Da promessa de inclusão à incerteza das trajetórias: juventudes brasileiras entre 2003 e 2024
- Sérgio Luís Boeira
- há 2 dias
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Objetivo
Compreender as principais mudanças nas condições de vida, nas expectativas e nas formas de participação das juventudes brasileiras entre 2003 e 2024, a partir da comparação entre a pesquisa Perfil da Juventude Brasileira, publicada no livro Retratos da Juventude Brasileira, a Agenda Juventude Brasil, o Atlas das Juventudes, as pesquisas Juventudes e a Pandemia e o estudo Juventudes: um desafio pendente, observando também os limites metodológicos dessa comparação.
Resumo
O texto compara pesquisas nacionais sobre as juventudes brasileiras realizadas entre 2003 e 2024. A pesquisa Perfil da Juventude Brasileira, publicada em 2005, constitui o ponto de partida, por oferecer um retrato abrangente das condições de vida, dos valores e das expectativas dos jovens no início do século XXI. A Agenda Juventude Brasil, de 2013, representa o levantamento posterior mais diretamente comparável. O Atlas das Juventudes, as pesquisas realizadas durante a pandemia e o estudo da Fundação Friedrich Ebert, de 2024, ampliam a análise, embora utilizem recortes etários e procedimentos metodológicos diferentes. A comparação indica que a educação e o trabalho permanecem centrais, mas deixaram de constituir uma trajetória relativamente previsível de integração social. Observam-se a precarização das transições para a vida adulta, a persistência das desigualdades raciais e territoriais, a digitalização da sociabilidade e da participação política, a baixa confiança institucional e a coexistência entre esperança pessoal e pessimismo sobre o país. Conclui-se que a participação juvenil não desapareceu, mas se deslocou das organizações tradicionais para causas, coletivos, redes digitais e mobilizações descontínuas.

Introdução
Em 2003, a pesquisa nacional Perfil da Juventude Brasileira entrevistou 3.501 jovens de 15 a 24 anos, procurando compreender suas condições de vida, valores, preocupações, expectativas e formas de participação. Os resultados, publicados em 2005 no livro Retratos da Juventude Brasileira, organizado por Helena Wendel Abramo e Pedro Paulo Martoni Branco, tornaram-se uma referência para os estudos sobre juventude no país (1). A relevância da pesquisa não decorreu apenas de sua abrangência quantitativa, mas também de sua capacidade de apresentar os jovens como sujeitos sociais heterogêneos, cujas experiências eram marcadas por diferenças de classe, gênero, raça, escolaridade e inserção no mundo do trabalho.
Naquele momento, educação, emprego, violência, família, cultura e participação política já apareciam como dimensões centrais da condição juvenil. A escola era valorizada como caminho para a mobilidade social, enquanto o trabalho representava simultaneamente uma necessidade imediata, uma fonte de autonomia e um dos principais problemas enfrentados pelos jovens. A violência, por sua vez, não era percebida apenas como questão externa, mas como experiência próxima e recorrente. Ao mesmo tempo, a baixa participação partidária não significava necessariamente desinteresse pela vida pública, pois os jovens manifestavam disposição para participar de ações comunitárias, culturais e sociais.
Dez anos depois, a Secretaria Nacional de Juventude realizou a Agenda Juventude Brasil: Pesquisa Nacional sobre Perfil e Opinião dos Jovens Brasileiros 2013. Foram entrevistadas 3.300 pessoas de 15 a 29 anos, em 187 municípios das 27 unidades da Federação, incluindo áreas urbanas e rurais, capitais, regiões metropolitanas e cidades do interior (2). Essa pesquisa constitui o levantamento posterior mais próximo de uma nova rodada do estudo de 2003, embora a ampliação da faixa etária até 29 anos exija cautela na comparação.
Nos anos seguintes, o campo de estudos sobre juventude tornou-se mais diversificado. Sposito e Tarábola mostraram que a produção acadêmica continuava concentrada na figura do jovem como estudante, mas passou a incorporar com maior intensidade temas como culturas juvenis, redes digitais, participação, coletivos e mobilizações estudantis. Os autores também identificaram lacunas persistentes nos estudos sobre trabalho, juventude rural, violência e práticas cotidianas menos visíveis (3).
Em 2021, o Atlas das Juventudes reuniu dados demográficos, econômicos e sociais provenientes de diferentes fontes, procurando representar a diversidade das juventudes brasileiras e suas desigualdades territoriais, raciais e de gênero (4). Entre 2020 e 2022, as pesquisas Juventudes e a Pandemia registraram os efeitos da crise sanitária sobre educação, trabalho, renda, saúde mental e expectativas de futuro (5). Finalmente, a pesquisa regional Juventudes: um desafio pendente, realizada em 2024 pela Fundação Friedrich Ebert, examinou as percepções políticas de jovens de 14 países da América Latina e do Caribe. No Brasil, foram entrevistadas 2.024 pessoas de 15 a 35 anos, com atenção especial à democracia, à confiança institucional, à participação, às posições ideológicas e ao uso político das redes digitais (6).
Esses levantamentos não constituem uma série estatística homogênea. As faixas etárias, os desenhos amostrais, os meios de aplicação dos questionários e os temas pesquisados não são idênticos. Ainda assim, sua leitura comparativa permite identificar tendências relevantes ao longo de aproximadamente duas décadas. O texto está organizado em quatro seções. A primeira examina as mudanças nas relações entre educação, trabalho e autonomia. A segunda discute a permanência das desigualdades, da violência e da centralidade familiar. A terceira aborda a digitalização da sociabilidade e o deslocamento das formas de participação política. A quarta analisa as tensões entre democracia, desconfiança institucional, conservadorismo e autoritarismo. Ao final, as conclusões sintetizam as principais mudanças e permanências observadas entre 2003 e 2024.
1. Educação, trabalho e trajetórias juvenis
A pesquisa de 2003 mostrou que educação e trabalho ocupavam o centro das preocupações e expectativas juvenis. A escolarização era percebida como principal caminho de preparação para o futuro, enquanto o trabalho aparecia como condição para obtenção de renda, reconhecimento social e autonomia em relação à família. Essa combinação, entretanto, já apresentava fortes desigualdades. Para os jovens das camadas populares, estudar frequentemente significava conciliar a escola com jornadas de trabalho precoces e instáveis (1).
A condição do trabalhador-estudante revelava uma característica estrutural da sociedade brasileira: a juventude não correspondia necessariamente a um período protegido, dedicado exclusivamente à formação. Para muitos, a entrada no mercado de trabalho ocorria antes da conclusão da educação básica e era motivada tanto pela necessidade de contribuir para a renda familiar quanto pelo desejo de consumo e independência. A escola e o trabalho não constituíam etapas sucessivas, mas experiências simultâneas, frequentemente conflitivas.
Em 2013, a expansão do ensino médio e superior, a melhoria relativa da renda familiar e a ampliação de políticas educacionais permitiram que uma parcela maior dos adolescentes permanecesse na escola sem ingressar imediatamente no mercado de trabalho. A criação do Programa Universidade para Todos, a expansão das instituições federais e as políticas de ação afirmativa alteraram a composição social do ensino superior. A Agenda Juventude Brasil registrou a permanência da educação como valor central e ampliou a compreensão das transições juvenis, ao incluir pessoas de até 29 anos (2).
Sposito e Tarábola observam que o aumento da renda familiar durante os primeiros anos do século XXI permitiu que muitos adolescentes se afastassem temporariamente do mercado de trabalho para se dedicar aos estudos. Os autores, entretanto, advertiam que essa conquista era frágil e poderia ser revertida pela crise econômica, pelo desemprego e pela redução de direitos sociais. Também destacavam que uma reversão não significaria o simples retorno à situação anterior, pois os jovens que experimentaram maior escolarização e novas expectativas de mobilidade passariam a enfrentar a precarização com aspirações diferentes das gerações precedentes (3).
Essa advertência tornou-se particularmente relevante na década seguinte. A crise econômica iniciada em meados da década de 2010, a expansão das formas precárias de contratação e os efeitos da pandemia desorganizaram trajetórias escolares e ocupacionais. As pesquisas Juventudes e a Pandemia identificaram perda de renda, desemprego, dificuldades para acompanhar o ensino remoto, desigualdade no acesso a computadores e internet e aumento da proporção de jovens que não estudavam nem trabalhavam (5).
A pesquisa da Fundação Friedrich Ebert confirma a persistência da insegurança ocupacional. Em 2024, somente 36% dos entrevistados de 18 a 35 anos declararam possuir trabalho estável, enquanto 14% tinham trabalho temporário e 36% não trabalhavam, mas procuravam emprego. Entre as mulheres, a proporção de trabalho estável era menor, indicando a permanência das desigualdades de gênero no mercado de trabalho (6).
A comparação sugere uma mudança no significado da escolarização. Em 2003, o principal desafio parecia ser ampliar o acesso à escola e ao trabalho. Em 2024, o problema consiste também em permanecer no sistema educacional, transformar escolarização em trabalho estável e conquistar autonomia em condições de incerteza prolongada. A educação continua valorizada, mas já não sustenta, por si só, uma expectativa segura de mobilidade social.
Essa transformação não significa que os jovens tenham deixado de acreditar no futuro. Na pesquisa de 2024, 88% afirmaram esperar uma vida futura melhor. A esperança, contudo, parece menos vinculada a uma narrativa coletiva de desenvolvimento nacional e mais associada ao esforço individual, às redes familiares e à capacidade de aproveitar oportunidades incertas. A trajetória juvenil torna-se mais reversível: períodos de estudo, desemprego, trabalho precário, retorno à casa dos pais e retomada da formação podem suceder-se sem uma direção linear.
2. Família, desigualdades e violência
A família permanece como uma das instituições mais valorizadas pelas juventudes brasileiras. Em 2013, 39,2% dos jovens consideravam o apoio familiar o principal fator para melhorar de vida, enquanto 42,4% mencionavam o esforço pessoal. Apenas 2,9% atribuíam essa importância às políticas governamentais (2). Esses dados não indicam necessariamente rejeição ao Estado, mas sugerem que as políticas públicas nem sempre são reconhecidas como mediações concretas entre os direitos sociais e as trajetórias individuais.
Em 2024, 70% dos entrevistados declararam satisfação com suas relações familiares, percentual superior à satisfação com a economia e com a situação do país. Ao mesmo tempo, a maioria continuava atribuindo ao Estado a responsabilidade de enfrentar a pobreza, ampliar a educação e a saúde e reduzir as desigualdades (6). Há, portanto, uma relação ambivalente: demanda-se proteção pública, mas confia-se mais na família e nos próprios esforços do que nas instituições responsáveis pela formulação e execução das políticas.
Essa combinação pode favorecer a expansão de uma visão meritocrática. Mesmo quando o desemprego, a precarização e a desigualdade são reconhecidos como problemas estruturais, o sucesso e o fracasso tendem a ser interpretados como resultados da iniciativa individual. O Estado é demandado como provedor de serviços, mas o indivíduo é responsabilizado por converter oportunidades desiguais em êxito pessoal.
O Atlas das Juventudes mostra que as condições de vida dos jovens são profundamente diferenciadas. A maioria da população juvenil brasileira é negra, e as desigualdades de educação, renda, acesso digital, trabalho e exposição à violência atingem de maneira mais intensa os jovens negros, indígenas, pobres e moradores de áreas rurais ou periféricas. A adoção do plural “juventudes” procura justamente evitar que médias nacionais ocultem essas diferenças (4).
A violência constitui uma das permanências mais dramáticas. A pesquisa de 2013 mostrou que metade dos jovens havia perdido alguma pessoa próxima por morte violenta, incluindo acidentes e homicídios. Aproximadamente um quarto carregava a experiência de ter perdido alguém próximo especificamente por assassinato (2). A violência, portanto, não aparecia apenas como uma preocupação abstrata, mas como experiência geracional concreta.
O relatório da Fundação Friedrich Ebert registra que 298 mil jovens foram assassinados no Brasil entre 2012 e 2021, dos quais 76% eram negros. Os jovens negros também apresentam maior desconfiança em relação à polícia e ao sistema de justiça, refletindo uma experiência histórica de desigualdade racial e violência institucional (6). A condição juvenil brasileira é, assim, atravessada por possibilidades muito diferentes de estudar, trabalhar, circular pelo território e permanecer vivo.
As pesquisas mais recentes também ampliaram a compreensão da violência ao incorporar com maior clareza a violência de gênero, o racismo, a violência policial e as diferentes formas de discriminação. Essa ampliação representa um avanço em relação aos retratos mais agregados da juventude. Entretanto, permanece o risco de tratar grupos sociais diferentes apenas como categorias estatísticas, sem compreender como as desigualdades se combinam nas experiências e trajetórias concretas.
3. Digitalização e novas formas de participação
Uma das transformações mais visíveis entre 2003 e 2024 ocorreu no campo da informação e da comunicação. No início do século, a televisão ainda estruturava grande parte da experiência informativa e cultural dos jovens. Em 2013, a internet já ocupava espaço crescente, mas a televisão aberta permanecia como fonte importante de informação sobre o Brasil e o mundo (2).
A expansão dos telefones celulares, das redes sociais e das plataformas digitais modificou não apenas os meios de acesso à informação, mas também as formas de sociabilidade, produção cultural e participação política. Sposito e Tarábola observam a passagem de uma geração que conheceu a expansão da internet, dos e-mails e das salas de conversação para outra socializada em um ambiente de conectividade permanente, produção compartilhada de conteúdos e circulação viral de informações (3).
A pandemia acelerou essa transformação. Educação, trabalho, lazer, relações pessoais e participação passaram a depender ainda mais das tecnologias digitais. Ao mesmo tempo, as pesquisas revelaram que o acesso não era uniforme. Jovens negros, pobres e moradores de áreas rurais tinham menor acesso a computadores e conexões de qualidade. Mesmo o telefone celular, aparentemente universalizado, frequentemente precisava ser compartilhado com outros membros da família, limitando sua utilização para estudo e trabalho (4; 5).
Em 2024, 93% dos entrevistados declararam consumir notícias diariamente ou várias vezes por semana. As redes sociais eram a principal fonte de informação política para 57%, seguidas pela televisão, mencionada por 45% (6). A mudança, portanto, não consiste apenas na substituição da televisão pela internet. O modelo relativamente centralizado de comunicação de massa foi parcialmente substituído por um ambiente fragmentado, personalizado e organizado por plataformas privadas.
Essa transformação produz efeitos contraditórios. As redes ampliam a capacidade de expressão, tornam visíveis grupos antes marginalizados e facilitam a organização de coletivos e campanhas. Ao mesmo tempo, expõem os jovens à desinformação, à manipulação algorítmica, às bolhas ideológicas e à mistura entre notícia, publicidade, entretenimento e propaganda política.
Também se alteraram as formas de participação. A baixa filiação partidária e sindical não significa necessariamente indiferença diante dos problemas públicos. Sposito e Tarábola identificam o crescimento de estudos sobre coletivos juvenis, culturas políticas, ocupações estudantis, redes e ações coletivas. As mobilizações secundaristas de 2015 e 2016, por exemplo, combinaram ocupação territorial das escolas, organização horizontal e intensa comunicação digital (3).
A pesquisa da FES confirma esse deslocamento. Apenas 25% dos entrevistados manifestaram muito ou bastante interesse por política, mas parcelas significativas participavam de causas relacionadas à família, ao meio ambiente, aos direitos das juventudes, ao antirracismo, ao feminismo e aos direitos trabalhistas. Outros 19% afirmaram não participar, mas demonstraram interesse em fazê-lo (6).
A participação juvenil não desapareceu. Ela se afastou parcialmente das organizações permanentes e se distribuiu por causas específicas, coletivos, campanhas e mobilizações descontínuas. Essa mudança amplia a pluralidade das formas de ação, mas também pode gerar fragmentação e dificuldade para transformar demandas episódicas em projetos políticos e instituições duradouras.
4. Democracia, desconfiança e ambivalência política
Os resultados de 2024 apresentam uma juventude politicamente heterogênea e, em vários aspectos, contraditória. Enquanto 66% consideram a democracia a melhor forma de governo, 58% concordam com a necessidade de líderes fortes e 49% admitem uma democracia sem partidos. Além disso, 57% não confiam nos partidos políticos, 45% desconfiam da Presidência da República e 42% do Poder Legislativo (6).
Esses resultados não permitem concluir que a maioria dos jovens rejeite conscientemente a democracia. Indicam, contudo, que a valorização abstrata do regime democrático pode coexistir com a desvalorização de seus componentes institucionais, como partidos, parlamentos, negociação política e pluralismo. Forma-se uma concepção potencialmente plebiscitária, segundo a qual a relação direta entre o povo e um líder seria mais legítima ou eficiente do que as mediações institucionais.
A crise de confiança cria condições favoráveis para discursos autoritários apresentados como soluções para a corrupção, a insegurança e a lentidão das instituições. A defesa de líderes fortes pode significar apenas demanda por capacidade governamental, mas também pode expressar abertura para a concentração de poder e o enfraquecimento dos controles democráticos. A distinção depende do conteúdo atribuído pelos entrevistados à expressão “líder forte”, aspecto que pesquisas quantitativas nem sempre conseguem esclarecer.
A autolocalização ideológica reforça a percepção de um campo em disputa. Em 2024, 44% dos entrevistados se posicionavam no centro, 38% na direita — incluindo 17% na extrema direita — e 18% na esquerda. Os homens apareciam mais próximos da direita e de valores tradicionais, enquanto as mulheres se posicionavam relativamente mais à esquerda e apresentavam maior sensibilidade a políticas de saúde, educação, redução da pobreza e igualdade de gênero (6).
Entretanto, essas posições não constituem blocos perfeitamente coerentes. Um mesmo jovem pode defender políticas sociais e desconfiar do Estado; apoiar a igualdade entre homens e mulheres e sustentar concepções tradicionais de família; preocupar-se com o meio ambiente e aderir a posições conservadoras em questões morais; valorizar a democracia e desejar um líder capaz de governar sem partidos.
A juventude brasileira não pode, portanto, ser classificada simplesmente como progressista ou conservadora. Seus posicionamentos combinam repertórios distintos e por vezes antagônicos, em um ambiente informacional marcado pela polarização e pela ação das plataformas digitais. É justamente essa ausência de coerência ideológica rígida que torna as juventudes um campo estratégico de disputa política.
Outro resultado relevante é a coexistência entre satisfação privada e pessimismo público. Em 2024, 68% estavam satisfeitos com a própria vida e 70% com as relações familiares, mas 55% estavam insatisfeitos com a situação do país e 46% com a economia. Mesmo assim, 88% acreditavam que seu futuro seria melhor (6).
Esse aparente paradoxo sugere uma privatização da esperança. O futuro individual permanece promissor, embora o país e suas instituições sejam avaliados negativamente. Em 2003 e 2013, a expectativa de melhoria parecia mais associada à expansão da educação, do trabalho e das políticas sociais. Em 2024, a esperança continua presente, mas se apoia mais intensamente no esforço individual, na família e na capacidade de adaptação.
Conclusões
A comparação entre as pesquisas realizadas de 2003 a 2024 mostra que educação, trabalho, violência, família, participação e expectativas de futuro permanecem como dimensões fundamentais da condição juvenil. O significado dessas dimensões, entretanto, modificou-se profundamente.
No início do século XXI, predominava a expectativa de que a ampliação da escolarização favoreceria a inserção profissional e a autonomia. Em 2013, essa expectativa foi parcialmente fortalecida pela expansão educacional, pela melhoria relativa da renda e pela institucionalização das políticas de juventude. A criação da Secretaria Nacional de Juventude e do Conselho Nacional de Juventude, em 2005, e a aprovação do Estatuto da Juventude, em 2013, expressaram o reconhecimento dos jovens como sujeitos de direitos.
Nos anos seguintes, a crise econômica, a precarização do trabalho e a pandemia tornaram as trajetórias mais instáveis. A educação continuou valorizada, mas perdeu parte de sua capacidade de garantir emprego e mobilidade. A passagem para a vida adulta tornou-se menos linear, com alternância entre estudo, desemprego, trabalhos temporários, retorno à família e adiamento da autonomia.
As desigualdades também permaneceram estruturantes. A utilização do plural “juventudes” representa mais do que uma opção terminológica. Ela reconhece que classe, raça, gênero e território produzem condições muito diferentes de escolarização, trabalho, participação e exposição à violência. Os jovens negros continuam sendo as principais vítimas de homicídios e manifestam maior desconfiança nas instituições policiais e judiciais.
A digitalização ampliou a capacidade de comunicação, expressão e organização, mas também criou novas formas de vulnerabilidade. As plataformas digitais facilitaram o surgimento de coletivos e mobilizações por causas, ao mesmo tempo que favoreceram a fragmentação informacional, a desinformação, a polarização e o crescimento de discursos autoritários.
A baixa confiança nos partidos e nas instituições não deve ser interpretada automaticamente como apatia. A participação juvenil deslocou-se para causas específicas, redes, coletivos e mobilizações descontínuas. Entretanto, esse deslocamento não garante, por si só, maior capacidade de produzir mudanças institucionais. O desafio consiste em transformar energia participativa, indignação e criatividade em formas duradouras de organização democrática.
A pesquisa de 2024 revela, por fim, uma juventude marcada por ambiguidades: democrática, mas aberta a líderes fortes; defensora de políticas públicas, mas desconfiada do Estado; preocupada com a desigualdade, mas influenciada pela responsabilização individual; insatisfeita com o país, mas otimista em relação ao próprio futuro. Essas contradições não são exclusivas dos jovens. Elas expressam tensões mais amplas da sociedade brasileira, intensificadas entre as novas gerações pela precarização das trajetórias e pela centralidade das redes digitais.
A principal transformação observada entre 2003 e 2024 pode ser sintetizada em dois deslocamentos. A esperança não desapareceu, mas passou do horizonte coletivo de desenvolvimento para projetos mais individualizados de adaptação e realização pessoal. A participação também não desapareceu, mas se afastou das organizações tradicionais e se distribuiu por causas, coletivos e redes. Compreender essas mudanças é essencial para formular políticas públicas que não tratem os jovens apenas como estudantes, trabalhadores em formação ou eleitores futuros, mas como sujeitos de direitos e participantes atuais da construção democrática.
Referências
(1) ABRAMO, Helena Wendel; BRANCO, Pedro Paulo Martoni (org.). Retratos da juventude brasileira: análises de uma pesquisa nacional. São Paulo: Fundação Perseu Abramo; Instituto Cidadania, 2005.
(2) BRASIL. Secretaria-Geral da Presidência da República. Secretaria Nacional de Juventude. Agenda Juventude Brasil: pesquisa nacional sobre perfil e opinião dos jovens brasileiros 2013. Brasília, DF: Secretaria Nacional de Juventude, 2014.
(3) SPOSITO, Marilia Pontes; TARÁBOLA, Felipe de Souza. Entre luzes e sombras: o passado imediato e o futuro possível da pesquisa em juventude no Brasil. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v. 22, n. 71, e227146, 2017. DOI: 10.1590/S1413-24782017227146.
(4) ATLAS DAS JUVENTUDES. Atlas das Juventudes: evidências para a transformação das juventudes. São Paulo: Em Movimento; Pacto das Juventudes pelos ODS, 2021.
(5) CONSELHO NACIONAL DA JUVENTUDE et al. Juventudes e a pandemia: e agora? Relatório nacional da terceira edição. Brasília, DF, 2022.
(6) FUNDAÇÃO FRIEDRICH EBERT. Juventudes: um desafio pendente: uma análise sobre democracia, participação e posicionamento político das juventudes no Brasil. São Paulo: FES Brasil, 2025.
P.S.: Usei a IA Chat GPT para buscar informações e elaborar uma ilustração para o texto, que foi concebido, editado e revisado por mim.



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