Biodiversidade e política cognitiva: da destruição à regeneração
Atualizado: 10 de set.
Objetivo
Este ensaio tem como objetivo compreender a perda contemporânea de biodiversidade não apenas como processo biofísico associado à destruição de habitats, à agricultura intensiva, aos agrotóxicos, à sobrepesca, à poluição e às mudanças climáticas, mas também como fenômeno relacionado a uma política cognitiva que legitima determinadas formas de apropriação da natureza. A partir da teoria das representações sociais de Serge Moscovici, do paradigma da complexidade de Edgar Morin, da delimitação dos sistemas sociais de Alberto Guerreiro Ramos e da perspectiva do ambientalismo complexo-multissetorial, argumenta-se que a regeneração ecológica requer também regeneração das representações sociais, ampliação da sociodiversidade e delimitação da expansão da racionalidade mercantil, reconhecendo simultaneamente a ambivalência e as potencialidades transformadoras existentes no próprio mercado.
Resumo
O declínio de populações de abelhas, borboletas, aves e organismos do solo constitui uma das manifestações perceptíveis da crise contemporânea da biodiversidade. Este ensaio argumenta que a transformação material dos ecossistemas foi acompanhada pela produção de representações sociais que contribuíram para legitimar a simplificação ecológica e a expansão da racionalidade produtivista. Expressões como “Revolução Verde”, “defensivos agrícolas”, “pragas”, “recursos naturais”, “aumento da produtividade” e “alimentar o mundo” participam de uma política cognitiva que pode representar simplificação como eficiência, veneno como defesa, exploração como produtividade, natureza como recurso e crescimento econômico como progresso. Reconhecem-se os ganhos históricos de produtividade associados à Revolução Verde, mas questiona-se a representação parcial desses resultados quando dissociados de seus custos socioecológicos. Com Moscovici, Morin e Guerreiro Ramos, propõe-se compreender a delimitação do mercado também como processo cognitivo e associá-la à ampliação da sociodiversidade, expressa pela coexistência de diferentes racionalidades e formas organizacionais, entre elas isonomias e fenonomias. O mercado, entretanto, é compreendido como realidade complexa e ambivalente: greentechs, mercados de reciclagem, cooperativas e outras organizações podem desempenhar funções delimitadoras de modalidades mais predatórias da atividade econômica. Na perspectiva do ambientalismo complexo-multissetorial, regenerar biodiversidade implica, portanto, regenerar representações, ampliar sociodiversidade e construir formas plurais de delimitação socioecológica.

1. Introdução: quando desaparecem as borboletas
Há experiências aparentemente banais que podem anunciar transformações profundas. Pessoas observam que encontram menos borboletas, que determinadas abelhas deixaram de visitar jardins, que certas aves se tornaram raras ou que, ao revolver a terra, encontram menos minhocas. Uma observação individual não constitui evidência científica suficiente de declínio populacional. Entretanto, quando percepções semelhantes se repetem em diferentes lugares e encontram correspondência em estudos sistemáticos, aquilo que parecia apenas uma impressão cotidiana pode revelar transformações ecológicas relevantes.
A perda contemporânea de biodiversidade envolve processos interdependentes: destruição e fragmentação de habitats, simplificação das paisagens, agricultura intensiva, utilização de agrotóxicos, espécies invasoras, poluição, mudanças climáticas, exploração excessiva de recursos e outras intervenções humanas (1). Polinizadores encontram-se particularmente expostos à combinação dessas pressões, enquanto inúmeras espécies de aves sofrem tanto pela transformação de seus habitats quanto pela diminuição de insetos, frutos, sementes e outros recursos alimentares (2). Sob nossos pés, organismos menos percebidos também são afetados: mudanças no manejo agrícola, na disponibilidade de matéria orgânica, na umidade, na compactação e na estrutura dos solos modificam comunidades de minhocas e de uma enorme biodiversidade subterrânea (3).
O problema, entretanto, não é somente biofísico. Os seres humanos não modificam ecossistemas sem simultaneamente produzir ideias, palavras, classificações, valores e justificativas para suas ações. A transformação material da natureza é acompanhada pela produção simbólica de formas específicas de representá-la.
É nesse ponto que a teoria das representações sociais de Serge Moscovici (4), o pensamento complexo de Edgar Morin (5), a teoria da delimitação dos sistemas sociais de Alberto Guerreiro Ramos (6) e o ambientalismo complexo-multissetorial podem dialogar.
Este ensaio parte dos sinais concretos da perda de biodiversidade para examinar progressivamente a Revolução Verde e a simplificação dos agroecossistemas; a política cognitiva associada ao produtivismo; a crença no crescimento econômico ilimitado; a relação entre biodiversidade e sociodiversidade; a delimitação do mercado e sua ambivalência; e, finalmente, as possibilidades de uma política cognitiva orientada para a regeneração.
2. Abelhas, borboletas, aves e minhocas: sinais de uma teia que se desfaz
Abelhas e borboletas ocupam lugares singulares no imaginário social. Borboletas são associadas às cores, à beleza, à leveza, à transformação e à alegria. Abelhas são lembradas principalmente pelo mel e, secundariamente, pela polinização. Essas representações positivas são importantes, mas insuficientes para expressar a complexidade ecológica desses animais.
A enorme diversidade de abelhas não existe, evidentemente, para produzir mel para seres humanos. Muitas espécies nem sequer produzem quantidades de mel aproveitáveis economicamente. Sua importância ecológica encontra-se sobretudo nas relações de polinização estabelecidas com numerosas espécies vegetais. Borboletas, mariposas, besouros, moscas, morcegos e outros animais também participam dessas relações. A reprodução das florestas depende ainda de aves, mamíferos e outros organismos que atuam na dispersão de sementes.
Talvez seja necessário, portanto, produzir também novas imagens sociais. Abelhas e outros polinizadores podem ser compreendidos metaforicamente como “operários do reflorestamento”, desde que se reconheçam as diferenças entre polinização e dispersão. Florestas não simplesmente crescem. Elas se reproduzem por meio de redes extraordinariamente complexas entre plantas, animais, fungos, microrganismos, águas, solos e condições climáticas.
As minhocas tornam visível outra parte dessa rede. Frequentemente ignoradas ou percebidas como organismos insignificantes, adquiriram representação fortemente positiva entre agricultores agroecológicos, ambientalistas e pesquisadores do solo. Sua presença pode estar associada a solos biologicamente ativos, embora não constitua isoladamente indicador suficiente da qualidade de qualquer solo. Ao lado de fungos, bactérias, nematoides, ácaros, colêmbolos e inúmeros outros organismos, participam da decomposição da matéria orgânica, da ciclagem de nutrientes e da estruturação dos solos (3).
A diminuição desses organismos não constitui uma coleção de acontecimentos independentes. O desaparecimento local de uma borboleta, a redução de abelhas, a diminuição de determinadas aves e o empobrecimento da fauna dos solos podem expressar dimensões distintas de processos que simplificam as teias ecológicas.
3. Revolução Verde: produtividade, petróleo e simplificação ecológica
A chamada Revolução Verde constituiu uma das maiores transformações tecnológicas da agricultura moderna. A difusão de variedades de alto rendimento, mecanização, irrigação, fertilizantes sintéticos e pesticidas possibilitou aumentos expressivos de produtividade em numerosas regiões. Uma crítica consistente de suas consequências não requer negar esse resultado histórico.
O problema aparece quando a produtividade se converte no principal critério de avaliação do sistema e seus custos ecológicos e sociais são deslocados para as margens da representação.
A agricultura industrial moderna tornou-se profundamente articulada à economia dos combustíveis fósseis. A mecanização, a fabricação de fertilizantes nitrogenados, a indústria petroquímica, o processamento de alimentos e o transporte em longas cadeias produtivas integram sistemas de elevado consumo de matéria e energia.
Ao mesmo tempo, a expansão de monoculturas substituiu ecossistemas diversificados por paisagens biologicamente simplificadas. Aquilo que pode ser altamente eficiente segundo determinado indicador econômico pode revelar-se vulnerável quando observado ecologicamente. A simplificação reduz nichos, diversidade genética, plantas hospedeiras, alimentos e abrigos para diferentes organismos.
Em determinados contextos, ela favorece também a proliferação de espécies capazes de explorar abundantemente a cultura predominante. Forma-se então um circuito recursivo: simplificação ecológica → proliferação de determinados organismos → classificação como “pragas” → intensificação do controle químico → efeitos sobre organismos-alvo e não alvo → nova redução da biodiversidade → maior dependência de intervenções externas.
Efeitos retroagem sobre causas. A causalidade deixa de ser linear e assume características circulares e recursivas, como enfatiza o pensamento complexo de Morin (5).
As repercussões alcançam também os sistemas hídricos. Desmatamento, compactação dos solos, drenagem, erosão, irrigação excessiva e bombeamento de águas subterrâneas podem alterar processos de infiltração, recarga de aquíferos e manutenção de nascentes. Não se deve atribuir o desaparecimento de fontes de água a uma causa única, mas tampouco separar cobertura vegetal, estrutura dos solos, agricultura, águas superficiais e subterrâneas como se fossem sistemas independentes.
4. Do campo ao oceano: a racionalidade da extração
A mesma problemática ultrapassa a agricultura. Nos oceanos, a pesca industrial transformou profundamente relações entre sociedades humanas e ecossistemas marinhos. Populações de animais passam a ser cognitivamente convertidas em “estoques pesqueiros”, enquanto a extraordinária complexidade dos ecossistemas corre o risco de ser subordinada ao cálculo de quanto pode ser extraído sem inviabilizar imediatamente a atividade econômica.
O problema não reside simplesmente na utilização humana da natureza. Todas as sociedades dependem materialmente dos ecossistemas. A questão está na transformação de uma relação de dependência em uma representação de disponibilidade.
A floresta torna-se madeira, terra ou estoque de carbono; o solo, suporte da produtividade; a água, recurso hídrico; o oceano, estoque pesqueiro; os minerais, reservas; os polinizadores, serviços ecossistêmicos.
O conceito de serviços ecossistêmicos desempenhou papel importante ao tornar economicamente visíveis funções ambientais anteriormente ignoradas. Entretanto, contém uma ambivalência: pode ajudar a demonstrar que a destruição ecológica possui enormes custos, mas também pode conservar uma representação antropocêntrica segundo a qual o valor dos ecossistemas deriva fundamentalmente dos serviços que prestam aos seres humanos.
Uma perspectiva complexa inverte a relação: a questão não é apenas o que a biodiversidade fornece à economia, mas de quais sistemas vivos a economia constitui uma parte dependente.
5. “Defensivos”, “pragas” e “alimentar o mundo”: política cognitiva e representações sociais
Moscovici demonstrou que as representações sociais participam da construção das realidades compartilhadas e fornecem categorias pelas quais grupos tornam o mundo inteligível e comunicável (4). Isso permite examinar o vocabulário associado à agricultura industrial não apenas como terminologia técnica, mas como parte de uma política cognitiva.
“Revolução Verde” associa transformação tecnológica a uma cor simbolicamente vinculada à natureza. “Defensivo agrícola” estabelece antecipadamente uma relação: existe algo valioso a ser defendido contra um agente ameaçador. “Praga” converte determinado organismo em inimigo. “Recurso natural” reorganiza cognitivamente seres vivos, águas e minerais segundo sua disponibilidade para finalidades humanas.
A expressão “alimentar o mundo” acrescenta uma legitimação moral poderosa. Questionar determinado modelo produtivo pode passar a ser representado como oposição ao aumento da produção necessário para combater a fome. Entretanto, fome e insegurança alimentar não decorrem simplesmente da insuficiência física da produção mundial de alimentos. Envolvem pobreza, distribuição, acesso, conflitos, desperdício, desigualdades e políticas públicas.
A política cognitiva não depende necessariamente da produção deliberada de falsidades. Pode operar de maneira mais sutil: selecionando dimensões verdadeiras da realidade e apresentando-as como se constituíssem a realidade inteira.
Aumento da produtividade, redução de determinada perda agrícola e crescimento das exportações podem ser fatos. O problema aparece quando esses fatos são cognitivamente separados da perda de biodiversidade, da contaminação, da erosão, da dependência de insumos, da vulnerabilidade dos sistemas e de suas consequências sociais.
Pode-se sintetizar essa política cognitiva em algumas operações: simplificação como eficiência; veneno como defesa; exploração como produtividade; natureza como recurso; crescimento econômico como progresso.
Há ainda outra operação decisiva: biodiversidade como obstáculo à produção. “Mato”, “erva daninha”, “praga” e classificações semelhantes reorganizam a diversidade dos seres vivos segundo as categorias útil/inútil, produtivo/improdutivo e desejável/indesejável.
Uma teia ecológica complexa passa, assim, a ser cognitivamente submetida à racionalidade econômica.
6. Produtividade cega e crescimento ilimitado
Por trás dessas representações encontra-se uma crença mais abrangente: crescer significa progredir. O Produto Interno Bruto constitui indicador relevante da atividade econômica, mas sua transformação em medida privilegiada de progresso social produz uma redução cognitiva. Quando o PIB cresce, raramente a primeira pergunta é: o que cresceu, para quem, durante quanto tempo e mediante quais custos sociais e ecológicos?
Uma floresta preservada pode gerar relativamente poucas transações monetárias contabilizadas pelo PIB. Sua derrubada, a comercialização da madeira, o transporte, a implantação de monoculturas e a aquisição de insumos geram atividades econômicas. Caso posteriormente sejam necessários investimentos para recuperar áreas degradadas ou tratar águas contaminadas, novas atividades econômicas serão registradas.
Isso não torna o PIB um indicador falso. Demonstra que atividade econômica e progresso socioecológico são coisas diferentes. Herman Daly chama atenção para a impossibilidade de uma economia material crescer indefinidamente dentro de uma biosfera finita (7). Nicholas Georgescu-Roegen demonstrou que processos econômicos não estão fora da natureza: submetem-se às leis biofísicas e envolvem transformações irreversíveis de matéria e energia (8).
A obsessão pelo aumento da produtividade pode então converter-se em produtividade cega: produzir mais sem perguntar suficientemente o que se produz, por que se produz, para quem se produz, quais condições ecológicas são consumidas e durante quanto tempo o sistema consegue reproduzir-se.
A pergunta instrumental — como produzir mais? — prevalece sobre a pergunta substantiva — produzir mais para quê?
É nesse ponto que a crítica ecológica encontra a razão substantiva e a delimitação de Guerreiro Ramos (6). A racionalidade instrumental não precisa ser eliminada. Precisa ser delimitada e recontextualizada por questões relativas aos fins, valores e diferentes possibilidades de realização humana.
7. Frugalidade e suficiência: outras representações do desenvolvimento
Questionar o crescimento ilimitado não significa defender pobreza ou privação. Frugalidade e miséria são radicalmente diferentes. A primeira pode expressar uma escolha pela suficiência; a segunda significa impossibilidade de satisfazer necessidades fundamentais.
José Mujica tornou-se uma voz política singular ao questionar reiteradamente a associação entre felicidade, consumo e acumulação. Sua própria forma de vida conferiu força simbólica à crítica.
O Papa Francisco desenvolveu em Laudato si' uma crítica sistemática à articulação entre degradação ambiental, desigualdade, cultura do descarte e paradigma tecnocrático, propondo a perspectiva da ecologia integral (9).
A frugalidade não significa rejeitar ciência, tecnologia, conforto ou inovação. Significa recuperar socialmente uma pergunta que se torna incômoda numa economia organizada em torno da expansão permanente: quanto é suficiente?
Uma verdadeira inovação socioecológica talvez não consista simplesmente em produzir mais utilizando menos recursos por unidade produzida, mas em construir sociedades capazes de combinar suficiência material, justiça social, qualidade de vida e regeneração ecológica.
8. Biodiversidade e sociodiversidade: a diversidade como princípio
A biodiversidade possui uma correspondência importante no plano social: a sociodiversidade.
Se ecossistemas resilientes dependem da diversidade de espécies e, sobretudo, das relações entre elas, sociedades substantivamente desenvolvidas também requerem diversidade de formas de associação, organização, racionalidade, espaço e temporalidade.
A teoria da delimitação dos sistemas sociais de Guerreiro Ramos permite compreender essa relação. Uma sociedade multicêntrica não elimina o mercado; impede que ele se transforme no paradigma exclusivo da organização da existência. A delimitação abre espaço para diferentes enclaves e formas organizacionais, entre as quais as isonomias e as fenonomias, orientadas por características próprias de organização, espaço, tempo e realização humana (6).
A emergência e a preservação dessas formas podem ser compreendidas como crescimento da sociodiversidade. Essa ideia permite formular uma analogia esclarecedora. Assim como a monocultura simplifica ecossistemas, a universalização da racionalidade mercantil pode produzir uma espécie de monocultura organizacional. Organizações diferentes passam a ser pressionadas pelos mesmos critérios: produtividade, eficiência, escala, competição, crescimento e resultados quantitativamente mensuráveis.
A sociodiversidade implica precisamente o contrário: coexistência de formas sociais orientadas por diferentes finalidades e racionalidades. Uma isonomia não é simplesmente uma empresa pouco lucrativa. Uma fenonomia não é uma organização econômica pequena. São espaços sociais qualitativamente distintos, que não podem ser adequadamente avaliados segundo critérios próprios do mercado.
Daí decorre uma proposição importante: uma sociedade pode necessitar de menos crescimento material e, simultaneamente, de mais biodiversidade e mais sociodiversidade. Podem crescer conhecimento, cultura, autonomia, reciprocidade, participação, criatividade, vínculos comunitários e diversidade organizacional sem que isso exija crescimento ilimitado dos fluxos materiais e energéticos da economia.
Delimitar significa, nesse sentido, não somente conter. Significa também abrir espaço para a diversidade.
9. Delimitar o mercado é também delimitar sua política cognitiva
A delimitação do mercado não é apenas institucional, econômica ou política. É também cognitiva. Preço, rentabilidade, produtividade, eficiência, competitividade e crescimento são categorias relevantes em determinados contextos. O problema aparece quando são naturalizadas como critérios universais para avaliar florestas, rios, espécies, comunidades, organizações e formas de vida.
Diante de uma política cognitiva mercantil que pode representar simplificação como eficiência, veneno como defesa, exploração como produtividade, natureza como recurso e crescimento como progresso, torna-se necessária uma política cognitiva da delimitação.
Essa política não deveria constituir uma contrapropaganda ambientalista que simplesmente substituísse uma representação fechada por outra. Uma política cognitiva inspirada na complexidade precisa reconhecer inclusive os limites de suas próprias representações. Seu objetivo é tornar visíveis relações, interdependências, retroações, incertezas, limites e consequências que formas fragmentadas de pensamento deixam de perceber.
Delimitar o mercado significa, portanto, também delimitar cognitivamente sua pretensão de definir a realidade.
10. O mercado é ambivalente: delimitação também pode emergir de dentro
Entretanto, reconhecer a necessidade de delimitação não significa representar o mercado como realidade homogênea e necessariamente predatória. O mercado é complexo e ambivalente. Determinadas atividades econômicas ampliam a extração de recursos, simplificam ecossistemas e transferem custos socioambientais para a coletividade. Outras podem contribuir para delimitar modalidades mais predatórias do próprio mercado.
As chamadas greentechs constituem um exemplo. Empresas voltadas para energias renováveis, eficiência energética e material, saneamento, tratamento de resíduos, monitoramento ambiental, recuperação de ecossistemas ou outras tecnologias de menor impacto continuam sendo organizações de mercado. Entretanto, podem desenvolver soluções que substituem tecnologias mais destrutivas e internalizam problemas anteriormente tratados como externalidades.
O mercado da reciclagem apresenta ambivalência semelhante. Reintroduzir materiais em circuitos produtivos pode reduzir extração de matérias-primas, disposição em aterros e outros impactos. Cooperativas e associações de catadores acrescentam uma dimensão particularmente interessante, pois podem combinar atividade econômica, inclusão social, organização associativa, prestação de serviços ambientais e coprodução do bem público.
Essas contribuições, entretanto, são relativas. Reciclar mais não justifica produzir e descartar cada vez mais. Uma greentech tampouco é ambientalmente benéfica simplesmente porque assim se denomina. Energias renováveis exigem minerais, territórios e infraestrutura; processos de reciclagem consomem energia e podem produzir impactos; novas tecnologias podem deslocar externalidades de um território para outro.
A ecologia da ação de Morin recomenda observar consequências, retroações e efeitos não previstos, em vez de atribuir antecipadamente virtude ambiental a determinados atores ou setores (5).
A delimitação pode, portanto, surgir fora, nas fronteiras e dentro do próprio mercado. Isso impede uma classificação simplificadora segundo a qual mercado e ambientalismo constituiriam dois blocos opostos.
11. Os delimitadores no ambientalismo complexo-multissetorial
Essa ambivalência reforça a perspectiva do ambientalismo complexo-multissetorial. Se a política cognitiva mercantil atravessa diferentes setores, seus delimitadores tampouco pertencem exclusivamente ao chamado setor ambiental. O delimitador não constitui necessariamente uma identidade fixa. Pode ser compreendido como função exercida por diferentes atores em determinadas relações e circunstâncias.
Pesquisadores desempenham funções delimitadoras quando tornam visíveis consequências ignoradas por indicadores econômicos. Agricultores podem fazê-lo quando recuperam diversidade, matéria orgânica e relações ecológicas em seus sistemas produtivos. Professores podem questionar representações naturalizadas de progresso. Jornalistas podem religar decisões econômicas às suas consequências socioambientais. Consumidores podem modificar padrões de demanda. Comunidades tradicionais, organizações da sociedade civil e movimentos sociais podem produzir conhecimentos e práticas alternativas. Gestores públicos podem estabelecer limites jurídicos e institucionais.
Empresas também podem desempenhar funções delimitadoras quando substituem processos mais predatórios, reduzem fluxos materiais, recuperam ecossistemas ou subordinam oportunidades de rentabilidade a determinados limites socioecológicos.
Isso não transforma automaticamente esses atores em “ambientalistas”. Uma mesma organização pode desempenhar funções delimitadoras em determinada dimensão e produzir novas contradições em outra.
Um pesquisador pode contribuir para a conservação ambiental e reproduzir o produtivismo acadêmico. Uma organização ambiental pode adotar sem reflexão categorias mercantis. Uma greentech pode substituir uma tecnologia poluente e simultaneamente gerar novos impactos. Uma cooperativa pode combinar relações econômicas, associativas e comunitárias.
A realidade multissetorial é justamente constituída por essas interpenetrações. Por isso, talvez a pergunta fundamental não seja apenas “quem são os ambientalistas?”, mas: quem, em diferentes setores e situações, está contribuindo para religar aquilo que a política cognitiva dominante separou e para delimitar aquilo que o mercado pretende tornar ilimitado?
12. Regenerar biodiversidade, sociodiversidade e representações
Chegamos, assim, à tese central deste ensaio: A perda contemporânea de biodiversidade não resulta somente de tecnologias ambientalmente destrutivas. Ela é sustentada por uma política cognitiva que representa simplificação como eficiência, veneno como defesa, exploração como produtividade, natureza como recurso e crescimento econômico como progresso. A regeneração dos ecossistemas exige, portanto, também uma regeneração das representações sociais.
Não basta recuperar florestas, solos, águas, insetos, aves e demais espécies; é preciso também transformar as ideias, palavras e valores por meio dos quais aprendemos a percebê-los e a nos relacionar com eles.
A essa formulação podemos agora acrescentar outra dimensão: regenerar a diversidade da vida implica também criar condições para a diversidade das formas de vida social.
Biodiversidade e sociodiversidade não são conceitos idênticos. A relação entre eles não deve ser naturalizada. Entretanto, ambos chamam atenção para o problema da simplificação. No plano ecológico, a monocultura elimina relações e reduz diversidade. No plano social, a expansão ilimitada de uma única racionalidade pode reduzir a diversidade das formas organizacionais e dos modos de existência.
A delimitação contém essa tendência homogeneizadora e abre espaço para a pluralidade. Nesse contexto, a abelha pode deixar de ser representada predominantemente como produtora de mel para ser compreendida como integrante de redes de polinização. Borboletas podem continuar simbolizando beleza, cores e transformação, mas podem também tornar visível a vulnerabilidade das relações ecológicas. Aves podem ser percebidas por suas múltiplas funções nas teias alimentares, na polinização e na dispersão. Minhocas podem participar da representação social do solo vivo.
A metáfora dos “operários do reflorestamento” adquire, então, significado particular. Abelhas, borboletas, aves, morcegos e inúmeros outros organismos participam silenciosamente — sem preços, salários ou contabilização no PIB — da reprodução cotidiana das condições ecológicas das quais a economia depende.
A floresta não é apenas um conjunto de árvores. O solo não é mero suporte físico para cultivos. O oceano não é um estoque de pescado. Biodiversidade não é uma coleção de espécies. E sociedade não é sinônimo de mercado. São sistemas de relações.
13. Considerações finais: da monocultura à diversidade
A expressão “Revolução Verde” contém uma ironia histórica. A transformação agrícola que recebeu esse nome aumentou significativamente a produtividade, mas esteve associada também a simplificação ecológica, dependência de insumos industriais e diversos impactos socioambientais. Reconhecer esses efeitos não exige apagar seus resultados históricos. Exige compreendê-los de maneira complexa.
Talvez a transformação necessária no século XXI possa ser compreendida como uma revolução verde em outro sentido: não simplesmente a substituição de um pacote tecnológico por outro, mas uma transformação da própria representação do que significa produzir, prosperar e desenvolver-se.
Isso implica deslocamentos cognitivos e materiais: da maximização para a suficiência; da simplificação para a diversidade; da exploração para a regeneração; do controle absoluto para o manejo das interdependências; da produtividade cega para a avaliação de finalidades e consequências; do crescimento econômico como finalidade para a economia como meio.
Entretanto, não se trata de substituir o mercado por uma ordem social idealizada. O mercado é ambivalente e pode produzir internamente tecnologias, organizações e práticas que delimitam formas mais predatórias de atividade econômica. Greentechs, reciclagem, economia circular, cooperativas e outras experiências precisam ser avaliadas concretamente, por suas práticas e consequências, e não classificadas antecipadamente como solução ou problema.
A mesma lógica aplica-se aos setores sociais. Nenhum deles possui monopólio da consciência ecológica. É justamente por isso que a política cognitiva da delimitação possui caráter multissetorial. Morin propõe religar conhecimentos e realidades que o pensamento fragmentado separou (5). Moscovici permite compreender a produção e transformação das representações compartilhadas (4). Guerreiro Ramos demonstra a necessidade de delimitar o mercado e abre espaço para uma sociedade multicêntrica e organizacionalmente diversa (6). Daly e Georgescu-Roegen recolocam o processo econômico dentro dos limites biofísicos (7)(8). Francisco introduz a perspectiva de uma ecologia integral que religa questões ambientais e sociais (9).
O ambientalismo complexo-multissetorial pode articular essas contribuições perguntando não apenas quem pertence ao ambientalismo, mas quais atores, relações, organizações e representações ampliam ou reduzem as possibilidades de regeneração socioecológica.
Uma sociedade pode necessitar de menos crescimento dos fluxos materiais e energéticos e, ao mesmo tempo, de mais biodiversidade e mais sociodiversidade.
Podem crescer a criatividade, a autonomia, a reciprocidade, a participação, a cultura, o conhecimento, os vínculos comunitários e a diversidade organizacional. Podem multiplicar-se isonomias, fenonomias, cooperativas, redes, iniciativas comunitárias e formas empresariais ambientalmente inovadoras. O que precisa ser delimitado não é a diversidade, mas justamente aquilo que tende a homogeneizá-la.
Talvez uma das transformações mais profundas de que necessitamos comece pela capacidade de voltar a enxergar aquilo que a produtividade cega tornou invisível: uma abelha sobre uma flor, uma borboleta no jardim, uma ave transportando uma semente e uma minhoca movimentando um solo vivo não são detalhes marginais da economia. São manifestações da teia da vida dentro da qual qualquer economia é possível.
Regenerar significa, nesse sentido, mais do que restaurar aquilo que foi degradado. Significa reabrir espaços para que a diversidade volte a produzir diversidade — nos ecossistemas, nas organizações, nas representações e nas formas humanas de habitar a Terra.
Referências
(1) IPBES. Global Assessment Report on Biodiversity and Ecosystem Services. Bonn: Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services, 2019.
(2) IPBES. The Assessment Report on Pollinators, Pollination and Food Production. Bonn: Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services, 2016.
(3) BRIONES, María Jesús I.; SCHMIDT, Olaf. Conventional tillage decreases the abundance and biomass of earthworms and alters their community structure in a global meta-analysis. Global Change Biology, v. 23, n. 10, p. 4396–4419, 2017.
(4) MOSCOVICI, Serge. Representações sociais: investigações em psicologia social. Petrópolis: Vozes, 2003.
(5) MORIN, Edgar. O método 1: a natureza da natureza. Porto Alegre: Sulina, 2002.
(6) GUERREIRO RAMOS, Alberto. A nova ciência das organizações: uma reconceituação da riqueza das nações. Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas, 1981.
(7) DALY, Herman E.; FARLEY, Joshua. Economia ecológica: princípios e aplicações. Lisboa: Instituto Piaget, 2004.
(8) GEORGESCU-ROEGEN, Nicholas. The Entropy Law and the Economic Process. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1971.
(9) FRANCISCO. Laudato si': sobre o cuidado da casa comum. Vaticano, 2015.
P.S.: Usei a IA GPT 5-6 Sol na busca e organização das informações, e na elaboração de ilustração para o texto, que foi concebido, editado e revisado por mim.


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