadorismo político se articulam no contexto da ascensão do bolsonarismo. Ascensão essa que foi derrotada no segundo turno da eleição presidencial.


A distinção entre conservadorismo político e conservacionismo ecológico também é indispensável. O primeiro refere-se à preservação de determinadas tradições, valores e instituições. O segundo envolve práticas de proteção da biodiversidade, dos territórios e das condições ecológicas de reprodução da vida.


As práticas conservacionistas de povos indígenas e comunidades tradicionais não devem ser confundidas com o conservadorismo partidário contemporâneo. A análise do caso catarinense deve, portanto, considerar as relações entre economia, cultura política, interesses territoriais e projetos ideológicos, sem reduzir essa complexidade a uma explicação causal linear.


5. Publicidade governamental e política cognitiva


A comunicação governamental constitui uma dimensão importante para compreender a construção da legitimidade política em Santa Catarina. A prestação de contas é uma obrigação democrática. A população tem direito de conhecer as realizações administrativas, os recursos utilizados, os resultados alcançados e as dificuldades enfrentadas.


Entretanto, existe uma diferença fundamental entre informar a sociedade e promover continuamente a imagem política de um governante. A divulgação de obras concluídas possui significado administrativo diferente da divulgação de contratos assinados, projetos em execução ou investimentos apenas anunciados.


Quando essas situações são apresentadas conjuntamente, mediante campanhas publicitárias reiteradas, pode-se produzir uma percepção de realizações mais abrangente do que aquela demonstrada pelas entregas efetivas.


No governo Jorginho Mello, a associação entre prestação de contas, divulgação de investimentos e anúncios de obras, presente em iniciativas como Santa Catarina Levada a Sério – Prestando Contas, torna pertinente investigar essa distinção.


A dimensão financeira da publicidade acrescenta um elemento relevante. Segundo levantamento do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, publicado em 23 de setembro de 2026 com base em dados do Portal da Transparência estadual, o governo Jorginho Mello empenhou aproximadamente R$ 501,9 milhões em publicidade e propaganda entre 2023 e 2026 (9).


Somente em 2025, os valores empenhados alcançaram R$ 216 milhões, diante de R$ 123 milhões em 2024, representando crescimento aproximado de 75,6%. O levantamento identificou ainda valores superiores a R$ 90 milhões destinados a empresas do grupo NSC e próximos de R$ 60 milhões a empresas do grupo ND.


Esses números demonstram a relevância econômica da publicidade governamental para grandes grupos de comunicação catarinenses. Isso pode ter efeito de inibição de produção de reportagens críticas em relação ao governo catarinense.


Outro levantamento, divulgado pelo Sindicato dos Trabalhadores do Poder Judiciário de Santa Catarina, apresentou valores expressivos para as despesas publicitárias do período 2023–2025, incluindo referência a R$ 444 milhões (10).


As diferenças entre os levantamentos exigem atenção aos critérios contábeis empregados. Valores empenhados, liquidados e pagos representam etapas distintas da execução orçamentária e não devem ser tratados como equivalentes.


Os números divulgados pelas entidades sindicais constituem informações relevantes para o debate público, mas sua conciliação definitiva depende da análise dos registros individuais de execução orçamentária disponíveis no Portal da Transparência.


A questão democrática, entretanto, ultrapassa a dimensão financeira. A concentração de recursos publicitários em determinados veículos pode criar relações de dependência econômica que merecem investigação. Isso não significa presumir perda automádica de independência editorial, mas levanta a suspeita de haver um enfoque predominantemente governista na imprensa catarinense.


A Constituição Federal estabelece, no artigo 37, § 1º, que a publicidade institucional deve possuir caráter educativo, informativo ou de orientação social, vedando elementos que caracterizem promoção pessoal de autoridades (11).


A identificação de eventuais irregularidades exige análise jurídica e documental específica. Entretanto, existe uma questão mais abrangente: em que medida a comunicação institucional contribui para construir uma representação seletiva do desenvolvimento catarinense?


É nesse ponto que a noção de política cognitiva, desenvolvida por Guerreiro Ramos, adquire especial relevância. A política cognitiva permite compreender como determinadas interpretações da realidade são selecionadas, organizadas, repetidas e legitimadas socialmente.


A construção de uma imagem de sucesso administrativo não depende necessariamente da divulgação de informações falsas. Pode ocorrer mediante a seleção de indicadores favoráveis, a valorização reiterada de determinadas realizações, a associação de promessas a resultados presentes e a atribuição de visibilidade desigual aos problemas governamentais.


O discurso de que Santa Catarina é o estado mais competitivo do Brasil pode, assim, participar de um processo mais amplo de legitimação do modelo de desenvolvimento e da imagem do governante.


A questão não consiste em negar o resultado do ranking, mas em compreender como ele é utilizado politicamente e quais dimensões da realidade catarinense permanecem secundárias nessa representação.


Uma investigação consistente deveria confrontar as campanhas publicitárias com os contratos, cronogramas e estágios efetivos de execução das obras, além de examinar os critérios de distribuição dos recursos entre os meios de comunicação.


6. Contradições socioambientais e limites da competitividade


A questão ambiental constitui um dos principais limites da narrativa de sucesso econômico. Santa Catarina apresenta uma história de expansão industrial, agroindustrial, urbana e imobiliária que produziu riqueza, empregos e infraestrutura, mas também passivos ambientais e pressões sobre ecossistemas.


O saneamento representa um exemplo significativo. A expansão do abastecimento de água avançou historicamente em ritmo superior à implantação do esgotamento sanitário, produzindo uma dívida ambiental que atravessou diferentes governos.


Essa assimetria possui consequências importantes para a qualidade dos rios, lagoas e águas costeiras, além de afetar a saúde pública, a pesca, o turismo e a conservação dos ecossistemas. A ocupação do litoral acrescenta outra dimensão. A valorização imobiliária depende frequentemente da qualidade ambiental das praias, dunas, restingas, lagoas e paisagens naturais. Entretanto, a expansão urbana desordenada pode comprometer precisamente os atributos ecológicos que contribuem para essa valorização.


O problema torna-se mais grave diante das mudanças climáticas. Em reportagem publicada em maio de 2026, Míriam Santini de Abreu apresentou informações obtidas junto ao Ministério Público de Santa Catarina sobre a flexibilização da proteção de áreas de preservação permanente em municípios catarinenses (12).


Segundo o levantamento do Centro de Apoio Operacional do Meio Ambiente do MPSC, 212 dos 295 municípios aprovaram legislações locais que reduzem ou delimitam faixas de proteção ambiental em áreas urbanas consolidadas.


O número corresponde a aproximadamente 71,9% dos municípios catarinenses. A informação exige uma distinção importante: a aprovação dessas legislações não significa que todas tenham sido judicialmente declaradas ilegais.


Entretanto, a análise realizada por amostragem pelo Ministério Público identificou problemas recorrentes, incluindo insuficiência de estudos técnicos socioambientais, ocupação de áreas de risco, fragilidades no licenciamento e ameaças aos recursos hídricos.


A reportagem relaciona essas fragilidades ao agravamento potencial das consequências de inundações, deslizamentos, erosão e outros eventos climáticos extremos.


A responsabilidade pela aprovação das normas municipais cabe às respectivas instituições locais. O governo estadual, por sua vez, possui atribuições relacionadas à política ambiental, à fiscalização, à infraestrutura, ao planejamento e à prevenção de desastres.


Portanto, não seria correto atribuir diretamente ao governador a aprovação das 212 legislações municipais. Entretanto, cabe investigar a orientação das políticas estaduais e sua capacidade de enfrentar os riscos associados à ocupação territorial.


A contradição central consiste no fato de que um estado que celebra sua competitividade econômica convive com problemas ambientais capazes de comprometer a segurança da população e as próprias condições de continuidade das atividades econômicas.


Essa contradição não constitui necessariamente uma falha específica do ranking. Revela os limites de sua transformação em medida abrangente do desenvolvimento.


7. Guerreiro Ramos e a paraeconomia: superar a centralidade do mercado


A contribuição de Guerreiro Ramos torna-se especialmente importante porque oferece uma alternativa teórica à sociedade centrada no mercado. Em A nova ciência das organizações, o autor propõe um paradigma paraeconômico fundamentado na delimitação dos sistemas sociais (5).


O mercado constitui uma instituição legítima e necessária, mas não deve exercer autoridade normativa sobre todas as formas de organização humana.


Genauto Carvalho de França Filho, em Decifrando a noção de paraeconomia em Guerreiro Ramos: a atualidade de sua proposição, demonstra que essa proposta possui implicações importantes para a compreensão do desenvolvimento contemporâneo (13).


A paraeconomia questiona a pressuposição de que todas as atividades humanas devam ser avaliadas pelos critérios de produtividade, eficiência mercantil e maximização dos resultados econômicos.


Guerreiro Ramos distingue diferentes espaços de organização social, incluindo as economias, as isonomias e as fenonomias. As economias correspondem a organizações voltadas à produção de bens e serviços, nas quais a eficiência instrumental possui importância relevante.


As isonomias constituem ambientes associativos orientados pela igualdade, participação e reciprocidade. As fenonomias representam espaços de autonomia e criatividade individual, nos quais a realização humana não depende necessariamente de finalidades mercantis.


Essa distinção permite reconhecer que uma sociedade desenvolvida não é simplesmente aquela que apresenta maior capacidade de competir economicamente. O desenvolvimento deve também favorecer condições institucionais para a participação democrática, a autonomia das comunidades, a cooperação, a criatividade e a realização de necessidades humanas que não podem ser reduzidas ao consumo.


A paraeconomia não pretende eliminar o mercado, mas impedir que sua racionalidade seja transformada em princípio universal de organização social.


Aplicada ao caso catarinense, essa perspectiva permite formular uma questão decisiva: quais formas de organização econômica e social recebem reconhecimento, apoio institucional e recursos públicos, além daquelas diretamente associadas à competitividade empresarial?


A resposta exige examinar políticas destinadas à economia solidária, ao cooperativismo autogestionário, às associações comunitárias, às organizações de catadores, às comunidades tradicionais e às iniciativas de desenvolvimento territorial.


Não basta reconhecer essas experiências como complementares ao mercado. É necessário considerar sua legitimidade institucional e suas finalidades substantivas.


8. Economia plural e economia solidária: da via competitiva à via sustentável-solidária


A interpretação de França Filho aprofunda a contribuição de Guerreiro Ramos ao aproximar a paraeconomia da noção de economia plural. A economia plural reconhece que a produção e a reprodução da vida social dependem de atividades mercantis, não mercantis e não monetárias.


As atividades mercantis envolvem relações de compra e venda. As atividades não mercantis incluem serviços e políticas públicas sustentados por mecanismos redistributivos. As atividades não monetárias compreendem relações de reciprocidade, solidariedade, cuidado e cooperação que não se organizam prioritariamente mediante preços.


Essa distinção revela os limites da identificação entre riqueza social e produção mercantil. A educação pública, o cuidado familiar, o trabalho comunitário, a conservação ambiental e diversas atividades associativas contribuem para a qualidade de vida, embora seus resultados não sejam adequadamente representados pelos indicadores convencionais de desempenho econômico.


França Filho argumenta que o paradigma mercadocêntrico tende a considerar essas atividades como secundárias, residuais ou dependentes da economia empresarial. Entretanto, a própria economia de mercado depende de infraestruturas públicas, relações comunitárias e atividades de cuidado que não são integralmente organizadas segundo critérios mercantis.


A economia solidária constitui uma possibilidade de institucionalização de formas alternativas de produção, distribuição e consumo, baseadas em cooperação, autogestão e finalidades sociais.


No caso catarinense, essa perspectiva permite valorizar experiências de associações e cooperativas de catadores, empreendimentos comunitários, agricultura familiar e redes territoriais de produção e comercialização.


Entretanto, é necessário distinguir cooperativismo empresarial de cooperativismo autogestionário. A forma jurídica cooperativa não garante, por si mesma, a predominância da racionalidade substantiva.


Grandes cooperativas podem reproduzir práticas competitivas semelhantes às empresas convencionais. Por outro lado, empreendimentos solidários podem desenvolver formas efetivas de participação, reciprocidade e controle coletivo dos processos econômicos.


Na conclusão de seu artigo, França Filho contrapõe uma via sustentável-solidária à via insercional-competitiva (13). Essa distinção oferece um contraponto especialmente fecundo ao modelo catarinense.


Genauto Carvalho de França Filho distingue duas orientações de desenvolvimento: a via insercional-competitiva e a via sustentável-solidária. A primeira procura promover o desenvolvimento mediante a inserção de indivíduos, empresas e territórios nos mercados competitivos, valorizando a produtividade, o empreendedorismo e a capacidade de competir. A segunda reconhece que o desenvolvimento não pode ser reduzido à participação no mercado, devendo fortalecer também formas de organização econômica baseadas na cooperação, na reciprocidade, na autogestão, na participação democrática e na sustentabilidade ecológica.


Não se trata de opor mecanicamente empresas e organizações solidárias. Trata-se de reconhecer que diferentes formas de organização econômica possuem finalidades próprias e devem encontrar condições institucionais adequadas à sua existência.


O Estado pode favorecer essa pluralidade mediante políticas públicas de apoio ao trabalho associado, às redes de economia solidária, às finanças comunitárias, à contratação pública de empreendimentos solidários e à participação social no planejamento territorial.


A economia solidária, nesse horizonte, deixa de ser concebida apenas como instrumento de inclusão de populações vulneráveis no mercado. Passa a representar uma possibilidade de transformação das próprias relações econômicas e sociais.


9. Edgar Morin e a complexidade do desenvolvimento


O paradigma da complexidade de Edgar Morin permite aprofundar a crítica epistemológica ao mercadocentrismo. Morin demonstra que a fragmentação do conhecimento dificulta a compreensão de fenômenos caracterizados por interdependências, retroações, incertezas e relações entre partes e totalidade (14; 15; 16).


A economia não constitui um sistema isolado da sociedade. Depende de instituições políticas, relações culturais, condições ecológicas e processos históricos. Da mesma forma, a natureza não pode ser considerada apenas um conjunto de recursos disponíveis para a produção econômica.


A ocupação de uma bacia hidrográfica, por exemplo, envolve relações entre cobertura vegetal, regime de chuvas, impermeabilização do solo, infraestrutura urbana, atividades produtivas e condições sociais de vulnerabilidade.


Uma decisão que parece eficiente sob determinado critério econômico pode produzir consequências negativas quando examinada no conjunto dessas relações. A flexibilização da proteção de áreas ambientalmente sensíveis oferece um exemplo dessa problemática. Seus efeitos não se limitam ao aproveitamento econômico imediato dos terrenos. Podem envolver alterações na drenagem, na qualidade da água, na biodiversidade e na exposição da população a eventos extremos.


A complexidade exige, portanto, compreender as relações entre desenvolvimento econômico e produção social dos riscos. Essa perspectiva também permite questionar a transformação de rankings quantitativos em representações abrangentes da realidade.


Indicadores são instrumentos úteis para determinados objetivos. Entretanto, não substituem a compreensão histórica, política, cultural e ecológica dos processos que pretendem representar. O diálogo entre Morin e Guerreiro Ramos apresenta uma convergência fundamental: ambos criticam a redução da realidade humana a uma racionalidade unidimensional.


Guerreiro Ramos oferece uma alternativa político-organizacional à sociedade centrada no mercado. Morin propõe uma reforma do pensamento capaz de religar conhecimentos e compreender a complexidade das relações entre economia, sociedade e biosfera.


A articulação entre essas contribuições permite conceber o desenvolvimento como processo multidimensional, no qual a eficiência econômica precisa ser situada em relação à justiça social, à autonomia humana, à democracia e à sustentabilidade ecológica.


10. Democracia, poder e os limites da legitimidade eleitoral


O desempenho eleitoral de um governante constitui um indicador relevante de legitimidade política, mas não representa uma avaliação suficiente da qualidade de seu governo. Vitórias eleitorais podem resultar de combinações complexas de identificação ideológica, reconhecimento administrativo, expectativas econômicas, estratégias de comunicação, organização partidária e características socioculturais.


Da mesma forma, rankings de competitividade podem registrar desempenhos favoráveis sem captar adequadamente desigualdades, vulnerabilidades ambientais ou limitações da participação democrática.


A questão central é evitar que um único critério seja transformado em medida totalizante da realidade. Uma avaliação substantiva do governo catarinense deveria examinar não apenas sua capacidade de estimular investimentos e executar obras, mas também a qualidade das políticas de saneamento, conservação ambiental, prevenção de desastres, educação, saúde, habitação, inclusão social e fortalecimento das organizações comunitárias.


Seria igualmente necessário avaliar a transparência da publicidade institucional, a correspondência entre anúncios e realizações efetivas e a existência de condições favoráveis ao contraditório e ao pluralismo informativo.


A democracia não se reduz à aprovação eleitoral periódica. Envolve a possibilidade permanente de questionar prioridades, discutir alternativas e controlar o exercício do poder público.


Nesse sentido, a perspectiva paraeconômica apresenta uma contribuição política relevante. Ao reconhecer diferentes formas de organização da vida coletiva, amplia também o universo dos sujeitos e instituições que devem participar das decisões sobre o desenvolvimento.


A definição das prioridades estaduais não deveria ficar circunscrita aos interesses empresariais, aos critérios dos rankings ou às decisões de especialistas. Deve incorporar organizações da sociedade civil, universidades, comunidades tradicionais, trabalhadores, cooperativas, movimentos socioambientais e outros atores envolvidos na produção e reprodução da vida social.


11. Considerações finais: da competitividade à pluralidade do desenvolvimento


Santa Catarina apresenta capacidades econômicas importantes, que não devem ser ignoradas ou desqualificadas. Entretanto, o reconhecimento dessas capacidades não autoriza identificar competitividade com desenvolvimento em sentido pleno.


O principal limite do paradigma mercadocêntrico consiste em transformar uma dimensão da vida social em referência privilegiada para avaliar todas as demais. A racionalidade instrumental pode contribuir para organizar meios eficientes de ação, mas não determina, por si mesma, quais finalidades são socialmente desejáveis. A expansão das atividades econômicas pode produzir riqueza, mas também desigualdades, pressões territoriais e custos ambientais que exigem avaliação pública.


A investigação do governo Jorginho Mello acrescenta duas dimensões importantes. A primeira envolve a articulação entre competitividade econômica e consolidação política do bolsonarismo. A eleição de Caroline De Toni e Carlos Bolsonaro para o Senado, associada à presença de Jorge Seif, representa uma concentração partidária e ideológica que reforça a importância dessa relação.


A segunda envolve a publicidade governamental e sua participação na construção da legitimidade política. Os valores de publicidade divulgados pelo Sindicato dos Jornalistas demonstram a dimensão financeira dessa atividade e justificam o exame de sua distribuição entre grupos de comunicação.


A combinação entre prestação de contas, divulgação de realizações e anúncios de investimentos futuros merece investigação porque pode contribuir para formar uma representação seletiva do desenvolvimento.


A questão ambiental revela, por sua vez, os limites materiais e sociais da expansão econômica.

O déficit histórico de saneamento, as pressões sobre os recursos hídricos, a ocupação de áreas ambientalmente sensíveis e a flexibilização de normas de proteção demonstram que o crescimento pode conviver com processos de externalização socioambiental.


A contribuição de Genauto Carvalho de França Filho permite avançar da crítica para a proposição de alternativas. A paraeconomia de Guerreiro Ramos e a economia plural oferecem fundamentos para uma concepção de desenvolvimento que reconhece a legitimidade de diferentes formas de organização econômica e social, sem subordinar todas elas aos critérios da competitividade mercantil.


A economia solidária, as organizações comunitárias, o cooperativismo autogestionário e as experiências de desenvolvimento territorial sustentável podem contribuir para ampliar as possibilidades de organização da vida coletiva.


Edgar Morin acrescenta a necessidade de superar a fragmentação do conhecimento, compreendendo as relações entre economia, política, cultura, sociedade e natureza. O principal desafio não consiste em negar o mercado, a iniciativa privada ou a eficiência administrativa. Consiste em impedir que essas dimensões sejam transformadas em critérios universais de avaliação do desenvolvimento.


Santa Catarina precisa ser avaliada não apenas por sua capacidade de competir economicamente, mas também por sua capacidade de cooperar socialmente, conservar ecologicamente, distribuir democraticamente os benefícios do desenvolvimento e reconhecer a pluralidade das formas de organização da vida coletiva.


A superação do mercadocentrismo não representa uma rejeição à economia. Representa a possibilidade de recolocá-la em seu lugar legítimo: como uma dimensão importante, mas não soberana, de uma sociedade democrática, plural e ecologicamente responsável.



Referências

(1) CENTRO DE LIDERANÇA PÚBLICA (CLP). Ranking de Competitividade dos Estados: edição 2026. São Paulo: CLP, 2026. Disponível em: https://conteudo.clp.org.br/relatorios-tecnicos-ranking-dos-estados-e-municipios.

(2) BOEIRA, Sérgio Luís. O outro lado do modelo catarinense de desenvolvimento: poder, acumulação e externalidades socioambientais. Blog Sérgio Luís Boeira, 02/10/2026. Disponível em: https://www.websergioluisboeira.com/post/o-outro-lado-do-modelo-catarinense-de-desenvolvimento-poder-acumulação-e-externalidades-socioambie.

(3) BOEIRA, Sérgio Luís. Mercadocentrismo e liberal-conservadorismo: o Estadão, São Paulo e as contradições do desenvolvimento. Blog Sérgio Luís Boeira, 25/10/2026. Disponível em: https://www.websergioluisboeira.com/post/mercadocentrismo-e-liberal-conservadorismo-o-estadão-são-paulo-e-as-contradições-do-desenvolviment.

(4) GUERREIRO RAMOS, Alberto. A nova ciência das organizações: uma reconceituação da riqueza das nações. Tradução de Francisco G. Heidemann e Ariston Azevedo. Florianópolis: Enunciado Publicações, 2022.

(5) MICHELS, Ido Luiz. Crítica ao modelo catarinense de desenvolvimento: do planejamento econômico – 1956 aos precatórios – 1997. Campo Grande: Editora UFMS, 1998.

(6) SINDICATO DOS JORNALISTAS DE SANTA CATARINA (SJSC). Meio bilhão em publicidade pública, mas nenhum aumento real para os jornalistas de Santa Catarina. Florianópolis, 23 set. 2026. Disponível em: https://sjsc.org.br/23/09/2026/meio-bilhao-em-publicidade-publica-mas-nenhum-aumento-real-para-os-jornalistas-de-santa-catarina/.

(7) SINDICATO DOS TRABALHADORES DO PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DE SANTA CATARINA (SINJUSC). Com R$ 444 milhões gastos em publicidade, Jorginho promove uma SC que não existe. Florianópolis, 21 jan. 2026. Disponível em: https://sinjusc.org.br/com-r-444-mi-gastos-em-publicidade-jorginho-promove-uma-sc-que-nao-existe/.

(8) BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Art. 37, § 1º.

(9) ABREU, Míriam Santini de. El Niño à vista e 70% dos municípios catarinenses flexibilizaram leis de proteção da natureza. Jornalismo Ambiental em Santa Catarina, maio 2026. Disponível em: https://jornalismoambientalsc.blogspot.com/2026/05/el-nino-vista-e-70-dos-municipios.html.

(10) MINISTÉRIO PÚBLICO DE SANTA CATARINA (MPSC). MPSC amplia atuação preventiva contra impactos do El Niño e abre mais de 130 procedimentos em cidades de SC. Florianópolis, 23 set. 2026.

(11) FRANÇA FILHO, Genauto Carvalho de. Decifrando a noção de paraeconomia em Guerreiro Ramos: a atualidade de sua proposição. Organizações & Sociedade, Salvador, v. 17, n. 52, p. 175–197, jan./mar. 2010.

(12) MORIN, Edgar. O método 1: a natureza da natureza. Porto Alegre: Sulina, 2016.

(13) MORIN, Edgar. O método 3: o conhecimento do conhecimento. Porto Alegre: Sulina, 2015.

(14) MORIN, Edgar. O método 4: as ideias: habitat, vida, costumes, organização. Porto Alegre: Sulina, 2011.

(15) POLANYI, Karl. A grande transformação: as origens de nossa época. Rio de Janeiro: Campus, 1980.

(16) FRANÇA FILHO, Genauto Carvalho de. A via sustentável-solidária no desenvolvimento local. Organizações & Sociedade, Salvador, v. 15, n. 45, p. 219–232, abr./jun. 2008.

(17) SINGER, Paul. Introdução à economia solidária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2002.

 

P.S.: Usei a IA na busca e organização das informações, e na elaboração de uma ilustração par ao texto, que foi concebido, editado e revisado por mim.

 
 
 

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