Como se formou a dominação sobre as mulheres? Patriarcado, família, poder e Estado na longa duração
Objetivo
Compreender, numa perspectiva histórica e complexa, como diferenças entre homens e mulheres puderam ser convertidas em desigualdades sociais e relações de dominação, examinando suas articulações com a divisão sexual das atividades, a família, a sexualidade, o parentesco, a propriedade, a herança, a organização do poder e os processos de formação do Estado. Sem procurar uma origem única do patriarcado e sem idealizar sociedades estatais ou não estatais, coloco em diálogo contribuições de Edgar Morin, Friedrich Engels, Pierre Clastres, Humberto Maturana e Gerda Verden-Zöller, entre outros autores, procurando distinguir diferenças biológicas, construções culturais, relações de poder e processos históricos.
Resumo
A desigualdade entre homens e mulheres não pode ser compreendida como consequência natural das diferenças biológicas, nem explicada por uma causa histórica única. Neste ensaio, retomo uma reflexão iniciada com o artigo Feminicídio como termômetro do declínio civilizatório e posteriormente ampliada em Feminismo complexo: entre interseccionalidade, decolonialidade e epistemologia da complexidade, deslocando agora a investigação para a longa duração histórica do patriarcado (1; 2). Parto da hipótese bioantropológica de Edgar Morin sobre a formação de uma “bioclasse masculina”, associada à divisão sexual das atividades, à caça, ao domínio das armas, da técnica, do conhecimento e da organização coletiva, examinando como diferenças entre os sexos puderam converter-se em relações políticas de dominação. Coloco essa contribuição em diálogo com a interpretação de Friedrich Engels acerca das relações entre parentesco, descendência, propriedade, herança, família e Estado e com a crítica de Pierre Clastres às concepções evolucionistas que transformam o Estado em destino necessário das sociedades humanas. A hipótese histórico-cultural de Humberto Maturana e Gerda Verden-Zöller acrescenta a dimensão das redes patriarcais de conversação, caracterizadas pela apropriação, hierarquia, obediência e controle. Sustento que patriarcado e Estado não possuem uma relação causal simples: relações de dominação masculina antecedem muitas formações estatais, enquanto diferentes Estados historicamente institucionalizaram, reorganizaram e, posteriormente, também limitaram formas de poder patriarcal. A modernidade herdaria essa longa história de maneira contraditória, proclamando liberdade e igualdade enquanto preservava profundas assimetrias entre homens e mulheres. Essa contradição abre o problema que desenvolverei no artigo seguinte: a condição feminina na segunda modernidade e no Brasil contemporâneo.

Introdução — Da violência contemporânea à longa duração do patriarcado
Esta reflexão integra um percurso que venho desenvolvendo em torno da condição das mulheres e das múltiplas dimensões da desigualdade de gênero. Em 23 de maio de 2026, publiquei neste blog o artigo Feminicídio como termômetro do declínio civilizatório (1), tomando como ponto de partida uma das manifestações mais extremas da violência contra as mulheres. Posteriormente, em Feminismo complexo: entre interseccionalidade, decolonialidade e epistemologia da complexidade (2), procurei ampliar o quadro epistemológico da análise, articulando diferentes perspectivas capazes de compreender a multidimensionalidade da condição feminina. No presente ensaio, realizo um terceiro movimento: recuo na longa duração histórica para investigar como diferenças entre homens e mulheres puderam transformar-se em desigualdades e relações de dominação e como estas se articularam à família, à sexualidade, à propriedade, ao poder e aos processos de formação do Estado.
No artigo sobre feminismo complexo, procurei aproximar perspectivas que recusam uma concepção homogênea da condição feminina e explicações monocausais da desigualdade entre homens e mulheres. Interseccionalidade, decolonialidade e pensamento complexo convergem, apesar de suas diferenças, para uma compreensão multidimensional das relações de gênero. Classe, raça, cultura, sexualidade, instituições, subjetividades e relações de poder não podem ser simplesmente somadas como variáveis independentes: interagem e se transformam reciprocamente (2).
Agora dou um passo para trás no tempo para avançar na compreensão do problema. Se o patriarcado não constitui uma condição natural e imutável da humanidade, como se constituíram historicamente relações tão persistentes de dominação masculina? Como diferenças entre os sexos puderam transformar-se em desigualdades sociais, culturais, econômicas e políticas? Que relações podem ser estabelecidas entre divisão sexual das atividades, controle da sexualidade, parentesco, propriedade, herança, violência, organização do poder e formação do Estado?
A formulação dessas perguntas exige uma precaução metodológica. Não pretendo encontrar o momento inaugural do patriarcado, como se existisse uma cena originária da qual toda a história posterior pudesse ser deduzida. Tampouco pretendo reconstruir uma linha evolutiva que conduziria necessariamente de sociedades sem Estado às sociedades estatais, da propriedade coletiva à propriedade privada ou do matriarcado ao patriarcado. A história humana é muito mais descontínua, diversa e complexa. As próprias interpretações antropológicas produzidas nos séculos XIX e XX precisam ser compreendidas em seus contextos e confrontadas entre si.
Essa cautela é particularmente necessária porque a longa duração pode produzir duas tentações opostas. Uma consiste em naturalizar a dominação masculina: se ela aparece em sociedades muito antigas, seria consequência inevitável da biologia. A outra consiste em idealizar um passado anterior ao patriarcado, à propriedade ou ao Estado, imaginando sociedades originariamente igualitárias e harmoniosas. Nenhuma dessas alternativas me parece satisfatória. A questão mais fecunda consiste em compreender como diferenças puderam ser organizadas socialmente como desigualdades, sem presumir que esse resultado fosse biologicamente determinado ou historicamente inevitável.
1. Da diferença à desigualdade: a hipótese da “bioclasse masculina” em Edgar Morin
Edgar Morin oferece uma contribuição particularmente provocadora em O enigma do homem, tradução brasileira de Le paradigme perdu: la nature humaine, publicado originalmente em 1973. Sua perspectiva procura superar a disjunção entre natureza e cultura, recusando tanto o biologismo quanto uma antropologia que tratasse o ser humano como se sua constituição biológica pudesse ser colocada entre parênteses. A hominização é concebida como processo simultaneamente biológico, ecológico, social e cultural (3).
Essa perspectiva já havia sido incorporada em artigo que publiquei em parceria com Vanêssa Simon sobre economia social e solidária e empoderamento feminino. Naquele trabalho, argumentamos que instituições, crenças, tradições, educação e divisão sexual do trabalho participam historicamente da construção de relações de assimetria e subjugação entre homens e mulheres. Reconhecer diferenças biológicas não implica convertê-las em desigualdades; recorrendo a Morin, observamos que a “bioclasse masculina serviu de base para a cultura patriarcal” (4).
É importante compreender o alcance e também o caráter hipotético dessa formulação. Morin associa o desenvolvimento da caça à crescente diferenciação das atividades masculinas e femininas. Enquanto a maternidade e a prolongada dependência das crianças teriam contribuído para manter as mulheres mais próximas dos abrigos, ampliando sua participação na coleta e nos cuidados, a caça teria levado grupos masculinos a distâncias maiores e exigido cooperação, planejamento, sincronização, divisão de tarefas e estabelecimento de regras. Forma-se, nessa reconstrução, uma “dualidade ecológica e econômica” entre homens e mulheres (3).
O aspecto decisivo está no fato de que essa diferenciação não permaneceria simplesmente funcional. Segundo Morin, a cooperação masculina associada à caça fortaleceu solidariedades e capacidades de organização. Os homens passaram a concentrar armas, técnicas, conhecimentos sobre territórios externos e formas de coordenação coletiva. É nesse processo que Morin identifica a passagem da antiga predominância dos machos para uma “classe dominante dos homens”.
A formulação merece atenção porque desloca a explicação da simples superioridade física. A força pode integrar a capacidade coercitiva, mas a dominação não decorre apenas dela. Armas, técnica, conhecimento, organização e solidariedade entre homens combinam-se e transformam diferença em poder. Na interpretação de Morin, a classe masculina passa então a controlar o governo da sociedade e a exercer dominação política sobre mulheres e jovens. Ele chega a caracterizar esse processo como um primeiro modelo de dominação de uma classe sobre outra e como “pré-constituição de um poder político” que, nas sociedades históricas, viria a assumir a forma do Estado (3).
Há uma observação especialmente importante para evitar qualquer idealização. A paleossociedade imaginada por Morin poderia ser simultaneamente mais coletivizada e menos hierarquizada em determinadas relações entre homens, mas mais dominada pela organização masculina na relação entre os sexos. A solidariedade interna de um grupo, portanto, não significa necessariamente igualdade social generalizada. Homens relativamente iguais entre si podem constituir relações profundamente desiguais com mulheres e jovens.
Essa hipótese permite formular uma questão que atravessa todo este ensaio: a cooperação pode produzir simultaneamente solidariedade e dominação? A capacidade de organização que aumenta a integração de alguns pode aumentar o poder desses mesmos atores sobre outros. A complexidade do problema começa justamente quando abandonamos a oposição simples entre cooperação e conflito.
2. Sexualidade, família e controle: quando escolher se torna uma questão de poder
A contribuição de Morin torna-se ainda mais significativa quando passa da divisão das atividades para a organização da sexualidade. O desenvolvimento do erotismo e da sexualidade feminina teria introduzido, em sua reconstrução, uma possibilidade perturbadora para a ordem masculina: a possibilidade de a mulher escolher seu companheiro. Morin interpreta essa escolha como potencial contestação da dominação masculina em seu domínio mais elementar. A regulamentação do casamento, da sexualidade, da aliança e da troca teria então se desenvolvido sob autoridade masculina (3).
Essa passagem permite perceber que a dominação não se limita à apropriação de recursos materiais. Controlar quem pode escolher, quem pode desejar, quem pode estabelecer ou romper uma relação é também exercer poder. A família emerge, desse ponto de vista, não apenas como espaço de proteção, reprodução e afetividade, mas como instituição em que relações sociais, sexuais e políticas podem se entrelaçar.
Morin observa que a classe masculina reforça sua coesão ao regulamentar as relações sexuais e amplia sua autoridade sobre os jovens por meio da paternidade e da iniciação. Ao mesmo tempo em que certas desigualdades entre homens podem diminuir, a desigualdade global entre masculino e feminino pode aumentar (3). Temos aqui uma formulação relevante: a democratização das relações dentro de determinado grupo não assegura necessariamente a democratização das relações desse grupo com os demais.
Esse problema atravessa milênios e reaparecerá, sob condições inteiramente distintas, no artigo seguinte. Quando mulheres conquistam progressivamente condições sociais, jurídicas, econômicas, afetivas e sexuais para escolher seus próprios caminhos, antigas pretensões de controle são confrontadas. Essa relação entre escolha feminina e controle masculino será importante para compreendermos posteriormente determinadas formas contemporâneas de violência. Por enquanto, porém, interessa compreender como sexualidade, família e poder passaram historicamente a se entrelaçar.
3. Engels: parentesco, propriedade, herança e Estado
Friedrich Engels formulou uma das interpretações clássicas dessa longa transformação em A origem da família, da propriedade privada e do Estado, publicado em 1884 (5). Baseando-se especialmente nas pesquisas antropológicas disponíveis no século XIX e na obra de Lewis H. Morgan, Engels procurou relacionar mudanças nas formas de família e parentesco ao desenvolvimento da propriedade, da herança, das classes e do Estado.
Uma das virtudes de sua abordagem está em recusar que família e economia pertençam a mundos separados. No prefácio à primeira edição, Engels afirma que a produção e reprodução da vida imediata possuem duas dimensões: a produção dos meios de existência e a produção dos próprios seres humanos, isto é, a continuidade da espécie (5). Essa intuição continua relevante porque impede que trabalho, propriedade, reprodução e família sejam tratados como processos inteiramente independentes.
Na reconstrução engelsiana, a passagem da descendência pela linha materna para a descendência pela linha paterna adquire importância especial quando se acumulam riquezas controladas pelos homens. A questão sucessória torna-se então decisiva: se os filhos permanecem pertencendo à linhagem materna, os bens do pai não são transmitidos a eles segundo a lógica que a propriedade emergente passa a exigir. A substituição da filiação materna pela paterna aparece, portanto, articulada à propriedade e à herança (5).
A força da interpretação de Engels está menos em fornecer uma cronologia universal — que a antropologia posterior não permite conservar sem fortes qualificações — do que em colocar uma questão fundamental: relações familiares e relações econômicas podem transformar-se conjuntamente. A propriedade não existe fora das instituições que definem pertencimento, descendência e sucessão; inversamente, formas familiares podem ser reorganizadas quando se transformam as relações de propriedade.
Também é necessário distinguir matrilinearidade de matriarcado. Uma sociedade que reconhece descendência ou herança pela linha materna não é necessariamente uma sociedade governada pelas mulheres. Confundir esses conceitos poderia recriar justamente a narrativa evolucionista que procuro evitar. Da mesma forma, patrilinearidade e patriarcado relacionam-se historicamente, mas não são sinônimos: a primeira diz respeito fundamentalmente às regras de descendência e transmissão; o segundo envolve uma estrutura mais ampla de autoridade e poder masculino.
A obra de Engels permanece, portanto, indispensável como interlocutora, mas não como mapa definitivo da pré-história humana. O próprio desenvolvimento da antropologia posterior tornou insustentável tratar todas as sociedades como etapas de uma única sequência evolutiva. É justamente nesse ponto que Pierre Clastres introduz uma ruptura importante.
4. Clastres e a recusa do Estado como destino
Pierre Clastres questionou frontalmente a concepção segundo a qual sociedades sem Estado deveriam ser compreendidas como sociedades incompletas, atrasadas ou simplesmente situadas numa etapa anterior da evolução política. Em sua interpretação, ausência de Estado não significa ausência de política ou de poder. Há sociedades em que o poder não se separa da coletividade para constituir um aparelho autônomo de comando (6). O material de Clastres utilizado nesta reflexão explicita essa distinção: sociedades sem órgão separado do poder não são sociedades “sem poder”; o problema é justamente impedir que ele se autonomize e se volte contra a própria sociedade.
Essa contribuição modifica profundamente a questão da origem do Estado. Se algumas sociedades desenvolveram mecanismos para impedir a separação do poder, o Estado deixa de aparecer como resultado automático do crescimento populacional, do desenvolvimento técnico ou da diferenciação econômica. Torna-se necessário explicar como e por que o poder pôde separar-se da sociedade, adquirir meios próprios de coerção e constituir grupos especializados em mandar.
Não utilizo Clastres, entretanto, para construir uma imagem invertida e idealizada das sociedades sem Estado. Uma sociedade pode impedir a formação de um aparelho estatal separado e, simultaneamente, manter desigualdades entre homens e mulheres, formas de violência, divisões geracionais ou outras relações de dominação. Ausência de Estado não equivale a ausência de patriarcado; igualdade política em determinada dimensão não significa igualdade em todas as dimensões.
É justamente aqui que o diálogo entre Clastres e Morin se torna produtivo. Morin sugere que uma organização masculina capaz de dominar mulheres e jovens precederia o Estado histórico; Clastres mostra que a passagem do poder social ao poder estatal não deve ser considerada inevitável. Colocadas em diálogo, embora partindo de perspectivas muito diferentes, essas contribuições permitem abandonar uma equação simplificadora entre patriarcado e Estado. A dominação masculina pode anteceder o Estado, mas diferentes processos de formação estatal podem institucionalizar, ampliar, transformar ou reorganizar relações patriarcais preexistentes.
Essa tensão entre Morin, Engels e Clastres é mais fecunda do que a tentativa de produzir uma síntese artificial entre eles. Engels enfatiza as transformações nas formas de produção, propriedade, família e herança; Morin procura compreender uma sociogênese mais antiga da organização masculina; Clastres contesta a ideia de que diferenciação econômica e desenvolvimento social tenham necessariamente de culminar no Estado. Em vez de eliminar essas diferenças, procuro conservá-las como parte do próprio método de investigação.
5. Maturana e Verden-Zöller: patriarcado como cultura da apropriação e do controle
Outra interpretação amplia o problema para o domínio cultural. Humberto Maturana e Gerda Verden-Zöller, em Amar e brincar, contrapõem hipoteticamente uma cultura matrística europeia a uma cultura patriarcal pastoril. A reconstrução possui caráter conjectural e não deve ser confundida com demonstração histórica consensual. Seu interesse para este ensaio está principalmente na caracterização do que os autores denominam rede de conversações patriarcais (7).
Nessa rede aparecem recorrências como apropriação, competição, hierarquia, autoridade, obediência e controle. A sexualidade feminina é associada à procriação e submetida ao controle patriarcal; relações interpessoais são organizadas segundo autoridade e submissão; a diferença tende a ser percebida como ameaça e a convivência ordenada passa a ser concebida em termos de superioridade e inferioridade.
Maturana formula de maneira particularmente clara o vínculo entre patriarcado e desconfiança da autonomia do outro. Na cultura patriarcal, apropriamo-nos do direito de decidir o que é legítimo para os demais e procuramos controlar suas vidas; a hierarquia, por sua vez, exige obediência. Essa formulação é especialmente importante porque desloca o patriarcado de uma simples relação entre homens e mulheres para um modo cultural mais amplo de organizar relações humanas e relações com a natureza.
Essa ampliação, entretanto, não deve apagar a especificidade da desigualdade entre os sexos. O próprio texto de Maturana e Verden-Zöller associa explicitamente a cultura patriarcal ao controle da sexualidade feminina, da procriação e à subordinação da mulher ao homem. O patriarcado pode irradiar uma lógica de apropriação para múltiplos campos, mas isso não significa dissolver a condição histórica das mulheres numa crítica genérica à autoridade.
Há aqui uma aproximação possível com Morin, acompanhada de uma diferença significativa. Morin procura compreender processos bioantropológicos e organizacionais pelos quais uma classe masculina teria adquirido poder; Maturana e Verden-Zöller enfatizam a conservação cultural de redes de conversação que tornam apropriação, hierarquia e controle modos recorrentes de convivência. Uma abordagem complexa não exige escolher entre essas perspectivas, mas tampouco permite fundi-las como se fossem equivalentes.
Também não tomo a cultura matrística reconstruída por Maturana e Verden-Zöller como uma espécie de paraíso perdido. Os próprios limites das evidências disponíveis recomendam cautela. Sua contribuição é mais fecunda, para o argumento que desenvolvo, quando compreendida como hipótese sobre diferentes redes culturais de convivência e sobre a historicidade de práticas que muitas sociedades passaram a perceber como naturais.
6. Patriarcado e Estado: distinguir sem separar
Chego, então, a uma questão central: o Estado é patriarcal porque nasceu do patriarcado? Uma resposta afirmativa e universal seria excessiva. As formações estatais surgiram em contextos históricos diferentes, e não há fundamento suficiente para deduzi-las de uma única causa. Mas seria igualmente problemático separar inteiramente a formação do Estado da longa história da dominação masculina.
O que a comparação anterior permite sustentar é algo mais cuidadoso. Relações de poder masculino podem anteceder historicamente muitas formações estatais. Quando o poder político se institucionaliza, encontra sociedades nas quais família, parentesco, sexualidade, descendência, divisão sexual das atividades e autoridade já estão organizados segundo determinadas relações de gênero. O Estado não cria necessariamente essas relações do nada: pode incorporá-las, codificá-las e reorganizá-las.
Essa perspectiva ajuda também a compreender por que patrilinearidade e patriarcado precisam ser distinguidos sem serem separados. A transmissão de pertencimento, nome, propriedade e posição social pela linha masculina pode contribuir para consolidar a autoridade masculina, sobretudo quando se articula à propriedade e à herança. Mas não se deve deduzir de uma regra de descendência toda uma estrutura política, assim como não se deve presumir que uma sociedade matrilinear seja, por isso, governada por mulheres.
A família, por sua vez, nunca foi apenas uma instituição “privada”. Casamento, filiação, herança, propriedade, legitimidade dos filhos, adultério, divórcio e sexualidade tornam-se, em diferentes momentos históricos, objetos de regulamentação política. Estado e família constituem-se reciprocamente em vários desses processos. Uma observação recuperada em pesquisa anterior sintetiza bem essa dimensão: ao regular casamento, aborto, adultério, divórcio, tutela dos filhos, herança e responsabilidades parentais, o Estado participa politicamente da organização da família e da sexualidade (8).
Essa compreensão também impede uma leitura unilateral do próprio Estado. Se historicamente muitos Estados institucionalizaram desigualdades entre homens e mulheres, Estados modernos também se tornaram arenas nas quais essas desigualdades foram contestadas. Direitos civis e políticos das mulheres, igualdade jurídica, divórcio, proteção contra violência doméstica e outras conquistas dependeram igualmente de legislação e instituições públicas. O Estado pode reproduzir relações patriarcais e pode ser utilizado para limitá-las. Essa ambivalência será particularmente importante quando chegarmos à sociedade contemporânea.
Por isso, parece-me mais adequado falar em processos de formação do Estado, no plural, do que imaginar uma origem única e universal. Essa escolha conceitual é coerente com o princípio da complexidade: associar sem fundir e distinguir sem separar formas de saber.
7. Da longa duração à primeira modernidade: a promessa incompleta da igualdade
A modernidade introduziu uma transformação decisiva ao colocar no centro do pensamento político o indivíduo, a liberdade, a igualdade jurídica e a cidadania. Entretanto, o indivíduo proclamado universal não foi imediatamente um indivíduo socialmente neutro quanto ao gênero. A nova ordem rompeu com inúmeras tradições enquanto conservou outras, particularmente no interior da família e da divisão sexual do trabalho.
Essa contradição permite perceber que o patriarcado não simplesmente “sobreviveu” à modernidade como uma relíquia intacta do passado. Ele também foi reorganizado em condições modernas. A separação entre esfera pública e esfera privada, trabalho produtivo e trabalho doméstico, cidadão e dependentes familiares pôde conviver com a proclamação universal da igualdade. Mulheres participavam decisivamente da reprodução material e cotidiana da sociedade sem que grande parte desse trabalho fosse reconhecida nos mesmos termos do trabalho realizado no mercado.
Nesse ponto, a contribuição de Engels conserva uma intuição particularmente importante. Ao distinguir a produção dos meios de existência da produção e reprodução dos próprios seres humanos, ele permite perceber que nenhuma sociedade se reproduz apenas por aquilo que o mercado posteriormente reconheceria como atividade econômica. A reprodução da vida, o cuidado, a criação dos filhos e a manutenção cotidiana das condições de existência constituem dimensões indispensáveis da sociedade, embora historicamente grande parte dessas atividades tenha sido atribuída às mulheres e permaneça pouco visível.
A longa história examinada neste ensaio encontra aqui uma transformação fundamental. A dominação que Morin procurou localizar em processos remotos de organização masculina, que Engels relacionou às transformações da família, propriedade e herança e que Maturana associou culturalmente à apropriação, hierarquia e controle não desaparece com a sociedade moderna. Suas formas mudam, combinam-se com novas instituições e passam a conviver com princípios que potencialmente as contradizem.
A própria ideia de igualdade produz, nesse sentido, consequências imprevistas. Se todos são indivíduos portadores de direitos, torna-se progressivamente mais difícil justificar por que metade da humanidade deveria permanecer submetida a autoridades, interdições e dependências fundamentadas no sexo. A contradição entre universalidade proclamada e desigualdade efetivamente institucionalizada cria condições para que aquilo que durante séculos fora apresentado como natural possa tornar-se questão política.
Não desenvolvo ainda, neste artigo, as consequências dessa contradição. Elas pertencem ao próximo movimento desta reflexão. Mas é justamente aqui que a reconstrução da longa duração encontra seu limite histórico e abre outra questão: o que ocorre quando a própria modernidade passa a voltar sua capacidade crítica para os pressupostos tradicionais sobre os quais havia sido construída?
Considerações finais — Quando o que parecia natural se torna político
A pergunta que orientou este ensaio não admite uma resposta simples. A dominação sobre as mulheres não pode ser explicada exclusivamente pela força física, pela divisão sexual do trabalho, pela família, pela propriedade privada, pela religião ou pelo Estado. Tampouco a enumeração dessas dimensões constitui, por si mesma, uma explicação complexa. O desafio está em compreender como elas puderam combinar-se historicamente, reforçar-se reciprocamente, entrar em contradição e transformar-se.
Morin oferece uma hipótese particularmente fecunda ao mostrar como diferenças bioantropológicas puderam articular-se a técnica, armas, conhecimento, cooperação e organização masculina, convertendo-se em relações políticas de poder. Engels desloca a análise para as relações entre parentesco, descendência, propriedade, herança e família. Clastres rompe com a ideia de que o Estado constituiria destino necessário de toda sociedade e obriga a distinguir poder de poder separado. Maturana e Verden-Zöller mostram como apropriação, hierarquia, autoridade e controle podem ser conservados e reproduzidos culturalmente. Nenhuma dessas perspectivas, isoladamente, explica a história do patriarcado. O diálogo entre elas, entretanto, permite enxergar dimensões que desaparecem quando se procura uma causa única.
Talvez a conclusão mais importante seja precisamente a impossibilidade de identificar patriarcado, família, propriedade e Estado como se fossem manifestações de um único processo linear. Relações de dominação masculina podem preceder a propriedade privada e o Estado; sociedades sem Estado podem conservar desigualdades de gênero; Estados podem institucionalizar relações patriarcais, mas também podem tornar-se instrumentos para combatê-las. A história não é uma marcha contínua da dominação para a emancipação nem da igualdade originária para a opressão. Ela comporta avanços, regressões, permanências, bifurcações e combinações contraditórias.
Neste ponto, reencontro a perspectiva que adotei no artigo Feminismo complexo. Por feminismo complexo não entendo simplesmente o acréscimo de uma nova teoria feminista às existentes, mas uma perspectiva que procura evitar explicações que eliminem a multidimensionalidade, as interdependências e as contradições do fenômeno (2). A longa duração histórica reforça essa perspectiva: ser biologicamente diferente nunca significou necessariamente ser socialmente desigual. Entre diferença e desigualdade existe história; entre diferença e dominação existem cultura, organização, poder, instituições e representações.
Ao mesmo tempo, reencontro por outro caminho a questão que havia colocado anteriormente ao interpretar o feminicídio como um problema civilizatório (1). Se a violência extrema contra as mulheres ocorre no presente, suas condições de inteligibilidade não se encontram apenas no presente. Isso não significa estabelecer uma causalidade direta entre formas remotas de dominação e o feminicídio contemporâneo. Significa reconhecer que pretensões masculinas de controle sobre sexualidade, escolhas, relações afetivas, família e autonomia possuem uma longa história. Compreender essa história pode ajudar a formular melhor as perguntas dirigidas às formas contemporâneas de violência.
Mas a história produz também condições para contestar aquilo que ela própria instituiu. A modernidade proclamou liberdade e igualdade sem realizá-las igualmente para homens e mulheres. Ao fazê-lo, porém, criou princípios a partir dos quais a própria desigualdade poderia ser questionada. Aquilo que durante séculos havia sido apresentado como ordem natural — quem governa, quem trabalha, quem cuida, quem herda, quem decide, quem pode escolher — torna-se progressivamente objeto de conflito e decisão.
É justamente nesse ponto que pretendo iniciar o próximo artigo. Com a passagem da primeira para a segunda modernidade, na perspectiva de Ulrich Beck, os próprios pressupostos tradicionais da sociedade industrial — inclusive a família e os papéis atribuídos a homens e mulheres — tornam-se objetos da modernização reflexiva. As mulheres conquistam condições historicamente inéditas de autonomia educacional, profissional, econômica, política, afetiva e sexual. A antiga ordem patriarcal perde parte de sua legitimidade, mas suas representações e relações de poder não desaparecem simultaneamente.
A pergunta deixa então de ser apenas como se formou a dominação sobre as mulheres. Passa a ser também: o que acontece quando mulheres que historicamente foram objeto de decisões conquistam crescentemente a capacidade de decidir por si mesmas?
Essa questão permitirá retornar ao feminicídio, mas agora depois de percorrido um caminho que vai da longa duração do patriarcado às contradições da modernidade. Permitirá também relacionar autonomia e dominação, representações sociais e religião, família e mercado, violência e políticas públicas. Finalmente, conduzirá ao Brasil de 2026, em pleno período eleitoral, quando as mulheres voltam a ocupar lugar destacado nos discursos e estratégias das forças políticas — e quando elas próprias, como cidadãs e eleitoras, participam da decisão sobre os rumos da sociedade.
Referências
(1) BOEIRA, Sérgio Luís. Feminicídio como termômetro do declínio civilizatório. 23 maio 2026. Disponível em: Feminicídio como termômetro do declínio civilizatório.
(2) BOEIRA, Sérgio Luís. Feminismo complexo: entre interseccionalidade, decolonialidade e epistemologia da complexidade. 2026. Disponível em: Feminismo complexo: entre interseccionalidade, decolonialidade e epistemologia da complexidade.
(3) MORIN, Edgar. O enigma do homem: para uma nova antropologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1975. [Original francês: Le paradigme perdu: la nature humaine, 1973].
(4) SIMON, Vanêssa Pereira; BOEIRA, Sérgio Luís. Economia social e solidária e empoderamento feminino. Ciências Sociais Unisinos, São Leopoldo, v. 53, n. 3, p. 532-542, set./dez. 2017. DOI: 10.4013/csu.2017.53.3.13.
(5) ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. 9. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984. Trabalho relacionado às investigações de Lewis H. Morgan.
(6) CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado: pesquisas de antropologia política. São Paulo: Cosac Naify, 2003.
(7) MATURANA, Humberto R.; VERDEN-ZÖLLER, Gerda. Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano. São Paulo: Palas Athena, 2004.
(8) CHAUÍ, Marilena. Repressão sexual: essa nossa (des)conhecida. São Paulo: Brasiliense, 1984.
P.S.: Usei a IA GPT 5-6 Sol na busca e organização das informações, e na elaboração da ilustração para o texto, que foi concebido, editato e revisado por mim.


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