Colonialismo epistêmico na Administração: internacionalização, dependência e silêncio crítico
- Sérgio Luís Boeira
- 29 de jun.
- 9 min de leitura
A área de Administração no Brasil convive, há décadas, com um paradoxo. De um lado, expandiu cursos, programas de pós-graduação, periódicos e eventos científicos; de outro, consolidou-se sob forte dependência de matrizes teóricas, critérios de excelência e agendas de pesquisa definidos fora do país, sobretudo nos Estados Unidos e na Europa. O resultado foi a formação de um campo acadêmico frequentemente orientado por uma universalidade abstrata, pouco sensível às contradições sociais, econômicas e ambientais do contexto brasileiro.

Essa situação pode ser interpretada como uma forma de colonialismo epistêmico. Não se trata apenas da circulação internacional de autores, conceitos e métodos, algo inevitável e até desejável em qualquer ciência. O problema surge quando a importação de referenciais se converte em critério normativo de superioridade, de modo que pensar a partir da realidade brasileira passa a parecer provinciano, enquanto repetir os marcos do Norte global se apresenta como sinal de sofisticação e “internacionalização”.
Na Administração, esse processo assumiu uma forma particularmente intensa. O campo nasceu, em grande medida, sob influência direta de convênios e modelos norte-americanos, associados ao contexto geopolítico da Guerra Fria e ao projeto desenvolvimentista do pós-guerra. A importação de currículos, bibliografias, metodologias e concepções de management ajudou a consolidar um ensino voltado para eficiência, eficácia, desempenho e neutralidade técnica, como se tais categorias fossem universais e politicamente inocentes.
Essa herança foi criticada por intelectuais brasileiros como Alberto Guerreiro Ramos, que denunciou a “sociologia enlatada”, isto é, a reprodução imitativa de teorias produzidas em outros contextos sem o necessário trabalho de redução sociológica. Se a expressão foi formulada para a sociologia, ela cabe com notável precisão à Administração: também aqui se pode falar em uma “administração enlatada”, fundada na adoção acrítica de paradigmas estrangeiros, transplantados como se fossem fórmulas universais de inteligibilidade e intervenção.
A formação histórica da dependência
O ensino de Administração no Brasil não surgiu num vazio institucional. Sua expansão ocorreu no contexto da modernização capitalista, da presença crescente do capital estrangeiro e da valorização de modelos organizacionais associados à produtividade e à racionalização empresarial. A criação e consolidação de escolas de referência, com apoio técnico e financeiro de universidades norte-americanas, não foram apenas episódios administrativos: marcaram a entrada de uma concepção específica de gestão, assentada em pressupostos funcionalistas, instrumentalistas e pretensamente neutros.
Esse processo teve consequências duradouras. Em vez de adaptar criticamente esses modelos às particularidades históricas do país, o campo acadêmico frequentemente os adotou como expressão do moderno, do eficiente e do cientificamente válido. A consequência foi a naturalização de uma assimetria: o centro produz teoria; a periferia aplica, testa ou adapta marginalmente o que já vem legitimado de fora.
Ao longo do tempo, essa assimetria foi reforçada por instituições de ensino, agências de fomento, critérios editoriais e sistemas de avaliação científica. A noção de qualidade passou a ser medida, em larga medida, por proximidade com padrões internacionais de impacto, indexação e circulação, quase sempre definidos por grandes bases internacionais e por circuitos editoriais concentrados no Norte global. Com isso, não apenas os objetos de pesquisa, mas também as formas legítimas de escrever, argumentar e problematizar passaram a ser hierarquizadas segundo parâmetros externos.
Internacionalização ou subordinação?
Em si mesma, a internacionalização não é um problema. A circulação transnacional do conhecimento pode ampliar repertórios, promover interlocuções fecundas e evitar provincianismos estéreis. O problema começa quando a internacionalização deixa de ser troca e se converte em submissão, isto é, quando o reconhecimento externo passa a funcionar como instância suprema de validação intelectual.
Na área de Administração, isso se expressa de várias maneiras. Pesquisadores são pressionados a publicar em periódicos estrangeiros de alto impacto, mesmo quando seus objetos de estudo dizem respeito a realidades locais, regionais ou latino-americanas pouco inteligíveis para esses fóruns. Linhas de pesquisa críticas, substantivas, cooperativistas, ecológicas ou decoloniais tendem a encontrar menos espaço, porque desafiam os idiomas teóricos hegemônicos do management globalizado.
A literatura sobre colonialidade epistêmica ajuda a compreender esse mecanismo. Ela mostra que o colonialismo não sobrevive apenas em estruturas econômicas ou políticas, mas também na definição de quais saberes contam como universais, rigorosos e avançados. Nesse sentido, a adesão acrítica aos cânones dos Estados Unidos e da Europa não é apenas uma preferência acadêmica: é uma forma de interiorização da inferioridade, pela qual pesquisadores da periferia passam a olhar sua própria realidade com os olhos do centro.
Há aqui um traço doloroso e, muitas vezes, voluntário. Em nome da carreira, da reputação e dos incentivos institucionais, parte da comunidade acadêmica passa a identificar-se com o colonizador epistêmico. Temas locais são rebaixados à condição de “estudos de caso”; autores brasileiros e latino-americanos tornam-se referências secundárias; experiências sociais concretas, como cooperativismo popular, economia solidária, autogestão, movimentos territoriais ou conflitos socioambientais, perdem centralidade diante de agendas importadas e consideradas mais “publicáveis”.
O papel da avaliação científica
A crítica ao colonialismo epistêmico na Administração não pode ignorar o papel dos sistemas de avaliação. No Brasil, a Capes e o Qualis Periódicos exerceram influência decisiva na definição do que seria produção relevante, prestigiada ou estrategicamente desejável para programas de pós-graduação. Ao associar os estratos superiores de qualidade a periódicos de excelência internacional, o sistema reforçou a centralidade de circuitos editoriais estrangeiros e contribuiu para deslocar o prestígio para fora do país.
Essa dinâmica teve efeitos concretos na área 27, que reúne Administração Pública e de Empresas, Ciências Contábeis e Turismo. Os principais periódicos brasileiros da área, embora centrais para o debate nacional, permaneceram em geral abaixo do estrato A1, enquanto o topo da hierarquia foi ocupado predominantemente por periódicos internacionais de alto impacto. Assim, a própria estrutura de incentivos estimulou programas, docentes e discentes a mirar o reconhecimento externo como horizonte superior de validação.
Seria simplista atribuir toda a responsabilidade apenas à Capes. O problema é mais amplo e envolve a própria formação histórica do campo, a busca de prestígio internacional, a dependência das grandes bases de dados e a internalização de uma gramática produtivista. Ainda assim, a avaliação institucional funcionou como dispositivo poderoso de normalização, pois converteu certos critérios de impacto, citação e indexação em sinônimos quase automáticos de qualidade científica.
A mudança recente anunciada pela Capes, com a descontinuação do Qualis Periódicos como eixo central e a migração para modelos mais centrados na classificação de artigos, não elimina o problema de fundo. Ela pode até deslocar o foco da revista para o artigo, mas mantém o risco de reprodução das mesmas hierarquias se os indicadores continuarem subordinados aos circuitos globais de prestígio. Sem reflexão crítica sobre os fundamentos da avaliação, a forma muda, mas a colonialidade pode permanecer.
Ensino, currículos e produção de administradores acríticos
O colonialismo epistêmico não se expressa apenas na pós-graduação ou nos periódicos. Ele aparece também, de modo decisivo, na graduação e nos currículos. Em artigo publicado na RPCA em 2016, André Luiz Kopelke e eu sustentamos a hipótese de que existe uma lacuna no ensino de Administração no que se refere à reflexividade e à criticidade, apesar de as Diretrizes Curriculares Nacionais exigirem competências técnicas e também reflexivas, éticas, lógicas, analíticas e criativas.
Segundo o ensaio, as matrizes curriculares tendem a priorizar conteúdos técnicos e gerenciais em detrimento de uma formação reflexiva, ética, criativa e crítica, o que produz graduados com capacidade limitada de avaliar seus próprios atos e de responder aos dilemas contemporâneos. O texto argumenta ainda que a lógica de mercado é frequentemente adotada como única racionalidade legítima, sem esclarecimento epistemológico nos projetos pedagógicos e com pouca abertura para o pluralismo teórico.
Esse diagnóstico ajuda a compreender o elo entre colonialismo epistêmico e formação profissional. Ao reduzir a Administração a um repertório de técnicas funcionais, o ensino deixa de formar sujeitos capazes de interrogar os pressupostos políticos, sociais e ambientais do management. Em vez de administradores reflexivos, produz-se um tipo de operador adaptado à ordem organizacional vigente, preparado para reproduzir modelos e incapaz de problematizar suas bases históricas e seus efeitos sociais.
Nessa contexto, o colonialismo epistêmico não atua apenas no topo da pirâmide acadêmica. Ele se infiltra nas práticas pedagógicas, nos programas de disciplina, nos livros adotados, nas metodologias de ensino e nos critérios implícitos de prestígio intelectual. Forma-se, assim, uma cultura acadêmica em que o pensamento crítico aparece como adorno periférico, e não como dimensão constitutiva da formação em Administração.
Funcionalismo, gerencialismo e marginalização da crítica
O predomínio do funcionalismo e do gerencialismo é parte essencial desse quadro. A literatura crítica em Administração tem mostrado que a visão dominante tende a naturalizar as organizações, abstrair conflitos de poder e reduzir os problemas sociais a questões de desempenho, adaptação ou comportamento individual. Trata-se de uma racionalidade que se apresenta como técnica, mas que traz consigo uma normatividade profunda: privilegia a eficiência, a competitividade e a maximização de resultados, ao mesmo tempo que relega a segundo plano a justiça social, a democracia organizacional, a sustentabilidade e a emancipação.
No ensaio de 2016, essa crítica aparece de forma contundente. O texto sustenta que a ideologia gerencialista impregna a maioria dos cursos de graduação em Administração e favorece a formação de profissionais adaptados às necessidades instrumentais dos ambientes organizacionais, mas de baixíssima capacidade reflexiva. Essa formação, ao priorizar a lógica mercadocêntrica, colabora para a reprodução de relações de dominação e para o empobrecimento cultural do campo.
É nesse ponto que a reflexão de Guerreiro Ramos e Maurício Tragtenberg mantém notável atualidade. Ambos ajudaram a construir, no Brasil, uma tradição crítica que recusa a identificação entre administração, mercado e eficiência instrumental. Em vez de aceitar a empresa capitalista e a burocracia como formas naturais e superiores de organização, esses autores recolocaram em cena temas como autogestão, razão substantiva, pluralidade institucional, democracia organizacional e crítica da alienação.
Ainda assim, essa tradição permaneceu relativamente marginal no interior do campo. Ela é citada, homenageada e eventualmente ensinada, mas raramente ocupa o centro das estratégias institucionais de publicação, avaliação e formação. A crítica é admitida como nicho; o mainstream segue funcionalista, institucionalista ou gerencialista.
O que está em jogo
A crítica ao colonialismo epistêmico na Administração não é mero ressentimento periférico. O que está em jogo é a capacidade de o campo produzir conhecimento relevante para a sociedade em que se insere. Quando a realidade brasileira é tratada apenas como terreno de aplicação de teorias produzidas alhures, perde-se a possibilidade de elaborar categorias mais ajustadas às nossas formas de desigualdade, à heterogeneidade institucional do país, aos conflitos territoriais, aos problemas ambientais e às experiências de organização solidária e cooperativa.
Também se perde a possibilidade de um diálogo mais fecundo entre Administração e outras tradições intelectuais brasileiras e latino-americanas. A insistência em uma universalidade abstrata empobrece o pensamento administrativo, porque o afasta da sociologia crítica, da antropologia, da filosofia política, da ecologia política e das epistemologias do Sul. Em vez de ampliar a ciência, o colonialismo epistêmico estreita seu horizonte.
Além disso, essa dependência ajuda a explicar por que tantos problemas centrais do país permanecem relativamente periféricos na Administração hegemônica. Cooperativas populares, economia solidária, catadores, gestão comunitária, conflitos socioambientais, racismos institucionais, desigualdades de gênero, periferias urbanas e devastação ecológica frequentemente aparecem como temas marginais ou “setoriais”, quando deveriam ocupar lugar central numa reflexão substantiva sobre organização, gestão e poder.
Por uma Administração intelectualmente descolonizada
Uma crítica consistente ao colonialismo epistêmico não implica fechamento ao diálogo internacional, xenofobia acadêmica ou recusa das contribuições produzidas fora do país. Implica, antes, recuperar a capacidade de interlocução em condições menos subalternas. Isso exige ler autores estrangeiros sem reverência colonial, recolocar autores brasileiros e latino-americanos no centro do debate e reconstruir agendas de pesquisa a partir de problemas históricos concretos.
Também exige rever a ideia de internacionalização. Internacionalizar não deveria significar mimetizar o Norte global, mas participar de redes plurais, multilocais e criticamente conscientes, em que o Brasil e a América Latina não sejam apenas fornecedores de dados empíricos, mas também produtores de conceitos, interpretações e alternativas. A verdadeira inserção internacional passa por autonomia intelectual, não por submissão elegante.
Na área de Administração, isso supõe ampliar o espaço para perspectivas críticas, decoloniais, feministas, ecológicas, cooperativistas e interdisciplinares, tanto na graduação quanto na pós-graduação. Supõe ainda revalorizar periódicos nacionais e circuitos de debate comprometidos com problemas substantivos do país, sem aceitar automaticamente que prestígio externo seja sinônimo de relevância científica.
Por fim, supõe reconhecer que a luta é desigual. O colonialismo epistêmico não se desfaz apenas com boas intenções, porque está inscrito em estruturas de avaliação, financiamento, prestígio e carreira. Ainda assim, sem enfrentá-lo, a Administração corre o risco de permanecer como ciência derivativa: eficiente na importação de modas, mas frágil na interpretação de sua própria realidade.
Mais do que nunca, o desafio é reabrir o campo à reflexividade, à criticidade e à coragem de pensar desde o Sul. Não para negar a ciência global, mas para interromper a subordinação mental que transforma internacionalização em servidão e conhecimento em cópia. Uma Administração menos enlatada e mais situada talvez seja condição necessária para que o campo volte a fazer sentido diante das urgências sociais, econômicas e ambientais do Brasil contemporâneo.
Referência
Kopelke, A. L.; Boeira, S. L. Reflexividade e criticidade no ensino de graduação em Administração. Revista Pensamento Contemporâneo em Administração, Rio de Janeiro, v. 10, n. 1, p. 78‑95, jan./mar. 2016. DOI: 10.12712/rpca.v10i1.683.
P.S. P.S.: Usei IA Perplexity Pro no levantamento de informações e Adapta One na elaboração da imagem que ilustra esse artigo, tendo revisado a versão final, sobre a qual assumo inteira responsabilidade.



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