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Ambientalismo complexo-multissetorial em tempos de metamorfose: riscos, acontecimentos e coprodução do bem público

3 de set.
25 min de leitura

Objetivo

Reexaminar e atualizar o conceito de ambientalismo complexo-multissetorial, articulando sua trajetória à emergência climática, ao debate sobre o Antropoceno, à sociedade mundial de risco e ao pensamento complexo. Busca-se mostrar que a multissetorialidade socioambiental não se limita à presença de diferentes atores e setores, mas envolve relações transetoriais entre conhecimentos, perspectivas, racionalidades e formas organizacionais. Argumenta-se, ainda, que os eventos climáticos extremos podem constituir acontecimentos epistemológicos e organizacionais nos quais a racionalidade instrumental, longe de desaparecer, é recontextualizada pela razão substantiva, ao mesmo tempo que se tornam mais visíveis potencialidades isonômicas e fenonômicas e práticas de coprodução do bem público.


Resumo

O conceito de ambientalismo complexo-multissetorial foi formulado para compreender a diferenciação e a interação crescente entre atores e setores envolvidos na problemática socioambiental. Este artigo propõe sua atualização diante da emergência climática e das transformações antropogênicas do sistema terrestre. A articulação entre Paul Crutzen, Ulrich Beck e Edgar Morin permite compreender a crise socioambiental como simultaneamente biofísica, social, política, cognitiva, organizacional e epistemológica. Nietzsche, Husserl e Moscovici contribuem, por caminhos distintos, para compreender as relações entre acontecimentos, experiência, perspectivas, produção de sentidos e representações sociais. Guerreiro Ramos acrescenta a problemática das organizações como sistemas epistemológicos e a distinção entre racionalidade instrumental e substantiva. Argumenta-se que, nos eventos extremos, a racionalidade instrumental não é substituída ou simplesmente relativizada, mas recontextualizada, tornando-se particularmente necessária quando vinculada substantivamente à preservação da vida. A contribuição de José Francisco Salm sobre a coprodução do bem público permite aproximar a sociedade multicêntrica da ação pública transetorial. Os eventos extremos podem, assim, constituir momentos privilegiados para observar a interação entre burocracias, potencialidades isonômicas e fenonômicas, conhecimentos especializados e locais, lideranças emergentes, criatividade e ética do cuidado. Conclui-se que tais acontecimentos podem favorecer aprendizagem e transformação, mas não produzem automaticamente metamorfose: permanece aberta a alternativa entre reconstruir a normalidade que produziu vulnerabilidades ou transformar substantivamente as relações entre sociedade, organizações e natureza.



1. Introdução: quando a crise ambiental atravessa a sociedade


A problemática ambiental deixou há muito tempo de constituir um domínio circunscrito às organizações explicitamente ambientalistas. Mudanças climáticas, perda de biodiversidade, transformações no uso do solo, contaminação química, urbanização, produção energética e eventos climáticos extremos atravessam governos, empresas, universidades, movimentos sociais, comunidades, famílias e indivíduos. O que convencionalmente denominamos “ambiental” manifesta-se simultaneamente como questão econômica, política, científica, cultural, territorial, organizacional e existencial.


Foi procurando compreender esse processo que surgiu a noção de ambientalismo complexo-multissetorial. Em sua trajetória, o conceito permitiu superar uma concepção do ambientalismo limitada aos movimentos e associações ambientalistas, reconhecendo sua progressiva diferenciação em múltiplos setores e a crescente incorporação da problemática ambiental por diferentes atores sociais (1). O qualificativo “complexo”, entretanto, nunca deveria ser entendido como simples sinônimo de multiplicidade. Sua inspiração na epistemologia de Edgar Morin remete às interações, retroações, antagonismos, complementaridades e emergências que tornam insuficiente a decomposição de fenômenos multidimensionais em partes isoladas.


A emergência climática torna essa perspectiva ainda mais necessária. Os acontecimentos das últimas décadas evidenciam que os problemas socioambientais não respeitam as fronteiras mediante as quais a sociedade moderna distribuiu competências administrativas e organizou disciplinas científicas. Uma enchente de grandes proporções pode ter origem em processos atmosféricos, mas rapidamente se converte em problema habitacional, sanitário, econômico, energético, logístico, educacional, político e humanitário. O acontecimento religa dramaticamente aquilo que as instituições e as disciplinas se habituaram a tratar separadamente.


Este artigo propõe, portanto, uma atualização do ambientalismo complexo-multissetorial. Argumenta-se que ele pode ser compreendido simultaneamente como diagnóstico da configuração diferenciada do campo socioambiental, como perspectiva epistemológica orientada para a religação dos conhecimentos e como possibilidade de práxis diante de problemas públicos complexos. A noção de transetorialidade permite compreender a dinâmica mediante a qual conhecimentos, recursos, perspectivas e práticas atravessam fronteiras setoriais, enquanto a contribuição de José Francisco Salm sobre a coprodução do bem público, inspirada na teoria da delimitação dos sistemas sociais de Guerreiro Ramos, acrescenta uma dimensão político-organizacional particularmente fecunda.


Essa atualização ganha especial concretude diante dos eventos climáticos extremos. Neles, a problemática socioambiental deixa de ser apenas objeto de antecipação científica e torna-se experiência vivida. As organizações são obrigadas a rever procedimentos, competências e formas de coordenação; conhecimentos especializados passam a interagir com conhecimentos locais; lideranças emergentes tornam-se decisivas; redes de cuidado adquirem visibilidade; e a racionalidade instrumental revela simultaneamente sua indispensabilidade e sua insuficiência quando desvinculada de finalidades substantivas. O acontecimento extremo torna-se, nesse sentido, também um acontecimento epistemológico e organizacional.


2. Da multissetorialidade à transetorialidade


A noção de ambientalismo multissetorial surgiu da percepção de que a problemática ambiental progressivamente deixava de ser monopólio de organizações ambientalistas. Estado, empresas, universidades, movimentos sociais, organizações profissionais, comunidades e meios de comunicação passaram a incorporá-la segundo interesses, conhecimentos e perspectivas diferenciados. O ambientalismo tornava-se socialmente mais abrangente precisamente porque deixava de possuir uma única localização institucional.


Essa diferenciação, contudo, não deve conduzir à representação dos setores como compartimentos homogêneos. O Estado contém órgãos, burocracias e agentes orientados por concepções ambientais distintas e por vezes antagônicas. O mesmo ocorre nas empresas, universidades, movimentos sociais e comunidades. Além disso, conhecimentos, valores, representações e discursos circulam entre esses espaços. Uma concepção inicialmente produzida no campo científico pode ser apropriada por movimentos sociais, convertida em política pública, incorporada por empresas e reinterpretada nas redes digitais. O inverso também ocorre: conhecimentos produzidos em comunidades e experiências locais podem penetrar universidades e instituições públicas.


Por isso, a multissetorialidade precisa ser complementada pela noção de transetorialidade. A primeira permite reconhecer a diferenciação estrutural do campo; a segunda chama atenção para o movimento mediante o qual suas fronteiras são atravessadas. Os setores não desaparecem, pois continuam expressando posições institucionais, recursos, interesses e relações de poder diferenciados. Entretanto, deixam de poder ser tratados como fronteiras cognitivas impermeáveis.


Essa distinção já estava potencialmente presente nas formulações sobre ambientalismo transetorial desenvolvidas posteriormente. A expansão das redes de comunicação tornava cada vez mais evidente que um mesmo indivíduo poderia participar de diferentes espaços, assumir perspectivas distintas e estabelecer relações que não correspondiam rigidamente às posições institucionais tradicionais. A transetorialidade acrescentava, assim, movimento à diferenciação multissetorial.


O pensamento complexo permite dar um passo adicional. As relações entre os setores não são necessariamente convergentes. Podem envolver cooperação, competição, antagonismo, aprendizagem, captura, resistência e transformação. A problemática ambiental pode atravessar diferentes setores e produzir tanto ambientalização quanto contra-ambientalização. É precisamente essa ambivalência que impede que o ambientalismo complexo-multissetorial seja concebido como marcha progressiva e consensual em direção a uma consciência ecológica comum.


3. Antropoceno, sociedade mundial de risco e pensamento complexo


A emergência climática desloca essa problemática para uma escala planetária. A proposição do Antropoceno, associada especialmente a Paul Crutzen, tornou-se uma das formulações mais expressivas da capacidade adquirida pelas sociedades humanas de interferir em processos fundamentais do sistema terrestre (2). O conceito colocou em questão a ideia de que natureza e sociedade poderiam continuar sendo compreendidas como domínios relativamente independentes.


É necessário, entretanto, distinguir a relevância científica e interdisciplinar do conceito de seu estatuto formal na escala geológica. Em 2024, a proposta de formalização do Antropoceno como nova época geológica foi rejeitada pelas instâncias estratigráficas competentes. A decisão não significa que tenham sido refutadas as evidências das profundas transformações antropogênicas do sistema terrestre. A própria International Union of Geological Sciences reconheceu que o termo continuará sendo utilizado como descritor das influências humanas sobre o sistema terrestre.


A distinção é epistemologicamente relevante. Uma questão consiste em determinar se determinado marcador estratigráfico satisfaz os critérios técnicos estabelecidos para a formalização de uma época geológica. Outra consiste em compreender a amplitude histórica e planetária das transformações produzidas pelas sociedades humanas. Reduzir a segunda questão à primeira seria confundir os critérios especializados de uma disciplina com a multidimensionalidade do fenômeno.


É nesse ponto que Crutzen, Beck e Morin podem ser articulados sem que suas contribuições sejam confundidas. Crutzen evidencia a dimensão antropogênica da transformação do sistema terrestre. Beck investiga como as consequências da modernização retornam às sociedades sob a forma de riscos que atravessam fronteiras nacionais, institucionais e sociais (3; 4). Morin fornece uma perspectiva epistemológica para compreender recursivamente as interações entre sociedade, natureza, conhecimento e ação (5; 6).


A articulação é particularmente fecunda porque impede duas reduções simétricas. A mudança climática não pode ser reduzida a um fenômeno biofísico cujas consequências sociais seriam apenas efeitos secundários. Tampouco pode ser dissolvida numa concepção segundo a qual o risco climático seria somente uma construção social. Existem processos materiais mensuráveis, mas o conhecimento, a percepção, a distribuição dos riscos e as respostas institucionais são socialmente mediados.


A crise climática aparece, assim, como simultaneamente ecológica, social e epistemológica. As sociedades transformam o sistema terrestre; essas transformações retornam sob a forma de riscos; os riscos modificam comportamentos, instituições e representações; e as respostas produzidas pelas sociedades alteram novamente as condições sociais e ambientais. A relação é recursiva.


4. O paradigma da simplificação e os limites da especialização autossuficiente


A controvérsia em torno do Antropoceno permite explicitar um problema mais amplo. A ciência moderna construiu extraordinária capacidade de conhecimento mediante especializações disciplinares. O pensamento complexo não exige abandoná-las. Sem meteorologia, climatologia, geologia, engenharia, medicina, ecologia, sociologia, economia e inúmeras outras especializações, os problemas contemporâneos seriam ainda menos compreensíveis.


O problema começa quando o recorte necessário à especialização converte-se em autossuficiência epistemológica. O paradigma da simplificação criticado por Morin opera justamente mediante disjunções e reduções que podem fazer esquecer as relações entre aquilo que foi separado para fins analíticos. O conhecimento pertinente exige capacidade de contextualizar e religar (5; 6).


Nesse sentido, a controvérsia sobre a formalização do Antropoceno pode ser lida como problema que ultrapassa a estratigrafia, sem deslegitimar a competência própria dessa disciplina. Os critérios técnicos necessários à definição de uma época geológica não abrangem, nem poderiam abranger, todas as implicações sociais, ecológicas, políticas e éticas das transformações antropogênicas do planeta. O equívoco ocorreria se a decisão especializada fosse interpretada como julgamento definitivo sobre um macrofenômeno interdisciplinar.


A distinção guerreiriana entre racionalidade instrumental e substantiva ajuda a compreender o problema por outro ângulo (11). Uma racionalidade técnico-instrumental é perfeitamente legítima quando pergunta se determinados indicadores satisfazem critérios previamente definidos. O problema surge quando essa racionalidade pretende tornar-se suficiente para decidir sobre questões cujas implicações dizem respeito às condições de existência, à desigualdade na distribuição dos riscos, à responsabilidade entre gerações e à própria habitabilidade do planeta.


Não se trata, portanto, de substituir uma racionalidade por outra. Trata-se de recontextualizar. O cálculo, a classificação e a eficiência continuam necessários, mas precisam ser compreendidos dentro de contextos mais amplos nos quais as finalidades também sejam examinadas. Essa ideia torna-se ainda mais evidente quando o risco deixa de ser antecipação e converte-se em catástrofe vivida.


5. Entre acontecimentos, fatos e sentidos


A passagem do risco antecipado ao acontecimento vivido introduz outra dimensão da problemática. Os modelos climáticos produzem conhecimentos indispensáveis sobre probabilidades, tendências e cenários. Entretanto, quando uma cidade é inundada, aquilo que era objeto de previsão torna-se experiência concreta para milhares ou milhões de pessoas.


Essa passagem exige distinguir acontecimento, conhecimento e sentido. O acontecimento ocorre na realidade, deixa vestígios, pode ser medido e documentado. Entretanto, aquilo que ele significa para diferentes sujeitos e grupos depende de experiências, perspectivas, conhecimentos prévios, valores e relações sociais.


Nietzsche chama atenção para a dimensão perspectivística e histórica das interpretações (8). Husserl, por caminho bastante distinto, recoloca a experiência intencional e o mundo vivido no centro da constituição do sentido (9). Moscovici demonstra que os fenômenos socialmente relevantes são apropriados mediante representações construídas e transformadas na comunicação cotidiana (10). Esses autores não devem ser fundidos numa única teoria, mas suas contribuições permitem compreender diferentes mediações existentes entre acontecimento e interpretação.


Reconhecer essas mediações não implica relativismo factual. A pluralidade de perspectivas não torna equivalentes afirmações sustentadas por evidências e afirmações falsas. Significa apenas que os fatos, embora indispensáveis, não esgotam os sentidos socialmente produzidos em torno deles.

Essa distinção torna-se dramática diante de uma catástrofe. É possível medir precipitação, nível dos rios, número de mortos, pessoas deslocadas, quilômetros de estradas destruídas e perdas econômicas. Essas informações são indispensáveis. Mas não exprimem integralmente o que significa perder uma casa, familiares, animais, fotografias, vizinhanças, trabalho, referências territoriais e projetos de vida. A catástrofe mensurada e a catástrofe vivida são dimensões diferentes do mesmo acontecimento e precisam ser religadas.


6. A localização dos riscos globais e o fim de mundos vividos


A teoria de Beck oferece uma contribuição decisiva para compreender essa relação entre globalização e localização. Os riscos contemporâneos podem possuir alcance planetário, mas tornam-se socialmente concretos quando atingem territórios, instituições e biografias específicas (3; 4).


A mudança climática é global, mas a catástrofe é localizada e experienciada. São cidades que inundam, florestas que queimam, lavouras que se perdem, famílias que abandonam suas casas e comunidades que veem desaparecer referências construídas durante gerações. O global não existe acima do local: manifesta-se nele de formas diferenciadas e profundamente desiguais.


Para populações que perdem praticamente tudo, o evento climático extremo pode representar, num sentido fenomenológico bastante concreto, o fim de um mundo vivido. Não se trata do fim físico do planeta, mas do desaparecimento de uma configuração cotidiana de relações, objetos, memórias, vínculos e expectativas por meio da qual a existência possuía continuidade.


Para sobreviventes e para sociedades que acompanham a catástrofe, entretanto, o acontecimento pode também adquirir — sem que isso redima o sofrimento — um significado antropológico e ecológico fundamental. A suposta autonomia do indivíduo moderno revela seus limites. Torna-se visível que somos simultaneamente indivíduos relativamente autônomos e seres profundamente dependentes de outros seres humanos, de instituições, de infraestruturas, de ecossistemas e das condições planetárias que tornam nossa existência possível.


O evento extremo pode, nesse sentido, tornar-se um acontecimento epistemológico. Aquilo que parecia separado reaparece como interdependente. O ecológico torna-se econômico e social; o risco científico torna-se experiência cotidiana; a vulnerabilidade individual revela dependências coletivas; o global manifesta-se no local. A catástrofe não ensina automaticamente, mas pode romper categorias mediante as quais a normalidade era compreendida.


7. Organizações como sistemas epistemológicos diante do acontecimento


Essa ruptura torna-se especialmente interessante quando observada no interior das organizações. Guerreiro Ramos permite compreender que organizações não são apenas estruturas de distribuição de cargos e recursos. Elas incorporam pressupostos acerca do que deve ser considerado racional, legítimo e relevante. Nesse sentido, podem ser compreendidas também como sistemas epistemológicos (11).


Durante a normalidade, tais pressupostos tendem a permanecer pouco visíveis. Cargos, hierarquias, competências, procedimentos, horários e espaços parecem corresponder naturalmente às necessidades da organização. O evento extremo rompe essa correspondência.


Uma instalação pode ser inundada; sistemas informacionais podem deixar de funcionar; funcionários podem ficar impossibilitados de chegar ao trabalho; a pessoa formalmente autorizada a decidir pode tornar-se incomunicável; procedimentos concebidos para situações rotineiras podem revelar-se inadequados à urgência. O organograma não desaparece juridicamente, mas deixa de representar sozinho a organização que efetivamente precisa agir.


Nesse momento ocorre algo epistemologicamente importante: a realidade deixa de caber adequadamente no sistema de categorias por meio do qual a organização estava habituada a conhecê-la e administrá-la.


Pode-se interpretar essa situação, aproximando Guerreiro Ramos de Morin, como uma espécie de revolução epistemológica organizacional provisória. A expressão não é um conceito originalmente formulado por Guerreiro Ramos, mas uma hipótese derivada de sua concepção das organizações diante do acontecimento moriniano. O evento perturba a ordem, introduz descontinuidade e obriga o sistema a reorganizar não apenas suas operações, mas também os critérios mediante os quais reconhece competências, conhecimentos e prioridades.


8. A racionalidade instrumental recontextualizada pela razão substantiva


É justamente nesse ponto que se deve evitar uma oposição simplificadora entre racionalidade instrumental e substantiva. Os eventos extremos não tornam a racionalidade instrumental menos necessária. Em muitos aspectos, tornam-na dramaticamente mais necessária. Sistemas de alerta, previsão meteorológica, engenharia, logística, georreferenciamento, comunicação, medicina de emergência, transporte, bombeiros e Defesa Civil dependem de especialização, cálculo, procedimentos, disciplina operacional e eficiência.


Uma operação de resgate conduzida sem competência técnica pode ampliar a própria tragédia. O cálculo das condições meteorológicas, da correnteza, da capacidade de uma embarcação ou da segurança dos socorristas não constitui manifestação de desumanização burocrática; constitui requisito para que vidas sejam efetivamente protegidas.


O problema aparece quando a racionalidade instrumental se desvincula das finalidades que conferem sentido à ação. Diante da catástrofe, não basta saber utilizar eficientemente recursos escassos. É necessário decidir quais necessidades devem receber prioridade, como proteger pessoas em condições de maior vulnerabilidade, quais riscos podem legitimamente ser assumidos e que responsabilidades decorrem da situação.


A emergência não substitui, portanto, a racionalidade instrumental pela substantiva. Recontextualiza a primeira mediante a segunda. A pergunta acerca de como agir eficientemente permanece indispensável, mas torna-se inseparável das perguntas sobre as finalidades da ação, seus destinatários e sua legitimidade.


É precisamente nessa recontextualização que a contribuição de Guerreiro Ramos adquire extraordinária atualidade. O evento extremo evidencia que a racionalidade instrumental possui enorme potência quando adequadamente delimitada e inserida num contexto substantivo, mas torna-se insuficiente quando pretende determinar autonomamente os fins da vida social.


9. Da rigidez dos papéis à emergência de novas competências


A mesma lógica se aplica à burocracia. Seria incorreto afirmar que a divisão de cargos e papéis simplesmente desaparece durante uma catástrofe. Em organizações como Defesa Civil, bombeiros, hospitais e forças de segurança, a clareza de responsabilidades pode tornar-se ainda mais necessária.


O que se modifica é a pretensão de que a estrutura formal contenha todas as competências relevantes. Um morador pode conhecer pessoas isoladas que não aparecem em registros oficiais. Pescadores podem possuir conhecimentos sobre embarcações, águas e territórios que se tornam fundamentais. Pequenos comerciantes podem conhecer redes locais de abastecimento. Alguém que nunca exerceu cargo de liderança pode demonstrar extraordinária capacidade de organizar um abrigo ou coordenar voluntários. Grupos podem criar soluções que não estavam previstas em nenhum protocolo.


O acontecimento produz, portanto, uma redistribuição epistemológica da competência. O conhecimento formal continua indispensável, mas passa a interagir mais intensamente com conhecimentos tácitos, territoriais e experienciais.


É também nesse contexto que lideranças emergentes podem adquirir importância. Sua legitimidade não decorre inicialmente do cargo, mas da capacidade demonstrada de interpretar a situação, mobilizar pessoas, criar confiança e resolver problemas. Isso não significa que devam substituir autoridades legalmente constituídas. Significa que a resposta organizacional pode depender da capacidade de reconhecer e integrar formas de liderança não previstas pela estrutura formal.


10. Potencialidades isonômicas e fenonômicas


A teoria da delimitação dos sistemas sociais de Guerreiro Ramos oferece instrumentos adicionais para interpretar essas emergências. Sua crítica à sociedade centrada no mercado não propõe a eliminação das organizações econômicas, mas sua delimitação em uma sociedade multicêntrica na qual diferentes espaços sociais possam responder a diferentes necessidades humanas (11).


As categorias de isonomia e fenonomia tornam-se especialmente sugestivas diante de eventos extremos. Relações de reciprocidade, associação e participação entre pessoas que enfrentam problemas comuns podem manifestar potencialidades isonômicas. Paralelamente, indivíduos e pequenos grupos podem criar autonomamente soluções para necessidades não atendidas, revelando potencialidades fenonômicas.


Essas formas não precisam substituir burocracias nem organizações econômicas. A resposta complexa pode depender precisamente da articulação entre formas organizacionais diferentes. Uma Defesa Civil altamente especializada pode cooperar com uma associação comunitária; uma empresa pode disponibilizar equipamentos; cidadãos podem formar grupos espontâneos; universidades podem fornecer conhecimentos; organizações sociais podem organizar abrigos e redes de assistência.


A catástrofe torna empiricamente perceptível uma sociedade mais multicêntrica do que aquela representada pelo modelo mercadocêntrico. Durante a normalidade, inúmeras capacidades permanecem subordinadas ou invisíveis; diante da ruptura, revelam-se como recursos fundamentais para a preservação da vida.


11. Ética do cuidado e conhecimentos socialmente invisibilizados


Entre essas capacidades encontra-se o cuidado. Alimentar, acolher, limpar, ouvir, vestir, organizar abrigos e cuidar de crianças, idosos, enfermos, pessoas com deficiência e animais são atividades que a sociedade centrada no mercado frequentemente subvaloriza econômica e simbolicamente.


Durante uma catástrofe, tornam-se evidentemente indispensáveis. A participação das mulheres merece atenção particular, mas sem qualquer naturalização. A divisão histórica e social do trabalho atribuiu desproporcionalmente às mulheres responsabilidades de cuidado, produzindo experiências, competências e redes relacionais específicas. Em situações extremas, essas competências podem tornar-se especialmente visíveis.


O paradoxo é significativo: atividades consideradas secundárias segundo determinados critérios econômicos podem revelar-se centrais quando a reprodução cotidiana da vida entra em crise. O acontecimento torna visível aquilo que a normalidade mercadocêntrica frequentemente invisibiliza.


A ética do cuidado acrescenta, portanto, uma dimensão importante à racionalidade substantiva. Não se trata apenas de decidir abstratamente segundo valores, mas de reconhecer concretamente a vulnerabilidade, a dependência e a responsabilidade nas relações humanas e socioecológicas.


12. A reconfiguração do espaço-tempo mercadocêntrico


A ruptura organizacional provocada pelo evento extremo possui também uma dimensão espaço-temporal. A sociedade centrada no mercado organiza grande parte da existência segundo tempos e espaços funcionalmente diferenciados. Há horários de trabalho, produção e consumo, assim como espaços destinados a morar, produzir, vender, ensinar, circular ou praticar esportes.


A catástrofe pode alterar rapidamente essas funções. Ginásios tornam-se abrigos; escolas convertem-se em centros de acolhimento; cozinhas domésticas passam a preparar refeições coletivas; veículos particulares tornam-se meios de resgate; empresas cedem instalações e equipamentos; universidades reorganizam suas atividades para produzir informações, mapas, análises e serviços destinados às populações atingidas.


Também o tempo se transforma. A temporalidade da produção e do consumo é parcialmente deslocada pela temporalidade da urgência. Salvar, alimentar, acolher e proteger passam a organizar prioridades.


Não significa que o mercado desapareça. Empresas, transportes, sistemas de abastecimento e inúmeras atividades econômicas são indispensáveis à própria resposta. O que ocorre é uma recontextualização emergencial da centralidade espaço-temporal do mercado.


O acontecimento demonstra concretamente que o mercado constitui uma forma de organização da existência social, e não a totalidade da existência. Outras racionalidades e formas de associação tornam-se dramaticamente atuais.


13. Guerreiro Ramos, José Francisco Salm e a coprodução do bem público


É nesse ponto que a contribuição de José Francisco Salm se torna particularmente fecunda. Ex-orientando de Guerreiro Ramos, Salm desenvolveu, com Maria Ester Menegasso e outros pesquisadores, uma abordagem da administração pública inspirada na teoria da delimitação dos sistemas sociais e na concepção multicêntrica da sociedade. Nessa perspectiva, diferentes modelos de administração pública podem desempenhar funções complementares na coprodução do bem público (12).


A importância dessa concepção para os eventos extremos é considerável. Diante de uma catástrofe, torna-se evidente que o Estado é indispensável, mas também que sua ação não esgota todas as capacidades socialmente disponíveis. Defesa Civil, bombeiros, serviços públicos de saúde e governos podem atuar em articulação com empresas, universidades, organizações comunitárias, associações, movimentos sociais e cidadãos.


Essa articulação não deve ser interpretada como demonstração de que a sociedade civil poderia substituir o Estado. Tal leitura transformaria a coprodução numa justificativa neoliberal para a retração estatal. A concepção multicêntrica aponta em sentido diferente: atores diferenciados possuem capacidades específicas e podem participar da produção do bem público sem que suas identidades, responsabilidades e competências sejam dissolvidas.


O cidadão deixa, nesse processo, de ser concebido apenas como destinatário passivo de um serviço. Conhecimentos territoriais, iniciativas locais, redes de confiança e capacidades de auto-organização podem tornar-se componentes da própria resposta pública.


A coprodução torna-se, assim, uma ponte entre a teoria guerreiriana da sociedade multicêntrica e a ação pública diante de problemas complexos.


14. Ambientalismo complexo-multissetorial e coprodução do bem público


A aproximação entre ambientalismo complexo-multissetorial e coprodução do bem público não é meramente temática. As duas formulações partem de objetos diferentes, mas convergem numa compreensão relacional e multicêntrica da sociedade.


O ambientalismo complexo-multissetorial procura compreender como a problemática socioambiental atravessa atores e setores diferenciados. A coprodução do bem público pergunta como diferentes atores e formas organizacionais podem articular capacidades na produção de respostas a problemas reconhecidos como públicos.


A multissetorialidade identifica, portanto, uma configuração diferenciada. A transetorialidade permite compreender a dinâmica mediante a qual conhecimentos, recursos, perspectivas e práticas atravessam essas diferenciações. A coprodução acrescenta uma dimensão político-organizacional: determinadas relações transetoriais podem transformar-se em ação compartilhada voltada para o enfrentamento de problemas públicos.


Essa passagem, contudo, não é automática. Atores de diferentes setores também podem articular-se para capturar instituições, bloquear regulações ambientais, privatizar benefícios e socializar prejuízos. Redes digitais podem coordenar a disseminação de desinformação. Coalizões multissetoriais podem defender interesses particulares contrários à sustentabilidade socioambiental.


É precisamente por isso que a racionalidade substantiva ocupa posição decisiva. A existência de cooperação não basta para caracterizar a coprodução do bem público. É necessário perguntar pelas finalidades da ação e por sua legitimidade. Preservação da vida, dignidade, justiça, cuidado, redução das vulnerabilidades e sustentabilidade não decorrem automaticamente da eficiência da coordenação entre atores.


Nesse sentido, a atualização aqui proposta permite compreender o ambientalismo complexo-multissetorial em três planos articulados. No plano sociopolítico, identifica a configuração diferenciada de atores e setores envolvidos na problemática socioambiental. No plano epistemológico, exige a religação entre conhecimentos, experiências e perspectivas que nenhuma especialização consegue reunir isoladamente. No plano da práxis, abre-se à possibilidade de coprodução transetorial do bem público, substantivamente orientada.


15. O evento extremo como acontecimento transetorializador


Os eventos climáticos extremos tornam particularmente visível essa articulação. Uma inundação pode começar como fenômeno meteorológico, mas rapidamente deixa de pertencer ao domínio exclusivo da meteorologia. Ao atingir residências, torna-se problema habitacional; ao interromper estradas, compromete mobilidade e abastecimento; ao afetar hospitais, saneamento e água potável, converte-se em questão de saúde pública; ao destruir lavouras, estabelecimentos e infraestruturas, produz consequências econômicas e alimentares; ao interromper aulas e comunicações, alcança sistemas educacionais e informacionais.


O acontecimento realiza, assim, uma espécie de transetorialização compulsória da realidade. Aquilo que as instituições modernas administram mediante secretarias, ministérios, profissões, disciplinas e organizações especializadas reaparece como uma trama de interdependências.


Isso não torna as especializações desnecessárias. O conhecimento especializado torna-se, ao contrário, ainda mais necessário. O que se revela insuficiente é sua fragmentação. Nenhum setor consegue enfrentar sozinho um fenômeno cujos efeitos se propagam entre diferentes dimensões da vida social.


A resposta tende, por isso, a exigir movimento igualmente transetorial. Recursos materiais de uma organização podem combinar-se com conhecimentos técnicos de outra, conhecimentos territoriais das comunidades e trabalho voluntário de cidadãos. A resposta deixa de poder ser compreendida como simples soma de ações independentes e pode adquirir características de coprodução.


Mas a transetorialização do risco não garante a coprodução do bem público. A catástrofe também pode gerar competição por recursos, desinformação, oportunismo, exclusão e conflitos políticos. O acontecimento abre possibilidades; não determina seus resultados.


16. Gestão de riscos e desastres: uma ponte empírica


A produção brasileira sobre racionalidade nas organizações oferece uma ponte empírica particularmente relevante para essa discussão. Laís Silveira Santos e Mauricio Serafim investigaram dilemas morais enfrentados por gestores públicos de riscos e desastres em Santa Catarina, analisando-os à luz da abordagem das racionalidades nas organizações (13).


O interesse desse trabalho para a presente reflexão está justamente em demonstrar que a gestão de riscos e desastres não pode ser reduzida a um problema técnico. O gestor precisa calcular, selecionar meios, avaliar informações e tomar decisões sob condições de incerteza, mas simultaneamente enfrenta questões de responsabilidade, legitimidade e valores.


Essa literatura reforça a necessidade de evitar a oposição simplificadora entre racionalidade instrumental e substantiva. Na prática da gestão de desastres, ambas podem entrar em tensão, mas também precisam relacionar-se. A decisão tecnicamente eficiente pode revelar-se substantivamente problemática; uma finalidade eticamente desejável pode tornar-se irresponsável se desprezar riscos técnicos relevantes.


A hipótese desenvolvida neste artigo amplia essa questão do agente individual para as organizações e redes interorganizacionais. O evento extremo pode recontextualizar não apenas as decisões dos gestores, mas os próprios critérios mediante os quais competências, conhecimentos, hierarquias, temporalidades e fronteiras organizacionais são definidos.


O caso das enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul oferece, nesse sentido, um campo empírico particularmente importante para pesquisas futuras. Seria possível investigar como organizações públicas, empresas, universidades, comunidades e redes voluntárias modificaram suas formas de atuação durante a emergência; quais lideranças emergiram; como conhecimentos especializados e locais foram combinados; que práticas de cuidado adquiriram centralidade; e quanto dessas transformações permaneceu depois do retorno relativo à normalidade.


17. Ambientalização, contra-ambientalização e antiambientalismo


O ambientalismo complexo-multissetorial não pode ser compreendido apenas a partir das respostas cooperativas à crise ambiental. A ambientalização da sociedade produz resistências, disputas e movimentos contrários.


É útil distinguir contra-ambientalização e antiambientalismo. A primeira pode designar, em sentido mais amplo, processos de resistência à incorporação de critérios ambientais em diferentes setores. O antiambientalismo refere-se mais especificamente a sistemas de ideias, representações, atores e práticas que procuram deslegitimar a problemática ambiental, organizações ambientalistas, instituições regulatórias ou conhecimentos científicos associados a ela.


No Brasil, manifestações organizadas de antiambientalismo antecedem a recente expansão da extrema direita. Narrativas que apresentavam o ambientalismo como instrumento de interesses internacionais, ameaça ao desenvolvimento ou mecanismo de restrição à soberania nacional já circulavam anteriormente. Em contextos posteriores, algumas dessas representações puderam ser reancoradas em discursos de negacionismo climático, hostilidade às organizações ambientais e oposição a formas multilaterais de governança.


Isso não significa que toda crítica a políticas ambientais seja antiambientalista. Contestar a delimitação de uma unidade de conservação, questionar determinado método utilizado pelo IPCC ou denunciar problemas numa organização não governamental pode fazer parte do próprio debate democrático e científico. O antiambientalismo precisa ser identificado pela configuração mais ampla das representações, práticas e estratégias de deslegitimação.


Assim como o ambientalismo atravessa setores, o antiambientalismo também pode adquirir dinâmica transetorial. Ideias circulam entre grupos econômicos, organizações políticas, redes digitais, meios de comunicação e instituições públicas. O campo socioambiental é, portanto, também um campo de disputa cognitiva.


18. Representações sociais, política cognitiva e disputa pelos sentidos da catástrofe


Moscovici e Guerreiro Ramos permitem aprofundar essa dimensão. A teoria das representações sociais mostra como fenômenos complexos são apropriados e transformados em conhecimentos compartilháveis no cotidiano (10). Os acontecimentos não circulam socialmente em estado bruto; são nomeados, classificados, comparados com experiências anteriores e inseridos em narrativas.


Guerreiro Ramos acrescenta a questão do poder organizacional sobre os processos de interpretação. Sua noção de política cognitiva chama atenção para a capacidade de determinados agentes utilizarem recursos linguísticos e organizacionais para condicionar a maneira pela qual a realidade é interpretada (11).


A questão deixa, portanto, de ser somente como diferentes grupos atribuem sentidos aos eventos climáticos. É necessário perguntar também quem dispõe de recursos econômicos, tecnológicos, políticos e comunicacionais para ampliar determinadas interpretações e reduzir a visibilidade de outras.


As redes digitais intensificam esse processo. Durante uma catástrofe, informações tecnicamente fundamentais circulam ao lado de rumores, acusações, imagens descontextualizadas e narrativas conspiratórias. A mesma experiência pode favorecer consciência ecológica e solidariedade, mas também polarização, negacionismo e procura de culpados.


O acontecimento não possui, portanto, uma pedagogia automática. A experiência da catástrofe pode produzir sentidos distintos e contraditórios. Essa polifasia cognitiva reforça a necessidade de compreender conjuntamente acontecimentos, representações, sistemas de ideias e relações de poder.


19. Depois das águas: reconstrução ou metamorfose?


Talvez a questão teoricamente mais importante apareça depois da fase aguda da catástrofe. Durante a emergência, formas organizacionais que pareciam rígidas tornam-se mais permeáveis; conhecimentos locais adquirem legitimidade; lideranças emergem; redes de solidariedade são constituídas; atividades de cuidado tornam-se centrais; cidadãos deixam de aparecer apenas como usuários e passam a participar da coprodução das respostas; e a racionalidade instrumental é recontextualizada pela urgência substantiva da preservação da vida.


Entretanto, a normalidade tende a retornar. Empresas retomam suas atividades, burocracias recompõem procedimentos, mercados voltam a operar e as redes emergenciais podem dissolver-se. O cuidado pode novamente tornar-se invisível. Conhecimentos comunitários podem perder espaço. Lideranças emergentes podem desaparecer. A reconstrução física pode ocorrer sem revisão das condições que produziram vulnerabilidades.


É preciso, portanto, distinguir a emergência da racionalidade substantiva de sua institucionalização. É nesse ponto que Guerreiro Ramos, Morin e Beck estabelecem uma convergência particularmente fecunda. Guerreiro Ramos permite perguntar se a racionalidade instrumental voltará a autonomizar-se ou permanecerá recontextualizada por finalidades substantivas. Morin permite compreender a passagem da ordem à desordem e desta à reorganização, sem pressupor que a nova ordem será necessariamente melhor que a anterior. Beck permite perguntar se as experiências produzidas pelos riscos globais serão capazes de alterar categorias, instituições e formas de ação a ponto de contribuir para uma metamorfose do mundo (4).


A reconstrução pode, portanto, restaurar a normalidade anterior, inclusive suas vulnerabilidades. Mas pode também incorporar aprendizagem: mudar critérios urbanísticos, rever ocupações territoriais, fortalecer sistemas de prevenção, reconhecer conhecimentos comunitários, ampliar capacidades públicas, institucionalizar redes de coprodução e modificar prioridades econômicas. A catástrofe abre uma possibilidade epistemológica e política. Não garante seu aproveitamento.


20. Uma formulação atualizada do ambientalismo complexo-multissetorial


À luz desse percurso, o ambientalismo complexo-multissetorial pode ser compreendido como uma configuração histórica e dinâmica de atores, instituições, saberes, perspectivas, experiências, interesses e representações sociais envolvidos nas relações sociedade–natureza. Esses componentes não coexistem apenas lado a lado: relacionam-se de maneiras cooperativas, concorrenciais e antagônicas e atravessam continuamente fronteiras institucionais e cognitivas.


A multissetorialidade expressa a diferenciação dessa configuração, enquanto a transetorialidade permite compreender sua dinâmica. Conhecimentos, recursos, discursos e práticas circulam entre Estado, mercado, universidades, organizações sociais, comunidades e cidadãos sem que as diferenças entre esses espaços desapareçam. Ao contrário, a complexidade exige reconhecer simultaneamente suas especificidades, desigualdades de poder e interdependências.


No contexto das transformações antropogênicas do sistema terrestre e da sociedade mundial de risco, essa configuração torna-se ainda mais aberta e ambivalente. Pode produzir ambientalização e contra-ambientalização, cooperação e conflito, reflexividade e negacionismo, aprendizagem e reprodução. Nenhuma dessas possibilidades está previamente garantida.


A contribuição de Guerreiro Ramos permite acrescentar que as relações entre atores e organizações precisam ser examinadas também segundo as racionalidades que as orientam. A racionalidade instrumental permanece indispensável à capacidade de agir, mas precisa ser delimitada e recontextualizada por finalidades substantivas quando estão em jogo a vida, a dignidade, a justiça e as condições ecológicas da existência.


A contribuição de Salm permite, por sua vez, compreender que determinadas relações transetoriais podem assumir a forma político-organizacional de coprodução do bem público. Não se trata de dissolver o Estado numa sociedade civil indiferenciada, mas de reconhecer que problemas complexos podem exigir articulação entre capacidades públicas, comunitárias, científicas, econômicas e cidadãs.


O ambientalismo complexo-multissetorial pode ser compreendido, assim, não somente como uma forma de interpretar a composição do campo socioambiental, mas também como perspectiva epistemológica e possibilidade de práxis. Sua complexidade não reside apenas no número de atores que mobiliza, mas na capacidade de reconhecer relações, contextualizar conhecimentos, enfrentar antagonismos e produzir articulações substantivamente orientadas sem apagar diferenças.


Considerações finais


A emergência climática torna particularmente atual a problemática que deu origem ao ambientalismo complexo-multissetorial. O que inicialmente se apresentava como progressiva incorporação da questão ambiental por diferentes setores transformou-se numa condição histórica em que processos ecológicos, econômicos, políticos, tecnológicos, organizacionais e culturais se revelam cada vez mais interdependentes.


A proposição do Antropoceno contribuiu para tornar visível a dimensão antropogênica das transformações do sistema terrestre. A sociedade mundial de risco de Beck permite compreender como as consequências dessas transformações retornam às sociedades, atravessando fronteiras e distribuindo-se desigualmente. O pensamento complexo de Morin oferece uma epistemologia capaz de religar dimensões que a especialização científica e a diferenciação institucional precisam distinguir, mas não deveriam tratar como realidades independentes.


A atualização do ambientalismo complexo-multissetorial exige, entretanto, incorporar também a experiência, a produção dos sentidos e a organização da ação. Nietzsche, Husserl e Moscovici mostram, por caminhos distintos, que entre acontecimentos e práticas existem perspectivas, experiências e representações. A realidade biofísica não desaparece por ser interpretada, mas seu significado social depende de processos cognitivos e comunicacionais que também precisam ser compreendidos.


Guerreiro Ramos acrescenta uma dimensão decisiva. Se as organizações são também sistemas epistemológicos, os eventos extremos não afetam somente sua infraestrutura: perturbam os pressupostos mediante os quais conhecem, classificam e administram a realidade. A divisão burocrática das competências não desaparece, mas revela sua insuficiência quando isolada. Lideranças emergentes, conhecimentos territoriais, criatividade, reciprocidade e redes de cuidado tornam-se recursos organizacionais decisivos.


O mesmo ocorre com a racionalidade instrumental. A catástrofe não demonstra sua irrelevância; demonstra sua extraordinária necessidade. Defesa Civil, meteorologia, engenharia, medicina, logística e comunicações precisam operar com elevado grau de competência instrumental. Mas o acontecimento revela também que essa racionalidade não pode autonomizar-se das finalidades substantivas. A eficiência precisa permanecer ligada à preservação da vida, à dignidade, ao cuidado, à responsabilidade e à proteção dos mais vulneráveis. A racionalidade instrumental é, portanto, recontextualizada, e não substituída.


As potencialidades isonômicas e fenonômicas tornam-se igualmente visíveis. A catástrofe pode ativar relações associativas, iniciativas autônomas e formas de criatividade que permaneciam pouco perceptíveis na normalidade mercadocêntrica. Ao mesmo tempo, burocracias e organizações econômicas continuam indispensáveis. O acontecimento não demonstra a superioridade absoluta de uma forma organizacional, mas a necessidade de reconhecer uma sociedade multicêntrica na qual formas diferentes podem tornar-se complementares.


É precisamente nesse ponto que a contribuição de José Francisco Salm converge com o ambientalismo complexo-multissetorial. A coprodução do bem público oferece uma expressão político-organizacional possível para relações transetoriais orientadas substantivamente. O ambientalismo complexo-multissetorial permite compreender a configuração diferenciada dos atores; a transetorialidade explica o movimento pelo qual suas fronteiras são atravessadas; a coprodução mostra como determinadas relações podem converter-se em ação compartilhada diante de problemas públicos; e a racionalidade substantiva oferece a referência ético-normativa necessária para distinguir a produção do bem público da mera coordenação eficiente de interesses particulares.


Essa convergência amplia o alcance do conceito. O ambientalismo complexo-multissetorial deixa de ser apenas uma categoria destinada a identificar a diversificação do movimento ambientalista. Pode ser compreendido como perspectiva para investigar como sociedades diferenciadas conhecem, interpretam e enfrentam problemas socioambientais cuja complexidade atravessa as próprias fronteiras mediante as quais essas sociedades se organizaram.


Os eventos climáticos extremos constituem situações privilegiadas para observar esse processo. Neles, o global torna-se local, o risco torna-se acontecimento, a previsão torna-se experiência e a interdependência torna-se dramaticamente concreta. Para aqueles que perdem casa, território, familiares e referências biográficas, pode ocorrer o fim de um mundo vivido. Para a sociedade mais ampla, a catástrofe pode revelar a fragilidade das separações entre economia e ecologia, indivíduo e comunidade, organização e ambiente, conhecimento especializado e experiência cotidiana.


Mas nenhuma catástrofe contém em si mesma uma garantia de aprendizagem. Solidariedade pode coexistir com oportunismo; coprodução, com conflito; conhecimento científico, com desinformação; cuidado, com exclusão. Quando a emergência termina, a racionalidade mercadocêntrica pode recuperar sua centralidade, as fronteiras organizacionais podem fechar-se novamente e a reconstrução pode reproduzir exatamente as condições que produziram vulnerabilidade.


Por isso, a questão decisiva não está apenas no que as sociedades fazem durante a catástrofe, mas no que conseguem aprender depois dela. É nesse intervalo entre acontecimento e reorganização que se decide se a experiência substantiva e coprodutiva permanecerá episódica ou deixará consequências institucionais.


O desafio colocado pela emergência climática não consiste, portanto, simplesmente em reconstruir o que foi destruído. Consiste em perguntar o que merece ser reconstruído, o que precisa ser transformado e que aprendizagens devem ser institucionalizadas. É nesse sentido que o ambientalismo complexo-multissetorial pode encontrar a metamorfose de Beck, o acontecimento e a reorganização de Morin, a razão substantiva e a sociedade multicêntrica de Guerreiro Ramos e a coprodução do bem público de Salm.


A pergunta que permanece aberta é também aquela que melhor expressa a dimensão política e epistemológica da emergência climática: depois que o “fim do mundo” foi experimentado localmente, reconstruiremos a mesma normalidade que produziu nossas vulnerabilidades ou seremos capazes de transformar a experiência do acontecimento em aprendizagem, coprodução do bem público e metamorfose?


Referências

(1) BOEIRA, Sérgio Luís. Ambientalismo complexo-multissetorial no Brasil: emergência e declínio na década de 1990? Revista Ibero-Americana de Ciências Ambientais, v. 7, n. 3, 2016.

(2) CRUTZEN, Paul J. Geology of mankind. Nature, v. 415, p. 23, 2002.

(3) BECK, Ulrich. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. São Paulo: Editora 34, 2010.

(4) BECK, Ulrich. A metamorfose do mundo: novos conceitos para uma nova realidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

(5) MORIN, Edgar. O método 3: o conhecimento do conhecimento. Porto Alegre: Sulina, 1999.

(6) MORIN, Edgar. O método 4: as ideias: habitat, vida, costumes, organização. Porto Alegre: Sulina, 1998.

(7) MORIN, Edgar; KERN, Anne-Brigitte. Terra-Pátria. Porto Alegre: Sulina, 2003.

(8) NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

(9) HUSSERL, Edmund. A crise das ciências europeias e a fenomenologia transcendental. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.

(10) MOSCOVICI, Serge. Representações sociais: investigações em psicologia social. Petrópolis: Vozes, 2003.

(11) GUERREIRO RAMOS, Alberto. A nova ciência das organizações: uma reconceituação da riqueza das nações. Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas, 1981.

(12) SALM, José Francisco; MENEGASSO, Maria Ester. Os modelos de administração pública como estratégias complementares para a coprodução do bem público. Revista de Ciências da Administração, v. 11, n. 25, p. 83-104, 2009.

(13) SANTOS, Laís Silveira; SERAFIM, Mauricio Custódio. Dilemas morais como tensão existencial ética: uma análise da gestão pública de riscos e desastres à luz da abordagem da racionalidade nas organizações. 2020.


P.S.: Usei a IA GPT 5-6 Sol na busca e organização de informações, e na elaboração de ilustração para o texto, que foi concebido, editado e revisado por mim.

 

 
 
 

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