Crise dos incumbentes: big techs, políticas cognitivas e erosão da democracia
Objetivo
Compreender a crise dos incumbentes como manifestação político-eleitoral do hipermercadocentrismo contemporâneo, examinando o poder econômico, cognitivo e político das big techs em diálogo com Guerreiro Ramos, Shoshana Zuboff, Nancy Fraser e Wendy Brown.
Resumo
A crise dos incumbentes costuma ser explicada pelo desgaste dos governantes diante da inflação, da insegurança e da frustração de expectativas. Essas explicações tornam-se insuficientes quando desconsideram a concentração de poder nos núcleos financeiro e tecnológico do capitalismo e sua influência sobre as condições de governabilidade e de formação dos julgamentos políticos. Este artigo articula as políticas cognitivas, a teoria da delimitação dos sistemas sociais e a sociedade multicêntrica de Guerreiro Ramos; a crítica de Zuboff à expropriação da experiência humana e ao poder instrumentário; a análise de Fraser sobre a canibalização do cuidado, da natureza, dos povos subordinados e dos poderes públicos; e a interpretação de Brown sobre neoliberalismo e política antidemocrática. Sustenta-se que as big techs precisam ocupar posição central na investigação: suas plataformas organizam parcelas decisivas da comunicação social, extraem dados dos cidadãos e subordinam essas atividades a objetivos de acumulação. A crise eleitoral pode, assim, expressar uma deterioração mais profunda das condições sociais, ecológicas e epistemológicas da democracia.

Introdução
A substituição eleitoral de governantes constitui uma possibilidade legítima da democracia. Entretanto, a expressão “crise dos incumbentes” adquire outro significado quando o desgaste se estende a governos sucessivos, partidos e instituições representativas, alimentando projetos que procuram enfraquecer a própria democracia.
Inflação, precarização, insegurança e dificuldades de acesso a serviços públicos são experiências concretas. Sua interpretação política, porém, ocorre em ambientes socialmente organizados. A informação que circula, a visibilidade atribuída aos acontecimentos e os critérios pelos quais os cidadãos reconhecem problemas e responsabilidades fazem parte da disputa pelo poder.
Nesse contexto, as big techs ocupam uma posição estrutural. A sigla GAFAMI identifica Google — integrante da Alphabet —, Apple, Facebook — atualmente Meta —, Amazon, Microsoft e IBM. Essas empresas apresentam diferenças importantes, mas integram um núcleo de concentração tecnológica que sustenta serviços, infraestruturas e mercados digitais. Google e Meta possuem posição especialmente relevante na publicidade e na comunicação cotidiana, por meio de serviços como YouTube, Facebook, Instagram e WhatsApp. A distribuição de seu poder varia conforme o serviço: busca, recomendação de conteúdos e possuem mecanismos distintos de circulação da informação.
Essas organizações participam da definição das condições em que os cidadãos encontram informações, interagem e percebem a realidade. Examinar suas políticas cognitivas e seus interesses econômicos é indispensável para compreender a formação contemporânea da legitimidade política.
O artigo começa pela dimensão epistemológica das organizações em Guerreiro Ramos. Em seguida, aborda a crítica de Zuboff ao capitalismo de vigilância. As contribuições de Fraser e Brown ampliam a análise para a reprodução social, a ecologia, a expropriação e a desdemocratização. Finalmente, relacionam-se esses enfoques à crise dos incumbentes e às possibilidades de uma sociedade multicêntrica.
Guerreiro Ramos: organizações, sistemas cognitivos e definição da realidade
A crítica de Guerreiro Ramos à sociedade mercadocêntrica alcança os fundamentos epistemológicos da organização social. As organizações possuem sistemas cognitivos: conceitos, linguagens e pressupostos que orientam a maneira como seus integrantes compreendem a realidade. A socialização organizacional transmite critérios sobre aquilo que deve ser considerado relevante, legítimo ou desejável (1).
A política cognitiva envolve esse processo de orientação da percepção e do pensamento. Categorias utilizadas no cotidiano organizacional podem estabilizar uma interpretação da realidade e apresentar interesses particulares como necessidades gerais. A crítica substantiva precisa examinar esses pressupostos, em vez de simplesmente reproduzir os critérios da organização econômica.
Isso permite compreender o mercadocentrismo como uma forma de organização do conhecimento e da experiência. Quando produtividade, competição e rentabilidade se tornam referências predominantes, outras dimensões da vida perdem reconhecimento ou precisam justificar sua existência em linguagem econômica.
A aplicação desse enfoque às big techs é particularmente esclarecedora. As plataformas incorporam critérios empresariais às interfaces, métricas e mecanismos que organizam a interação. Curtidas, compartilhamentos, recomendações, notificações e medidas de desempenho participam da aprendizagem cotidiana sobre o que merece atenção e sobre como obter reconhecimento.
Essa extensão constitui uma interpretação contemporânea do pensamento de Guerreiro Ramos. Os usuários encontram ambientes cujas possibilidades de ação foram previamente organizadas. As políticas cognitivas das empresas alcançam, assim, pessoas que interagem com seus serviços, para além dos trabalhadores diretamente vinculados a elas.
A teoria da delimitação dos sistemas sociais oferece uma resposta ao problema. O mercado precisa ocupar um domínio delimitado, convivendo com ambientes que sustentem participação entre iguais e busca de realização pessoal. A paraeconomia amplia a alocação de recursos para reconhecer essa pluralidade. A sociedade multicêntrica pressupõe condições para que diferentes formas de vida associada (como as isonomias, caracterizadas pelas relações cooperativas, e as fenonomias, caracterizadas pela criatividade), desenvolvam suas finalidades próprias (1).
O poder das plataformas torna essa delimitação mais difícil. Comunicação, conhecimento, sociabilidade e participação política passam a depender de infraestruturas empresariais que procuram extrair valor dessas atividades. O hipermercadocentrismo designa, neste artigo, esse aprofundamento da subordinação da vida social à acumulação capitalista, à racionalidade instrumental e ao espírito de competição.
Zuboff: a expropriação da experiência humana pelas big techs
Em A era do capitalismo de vigilância, Shoshana Zuboff desenvolve uma crítica radical à transformação da experiência humana em matéria-prima de operações econômicas. Sua trajetória intelectual acompanha a passagem das possibilidades de democratização do conhecimento pela tecnologia ao diagnóstico de sua apropriação por um poder empresarial sem precedentes (2).
Em sua própria apresentação da obra, Zuboff denuncia a invasão da experiência anteriormente privada, sua extração como dados e sua utilização em processos de produção, previsão e venda. A promessa de democratizar o conhecimento foi apropriada por operações que comprometem a soberania das pessoas sobre a própria vida.
A experiência humana é reivindicada pelas empresas como recurso disponível para a acumulação capitalista. Relações, deslocamentos, interesses, emoções e vulnerabilidades alimentam o conhecimento sobre os usuários. Parte desse conhecimento permite desenvolver produtos de previsão e serviços destinados a outros agentes econômicos.
A expropriação ganha alcance adicional quando a previsão se articula à intervenção. O poder instrumentário atua por meio de dispositivos e ambientes digitais capazes de orientar comportamentos em direção a resultados rentáveis. A desigualdade envolve o que as empresas sabem sobre as pessoas e aquilo que podem fazer a partir desse conhecimento (3).
A crítica alcança princípios que a tradição liberal reivindicou para o indivíduo: privacidade, autonomia e liberdade de decisão. A liberdade empresarial de explorar dados entra em conflito com a capacidade dos cidadãos de governar a própria experiência.
Na interpretação desenvolvida aqui, o diálogo com Guerreiro Ramos permite relacionar políticas cognitivas e poder instrumentário. As plataformas organizam condições de percepção e, simultaneamente, recolhem informações sobre as respostas dos usuários. O conhecimento obtido pode alimentar novas intervenções sobre esses ambientes.
A influência sobre os cidadãos precisa ser investigada nesse circuito. A arquitetura dos serviços participa da distribuição da atenção e das oportunidades de encontro com determinadas informações. Essa capacidade produz uma assimetria de poder, ainda que os efeitos variem e encontrem resistência.
Zuboff relaciona desinformação e outros danos sociais às operações econômicas fundamentais do capitalismo de vigilância. Sua crítica exige enfrentar a mercantilização do humano e construir instituições democráticas capazes de interromper essas operações (4).
Fraser: capitalismo canibal, cuidado, ecologia e espoliação
Nancy Fraser amplia a crítica ao compreender o capitalismo como uma ordem social que depende de condições que tende a consumir e deteriorar. Em Capitalismo canibal, reprodução social, natureza, populações expropriadas e poderes públicos integram a explicação da acumulação e de suas crises (5).
Essa perspectiva permite situar o núcleo tecnológico em relações sociais mais abrangentes. A comunicação digital depende de trabalho, cuidado, infraestrutura material e recursos naturais. Os custos e benefícios dessas atividades são distribuídos de maneira desigual. A expansão tecnológica precisa ser examinada nas relações que sustentam sua existência.
A reprodução social evidencia o trabalho frequentemente invisibilizado e desproporcionalmente atribuído às mulheres. Cuidar, educar e manter vínculos são condições indispensáveis à vida e à economia. Quando serviços públicos são insuficientes e o trabalho remunerado se intensifica, famílias e comunidades absorvem pressões crescentes.
Essa desigualdade também afeta a participação democrática. Tempo para acompanhar informações, refletir e participar de organizações é distribuído de maneira desigual. A sobrecarga de cuidado restringe possibilidades efetivas de cidadania.
A dimensão ecológica mostra a dependência da acumulação capitalista em relação à natureza e sua tendência a comprometer capacidades de regeneração. A perspectiva de Fraser permite incluir as infraestruturas digitais nessa análise: suas consequências precisam ser relacionadas à energia, aos materiais e aos territórios envolvidos em seu funcionamento.
A distinção entre exploração e expropriação acrescenta a apropriação de terras, recursos e capacidades de populações submetidas a relações coloniais e raciais de subordinação. A espoliação étnico-racial de povos indígenas e outras coletividades precisa ocupar lugar na compreensão do capitalismo contemporâneo.
Fraser situa também a crise democrática na deterioração dos poderes públicos dos quais a concentração de renda no sistema capitalista depende. A pressão econômica pode enfraquecer a capacidade institucional de responder às necessidades coletivas. A autora critica, por isso, interpretações que isolam a crise política de sua matriz social mais ampla.
Sua reflexão sobre os contrapúblicos subalternos permite reconhecer espaços em que grupos subordinados produzem interpretações próprias de suas necessidades (6). Essa possibilidade é decisiva para avaliar o ambiente digital: ampliar a expressão precisa ser acompanhado de condições para autonomia, organização e influência efetiva nas decisões.
Wendy Brown: liberdade empresarial e política antidemocrática
Wendy Brown esclarece como a racionalidade neoliberal pode enfraquecer a democracia por meio da deslegitimação do social, da igualdade e da responsabilidade coletiva. Em Nas ruínas do neoliberalismo, mercado e moralidade tradicional aparecem como componentes articulados dessa transformação (7).
Sua análise permite compreender a conversão de dificuldades sociais em responsabilidades individuais e familiares. Demandas por proteção pública e justiça podem ser apresentadas como ameaças à liberdade. Nesse ambiente, a defesa da autonomia empresarial ganha legitimidade enquanto direitos sociais e controles democráticos são contestados.
Brown investiga também a mobilização de ressentimentos e a formação de projetos autoritários que combinam nacionalismo, racismo e discursos de liberdade. Sua interpretação preserva a pluralidade das forças envolvidas, mas mostra como ataques prolongados à igualdade e à democracia criam condições para essas formações (7).
Aplicada ao poder digital, essa contribuição permite examinar disputas sobre o significado da liberdade de expressão. Uma agenda democrática precisa considerar tanto o direito de expressão dos cidadãos quanto o poder empresarial de organizar sua circulação e explorá-la economicamente.
A relação com as big techs envolve decisões e interesses concretos. Quando projetos políticos resistem à regulação e empresas procuram preservar seus modelos de acumulação monetária, podem surgir convergências que favorecem a concentração de poder. A análise dessas alianças exige atenção às diferenças entre empresas, partidos e contextos.
A crise dos incumbentes sob o poder tecnológico-financeiro
A articulação dos quatro referenciais permite formular a tese central: a crise dos incumbentes pode expressar a deterioração das condições de governabilidade e legitimidade democrática sob a concentração de poder tecnológico-financeiro.
Governos eleitos são responsabilizados por problemas cujas causas envolvem mercados e estruturas transnacionais. Ao mesmo tempo, a avaliação de suas respostas ocorre em espaços comunicacionais parcialmente controlados por empresas interessadas na preservação de seu poder.
As big techs participam das condições em que os cidadãos reconhecem acontecimentos, atribuem responsabilidades e elaboram expectativas. Suas políticas cognitivas e seus sistemas de exploração de dados atravessam a formação cotidiana dos julgamentos. A investigação eleitoral precisa incorporar essa dimensão.
Isso ajuda a compreender por que determinados resultados governamentais podem encontrar dificuldades para se converter em legitimidade. É necessário examinar sua distribuição material, sua presença na experiência dos cidadãos e a organização de sua visibilidade pública.
Os campos políticos participam desse processo. Partidos e parlamentares traduzem interesses em propostas e decisões. A defesa da desregulamentação por segmentos de centro-direita, direita e extrema direita deve ser analisada em relação às corporações favorecidas e às demandas da sociedade civil que encontram obstáculos.
O conflito ganha uma assimetria adicional quando o debate sobre a regulação das plataformas circula nos serviços das próprias empresas reguladas. Elas dispõem de recursos econômicos e de uma posição privilegiada na infraestrutura comunicacional em que a controvérsia se desenvolve.
A extrema direita pode mobilizar frustrações sociais contra direitos, grupos vulneráveis e instituições públicas. Quando essa mobilização fortalece políticas que ampliam a concentração e restringem capacidades democráticas, o desgaste dos incumbentes pode alimentar condições que reproduzem o descontentamento.
Essa interpretação exige pesquisa situada. Falhas governamentais, desigualdades persistentes e escolhas políticas continuam relevantes. A crítica estrutural permite examinar essas responsabilidades no interior das relações de poder que condicionam sua atuação.
Sociedade multicêntrica e reconstrução democrática
Uma resposta democrática precisa alcançar o poder econômico e cognitivo das plataformas. Melhorar a comunicação governamental é insuficiente diante de estruturas capazes de extrair experiência humana e organizar amplas parcelas da atenção social.
Guerreiro Ramos orienta a reconstrução para a delimitação do mercado e o reconhecimento de diferentes finalidades sociais. Zuboff exige condições institucionais de proteção da autonomia humana diante da acumulação informacional e monetária. Fraser incorpora cuidado, justiça ecológica e enfrentamento da expropriação. Brown mostra a necessidade de recuperar a legitimidade da igualdade e da responsabilidade coletiva.
Uma sociedade multicêntrica precisa sustentar espaços de conhecimento, convivência e participação com autonomia diante dos interesses empresariais. Isso envolve recursos, direitos e formas de organização que permitam aos cidadãos participar da definição dos fins coletivos.
Considerações finais
A crise dos incumbentes ultrapassa o desgaste de quem governa quando expressa uma crise das condições da democracia. A concentração tecnológico-financeira restringe capacidades públicas e participa da organização dos ambientes em que os cidadãos percebem e julgam a realidade.
As big techs ocupam posição central nessa transformação. Suas plataformas combinam comunicação, políticas cognitivas, extração de dados e objetivos econômicos. A crítica de Zuboff evidencia a gravidade da expropriação da experiência humana, enquanto Guerreiro Ramos permite compreender sua dimensão epistemológica.
Fraser e Brown ampliam a análise para as condições materiais da vida, a distribuição desigual dos custos e a mobilização antidemocrática das frustrações. O diálogo entre esses referenciais permite investigar o hipermercadocentrismo como processo que compromete autonomia, igualdade e capacidade coletiva de decisão.
Reconstruir a democracia exige enfrentar esses poderes e sustentar uma sociedade multicêntrica. A tarefa envolve proteger a experiência humana, fortalecer capacidades públicas e assegurar condições para que diferentes grupos participem da definição dos rumos da vida comum.
Referências
(1) GUERREIRO RAMOS, Alberto. A nova ciência das organizações: uma reconceituação da riqueza das nações. Florianópolis: Enunciado Publicações, 2022.
(2) ZUBOFF, Shoshana. The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power. New York: PublicAffairs, 2019. Edição brasileira: A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.
(3) ZUBOFF, Shoshana. Caveat Usor: Surveillance Capitalism as Epistemic Inequality. In: WERBACH, Kevin (org.). After the Digital Tornado: Networks, Algorithms, Humanity. Cambridge: Cambridge University Press, 2020. p. 174–214.
(4) ZUBOFF, Shoshana. Surveillance Capitalism or Democracy? The Death Match of Institutional Orders and the Politics of Knowledge in Our Information Civilization. Organization Theory, v. 3, n. 3, 2022. DOI: 10.1177/26317877221129290.
(5) FRASER, Nancy. Capitalismo caníbal: qué hacer con este sistema que devora la democracia y el planeta, y hasta pone en peligro su propia existencia. Tradução de Elena Odriozola. Madrid: Siglo XXI de España Editores, 2023. Edição consultada. Original publicado pela Verso em 2022.
(6) FRASER, Nancy. Rethinking the Public Sphere: A Contribution to the Critique of Actually Existing Democracy. Social Text, n. 25/26, p. 56–80, 1990.
(7) BROWN, Wendy. Nas ruínas do neoliberalismo: a ascensão da política antidemocrática no Ocidente. Tradução de Mario Antunes Marino e Eduardo Altheman C. Santos. São Paulo: Editora Filosófica Politeia, 2019.
P.S.: Usei a IA GPT 5.6 na busca e organização das informações, e também na elaboração da ilustração para o texto, que foi concebido, editado e revisado por mim.



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