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Guerreiro Ramos e a modernização: da “estratégia do desenvolvimento” ao “modelo da possibilidade”

Resumo

Neste artigo examino as concepções de Guerreiro Ramos acerca de estratégia, estratégia do desenvolvimento, racionalidade e modernização, tal como formuladas em Administração e Contexto Brasileiro (obra originalmente publicada em 1966 como Administração e Estratégia do Desenvolvimento), e estudo suas transformações no artigo A Modernização em Nova Perspectiva: em busca do modelo da possibilidade, editado em três versões (1967, 1970 e 1983). Argumento que, enquanto no livro de 1966 a modernização é pensada como mudança social deliberada, analisada pela categoria de "etapa" e pela oposição entre racionalidade funcional e substancial, o artigo posterior promove uma inflexão epistemológica: a oposição entre Teoria N e Teoria P, a crítica ao enfoque sinóptico em favor do contextualismo dialético e a elevação da "possibilidade objetiva" à condição de modelo teórico autônomo. Concluo que essa trajetória revela a passagem de uma sociologia da administração voltada ao desenvolvimento nacional para uma reflexão sobre a modernização em escala planetária, marcada pela distinção entre nações hegemônicas e periféricas.

Palavras-chave: Guerreiro Ramos; modernização; estratégia; racionalidade; modelo da possibilidade.



Introdução


Guerreiro Ramos (1915-1982) é uma das figuras centrais do pensamento social brasileiro, cuja obra atravessa a sociologia, a ciência política e a teoria da administração. Em meados da década de 1960, ele publicou Administração e Estratégia do Desenvolvimento: elementos de uma sociologia especial da administração (1), obra que, após sua morte e com sua autorização, foi reeditada por Wilson Pizza Junior sob o novo título Administração e Contexto Brasileiro: esboço de uma teoria geral da administração (2). Nesse livro, Guerreiro Ramos oferece uma sociologia da administração ancorada na análise da racionalidade, da estratégia e da modernização das sociedades periféricas.

Duas décadas depois, o mesmo autor publicou, em versões sucessivas (1967, 1970 e 1983), o artigo A Modernização em Nova Perspectiva: em busca do modelo da possibilidade (3). Nesse texto, ele revisita os conceitos centrais de sua obra anterior e os reformula a partir de um novo referencial: o "modelo da possibilidade". A pergunta que orienta este artigo é: o que muda, e o que permanece, nas concepções de Guerreiro Ramos sobre estratégia, estratégia do desenvolvimento, racionalidade e modernização entre o livro de 1966 e o artigo posterior?

Para responder a essa questão, o presente artigo está organizado em quatro seções. Na primeira, examino a noção de estratégia e o modelo analítico de estratégia administrativa formulado no livro de 1966. Na segunda, identifico as definições de racionalidade funcional e substancial e de modernização como mudança social deliberada. Na terceira, apresento as transformações operadas no artigo posterior, com destaque para a oposição entre Teoria N e Teoria P e o modelo da possibilidade. Na quarta e última seção, reflito sobre as implicações dessas transformações para a compreensão da modernização em escala planetária, antes das conclusões.


Estratégia e o modelo analítico de estratégia administrativa


No livro de 1966, Guerreiro Ramos trata a estratégia não como conceito militar ou meramente empresarial, mas como categoria sociológica fundamental para pensar a mudança social deliberada (2). Para ele, a estratégia emerge quando há ruptura de consenso ou conflito, distinguindo-se da rotina, que opera sobre consenso estabelecido. O autor recupera a tradição de Mannheim, para quem o planejamento é uma forma de estratégia, e a insere no campo da sociologia (4).


O ponto central é o modelo analítico de estratégia administrativa, composto por cinco elementos fundamentais: o propósito, o agente ativo, o fator estratégico, a possibilidade objetiva e o consenso (2). O propósito confere sentido aos fatos; o agente ativo é o estrategista, ao mesmo tempo agente e observador participante; o fator estratégico é aquele que, quando controlado, torna eficaz a decisão; a possibilidade objetiva, de inspiração weberiana e lukácsiana, é a categoria essencial da estratégia; e o consenso é o mínimo necessário para que a ação estratégica seja possível (2).


Guerreiro Ramos defende ainda que a estratégia é a superação prático-concreta das teorias especulativas: é a praxis em que pensar e agir são inseparáveis (2). O administrador é descrito como um observador participante, que aplica conhecimento a problemas concretos. Nesse sentido, a diferença entre estratégia administrativa e estratégia revolucionária é de magnitude da mudança, não de natureza fundamental, o que torna o modelo extrapolável a toda estratégia no campo social (2).


Racionalidade e modernização no livro de 1966


A distinção central de Guerreiro Ramos sobre racionalidade é a oposição entre racionalidade funcional e racionalidade substancial, de inspiração weberiana e mannheimiana (2). A racionalidade funcional é a racionalidade dos meios-fins, orientada à eficácia e ao funcionamento produtivo, associada à ética da responsabilidade; a racionalidade substancial é a racionalidade baseada no conhecimento autônomo, que julga os fins e os valores, associada à ética da convicção (2). O autor define a ação administrativa como uma modalidade de ação social dotada de racionalidade funcional, criticando Simon e Waldo por submergirem a racionalidade substancial na funcional (2).


Quanto à modernização, Guerreiro Ramos a define como mudança social deliberada, a passagem de uma "etapa em particípio passado" para uma "etapa em particípio presente" (2). A sociedade moderna é tratada como categoria evolucionária, sociológica e comparativa, e a etapa como tipo-ideal weberiano, instrumento de comparação histórica. O autor critica a "sociologia tautológica" da modernização, baseada em pré-requisitos abstratos, propondo em seu lugar uma "sociologia pari passu", sensível ao contexto (2). No caso brasileiro, a modernização é marcada pela dualidade — "internamente arcaico e externamente moderno" — e pelo formalismo como estratégia de articulação da sociedade periférica com o mundo (2).


As transformações no artigo "A Modernização em Nova Perspectiva"


No artigo posterior, Guerreiro Ramos promove uma inflexão epistemológica em relação ao livro de 1966 (3). A principal novidade é a oposição entre Teoria N e Teoria P. A Teoria N supõe uma necessidade histórica que empurra todas as sociedades para o estágio de "desenvolvidas", usando dicotomias como "desenvolvidos × subdesenvolvidos" e "paradigmáticos × seguidores". A Teoria P, por sua vez, admite que a modernidade não está localizada em lugar nenhum: cada nação tem possibilidades próprias de modernização, que podem ser bloqueadas por modelos normativos rígidos e estranhos ao seu potencial (3).


O artigo eleva a "possibilidade objetiva", que no livro era um dos cinco elementos do modelo de estratégia, à condição de modelo teórico autônomo: o "modelo da possibilidade" (3). Guerreiro Ramos reconstrói sua genealogia, percorrendo Renouvier, Weber, Mannheim, Bloch, Gurvitch, Merton, MacIver e Dupréel (3). O deslocamento é claro: a estratégia deixa de ser escolha entre alternativas dadas e passa a ser a criação e atualização de possibilidades próprias, em vez de replicar um modelo alheio.


No plano da racionalidade, o autor opõe o enfoque sinóptico, que supõe causas necessárias e conhecimento racional completo dos eventos históricos, ao contextualismo dialético, que admite não haver causas absolutamente necessárias e reconhece a interação entre escolhas humanas e fatores objetivos (3). A racionalidade deixa de ser apenas uma questão de meios e fins e passa a ser uma questão de participação relativa na realidade: compreender a modernização exige inserir-se nela, não observá-la de fora.


Da estratégia nacional à modernização planetária


A última transformação diz respeito ao quadro de referência da estratégia do desenvolvimento. No livro de 1966, a estratégia do desenvolvimento era pensada em termos nacionais: elites industrializantes, esquema de substituições de Gerschenkron e industrialização como processo cardinal (2). No artigo posterior, o quadro se amplia para a sociedade planetária: a modernização é descrita como subproduto do processo que cria um supersistema mundial, e contextos nacionais isolados já não explicam a modernização (3).


Dois efeitos são centrais nessa análise: o efeito de demonstração, pelo qual as aspirações dos países periféricos são moldadas pelos padrões de consumo dos desenvolvidos, criando descompasso entre aspiração e capacidade produtiva; e o efeito de dominação, de François Perroux, pelo qual as nações hegemônicas condicionam as economias periféricas muito mais do que são condicionadas por elas (3). Guerreiro Ramos chega a afirmar que os termos "desenvolvido/subdesenvolvido" e "pioneiro/seguidor" são ideológicos, propondo substituí-los pela distinção entre nações hegemônicas e periféricas (3). A conclusão do artigo mantém, porém, um fio de continuidade com o livro: a modernização é uma preocupação humana constante que exige comportamento estratégico dos governos — mas agora num cenário mundial de assimetria de poder (3).


Quadro Comparativo: Evolução Conceitual em Guerreiro Ramos

Conceito

Livro (1966)

Artigo (1967/1970/1983)

Estratégia

Categoria sociológica de ação deliberada diante de conflito/ruptura de consenso; modelo analítico de cinco elementos (propósito, agente ativo, fator estratégico, possibilidade objetiva, consenso); superação prático-concreta das teorias especulativas.

A "possibilidade objetiva" é elevada à condição de modelo teórico autônomo (o "modelo da possibilidade"); a estratégia deixa de ser escolha entre alternativas dadas e passa a ser criação e atualização de possibilidades próprias.

Modernização

Mudança social deliberada; passagem de "etapas" (tipo-ideal weberiano); sociedade moderna como categoria comparativa; crítica à sociologia tautológica em favor da sociologia pari passu.

Oposição Teoria N × Teoria P; crítica à necessidade histórica; a dicotomia desenvolvido/subdesenvolvido é rejeitada como ideológica; modernidade não localizada em lugar nenhum.

Racionalidade

Oposição entre racionalidade funcional (meios-fins, eficácia, ética da responsabilidade) e racionalidade substancial (fins e valores, ética da convicção); crítica a Simon e Waldo.

Crítica ao enfoque sinóptico; defesa do contextualismo dialético; racionalidade como participação relativa na realidade.

Desenvolvimento

Quadro nacional: elites industrializantes (Kerr e outros), esquema de substituições de Gerschenkron, industrialização como processo cardinal.

Quadro planetário: supersistema mundial, efeitos de demonstração e dominação (Perroux); distinção entre nações hegemônicas e periféricas.

Fonte: elaboração própria, com uso de IA


O quadro evidencia que a transformação central não é apenas temática, mas epistemológica: Guerreiro Ramos desloca a análise do plano nacional para o planetário e, sobretudo, da lógica da necessidade (Teoria N) para a lógica da possibilidade (Teoria P). O que permanece é a convicção de que a modernização exige ação estratégica deliberada, mas essa ação passa a ser pensada como criação de possibilidades próprias, e não como replicação de um modelo alheio.


Conclusões


A trajetória de Guerreiro Ramos entre o livro de 1966 e o artigo posterior revela uma transformação profunda, mas não uma ruptura total. No livro, a modernização é pensada como mudança social deliberada, analisada pela categoria de etapa e pela oposição entre racionalidade funcional e substancial, com a estratégia do desenvolvimento circunscrita ao quadro nacional. No artigo, a modernização é repensada a partir do modelo da possibilidade, da oposição entre Teoria N e Teoria P e do contextualismo dialético, em um quadro planetário marcado pela distinção entre nações hegemônicas e periféricas.

O que permanece é a convicção de que a modernização é uma preocupação humana constante que exige ação estratégica deliberada, e a crítica à imposição de modelos normativos estranhos às possibilidades de cada sociedade. O que muda é o estatuto epistemológico da estratégia, que deixa de ser escolha entre alternativas dadas para se tornar criação de possibilidades próprias, e o quadro de referência, que se amplia do nacional ao planetário.

A atualidade dessa reflexão reside justamente nessa inflexão: em um mundo marcado por assimetrias de poder e pela hegemonia de modelos de desenvolvimento, a proposta de Guerreiro Ramos de buscar o "modelo da possibilidade" de cada sociedade permanece um convite à crítica das teorias que naturalizam a necessidade histórica e à afirmação da autonomia dos povos na construção de seu próprio desenvolvimento.


Referências

1.       GUERREIRO RAMOS, A. Administração e Estratégia do Desenvolvimento: elementos de uma sociologia especial da administração. Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas, 1966.

2.       GUERREIRO RAMOS, A. Administração e Contexto Brasileiro: esboço de uma teoria geral da administração. 2. ed. Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas, 1983.

3.       GUERREIRO RAMOS, A. A modernização em nova perspectiva: em busca do modelo da possibilidade. Primeira versão: 1967; revisto em 1970 e 1983. In: HEIDEMANN, F. G.; SALM, J. F. (org.). Políticas públicas e desenvolvimento: bases epistemológicas e modelos de análise. Brasília: Editora UnB, 2009. p. 42-59.

4.       MANNHEIM, K. Ideologia e Utopia. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.

 

P.S.: Usei IA ONE na busca e organização das informações e na elaboração da ilustração para o texto, que foi concebido, editado e revisado por mim.

 
 
 

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