Dilemas das organizações de catadores em Santa Catarina: entre o mercado e o Estado
- Sérgio Luís Boeira
- 8 de jul.
- 6 min de leitura
Atualizado: 9 de jul.
Num texto anterior, intitulado A política do lixo em SC: cinco modelos e o lugar dos catadores (publicado nesse blog em 25 de abril de 2026), analisei cinco modelos de tratamento de resíduos recicláveis em Santa Catarina e discuti como consórcios públicos, arranjos municipais e uma multinacional como a Veolia disputam o controle da política do lixo, muitas vezes deixando os catadores fora da mesa de decisão. Ali, o foco estava na arquitetura institucional da PNRS (Política Nacional de Resíduos Sólidos) em SC: quem opera a coleta, quem controla a triagem, quem ganha com a destinação final. Aqui, proponho outro movimento: olhar para as organizações de catadores catarinenses dentro desse campo já mapeado, e explorar seus dilemas entre mercado e Estado – em contexto de conflito sobre identidade do movimento social e de modelos de sociedade.

Cinco modelos de tratamento de resíduos, um mesmo conflito de classe
Em Santa Catarina, o e‑book Pró‑Catadores (editado pelo Sebrae-SC, 2026) mostra que 2.712 catadores atuam em 147 cooperativas, em geral com galpões precários, maquinário insuficiente e rendas abaixo do salário mínimo. São trabalhadores e trabalhadoras que realizam um papel central na economia circular – responsáveis por grande parte do que efetivamente se recicla – mas permanecem invisibilizados, vulneráveis e com pouco acesso a contratos estruturantes com o poder público.
No artigo dos “cinco modelos”, vimos que a PNRS e o Programa Pró‑Catadores criam, em tese, um lugar prioritário para cooperativas e associações de catadores na coleta seletiva e triagem. Na prática, porém, os arranjos catarinenses são desenhados a partir de consórcios e empresas:
consórcios como CIRSURES e CIMVI constroem infraestruturas e pátios de triagem, racionalizam custos entre municípios, mas não colocam os catadores como sujeitos centrais da política de resíduos, e os dados sobre número de cooperados, renda e contratos são escassos ou pouco visíveis;
modelos como COINCO, na região de Chapecó, prometem incentivar associações e cooperativas, porém enfrentam baixa cobertura de coleta seletiva e fragilidade organizacional, reproduzindo quadros de precariedade;
Florianópolis combina contratos com cooperativas e consórcios com empresas de destinação, produzindo uma situação híbrida: os catadores têm algum espaço, mas convivem com uma lógica de mercado forte e com a presença de operadores privados em etapas decisivas da cadeia;
o consórcio da Veolia avança como operador privado transmunicipal, concentrando a destinação final de resíduos e estruturando um campo corporativo em que o “grosso do negócio” já migrou para uma arena onde os catadores quase não aparecem.
Sob a aparência técnica da gestão de resíduos, há um conflito de classe: de um lado, consórcios tecnocráticos e uma multinacional organizam fluxos de lixo e de dinheiro; de outro, homens e mulheres que garantem a reciclagem com o próprio corpo continuam em situação de trabalho insalubre, baixa remuneração e pouca voz. A PNRS fala em inclusão de catadores, mas a política concreta, nos municípios e consórcios catarinenses, tende a tratá‑los como mão de obra barata da economia circular.
Catadores entre consórcios, multinacionais e projetos federais
Nesse campo, as organizações de catadores – cooperativas, associações, federação estadual – se veem pressionadas a se reposicionar. De um lado, consórcios públicos aparecem como instrumentos de cooperação entre municípios, capazes de racionalizar custos, instalar tecnologias e cumprir metas ambientais. Do ponto de vista dos catadores, porém, a ausência de dispositivos claros de governança compartilhada coloca um dilema político: entrar como prestadores de serviço subordinados ou disputar espaço como sujeitos da política de resíduos?
De outro lado, programas federais e atores empresariais entram com força. O Pró‑Catadores, executado em SC pelo Sebrae, descreve os catadores como “protagonistas do empreendedorismo verde” e oferece diagnósticos, consultorias e reorganização da gestão para que as cooperativas “levem o negócio igual à gestão de uma empresa”, emitam notas fiscais, captem recursos e sejam contratadas em circuitos maiores da logística reversa. Isso melhora a capacidade de navegar tanto no mercado quanto nas políticas de resíduos, mas o faz a partir da racionalidade empresarial: índices de maturidade, planilhas, produtividade, acesso ao mercado formal.
Ao mesmo tempo, empresas especializadas em captação de recursos – como a CAPTA+, com quem a federação catarinense discute adequações estatutárias – se apresentam como parceiras para acessar editais, emendas e financiamentos públicos. A agenda das organizações de catadores passa a ser cada vez mais traduzida em linguagem de projetos, indicadores, relatórios e metas. Os dilemas se multiplicam: quanta energia deve ser investida em adequar estatutos, relatórios e planilhas para acessar recursos? Em que medida isso fortalece ou desvia o foco da mobilização de base, da autogestão e da luta por direitos sociais?
Foi nesse contexto que, a partir de um projeto de extensão universitária, elaborei um material de formação em formato de perguntas e respostas, dirigido às organizações de catadores de SC. Não se trata de falar em nome da federação, mas de propor trilhas de reflexão: o que significa virar cooperativa de segundo grau à luz da Lei 5.764/1971? Quais são os riscos da centralização econômica? Como se situam a Lei Paul Singer (15.068/2024) e a perspectiva da economia solidária nessa disputa? O foco é estimular o debate sobre caminhos possíveis, não oferecer uma cartilha de solução.
Para a militância de movimentos sociais ligados às questões da reciclagem, o recado é claro: programas como Pró‑Catadores e empresas de captação podem ser usados estrategicamente, mas não são neutros. Eles carregam uma racionalidade de mercado e de Estado que pode fortalecer as cooperativas em termos materiais – galpões, máquinas, contratos – e, ao mesmo tempo, deslocar o centro da luta de base para a gestão de projetos. A questão não é recusar automaticamente essas parcerias, mas entrar nelas com consciência política, construindo salvaguardas de autogestão e protagonismo dos catadores.
Aprender com Diadema e Rio sem copiar modelos
Nesse debate, experiências como Diadema/Coopcent ABC e Rio/Fábrica Verde funcionam como horizontes em aberto. Não são modelos a serem copiados, mas espelhos que ajudam a imaginar outras combinações entre catadores, mercado e Estado.
Em Diadema e no Grande ABC, a Coopcent ABC nasce da união de grupos de catadores num território com longa tradição de governo popular e mobilização sindical. A Cooperativa Central de Catadores e Catadoras se organiza como cooperativa de segundo grau, articulando cooperativas de primeiro grau e associações em rede e assumindo princípios explícitos de autogestão democrática e economia solidária. Na prática, a central organiza a comercialização coletiva: as cooperativas de base vendem para a Coopcent, que negocia diretamente com indústria e grandes geradores, reduz atravessadores e melhora preços. Há centralização e desafios de governança, mas há também esforço de manter o eixo normativo na organização em rede dos trabalhadores, e não apenas na eficiência empresarial.
No Rio de Janeiro, a Fábrica Verde, instalada na Avenida Brasil, aparece como grande equipamento público de economia circular: triagem em escala, produção de telhas ecológicas, cobertores, roupas, sabão, formação de centenas de pessoas por ano. Um estudo de caso em revista científica apresenta a Fábrica Verde como proposta de economia circular em metrópole, articulando metas ambientais, inovação tecnológica e inclusão socioprodutiva de populações de baixa renda. Catadores e moradores de periferia são convidados a integrar o projeto como trabalhadores e beneficiários, em uma política urbana em que o Estado municipal define investimentos, desenho da planta e parcerias com indústria.
Santa Catarina não é Diadema, nem Rio. Tem uma federação mais frágil, consórcios tecnocráticos, uma multinacional forte, governos avessos às lutas sociais e uma base de cooperativas que ainda carece de maior estrutura, reconhecimento e poder de incidência. Justamente por isso, essas experiências servem menos como “receitas” e mais como provocação: que elementos de uma central cooperativa autogestionária (como a Coopcent ABC) e de um equipamento público de economia circular (como a Fábrica Verde) poderiam, em tese, dialogar com os cinco modelos catarinenses? Que alianças entre MNCR, federação, universidades, programas federais e consórcios seriam necessárias para transformar consórcios e empresas em espaços de governança compartilhada com catadores, em vez de apenas contratantes?
Entre consórcios tecnocráticos e projetos empresariais, as organizações de catadores catarinenses caminham hoje sobre um fio fino. Precisam de recursos, contratos, máquinas e galpões para sair da precariedade. Ao mesmo tempo, sabem – pela própria experiência e pela reflexão acumulada no MNCR e na economia solidária – que inclusão sem poder de decisão pode significar apenas uma nova forma de subordinação: agora na linguagem da economia circular e do empreendedorismo verde.
Para a militância de movimentos sociais, o desafio é duplo. De um lado, disputar a política do lixo como campo de conflito de classe, exigindo que consórcios e empresas abram dados, reconheçam cooperativas e garantam direitos e participação. De outro, construir arranjos organizativos – sejam federações em rede, cooperativas de segundo grau com salvaguardas democráticas ou parcerias críticas com equipamentos públicos – em que os catadores deixem de ser apenas aqueles que fazem coleta/triagem e passem a ser, também, sujeitos que decidem sobre o destino dos resíduos, sobre o uso dos recursos e sobre os horizontes de transformação que querem construir em Santa Catarina.
P.S.: Usei IA Perplexity Pro no levantamento de informações e Adapta One na elaboração da imagem que ilustra esse artigo, tendo revisado a versão final, sobre a qual assumo inteira responsabilidade.



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