BRICS: de conceito de mercado a projeto de ordem multipolar
- Sérgio Luís Boeira
- há 3 dias
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Uma trajetória que começou numa sala de analistas da Goldman Sachs e chegou às mesas de negociação que desafiam a arquitetura financeira do pós-guerra — essa é, em síntese, a história improvável do BRICS.

A gênese do conceito: Goldman Sachs e a reinvenção política
Em novembro de 2001, Jim O'Neill, então chefe de pesquisa econômica global da Goldman Sachs, publicou o paper "Building Better Global Economic BRICs" (Goldman Sachs, 2001). O objetivo era modesto, ao menos nas intenções declaradas: nomear um conjunto de mercados emergentes — Brasil, Rússia, Índia e China — cujo peso no PIB mundial cresceria de forma expressiva nas décadas seguintes. O acrônimo era, antes de tudo, um instrumento de comunicação financeira, destinado a orientar portfólios e atrair capital. Dois anos depois, o mesmo banco publicaria "Dreaming with BRICs: The Path to 2050", projetando que esses países poderiam superar as maiores economias ocidentais já em 2039.
O paradoxo fundador do BRICS reside exatamente aqui: um conceito gerado para servir à lógica de valorização do capital financeiro globalizado foi progressivamente apropriado pelos próprios governos nomeados no acrônimo e convertido em instrumento de contestação da hegemonia que o havia produzido. Como observa o IPEA em seu Fórum BRICS, "em 2006, o conceito deu origem a um agrupamento próprio, incorporado à política externa de Brasil, Rússia, Índia e China" — uma virada que não estava nos planos de O'Neill. Essa tensão entre origem financeira e destinação política atravessa toda a trajetória do grupo e continua a ser uma das chaves interpretativas mais produtivas para compreendê-lo.
Os atores fundadores e seus interesses distintos
Seria um equívoco analítico tratar os membros fundadores como bloco homogêneo. Desde o início, o BRIC reuniu países com trajetórias históricas radicalmente diferentes, regimes políticos distintos e agendas nem sempre convergentes.
A Rússia, curiosamente, antecipou a dimensão política do agrupamento antes mesmo da sigla existir. Desde 1997, o então ministro das Relações Exteriores Yevgeny Primakov vinha propondo um "triângulo estratégico" Rússia-China-Índia como contraposição ao unipolarismo norte-americano. A ideia de multipolaridade estava no DNA da diplomacia russa muito antes de O'Neill escrever seu paper. Para Moscou, o BRIC era, desde o início, um instrumento geopolítico.
A China, por sua vez, enxergava no agrupamento uma oportunidade de legitimar sua ascensão e ampliar sua influência no Sul Global sem confrontar diretamente as instituições ocidentais. O pragmatismo chinês se expressaria mais tarde na insistência pela adesão da África do Sul — em 2011, por convite de Pequim, Pretória foi incorporada ao grupo, que passou a se chamar BRICS. A lógica era de representatividade continental: o continente africano, ausente na sigla original, precisava de uma voz.
Brasil e Índia ocupavam posições mais ambíguas. Ambos os países buscavam reforma das instituições multilaterais — FMI, Banco Mundial, Conselho de Segurança da ONU —, mas sem romper com a ordem liberal que lhes permitia crescer. A Índia, em especial, mantinha relações estratégicas com os Estados Unidos e zelava para não ser percebida como parte de um eixo antiocidental. Já o Brasil, sobretudo nos governos Lula (2003–2010), apostava em uma política externa de "autonomia pela diversificação", na qual o BRIC funcionava como trunfo diplomático para ampliar espaço de manobra sem subordinação a nenhuma potência.
A crise de 2008 como divisor de águas
A crise financeira global de 2008 foi o catalisador que transformou o agrupamento informal em fórum político com agenda própria. O colapso dos mercados no centro do sistema — originado nos Estados Unidos e propagado pela Europa — inverteu, ao menos temporariamente, a lógica que o FMI e o Banco Mundial haviam imposto ao Sul Global por décadas: era a periferia que agora precisava sustentar o centro.
Como registra o site oficial da Presidência Brasileira do BRICS, "a partir da crise financeira de 2008, os então quatro países buscaram atuar de forma concertada, no âmbito do G20, do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, com propostas de reforma da governança econômica e financeira internacional". A primeira Cúpula de Chefes de Estado, realizada em junho de 2009 em Ecaterimburgo, na Rússia, não foi uma casualidade: ela foi possível porque a crise havia demonstrado que o G7 não era capaz de gerir sozinho a economia global.
A agenda da I Cúpula era reveladora: reforma do sistema financeiro internacional, ampliação das cotas de voto no FMI, substituição do dólar como única moeda de reserva global. Eram demandas que os países emergentes vinham repetindo há anos em fóruns multilaterais sem resultado. A crise lhes deu, pela primeira vez, poder de barganha real. Stiglitz, Stern e outros economistas heterodoxos passaram a enxergar no BRICS não apenas um fenômeno de mercado — como O'Neill havia proposto —, mas um vetor de redistribuição de poder na governança econômica global.
As fases do BRICS: uma periodização
A trajetória do BRICS pode ser periodizada em quatro fases, cujos contornos emergem com clareza quando se examinam tanto os documentos oficiais quanto a literatura acadêmica produzida sobre o tema. A dissertação de Larissa Lima Barros, defendida na UNILA em 2026 (Barros, 2026), propõe uma divisão em três fases — ascensão (2009–2014), declínio relativo (2015–2022) e renovação (2023–presente) — que serve como ponto de partida útil, embora caiba acrescentar o período pré-político (2001–2008) como fase fundadora do conceito.
Fase pré-política (2001–2008): O acrônimo circula em relatórios financeiros, inspira estratégias de portfólio e começa a ser referenciado em documentos diplomáticos. Em setembro de 2006, os ministros das Relações Exteriores dos quatro países se reúnem pela primeira vez às margens da Assembleia Geral da ONU em Nova York — gesto aparentemente protocolar, mas que marca a transição do conceito analítico para a articulação política.
Fase de institucionalização inicial (2009–2011): As Cúpulas de Chefes de Estado passam a ocorrer anualmente. A agenda se centra na reforma do sistema de Bretton Woods. A África do Sul adere em 2011, ampliando a representatividade geográfica e sinalizando a intenção do grupo de falar em nome do Sul Global mais amplo.
Fase de aprofundamento institucional (2012–2014): O grupo debate e decide criar suas próprias instituições financeiras. Essa fase culmina no que pode ser considerado o mais importante marco institucional do BRICS até então: a VI Cúpula, realizada em Fortaleza, Brasil, em julho de 2014.
Fase de consolidação e tensão (2015–2022): O NDB entra em operação, mas o grupo enfrenta ventos contrários — desaceleração econômica, tensões geopolíticas e o risco de fragmentação interna. A pandemia de Covid-19 (2020) e a guerra na Ucrânia (2022) testam os limites da coesão.
Fase de expansão e renovação (2023–presente): A Cúpula de Joanesburgo (agosto de 2023) aprova a maior expansão da história do grupo. O BRICS se torna BRICS+.
Antes e depois do NDB: o salto institucional de Fortaleza (2014)
A criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) representa o divisor de águas mais nítido na trajetória do BRICS. Antes de Fortaleza, o grupo era essencialmente um mecanismo de concertação diplomática — um fórum sem secretariado permanente, sem constituição formal, sustentado, como sintetiza o IPEA, apenas pela "vontade política de seus membros". Após Fortaleza, o BRICS passou a dispor de uma instituição financeira própria, com capital e capacidade operacional reais.
A trajetória até esse ponto foi gradual. Em 2012, na IV Cúpula de Nova Delhi, os líderes discutiram pela primeira vez a viabilidade de um banco de desenvolvimento conjunto. Em 2013, na V Cúpula de Durban, concordaram sobre sua criação. Em julho de 2014, na VI Cúpula de Fortaleza, assinaram o Acordo de Criação do NDB e o Acordo Contingente de Reservas (ACR) — este último funcionando como uma espécie de fundo de estabilização financeira para os membros em situação de pressão cambial, alternativa ao FMI.
Conforme registra o histórico oficial do NDB, o banco se tornou plenamente operacional em 2016, após receber o primeiro aporte de capital dos cinco países fundadores. Sua primeira presidência coube ao indiano K.V. Kamath. A sede foi estabelecida em Xangai — escolha que não é neutra: reflete o peso da China no grupo e sinaliza o deslocamento do centro de gravidade financeiro para o Oriente. O capital autorizado foi de US$ 100 bilhões, divididos em partes iguais entre os cinco fundadores — o que distingue o NDB do Banco Mundial e do FMI, onde as cotas de voto refletem o poder econômico assimétrico das potências ocidentais.
A resposta do NDB à pandemia de Covid-19 foi ilustrativa de sua vocação: em 2020, o banco destinou US$ 10 bilhões ao enfrentamento da crise sanitária e à recuperação econômica dos países membros. Em 2023, Dilma Rousseff assumiu a presidência do banco, cargo ao qual foi reeleita em 2025, reafirmando o protagonismo brasileiro na gestão da instituição.
Desafios, paradoxos e perspectivas
A expansão de 2023–2024 elevou o BRICS a 11 membros — Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã —, representando coletivamente cerca de 36% do PIB global em paridade de poder de compra e aproximadamente 45% da população mundial, conforme dados divulgados pela Presidência Brasileira do BRICS. O bloco ampliado opera em um contexto de agudas tensões geopolíticas: guerra na Ucrânia, conflito em Gaza, reorientação protecionista dos Estados Unidos sob o retorno de Donald Trump.
Mas é justamente nesse momento de maior visibilidade que os paradoxos do grupo se tornam mais evidentes. O primeiro é o da assimetria interna: a China responde, sozinha, por parcela desproporcional do PIB coletivo, o que alimenta o temor — formulado por analistas críticos dentro e fora dos países membros — de que o BRICS se torne "a China mais quatro" (ou, agora, "mais dez"). A Índia, em particular, mantém rivalidade territorial ativa com Pequim e relações estratégicas crescentes com Washington, o que torna sua permanência no grupo uma questão de equilíbrio permanente entre alianças.
O segundo paradoxo diz respeito à desdolarização. O tema tornou-se uma das bandeiras mais acionadas nos discursos das cúpulas recentes, mas seus limites reais são significativos: o comércio entre os próprios membros do BRICS ainda é majoritariamente realizado em dólares, e nenhuma das moedas nacionais — nem mesmo o yuan — reúne condições de liquidez e confiança suficientes para substituir o dólar como reserva global no curto ou médio prazo. A retórica supera, por enquanto, a capacidade operacional.
O terceiro paradoxo é o da heterogeneidade política. O BRICS reúne democracias eleitorais consolidadas (Brasil, Índia, África do Sul), regimes híbridos e autocracias (Rússia, China, Irã, Etiópia). Essa diversidade torna o consenso — regra decisória do grupo — um exercício permanentemente delicado. A inclusão do Irã, alvo de sanções ocidentais, e da Arábia Saudita, aliada histórica dos Estados Unidos, ilustra bem a tensão entre a ambição de representar o Sul Global e a dificuldade de fazê-lo sem contradições internas.
Considerações finais
O BRICS chegou a 2025 — com a Presidência brasileira e a Cúpula prevista para julho no Rio de Janeiro — como um grupo simultaneamente mais forte e mais complexo do que em qualquer momento anterior de sua história. A trajetória que vai de um paper da Goldman Sachs publicado em 2001 até a criação de um banco de desenvolvimento com sede em Xangai e presidência brasileira é, em si mesma, um fenômeno de teoria das relações internacionais que merece ser estudado com cuidado — sem a hagiografia dos entusiastas nem o ceticismo fácil dos que enxergam no grupo apenas retórica antiocidental.
O conceito criado para atrair capital acabou produzindo uma instituição que questiona as regras do capital. A articulação diplomática informal acabou gerando um banco multilateral com classificação de crédito AA+. O agrupamento de cinco países acabou se tornando um fórum de onze membros e dez países parceiros. Cada uma dessas transformações foi, ao mesmo tempo, uma realização e uma complicação.
A questão que permanece em aberto — e que nenhuma periodização resolve — é se o BRICS tem condições de transcender seus paradoxos internos a ponto de tornar-se um agente efetivo de reforma da ordem global, ou se continuará sendo, fundamentalmente, um espelho das ambiguidades de um mundo que transita para a multipolaridade sem ter chegado a ela. A resposta, provavelmente, não virá de nenhuma cúpula isolada — mas da acumulação paciente de decisões que, uma a uma, vão definindo o que o grupo, afinal, pretende ser.
P.S: Este artigo faz parte de um projeto de pesquisa que iniciei em meados de 2023, intitulado: Governança do Complexo Organizacional BRICS/NDB: Desafios de Sustentabilidade diante da Emergência Climática.
Usei IA Perplexity Pro no levantamento de informações e Adapta One na elaboração da imagem que ilustra esse artigo, tendo revisado a versão final, sobre a qual assumo inteira responsabilidade.
Referências
BARROS, Larissa Lima. Reconfigurando o tabuleiro global: o BRICS e os desafios da governança internacional. 2026. Dissertação (Mestrado em Relações Internacionais e Integração) — Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), Foz do Iguaçu, 2026. Disponível em: https://dspace.unila.edu.br/items/8ce311ce-5ca8-440f-b889-42d538c1ba54. Acesso em: 19 jun. 2026.
BRASIL. Presidência Brasileira do BRICS. Sobre o BRICS. Brasília: Ministério das Relações Exteriores, 2024. Disponível em: https://brics.br/pt-br/sobre-o-brics. Acesso em: 19 jun. 2026.
INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA). Conheça os BRICS. Fórum BRICS. Brasília: IPEA, [s.d.]. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/forumbrics/pt-BR/conheca-os-brics.html. Acesso em: 19 jun. 2026.
NEW DEVELOPMENT BANK (NDB). History. Shanghai: NDB, [s.d.]. Disponível em: https://www.ndb.int/about-ndb/history/. Acesso em: 19 jun. 2026.
O'NEILL, Jim. Building better global economic BRICs. Global Economics Paper, New York, Goldman Sachs, n. 66, nov. 2001. Disponível em: https://www.goldmansachs.com/our-firm/history/moments/2001-brics. Acesso em: 19 jun. 2026.



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