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Entre a partilha e a metamorfose: cenários para a ordem global

1 de set.
20 min de leitura

Objetivo

Examinar tendências contemporâneas da economia, da geopolítica, da tecnologia, da energia, das instituições e da crise socioambiental mundial mediante a construção de cenários prospectivos, tomando como referência o ambientalismo complexo-multissetorial. O propósito não é prever o futuro, mas identificar correlações de forças, acontecimentos e indicadores capazes de aumentar ou diminuir a probabilidade de diferentes configurações da ordem mundial, considerando particularmente as singularidades e possibilidades do Brasil.


Sumário

  1. Introdução: pensar cenários num mundo incerto

  2. Do crescimento econômico à multidimensionalidade do desenvolvimento

  3. Instituições, inclusão e os limites do nacionalismo metodológico

  4. Energia, tecnologia e possibilidades de descentralização

  5. Segurança, democracia e direitos humanos

  6. Cenário I — A partilha do mundo pelas grandes potências

  7. Cenário II — Multipolaridade competitiva e transição energética

  8. Cenário III — Capitalismo verde, digital e oligopolizado

  9. Cenário IV — Metamorfose planetária e multilateralismo

  10. Cenário transversal — Regressão ecossistêmica

  11. Ambientalismo complexo-multissetorial, correlações de forças e construção de cenários

  12. Indicadores de bifurcação: como reconhecer qual cenário ganha força?

  13. Considerações finais


1. Introdução: pensar cenários num mundo incerto

O deslocamento do centro de gravidade da economia mundial, a ascensão da China e da Índia, a ampliação dos BRICS, a atuação do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), a diversificação monetária, a expansão das energias renováveis, o desenvolvimento do hidrogênio de baixa emissão de carbono e a digitalização coexistem com tendências aparentemente opostas: guerras, nacionalismos, unilateralismo, protecionismo, concentração empresarial, corrida armamentista, persistência dos combustíveis fósseis e enfraquecimento de instituições multilaterais.


Nenhuma dessas tendências, considerada isoladamente, parece suficiente para caracterizar a transformação em curso. Mesmo a comparação econômica entre BRICS e G7 assume significados distintos conforme o indicador utilizado. O PIB medido por paridade do poder de compra evidencia o extraordinário deslocamento da capacidade produtiva mundial em direção às economias emergentes, enquanto o PIB nominal continua revelando a elevada capacidade financeira das economias desenvolvidas. As taxas de crescimento, por sua vez, informam a velocidade relativa da transformação, mas pouco dizem sobre sua qualidade social e ecológica.


A emergência climática torna essa insuficiência ainda mais evidente. Em um planeta biofisicamente limitado, não basta perguntar quanto uma economia cresce. É necessário perguntar mediante quais tecnologias, consumindo quais recursos, produzindo quais emissões, distribuindo benefícios e custos entre quais grupos e contribuindo para qual configuração futura da sociedade mundial.


Acemoglu e Robinson acrescentam a importância das instituições e da distribuição do poder. Em Por que as nações fracassam, contrapõem instituições inclusivas e extrativistas, associando as primeiras à ampliação de oportunidades, inovação e prosperidade (1). Essa contribuição permite deslocar a atenção das taxas de crescimento para os mecanismos pelos quais o poder político e econômico condiciona as possibilidades de participação, educação e inovação.


A trajetória chinesa, contudo, recomenda cautela diante de classificações excessivamente binárias. A China promoveu industrialização, desenvolvimento tecnológico e inclusão socioeconômica em escala histórica sem reproduzir o modelo institucional das democracias liberais ocidentais. A questão deixa, portanto, de ser simplesmente se determinado país é “inclusivo” ou “extrativista” e passa a envolver diferentes dimensões da inclusão: econômica, social, política, tecnológica e ambiental.


Jeremy Rifkin desloca a análise em outra direção. Redes digitais, energias renováveis e prosumidores poderiam favorecer formas mais distribuídas de organização econômica e a expansão do procomum colaborativo (2). Mas o próprio problema da propriedade e da governança das novas infraestruturas impede que essa possibilidade seja convertida em determinismo tecnológico.

Ulrich Beck amplia ainda mais a escala da análise. Os riscos contemporâneos atravessam fronteiras, tornando insuficiente aquilo que denominou “nacionalismo metodológico”: a tendência de interpretar processos transnacionais como se as sociedades nacionais continuassem constituindo unidades relativamente autônomas (3).


Edgar Morin permite religar essas dimensões. Economia, tecnologia, política, energia, cultura, segurança e ecologia não constituem variáveis independentes que possam ser simplesmente adicionadas. Formam relações de complementaridade, antagonismo, recorrência e retroação. A incerteza, nesse contexto, não representa apenas insuficiência temporária de informações; pertence à própria dinâmica histórica (4).


É nesse ponto que o ambientalismo complexo-multissetorial ganha especial importância. O conceito surgiu no Brasil no início da década de 1990 buscando compreender o ambientalismo não como fenômeno restrito a organizações especializadas, mas como processo histórico envolvendo diferentes setores e classes sociais, sustentado epistemologicamente pelo pensamento complexo de Morin (5).


Desde sua formulação inicial, o conceito esteve relacionado à percepção de que setores diferentes, possuindo temporalidades, valores e interesses distintos, começavam a estabelecer relações de intercomunicação e aproximação. O fenômeno foi compreendido não apenas como movimento social em sentido estrito, mas como parte potencial de uma transformação civilizatória (5).


Por essa razão, a análise proposta neste texto adota uma perspectiva de cenários. Não se trata de prever qual futuro ocorrerá, mas de investigar quais tendências, acontecimentos e correlações de forças tornam determinados futuros mais ou menos prováveis.


2. Do crescimento econômico à multidimensionalidade do desenvolvimento

O crescimento econômico continua sendo variável relevante, mas perde sua condição de indicador sintético de progresso. Uma economia pode crescer mediante expansão de combustíveis fósseis, desmatamento e exploração intensiva de recursos naturais; outra pode crescer substituindo carvão por fontes renováveis, aumentando eficiência energética e eletrificando processos produtivos.

Também é possível reduzir emissões dentro de determinado território enquanto se importam produtos cuja fabricação transfere emissões, degradação ambiental e trabalho precário para outras regiões. Uma sustentabilidade medida exclusivamente em escala nacional pode esconder insustentabilidade global.


Isso torna necessário observar simultaneamente crescimento, distribuição social, intensidade material, intensidade carbônica, inovação tecnológica e impactos ecológicos.


A comparação internacional exige ainda atenção às diferentes estruturas nacionais. O problema climático brasileiro não possui a mesma configuração que o chinês, o indiano ou o norte-americano. No Brasil, mudanças de uso da terra, desmatamento e agropecuária possuem importância que não pode ser reduzida à política energética.


O desenvolvimento precisa, portanto, ser compreendido como processo multidimensional. Uma economia maior pode ser socialmente mais desigual, ecologicamente mais destrutiva ou politicamente mais concentrada. Da mesma forma, uma economia que se descarboniza pode fazê-lo reproduzindo estruturas oligopolistas.


A pergunta deixa de ser apenas quanto se cresce e passa a incluir o que cresce, para quem, mediante quais tecnologias, sob quais instituições e com quais consequências ecológicas.


3. Instituições, inclusão e os limites do nacionalismo metodológico


Acemoglu e Robinson chamam atenção para aquilo que indicadores macroeconômicos frequentemente escondem: a distribuição institucional do poder. Instituições econômicas e políticas condicionam oportunidades de acesso à educação, mercados, inovação e propriedade. Instituições extrativistas possibilitam que grupos politicamente poderosos utilizem a organização econômica em benefício próprio (1).


Em trabalhos posteriores, a relação entre Estado e sociedade adquire importância crescente. O problema passa a ser evitar tanto o Estado incapaz quanto aquele que se torna excessivamente poderoso diante da sociedade. A liberdade dependeria de uma interação dinâmica entre capacidade estatal e mobilização social.


Entretanto, inclusão precisa ser desagregada. Inclusão econômica não equivale automaticamente a inclusão política; direitos civis não asseguram igualdade socioeconômica; segurança material não significa necessariamente liberdade intelectual; participação eleitoral não garante influência equivalente sobre decisões econômicas.


Além disso, diferentes sociedades construíram historicamente relações distintas entre Estado, mercado, comunidade, indivíduo e coletividade. A democracia liberal constitui uma experiência histórica fundamental, mas não deveria ser transformada automaticamente em medida exclusiva para interpretar todas as formas possíveis de legitimidade, representação e participação.


O inverso também seria inadequado: nenhuma autodefinição governamental como democrática dispensa o exame empírico da participação, dos direitos, da possibilidade de contestação e dos mecanismos de responsabilização do poder.


Há ainda um problema de escala. Uma sociedade pode organizar instituições relativamente inclusivas internamente e participar de relações internacionalmente extrativistas. Pode transferir emissões, mineração, resíduos e formas precárias de trabalho para outros territórios.


É nesse ponto que a crítica de Beck ao nacionalismo metodológico se torna decisiva: a qualidade institucional de uma sociedade não deveria ser avaliada apenas por aquilo que ocorre dentro de suas fronteiras.


4. Energia, tecnologia e possibilidades de descentralização


A transição energética ocupa posição central nos cenários porque modifica simultaneamente economia, tecnologia, geopolítica e relações com os ecossistemas.


Essa centralidade possui raízes no próprio ambientalismo complexo-multissetorial. Na formulação de 1990, a eficiência energética aparecia como uma das características fundamentais de uma sociedade sustentável, juntamente com a sustentabilidade ecológica dos sistemas produtivos e formas de auto-eco-organização individual e coletiva.


Três décadas depois, a questão energética tornou-se muito mais complexa. Além da eficiência, é preciso observar substituição dos combustíveis fósseis, eletrificação, redes, armazenamento, geração distribuída, hidrogênio, minerais críticos e estrutura de propriedade das infraestruturas.


Petróleo e gás possuem forte concentração territorial. Durante mais de um século, essa característica conferiu enorme importância estratégica aos países e rotas que controlam sua produção e circulação.


Solar e eólica apresentam geografia diferente. Embora dependam de infraestrutura, minerais, equipamentos e redes, sua fonte primária encontra-se muito mais distribuída pelo planeta.


Essa diferença abre possibilidades de descentralização. Residências, cooperativas, universidades, municípios e pequenas empresas podem tornar-se produtoras de eletricidade. Consumidores podem tornar-se parcialmente "prossumidores" (neologismo originado do inglês prosumer prosumer que provém da junção de produtor + consumidor ou profissional + consumidor).


Mas possibilidade tecnológica não implica determinação política. A geração renovável pode organizar-se tanto mediante milhões de pequenas unidades quanto por grandes complexos controlados por poucos conglomerados. O hidrogênio pode favorecer descarbonização industrial nacional ou reproduzir enclaves exportadores.


Por isso, precisamos distinguir descarbonização de descentralização. A primeira pergunta quanto carbono deixa de ser emitido. A segunda pergunta quem controla a energia, quem possui a infraestrutura e como seus benefícios são distribuídos.


5. Segurança, democracia e direitos humanos


A introdução da segurança amplia a análise. Segurança não pode ser reduzida à defesa militar. Poder circular sem medo de violência constitui dimensão elementar da liberdade. Segurança alimentar, saúde, habitação e proteção contra vulnerabilidades econômicas integram as condições materiais da existência. Existe, entretanto, uma segurança diante do próprio poder. Pesquisar, ensinar, publicar, discordar, organizar-se e participar politicamente sem temor de represálias constituem outras dimensões fundamentais. Isso recomenda distinguir segurança física, socioeconômica, política, intelectual e ecológica.


A mudança climática acrescenta uma escala superior: segurança planetária. Nenhum Estado consegue proteger isoladamente sua população diante de fenômenos como mudanças climáticas, pandemias, colapso de grandes ecossistemas ou guerra nuclear.


Os direitos humanos também precisam ser compreendidos multidimensionalmente. Tradições liberais enfatizaram direitos civis e políticos; outras experiências políticas atribuem maior centralidade a direitos sociais, econômicos e coletivos. A análise comparativa precisa evitar tanto a redução dos direitos humanos a uma única tradição quanto um relativismo que torne qualquer prática imune à crítica.


6. Cenário I — A partilha do mundo pelas grandes potências


O primeiro cenário resulta do fortalecimento do unilateralismo, do nacionalismo econômico e da utilização crescente da força na política internacional. Não pressupõe uma aliança ideológica entre grandes potências. Pode emergir justamente de sua competição. Estados dotados de maior poder econômico e militar tenderiam a reconhecer, formal ou informalmente, áreas privilegiadas de influência, fazendo prevalecer relações assimétricas diante de países mais fracos.


Petróleo, gás, minerais críticos, semicondutores, infraestrutura digital, rotas marítimas e inteligência artificial seriam progressivamente securitizados. Teríamos uma multipolaridade sem multilateralismo: vários centros de poder coexistiriam, mas a pluralidade de potências não seria acompanhada pela construção correspondente de instituições cooperativas.


O lugar do Brasil nesse cenário adquiriria importância por sua própria abundância: território continental, biodiversidade, água, produção agrícola, minerais, petróleo, potencial renovável e posição no Atlântico Sul.


Essa importância seria ambivalente. Quanto maior o valor estratégico de seus recursos, maior a pressão para alinhamentos externos.


A Amazônia poderia ser progressivamente reinterpretada não apenas como ecossistema (bioma) essencial à estabilidade climática, mas como espaço estratégico envolvendo biodiversidade, carbono, minerais, água e soberania territorial.


A questão fundamental seria saber se o Brasil conseguiria preservar autonomia estratégica ou se sua abundância de recursos aumentaria sua vulnerabilidade às disputas entre grandes potências.


7. Cenário II — Multipolaridade competitiva e transição energética


Um segundo cenário combina a permanência da competição geopolítica com transformação acelerada da infraestrutura energética.

As grandes potências continuariam disputando mercados, tecnologias e influência, mas a expansão de solar, eólica, armazenamento, eletrificação e hidrogênio reduziria progressivamente a centralidade relativa das reservas fósseis.


Não desapareceria a geopolítica da energia. Ela seria reconfigurada. Minerais críticos, baterias, eletrolisadores, semicondutores, redes e conhecimento tecnológico ganhariam importância. Ao mesmo tempo, a maior dispersão geográfica do sol e do vento poderia ampliar a autonomia energética de países e comunidades.


Essa transformação contém possibilidades democratizantes, mas não assegura democracia. Fontes descentralizadas podem coexistir com propriedade concentrada das tecnologias e das infraestruturas.


O lugar do Brasil nesse cenário estaria particularmente bem posicionado devido à combinação de hidreletricidade, bioenergia, solar, eólica e potencial de hidrogênio de baixa emissão.


A questão decisiva seria se o país utilizaria essa vantagem apenas para exportar energia ou para promover transformação produtiva. Produzir eletricidade renovável para exportar hidrogênio representa uma possibilidade. Utilizar eletricidade renovável e hidrogênio para produzir fertilizantes, aço de baixo carbono, produtos químicos e novas tecnologias no território brasileiro representa outra, qualitativamente diferente. Nesse segundo caminho, energia deixaria de constituir apenas vantagem comparativa natural e se tornaria fundamento de uma política de desenvolvimento tecnológico e industrial.


8. Cenário III — Capitalismo verde, digital e oligopolizado


Um terceiro cenário é necessário para evitar a identificação automática entre descarbonização e democratização. A transição energética poderia avançar rapidamente enquanto propriedade e poder econômico se tornassem ainda mais concentrados. Grandes conglomerados de energia, tecnologia, mineração, finanças e inteligência artificial poderiam controlar as infraestruturas fundamentais da economia de baixo carbono.


Nesse caso, emissões poderiam diminuir enquanto desigualdades patrimoniais e assimetrias de poder aumentassem. Não seria exatamente um fracasso da transição energética. Poderia haver considerável êxito tecnológico. O problema estaria na ausência de correspondente transformação democrática. A modernização ecológica coexistiria com concentração econômica, dependência tecnológica e possibilidades ampliadas de vigilância.


O lugar do Brasil nesse cenário: o risco brasileiro seria reproduzir, sob nova forma, uma posição histórica de fornecedor de recursos para os centros tecnológicos da economia mundial. Além de soja, minério e petróleo, poderiam adquirir crescente importância hidrogênio, amônia verde, minerais críticos, biomassa e produtos intensivos em eletricidade renovável.


A aparência seria de modernização. Entretanto, permaneceriam questões decisivas: quem controla os ativos? Onde se desenvolvem as tecnologias? Quem possui as patentes? Onde permanecem os empregos mais qualificados? Quanto valor agregado permanece no país? Que territórios assumem os custos socioambientais?


O Brasil poderia tornar-se uma importante potência energética verde e continuar relativamente periférico na divisão internacional do trabalho. A distinção fundamental seria entre transição energética e extrativismo verde.


9. Cenário IV — Metamorfose planetária e multilateralismo


O cenário da metamorfose é o mais exigente porque não decorre automaticamente de qualquer variável isolada. A expansão das renováveis não produz metamorfose por si mesma. A multipolarização não produz multilateralismo automaticamente. A digitalização não conduz necessariamente à democratização. A diversificação monetária não elimina hierarquias.


A metamorfose surgiria da reorganização das relações entre essas transformações. Uma multipolarização com significado metamórfico exigiria que a pluralidade de centros de poder fosse acompanhada por instituições capazes de reconhecer essa diversidade e, ao mesmo tempo, criar mecanismos de cooperação para problemas cuja escala ultrapassa as soberanias nacionais.


A diversificação monetária também dependeria de sua configuração institucional. Reduzir a dependência de uma moeda dominante pode ampliar autonomia, mas a simples substituição de uma hegemonia monetária por outra mudaria o centro da hierarquia sem alterar sua lógica.


O mesmo vale para a energia. Solar, eólica, armazenamento e hidrogênio podem diminuir dependências fósseis e ampliar a produção distribuída, mas podem igualmente integrar estruturas oligopolizadas. Sua dimensão metamórfica dependeria das relações de propriedade, do acesso à tecnologia, da participação social, da distribuição dos benefícios e de sua compatibilidade com limites ecossistêmicos.


A metamorfose não seria, portanto, um resultado setorial. Seria uma transformação qualitativa das relações entre economia, política, tecnologia, cultura e ecologia. Em Terra-Pátria, Morin e Kern oferecem um fundamento particularmente fecundo para pensar essa possibilidade sem convertê-la em profecia. A humanidade compartilha uma comunidade de destino terrestre, mas essa condição comum não assegura qualquer desenlace favorável (4).


No final da obra, o “Evangelho da Perdição” recusa precisamente uma promessa de salvação garantida. A fraternidade é relacionada à consciência da finitude, da pertença à mesma comunidade terrestre e da participação numa aventura cujo desfecho permanece desconhecido (4).


Essa consciência da perdição não implica pessimismo ou resignação. Ela retira da fraternidade qualquer fundamento determinista. A humanidade pode reconhecer sua interdependência e transformar riscos comuns em cooperação e responsabilidade planetárias; pode também responder à insegurança mediante nacionalismo, militarização, competição por recursos e fechamento identitário.


A noção de metamorfose, desenvolvida posteriormente por Beck, acrescenta outro elemento. Em vez de pensar apenas mudanças que ocorrem dentro das categorias existentes, Beck procura compreender transformações que modificam os próprios horizontes e referenciais mediante os quais o mundo é percebido (6).


As concepções de Morin e Beck não são idênticas. Em Morin, a metamorfose assume sentido mais explicitamente civilizatório e planetário; em Beck, possui forte dimensão diagnóstica, relacionada à transformação do próprio mundo e das categorias com que o interpretamos. Mas ambas permitem escapar de uma oposição simplificadora entre reforma e revolução. A metamorfose representa, assim, uma possibilidade histórica no interior da incerteza, não o desfecho necessário da crise.


O lugar do Brasil nesse cenário: poderia exercer papel de articulação devido à combinação rara de biodiversidade, agricultura, fontes renováveis, território, ciência e inserção diplomática. Poderia funcionar como ponte entre Norte e Sul, entre BRICS e instituições multilaterais tradicionais, entre produção e conservação, entre soberania e responsabilidade planetária.


Essa possibilidade, entretanto, depende da capacidade de enfrentar contradições internas. O Brasil pode ampliar simultaneamente renováveis e petróleo. Pode reduzir desmatamento e continuar submetido a pressões de expansão territorial. Pode defender o multilateralismo internacionalmente e manter estruturas econômicas fortemente baseadas em commodities.


Sua contribuição para uma possível metamorfose não resultaria de já haver solucionado tais contradições, mas da capacidade de transformá-las em agenda pública, científica, tecnológica e diplomática.


10. Cenário transversal — Regressão ecossistêmica


Há um cenário que atravessa os anteriores. Os sistemas biofísicos podem se transformar mais rapidamente do que as instituições. Eventos climáticos extremos, secas, perda de biodiversidade, insegurança alimentar, migrações e destruição de infraestruturas podem alterar prioridades econômicas e políticas.


O risco está na formação de circuitos regressivos: deterioração ecológica amplia insegurança; insegurança fortalece nacionalismos; nacionalismos reduzem cooperação; menor cooperação dificulta respostas climáticas; a deterioração aumenta novamente.


Esse cenário evidencia a importância dos acontecimentos. Uma guerra, pandemia, ruptura tecnológica, crise financeira ou ponto de não retorno ecológico pode modificar rapidamente as probabilidades dos demais cenários.


O Brasil diante da regressão ecossistêmica: a abundância ambiental brasileira converte-se aqui em fonte simultânea de resiliência e vulnerabilidade. A hidreletricidade depende de regimes de chuvas. A agricultura depende de estabilidade climática e serviços ecossistêmicos. A Amazônia influencia ciclos hidrológicos que afetam regiões muito distantes. Por isso, a transição brasileira não pode ser reduzida à política energética. Ela precisa articular transição energética, redução do desmatamento, restauração ecológica, transformação da agropecuária e adaptação climática.


11. Ambientalismo complexo-multissetorial, correlações de forças e construção de cenários


A utilização do ambientalismo complexo-multissetorial como fundamento da análise prospectiva requer uma precisão conceitual. A multissetorialidade não designa simplesmente a existência de muitos atores interessados na questão ambiental.


Desde sua formulação no início da década de 1990, o conceito procurou compreender um fenômeno histórico caracterizado pela presença de atores pertencentes a distintos setores sociais, com temporalidades, valores, interesses e racionalidades diferentes, entre os quais surgiam processos de aproximação, intercomunicação, cooperação, concorrência e antagonismo.


O ambientalismo complexo-multissetorial foi compreendido como sistema aberto de valores e práticas, constituído por setores sociais que nem sempre se reconhecem claramente como partes de um todo. A própria formulação inicial identificava uma crise de percepção como obstáculo à articulação sinérgica diante dos impasses da modernidade.


Essa perspectiva torna particularmente pertinente a construção de cenários. As diferentes forças sociais não caminham necessariamente na mesma direção, e nenhuma delas controla isoladamente os resultados históricos. A experiência dos anos 1990 mostrou que a expansão multissetorial do ambientalismo podia coexistir com conflitos entre ambientalismo empresarial e socioambientalismo, isolamento de partidos políticos, dificuldades de diálogo entre ciência e religião e permanência de concepções nacionalistas de soberania que limitavam respostas globais.


O próprio balanço de 2016 mostra que a expansão do ambientalismo empresarial ocorreu em contexto de avanço neoliberal, produzindo cooptações e reações polarizadoras, enquanto o ambientalismo estatal permaneceu, com frequência, burocraticamente isolado e com poucos recursos.


“Multissetorial” não significa, portanto, harmonia entre setores. Significa reconhecer que os processos históricos resultam de relações variáveis de cooperação, conflito, concorrência, bloqueio, aprendizagem, cooptação e reorganização.


A incorporação de cenários também não constitui uma inovação externa à tradição do ambientalismo complexo-multissetorial. Na década de 1990, já se analisavam diferentes dimensões da globalização — militares, econômicas, financeiras, científico-tecnológicas, políticas, ecológicas e outras — e distintas forças sociais transnacionais, relacionando-as a cenários futuros de governabilidade ambiental global.


O exercício desenvolvido neste texto pode ser entendido, portanto, como uma recontextualização dessa tradição. A ideia de recontextualização é especialmente importante. As interpretações anteriores não precisam ser abandonadas quando novas circunstâncias históricas surgem. Elas podem ser incorporadas, reinterpretadas e ampliadas. O conhecimento do passado retroalimenta a compreensão do presente e abre novas perspectivas sobre o futuro.


Nos anos 1990, algumas variáveis centrais eram eficiência energética, políticas ambientais, globalização, desenvolvimento sustentável e relações entre Estado, mercado e sociedade civil.


No século XXI, a elas se acrescentam BRICS, desdolarização relativa, inteligência artificial, H2V, energias renováveis distribuídas, minerais críticos, crise do multilateralismo, novas disputas geopolíticas e agravamento da emergência climática.


O princípio interpretativo permanece semelhante: nenhuma dessas transformações possui significado político unívoco. A energia renovável pode favorecer descentralização ou oligopolização. A multipolaridade pode fortalecer o multilateralismo ou produzir novas esferas de influência. A inovação tecnológica pode democratizar conhecimento ou ampliar concentração e vigilância. O hidrogênio pode promover industrialização de baixo carbono ou constituir novo enclave exportador.


A pergunta prospectiva fundamental passa a ser: que correlações de forças tornam cada cenário mais ou menos provável?


12. Indicadores de bifurcação: como reconhecer qual cenário ganha força?


Se os cenários representam configurações possíveis, torna-se necessário identificar sinais empíricos capazes de mostrar quais delas estão adquirindo maior probabilidade. Esses indicadores não deveriam ser tratados como variáveis independentes. Sua utilidade está justamente nas relações entre eles.


12.1. Estrutura energética


O primeiro grupo deve acompanhar a participação de carvão, petróleo e gás na oferta total de energia, juntamente com a participação das renováveis na geração elétrica e no consumo final. Não basta observar capacidade instalada. Uma transição efetiva precisa ser avaliada pela energia realmente produzida e utilizada. Também é importante acompanhar a eletrificação dos transportes, dos edifícios e dos processos industriais.


12.2. Direção dos investimentos


Um indicador especialmente relevante seria: investimento anual em energia limpa / PIB. Ele permite comparar o esforço relativo de economias muito diferentes.


Outro indicador deveria relacionar: investimento em energia limpa / investimento fóssil.

Uma economia pode bater recordes de investimento renovável e continuar, simultaneamente, ampliando fortemente petróleo, gás ou carvão.


A relação entre os dois fluxos revela melhor a direção estrutural da transição.


12.3. Descentralização energética


Para diferenciar especialmente os cenários II, III e IV, é preciso observar quem controla a nova geração. Um possível indicador de descentralização energética poderia reunir participação da geração distribuída, número de prossumidores, presença de cooperativas e comunidades energéticas, concentração empresarial dos ativos e possibilidades de acesso de pequenos produtores às redes.


Esse indicador permitiria testar empiricamente uma hipótese importante derivada de Rifkin: as novas tecnologias estão distribuindo poder energético ou apenas modificando as tecnologias utilizadas pelos mesmos centros econômicos?


12.4. Redes e armazenamento


À medida que solar e eólica crescem, redes, armazenamento e gestão da demanda tornam-se cada vez mais importantes. Investimento insuficiente nessas infraestruturas pode produzir desperdício, gargalos e dependência de fontes fósseis de apoio. Por isso, investimento em redes e armazenamento precisa integrar o painel.


12.5. Hidrogênio: da promessa à operação


No caso do hidrogênio, anúncios de investimento são particularmente insuficientes. É necessário distinguir projetos anunciados, projetos com decisão final de investimento, projetos em construção e capacidade efetivamente operacional. Mais importante ainda é observar a finalidade econômica do hidrogênio.


Uma trajetória predominantemente exportadora pode aproximar-se do cenário do capitalismo verde oligopolizado. Uma utilização crescente em fertilizantes, siderurgia, química e outras cadeias produtivas domésticas, associada a pesquisa e inovação, indicaria transformação mais profunda.


12.6. Da eficiência energética à metamorfose energética


A genealogia do ambientalismo complexo-multissetorial permite observar uma continuidade particularmente interessante. Em 1990, a eficiência energética aparecia entre os atributos fundamentais da sociedade sustentável. Hoje, esse indicador continua importante, mas precisa ser recontextualizado.


Podemos distinguir três níveis: a) A substituição energética ocorre quando uma fonte é trocada por outra sem transformação relevante da organização econômica; b) A transição energética envolve mudança estrutural das fontes, redes, transportes, indústrias e investimentos; c) A metamorfose energética, entendida aqui como categoria analítica inspirada em Morin e Beck, envolveria algo mais: transformação simultânea das fontes, das tecnologias, das relações de propriedade, da distribuição territorial da geração, das cadeias produtivas, da participação social e da relação entre energia e limites ecossistêmicos.


Não se trata de afirmar que toda transição deva necessariamente conduzir a essa metamorfose, mas de estabelecer um critério para distinguir mudança tecnológica de transformação socioecológica mais abrangente.


12.7. Um painel específico para o Brasil


No caso brasileiro, o painel deveria combinar indicadores energéticos e ecológicos. Além da participação de renováveis e geração distribuída, deveriam ser acompanhados: investimento em transição energética como proporção do PIB; relação entre investimentos limpos e fósseis; expansão ou retração da produção de petróleo; capacidade operacional de hidrogênio de baixa emissão; uso desse hidrogênio em cadeias industriais nacionais; produção de fertilizantes e aço de baixo carbono; conteúdo tecnológico doméstico; desmatamento; restauração florestal; emissões agropecuárias; concentração da propriedade dos ativos renováveis; participação de cooperativas e comunidades; e investimentos em adaptação climática.


Esse painel permitiria responder a uma questão especialmente importante: a transição energética brasileira está apenas descarbonizando a oferta de energia ou também está transformando a estrutura produtiva, as relações de poder e a relação da sociedade com os ecossistemas?


13. Considerações finais


Os cenários examinados não descrevem mundos separados. Seus elementos já coexistem no presente. Fontes renováveis e geração distribuída avançam ao mesmo tempo em que grandes conglomerados tecnológicos concentram poder. Os BRICS ampliam a pluralidade da ordem econômica internacional enquanto rivalidades entre potências se intensificam. Investimentos em tecnologias limpas crescem enquanto novas reservas fósseis continuam sendo incorporadas às estratégias nacionais. A transição energética, portanto, não possui direção política predeterminada: pode ampliar autonomia e descentralização, mas também pode reproduzir dependências, concentração econômica e novas modalidades de extrativismo.


Essa coexistência contraditória torna inadequada qualquer interpretação baseada numa variável dominante. Acemoglu e Robinson chamam atenção para as instituições e a distribuição do poder. Rifkin identifica possibilidades descentralizadoras associadas às redes tecnológicas e energéticas. Beck demonstra a inadequação crescente do nacionalismo metodológico diante de riscos transnacionais. Morin permite compreender essas diferentes dimensões como partes de uma realidade interdependente, contraditória e incerta.


O ambientalismo complexo-multissetorial acrescenta a análise/interpretação das relações entre diferentes atores e setores e permite incorporar a dimensão prospectiva sem supor uma direção única da história. Sua trajetória conceitual é, nesse sentido, instrutiva. A formulação inicial dos anos 1990 identificava forças de uma civilização predatória-perdulária em confronto com forças emergentes de uma civilização sustentável. Posteriormente, a própria análise tornou-se mais complexa, incorporando diferentes forças transnacionais, conflitos entre setores e cenários alternativos de governabilidade global. A análise desenvolvida neste texto constitui uma recontextualização dessa perspectiva diante das transformações do século XXI.


Isso significa que o cenário da metamorfose não deve ser compreendido como polo positivo e inevitável de uma oposição binária. É uma possibilidade histórica entre outras. A própria crise planetária pode produzir respostas divergentes: cooperação ou competição, solidariedade ou fechamento, multilateralismo ou unilateralismo, descentralização ou concentração de poder.


O “Evangelho da Perdição”, apresentado por Morin e Kern ao final de Terra-Pátria, ajuda a compreender essa ausência de garantia (4). Sua perspectiva não repousa numa promessa de salvação histórica. A fraternidade é pensada a partir da consciência da finitude, da pertença à mesma comunidade de destino terrestre e da participação numa aventura cujo desfecho permanece desconhecido. Os autores associam explicitamente essa condição à solidariedade entre os humanos em um destino comum e, no “Evangelho da Perdição”, recusam tanto a promessa de paraíso quanto a garantia de uma salvação terrestre ou supraterrestre.


Essa consciência da perdição não implica pessimismo ou resignação. Ela retira da fraternidade, porém, qualquer fundamento determinista. A humanidade pode reconhecer sua interdependência e transformar a consciência dos riscos comuns em cooperação e responsabilidade planetárias; pode igualmente responder à insegurança por meio do nacionalismo, da militarização, da busca de esferas de influência e da competição por recursos. A metamorfose representa, portanto, uma possibilidade histórica que emerge no interior da incerteza, e não o desfecho necessário da crise.


É justamente nesse espaço de incerteza que a análise de cenários adquire importância. Entre a partilha e a metamorfose não existe uma trajetória linear, mas um campo de possibilidades no qual diferentes acontecimentos e correlações de forças alteram continuamente a probabilidade dos futuros possíveis. O cenário de multipolaridade competitiva com transição energética, o capitalismo verde e oligopolizado e a regressão ecossistêmica não constituem necessariamente etapas entre dois extremos; podem coexistir, combinar-se ou adquirir predominância em diferentes momentos e regiões.


O Brasil ocupa posição singular nesse campo de possibilidades. A mesma abundância de sol, vento, água, biodiversidade, terras, minerais e conhecimento pode sustentar trajetórias profundamente diferentes. Pode aumentar sua importância nas disputas entre grandes potências; convertê-lo em grande fornecedor de energia e matérias-primas para uma economia mundial descarbonizada; favorecer formas de capitalismo verde concentrado; ou contribuir para uma transformação que articule transição energética, industrialização de baixo carbono, inclusão social, proteção dos ecossistemas e multilateralismo.


Nenhuma dessas possibilidades está inscrita automaticamente nos recursos naturais brasileiros. Elas dependem das instituições, das políticas públicas, das capacidades científicas e tecnológicas, das relações entre Estado, mercado e sociedade civil e, sobretudo, das correlações de forças que definirão como esses recursos serão apropriados e utilizados.


É precisamente por isso que os indicadores de bifurcação são relevantes. Eles não eliminam a incerteza nem permitem prever mecanicamente o futuro. Sua função é qualificá-la: observar se os investimentos se deslocam efetivamente dos combustíveis fósseis para as fontes limpas; se as renováveis apenas descarbonizam ou também descentralizam a produção energética; se o hidrogênio favorece a transformação da estrutura produtiva ou novos enclaves exportadores; se a multipolaridade fortalece instituições multilaterais ou apenas multiplica esferas de influência; e se a crescente interdependência planetária encontra correspondência em novas capacidades de cooperação.


Nesse sentido, o ambientalismo complexo-multissetorial pode adquirir uma função prospectiva renovada. Em vez de identificar uma força histórica privilegiada ou supor um caminho necessário em direção à sustentabilidade, procura compreender as relações entre múltiplos atores, setores, escalas, conflitos, cooperações e retroações. A construção de cenários passa a constituir um recurso para observar como essas relações modificam, no presente, as possibilidades do futuro.


O “Evangelho da Perdição” (4) oferece, finalmente, uma referência particularmente apropriada para essa perspectiva. A ausência de uma garantia de salvação não elimina a esperança; impede que ela seja confundida com certeza. A fraternidade e a responsabilidade planetárias tornam-se possibilidades que precisam ser construídas em uma Terra compartilhada por seres conscientes de sua finitude e de sua comunidade de destino. É sob essa condição de incerteza que a metamorfose pode ser pensada — não como profecia, mas como uma das possibilidades abertas pelas escolhas, conflitos, aprendizagens e acontecimentos do presente.


Referências

(1) ACEMOGLU, Daron; ROBINSON, James A. Por que as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.

(2) RIFKIN, Jeremy. La sociedad de coste marginal cero: el Internet de las cosas, el procomún colaborativo y el eclipse del capitalismo, traduzida por Genís Sánchez Barberán e publicada pela Paidós: Barcelona, 2014.

(3) BECK, Ulrich. Power in the Global Age: A New Global Political Economy. Cambridge: Polity Press, 2005.

(4) MORIN, Edgar; KERN, Anne Brigitte. Terre-Patrie. Paris: Seuil, 1993.Nota: para a conferência das passagens relativas à comunidade de destino e ao “Evangelho da Perdição”, foi consultada também a edição espanhola anexada, Tierra-Patria. O texto consultado confirma diretamente as formulações utilizadas na seção 9 e nas considerações finais.

(5) BOEIRA, Sérgio Luís. Ambientalismo complexo-multissetorial no Brasil: emergência e declínio na década de 1990? Revista Ibero-Americana de Ciências Ambientais, v. 7, n. 3, p. 170-188, 2016. DOI: 10.6008/SPC2179-6858.2016.003.0014. .

(6) BECK, Ulrich. The Metamorphosis of the World: How Climate Change Is Transforming Our Concept of the World. Cambridge: Polity Press, 2016.


P.S.: Usei a IA GPT 5-6 Sol na busca e organização das informações, e na elaboração da ilustração do texto, que foi concebido, editado e revisado por mim.


 
 
 

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