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Introdução ao mapeamento do cooperativismo no Brasil


O cooperativismo no Brasil compõe um campo institucional e socioeconômico profundamente heterogêneo, que não pode ser descrito como um bloco único nem do ponto de vista organizacional nem em termos de classe, território, financiamento e orientação política. Ao lado de grandes sistemas cooperativos agroindustriais e financeiros, convivem cooperativas de saúde, transporte, trabalho, consumo, infraestrutura e um amplo universo de cooperativismo popular articulado à economia solidária. O mapeamento desse campo exige, portanto, uma abordagem multidimensional, capaz de captar simultaneamente diversidade setorial, bases sociais distintas, diferentes inserções territoriais, assimetrias de capitalização e disputas em torno do sentido político do cooperativismo.




Diversidade estrutural do cooperativismo


No plano institucional mais visível, o cooperativismo brasileiro é sistematizado pelo sistema OCB (Organização das Cooperativas do Brasil) em oito ramos: agropecuário, crédito, consumo, infraestrutura, saúde, seguros, trabalho, produção de bens e serviços, e transporte. Essa classificação mostra a capilaridade do cooperativismo em diferentes setores da economia, desde cadeias exportadoras do agronegócio até atividades urbanas de prestação de serviços. Ao mesmo tempo, a literatura e organismos como a CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe) indicam que o cooperativismo brasileiro não pode ser reduzido à taxonomia oficial, pois nele convivem formas empresariais robustas, experiências populares autogestionárias e até cooperativas de fachada, criadas para intermediar trabalho e reduzir custos trabalhistas sem observar princípios cooperativos substantivos.


Esse quadro revela uma tensão constitutiva. De um lado, existe o cooperativismo tradicional, especialmente forte no agro e nas finanças, com alta institucionalização, grande escala de ativos e forte capacidade de interlocução com o Estado, bancos públicos e mercados nacionais e internacionais. De outro, existe um cooperativismo popular, frequentemente situado na fronteira com a economia solidária, estruturado por autogestão, baixa capitalização, forte dependência de assessorias externas e inserção em mercados frágeis. Essa coexistência torna o termo “cooperativismo” semanticamente amplo demais se não for qualificado por ramo, base social e território.


Dimensão social e estratos de classe


Um dos principais aspectos do mapeamento do cooperativismo no Brasil é sua vinculação a estratos sociais distintos. As grandes cooperativas agropecuárias tendem a articular médios e grandes produtores rurais, ainda que incluam agricultores familiares em parte de sua base, funcionando em muitos casos como instrumentos de integração competitiva aos mercados de commodities e às cadeias agroindustriais. Já o cooperativismo de crédito, embora cumpra papel relevante de inclusão financeira em muitos municípios, apresenta forte presença entre segmentos de renda média, profissionais liberais, servidores públicos e pequenos empresários, além de operar com alto grau de formalização e requisitos regulatórios intensivos.


Em contraste, o cooperativismo popular e os empreendimentos de economia solidária reúnem predominantemente trabalhadores informais, desempregados, subempregados, catadores, agricultores familiares de baixa renda, assentados, grupos de mulheres e populações periféricas. Nesse universo, a cooperação não aparece apenas como forma empresarial, mas como mecanismo de reprodução social, sobrevivência coletiva, criação de renda e construção de autonomia relativa diante da precarização estrutural do trabalho. O mapeamento do cooperativismo, portanto, é também um mapeamento de frações de classe: ele abrange desde setores empresariais competitivos até segmentos subalternos da classe trabalhadora que recorrem à cooperação como estratégia de resistência e organização econômica.


Geografia desigual do cooperativismo


A distribuição geográfica do cooperativismo confirma essa heterogeneidade. O cooperativismo tradicional apresenta forte concentração nas regiões Sul e Sudeste, com destaque para estados como Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo, onde se consolidaram redes cooperativas agroindustriais, financeiras e de serviços ligadas a economias regionais mais dinâmicas e mais bem integradas ao mercado. Nesses territórios, as cooperativas operam frequentemente como engrenagens de desenvolvimento regional, articulando produção, crédito, logística, inovação e exportação.


Já o campo da economia solidária e do cooperativismo popular apresenta uma geografia distinta. O Atlas da Economia Solidária apontou forte concentração de empreendimentos no Nordeste, seguido por outras regiões, sugerindo uma correlação entre a presença desses empreendimentos e contextos de pobreza, informalidade e insuficiência do mercado formal de trabalho. Em áreas urbanas, essas experiências se concentram em periferias metropolitanas e cidades médias, especialmente em atividades como reciclagem, alimentação, costura, serviços e finanças solidárias; no meio rural, ganham força em territórios de agricultura familiar, assentamentos e redes agroecológicas. O resultado é um “duplo mapa” do cooperativismo brasileiro: um mais empresarializado e concentrado nas regiões economicamente fortes, outro mais popular e enraizado em territórios vulnerabilizados.


Financiamento e assimetrias econômicas


A questão financeira é decisiva para entender a diversidade do cooperativismo brasileiro. Os grandes sistemas cooperativos de crédito e as cooperativas agroindustriais contam com ativos bilionários, governança altamente estruturada, acesso a tecnologias financeiras, escala operacional e relações estáveis com o sistema bancário e com o Banco Central. Sistemas como Sicoob (Sistema de Cooperativas de Crédito do Brasil), Sicredi (Sistema de Crédito Cooperativo), Unicred (União Nacional das Cooperativas de Crédito Mútuo ) e Ailos integram o Sistema Nacional de Crédito Cooperativo, operando em moldes financeiramente sofisticados, com cooperativas singulares, centrais e, em alguns casos, bancos cooperativos próprios.


Nesse contexto, cabe observar a singularidade do sistema Ailos. A sua história começa em 1951, quando trabalhadores da Companhia Hering, em Blumenau/SC, constituíram a CrediHering – uma cooperativa de crédito mútuo criada para ajudar funcionários da empresa a conquistar bens essenciais como a casa própria, máquinas de costura e bicicletas de forma mais justa e acessível. Com o tempo, a instituição ampliou seu atendimento para além do vínculo empregatício e foi rebatizada Viacredi.


Em 2002, a Viacredi e outras duas cooperativas de Blumenau constituíram a Central CECRED – a primeira estrutura sistêmica que unificaria governança, tecnologia e produtos. Em 2018, a CECRED passou por reestruturação de marca e identidade e se tornou Sistema Ailos. O nome Ailos é inspirado no vocábulo Ayllu, originado no século XVI na região andina, que denominava a base da sociedade Inca caracterizada pelo trabalho cooperativo e comunitário. A escolha não é neutra: ela remete a uma forma pré-capitalista e indígena de organização coletiva do trabalho e da reprodução social, evocando solidariedade, pertencimento e autogestão comunitária. Do ponto de vista ideológico, o nome posiciona o sistema como herdeiro de uma tradição de cooperação que antecede o cooperativismo europeu do século XIX, conferindo ao Ailos uma identidade que vai além da lógica meramente financeira.


No cooperativismo popular, o cenário é oposto. O financiamento costuma depender de editais públicos, convênios, apoio de incubadoras universitárias, organizações da sociedade civil, entidades religiosas, prefeituras e programas federais. Em vez de grande escala de capital, predominam restrição de capital de giro, dificuldade de investimento produtivo e instabilidade de mercado. Nesse contexto, assumem relevância as finanças solidárias, como bancos comunitários, fundos rotativos, moedas sociais e cooperativas de crédito solidário, voltados para territórios de baixa renda e para segmentos excluídos do sistema financeiro tradicional.


O caso do Banco Palmas é emblemático porque mostra que, para o campo popular, finanças não significam apenas acesso a empréstimo, mas também reorganização da circulação monetária local, fortalecimento do consumo de proximidade e construção de redes econômicas territorializadas. Assim, o mapeamento financeiro do cooperativismo brasileiro revela uma clivagem central: de um lado, sistemas robustos de crédito e produção integrados ao capitalismo concorrencial; de outro, economias associativas que operam sob escassez e exigem mediações públicas e comunitárias para sua sustentação.


Política, representação e disputa de sentidos


O cooperativismo brasileiro é também um campo político. O sistema OCB exerce forte papel de representação institucional do cooperativismo formalizado, especialmente dos ramos mais capitalizados, e organiza a interlocução do setor com o Estado, o Legislativo e políticas de qualificação e promoção cooperativa. Mas esse não é o único polo organizador do campo. A economia solidária construiu ao longo das últimas décadas sua própria arquitetura institucional, com dispositivos como o CADSOL (Cadastro Nacional de Empreendimentos Econômicos Solidários), a Política Nacional de Economia Solidária, a UNISOL Brasil (Central de Cooperativas e Empreendimentos Solidários), redes de bancos comunitários e incubadoras universitárias.


O Observatório Nacional da Economia Solidária e do Cooperativismo (ONESC), sediado no DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), tem papel estratégico na produção de dados, indicadores e mapas. Com isso, ajuda a reduzir a invisibilidade estatística desse campo e oferece subsídios para políticas públicas e pesquisas acadêmicas. O CADSOL, por sua vez, funciona como instrumento de reconhecimento público e administrativo dos empreendimentos econômicos solidários, permitindo que coletivos populares sejam formalmente identificados pelo Estado. A UNISOL Brasil atua na representação política e na articulação setorial de cooperativas e empreendimentos autogestionários. Já a Rede Brasileira de Bancos Comunitários e as incubadoras ITCP/ITES (Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares e Incubadora Tecnológica de Economia Solidária) oferecem, respectivamente, apoio financeiro e sociotécnico para fortalecer empreendimentos populares.


Essa pluralidade institucional mostra que o cooperativismo no Brasil é atravessado por uma disputa de sentidos. Para uma vertente, ele é sobretudo um modelo eficiente de organização econômica, governança empresarial e competitividade de mercado. Para outra, ele é instrumento de democratização econômica, trabalho associado, desenvolvimento territorial e enfrentamento das desigualdades sociais. Em meio a isso, persistem experiências desviantes, como cooperativas de fachada, que esvaziam a democracia interna e reduzem o cooperativismo a forma jurídica de intermediação econômica.


Cooperativismo, território e desenvolvimento


O mapeamento do cooperativismo no Brasil sugere que seu papel no desenvolvimento depende decisivamente do tipo de cooperativa, da base social mobilizada e do território em que se insere. Em regiões mais dinâmicas, cooperativas fortes podem ampliar competitividade regional, organizar cadeias produtivas e manter excedentes econômicos em escala local ou regional. Em regiões periféricas e bairros populares, cooperativas e empreendimentos solidários cumprem outra função: criar trabalho, estabilizar renda, produzir pertencimento comunitário e compensar lacunas do Estado e do mercado.


Por isso, não há um único cooperativismo brasileiro, mas uma configuração plural de cooperativismos. Essa pluralidade exige olhar analítico capaz de cruzar variáveis de classe, geografia, financiamento e política, sob pena de homogeneizar experiências radicalmente distintas. Um ensaio de mapeamento consequente deve reconhecer, ao mesmo tempo, a força econômica das grandes cooperativas e a importância social e política das experiências populares e solidárias, sem apagar as hierarquias que organizam esse universo.


Considerações finais


Descrever o cooperativismo no Brasil implica reconhecer um campo marcado por diversidade organizacional, desigualdade territorial, clivagens de classe e pluralidade institucional. No topo do sistema, grandes cooperativas agroindustriais e financeiras operam com alto grau de complexidade econômica e forte inserção nos circuitos nacionais e globais. Na base popular, cooperativas de trabalho, reciclagem, agricultura familiar e finanças solidárias respondem a contextos de vulnerabilidade, construindo formas de produção e circulação ancoradas no território e na cooperação.


O valor analítico desse mapeamento está em revelar que o cooperativismo, no Brasil, é simultaneamente instrumento de modernização econômica, mecanismo de inclusão financeira, tecnologia social de sobrevivência coletiva e arena de disputa política sobre desenvolvimento, trabalho e democracia. É justamente essa combinação de diversidade e conflito que torna o cooperativismo brasileiro um objeto privilegiado para compreender as múltiplas formas pelas quais a sociedade organiza economia, poder e solidariedade em contextos desiguais.


P.S.: Usei IA Perplexity Pro no levantamento de informações e Adapta One na elaboração da imagem que ilustra esse artigo, tendo revisado a versão final, sobre a qual assumo inteira responsabilidade.



 
 
 

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