Entre a ruptura e a religação: ciência, senso comum e reflexividade em Bourdieu, Moscovici e Morin
Objetivo
Discutir as relações entre conhecimento científico e senso comum a partir das contribuições de Pierre Bourdieu, Serge Moscovici e Edgar Morin, examinando como diferentes formas de afastamento do positivismo produzem também diferentes maneiras de ruptura, aproximação, diálogo e religação com o conhecimento cotidiano. Complementarmente, recorre-se a Pedro Demo para ampliar a questão da demarcação científica e a Anne Laperrière para discutir os critérios de cientificidade da pesquisa qualitativa.
Resumo
A distinção entre ciência e senso comum constitui um dos problemas clássicos da epistemologia moderna. Entretanto, o afastamento do positivismo não conduz necessariamente à dissolução dessa distinção nem a uma valorização uniforme do conhecimento cotidiano. Este ensaio toma como ponto de partida um manual introdutório de metodologia científica que expressa uma concepção convencional e, ao mesmo tempo, ambivalente dessa relação: diferencia ciência e senso comum pela oposição entre razão metódica e conhecimentos cotidianos, mas também admite certa continuidade entre ambos. A partir desse problema, o texto examina três contribuições centrais. Em Bourdieu, Chamboredon e Passeron, a ciência social exige ruptura com as pré-noções e com a sociologia espontânea, mas essa ruptura é acompanhada pela crítica ao empirismo positivista, pela construção do objeto e pela vigilância epistemológica sobre a própria prática científica. Em Moscovici, o senso comum adquire estatuto positivo como conhecimento socialmente produzido: as representações sociais permitem compreender a circulação e a transformação entre saberes científicos e cotidianos. Pedro Demo amplia o problema ao distinguir critérios formais e políticos de demarcação científica. Anne Laperrière enfrenta uma questão central decorrente da aproximação qualitativa com o mundo vivido: como preservar cientificidade quando se reconhecem subjetividade, interpretação e contexto? Finalmente, Morin amplia a discussão ao conceber o conhecimento como tradução e reconstrução da realidade, exigindo a reintrodução do sujeito e das condições cerebrais, antropológicas, sociais, culturais e históricas do conhecer. Argumenta-se que ciência e senso comum não podem ser adequadamente compreendidos pela alternativa simples entre ruptura e continuidade, mas por relações de diferenciação, crítica, vigilância, representação, tradução, reflexividade e religação.

Introdução
A concepção convencional de metodologia científica costuma apresentar uma demarcação relativamente nítida entre ciência e senso comum. De um lado estariam razão, método, objetividade, comprovação e rigor; de outro, experiência cotidiana, tradição, crenças, afetos e conhecimentos não submetidos ao controle científico. Essa forma de distinção continua presente em materiais introdutórios destinados ao ensino de metodologia.
Um exemplo encontra-se no manual Metodologia Científica, de Marília Gabriella Machado (1). Ao tratar do senso comum, reconhece que ele se constitui pela observação cotidiana, pelo convívio coletivo, pela cultura, pelas tradições e pelas experiências transmitidas socialmente. Ao mesmo tempo, diferencia-o do conhecimento científico ao associar o primeiro a sentimentos, desejos e misticismo, enquanto o segundo seria constituído pela razão e pelo rigor metodológico. Curiosamente, o próprio texto admite, em seguida, a possibilidade de continuidade entre pensamento científico e senso comum.
Essa ambivalência oferece um ponto de partida produtivo. O problema não consiste apenas em decidir se ciência e senso comum devem ser separados ou aproximados. Diferentes tradições epistemológicas afastaram-se do positivismo por caminhos distintos e, justamente por isso, produziram diferentes concepções da relação entre conhecimento científico, conhecimento cotidiano, sujeito e realidade.
Popper rompe com o verificacionismo e introduz a falseabilidade e o caráter conjectural do conhecimento científico, preservando, entretanto, forte preocupação com a demarcação entre ciência e não ciência (2). Bachelard enfatiza obstáculos epistemológicos, ruptura e vigilância, fornecendo uma das bases decisivas para a epistemologia posteriormente mobilizada por Bourdieu (3). Ambos são fundamentais como antecedentes, mas permanecem em segundo plano neste ensaio.
O núcleo do argumento será constituído por Bourdieu, Moscovici e Morin. Bourdieu permite compreender por que a familiaridade com o mundo social pode constituir obstáculo ao conhecimento e por que a ruptura com a sociologia espontânea precisa transformar-se em vigilância epistemológica. Moscovici desloca a discussão ao atribuir ao senso comum um estatuto próprio como conhecimento social, sem com isso equipará-lo à ciência. Morin amplia a questão ao conceber todo conhecimento como tradução e reconstrução e ao exigir a reintrodução do sujeito no processo cognitivo.
Entre Moscovici e Morin, Pedro Demo oferece uma contribuição importante à discussão da demarcação científica, distinguindo critérios formais e políticos. Anne Laperrière, por sua vez, enfrenta uma questão metodológica decisiva: se a pesquisa qualitativa se aproxima do mundo vivido, reconhece a subjetividade e trabalha com interpretações, que critérios permitem ainda considerá-la científica?
O percurso será desenvolvido em seis movimentos: inicialmente, a dupla ruptura de Bourdieu; em seguida, a transformação do senso comum em representações sociais em Moscovici; depois, a ampliação da demarcação proposta por Demo; a redefinição dos critérios de cientificidade qualitativa em Laperrière; a epistemologia da tradução e da reintrodução do sujeito em Morin; e, por fim, uma síntese dessas contribuições como movimento que vai da ruptura à religação.
1. Bourdieu: ruptura com o senso comum e com o positivismo
Em O ofício de sociólogo, Pierre Bourdieu, Jean-Claude Chamboredon e Jean-Claude Passeron formulam uma exigência decisiva para as ciências sociais: romper com a ilusão do saber imediato. A própria organização da obra expressa esse programa. Sua primeira parte é dedicada à “ruptura”; a segunda, à “construção do objeto”; e a terceira, ao “racionalismo aplicado”, sintetizado pela fórmula segundo a qual o fato é conquistado, construído e comprovado (4).
A dificuldade particular das ciências sociais está na proximidade entre o pesquisador e aquilo que pesquisa. O sociólogo participa do mundo que pretende conhecer. Utiliza a mesma linguagem dos demais agentes sociais, compartilha instituições, categorias classificatórias e experiências e possui opiniões anteriores sobre família, escola, poder, desigualdade, classe, trabalho ou política. Essa familiaridade torna especialmente imprecisa a separação entre opinião comum e discurso científico.
Por isso, Bourdieu e seus colaboradores insistem na ruptura com as pré-noções e com a sociologia espontânea. As pré-noções são representações esquemáticas, formadas nas práticas cotidianas e socialmente funcionais. Não são necessariamente absurdas ou desprovidas de sentido. O problema epistemológico aparece quando passam diretamente da vida cotidiana para a explicação sociológica, sem serem interrogadas e reconstruídas teoricamente. A própria linguagem comum transporta representações sedimentadas do mundo social e precisa ser submetida a crítica lógica e lexical.
Essa concepção pode parecer, à primeira vista, uma reafirmação da superioridade da ciência sobre o senso comum. Entretanto, seria equivocado interpretá-la dessa forma simples. Bourdieu rompe simultaneamente com o empirismo positivista. O objeto científico não está dado esperando apenas ser observado ou medido. Ele precisa ser construído. Também não existem técnicas metodológicas inteiramente neutras e independentes das pressuposições teóricas do pesquisador. A própria obra chama atenção para a “ilusão positivista de uma ciência sem pressupostos” e para a “falsa neutralidade das técnicas”.
A ruptura é, portanto, dupla. É necessário romper com a evidência espontânea do mundo social, mas também com a evidência empirista segundo a qual fatos falariam diretamente por si mesmos. A ciência social precisa construir seu objeto e, simultaneamente, examinar criticamente as próprias condições dessa construção.
É justamente dessa dupla ruptura que emerge a vigilância epistemológica. Ela não pode ser reduzida a um procedimento inicial pelo qual o pesquisador abandonaria definitivamente o senso comum. Como continua socialmente situado, continua vulnerável às pré-noções, às evidências da linguagem e às categorias de seu próprio meio. A vigilância precisa acompanhar permanentemente a pesquisa. Bourdieu, Chamboredon e Passeron propõem uma epistemologia voltada ao conhecimento dos mecanismos do erro e à retificação metódica das operações científicas.
Assim, Bourdieu não conduz da ruptura à pretensão de uma ciência exterior à sociedade. Conduz da ruptura à reflexividade: o pesquisador precisa, em alguma medida, objetivar também o sujeito que objetiva.
2. Moscovici: quando o senso comum se torna objeto de conhecimento
Serge Moscovici produz um deslocamento importante. O senso comum deixa de aparecer principalmente como obstáculo epistemológico e passa a ser investigado como forma social de conhecimento.
Seu estudo clássico sobre a apropriação social da psicanálise procura compreender o que acontece quando um saber elaborado em ambientes especializados sai desses espaços e passa a circular entre diferentes grupos sociais. O conhecimento científico é apropriado, selecionado, interpretado e ressignificado. A literatura introdutória à Teoria das Representações Sociais destaca justamente que o estudo de Moscovici nasceu de sua crítica a pressupostos positivistas e funcionalistas que considerava insuficientes para compreender outras dimensões da realidade social.
As representações sociais podem ser entendidas como formas de saber popular e cotidiano, elaboradas e compartilhadas coletivamente para interpretar a realidade. Elas emergem das conversações e interações sociais, orientam comportamentos e participam ativamente da própria transformação do meio social.
Isso não significa transformar o senso comum em ciência. Moscovici não elimina as diferenças entre formas de conhecimento. O que modifica é a maneira de concebê-las. Em vez de pensar duas esferas isoladas — uma científica e outra não científica —, torna possível investigar os processos de circulação, apropriação e transformação do conhecimento.
A relação com Bourdieu torna-se particularmente interessante. Bourdieu pergunta como impedir que o senso comum ingresse na ciência sob a forma de pré-noções não examinadas. Moscovici permite formular a pergunta inversa: o que acontece quando conhecimentos científicos ingressam no senso comum?
Podemos, então, reconhecer duas direções: senso comum → ciência: linguagem, categorias, experiências e pré-noções que acompanham o pesquisador; ciência → senso comum: conhecimentos científicos que circulam, são apropriados, objetivados, ancorados e transformados socialmente.
Os dois movimentos podem coexistir. A ciência não apenas recebe influências da sociedade; também produz conhecimentos que retornam a ela, passam a integrar discursos públicos, práticas cotidianas e novas representações sociais.
Essa perspectiva permite ainda criticar uma ciência alienada ou hipostasiada, que se imagina situada acima das relações sociais de produção do conhecimento. A ciência continua diferenciada do senso comum, mas deixa de ser concebida como esfera epistemologicamente autossuficiente.
3. Pedro Demo: demarcação científica para além do formalismo
A aproximação entre ciência, sociedade e senso comum suscita uma questão inevitável: se as fronteiras positivistas são relativizadas, o que ainda permite falar em cientificidade?
Pedro Demo oferece uma contribuição especialmente útil para esse problema em Metodologia do conhecimento científico (5). Em vez de abandonar a ideia de demarcação, amplia-a. Demo distingue critérios formais e critérios políticos de demarcação científica. Entre os critérios formais estão coerência, sistematicidade, consistência, originalidade, objetivação e discutibilidade.
Essa formulação já produz um afastamento importante de uma concepção positivista estrita. A objetivação, por exemplo, é apresentada como esforço sempre incompleto de aproximação da realidade, distinguindo-se da pretensão de objetividade absoluta. O objeto é construído, mas não por isso arbitrariamente inventado. Além disso, aquilo que fazemos cientificamente precisa poder ser refeito e contestado por quem duvida.
A discutibilidade reforça esse caráter aberto. Um conhecimento crítico não pode declarar-se imune à crítica; ciência supõe crítica e autocrítica e reconhece o caráter sempre parcial de suas fundamentações.
Além desses critérios formais, Demo identifica critérios políticos: intersubjetividade, autoridade por mérito, relevância social e ética. Isso significa reconhecer que a ciência não existe apenas como estrutura lógica de argumentos, mas como atividade social realizada por comunidades científicas, permeada por processos de reconhecimento, disputas, relevância social e responsabilidades éticas.
A inclusão da ética é particularmente expressiva. Demo pergunta “a quem serve a ciência?” e chama atenção para a capacidade do conhecimento científico de produzir simultaneamente extraordinária potencialidade tecnológica e riscos sociais e ambientais.
Assim, a demarcação científica permanece necessária, mas deixa de ser unidimensional. Ela não pode limitar-se à aplicação de uma técnica, nem ao modelo de neutralidade positivista. A cientificidade envolve argumentação, objetivação, crítica, autocrítica, intersubjetividade, relevância e ética.
Esse deslocamento aproxima Demo tanto da problemática de Moscovici quanto daquela que será desenvolvida por Morin: a ciência é uma atividade cognitiva, mas também uma prática social e histórica.
4. Laperrière: como assegurar cientificidade à pesquisa qualitativa?
É nesse ponto que Anne Laperrière responde a uma pergunta decisiva. Se a pesquisa qualitativa se aproxima do mundo vivido, trabalha com linguagem, interpretações, experiências e significados e reconhece a presença do pesquisador, como evitar que a investigação científica se confunda com uma simples interpretação cotidiana?
Laperrière parte dos critérios clássicos de cientificidade utilizados pelas metodologias convencionais: validade interna, validade externa e confiabilidade. A objetividade aparecia como resultado da combinação desses procedimentos, voltados à restrição ou eliminação dos efeitos da subjetividade e do contexto.
As metodologias qualitativas modificaram esse quadro ao recuperar contribuições da sociologia interpretativa, do pragmatismo e da fenomenologia. Passaram a valorizar intencionalidade, valores, interpretação, participação no mundo e complexidade das interações sociais. Com isso, reconsideraram diversos postulados positivistas: a ideia de realidade única e estritamente objetiva, a separação rígida entre observador e objeto, a descontextualização dos fenômenos, a causalidade linear e a neutralidade metodológica diante dos valores.
Esse afastamento do positivismo não conduziu ao abandono da cientificidade. Ao contrário, exigiu uma redefinição sistemática de seus critérios. Laperrière ressalta ainda que os métodos qualitativos não formam uma epistemologia homogênea: abrangem posições que vão do empirismo a formas bastante radicais de construtivismo.
A subjetividade passa então a ser tratada não apenas como viés a eliminar, mas como dimensão a ser explicitada, controlada reflexivamente ou, em algumas perspectivas, explorada como recurso cognitivo. O posicionamento teórico, emocional e social do pesquisador e dos participantes pode ser acompanhado por diário de campo, memorandos, trabalho em equipe e discussão entre pares.
A validade interna passa a ser pensada como qualidade da relação entre observações empíricas e interpretações. O sentido recupera posição central, ao mesmo tempo que se exige confronto sistemático entre interpretação e realidade empírica. A permanência prolongada no campo permite captar diferentes níveis, perspectivas e interações que instrumentos rigidamente padronizados poderiam não apreender.
Há um ponto particularmente importante: reconhecer subjetividade e interpretação não significa admitir que todas as interpretações tenham o mesmo valor. A pesquisa qualitativa continua exigindo argumentação, confronto com informações pertinentes, coerência e revisão crítica.
Laperrière responde, portanto, a uma questão central deste ensaio: o contato mais estreito da pesquisa qualitativa com o senso comum e com o mundo vivido não a transforma em senso comum. A cientificidade passa a depender menos da fantasia de eliminar o pesquisador e mais da capacidade de tornar reflexivas, explícitas, discutíveis e metodologicamente controladas as relações entre pesquisador, participantes, contexto, observações e interpretações.
5. Morin: conhecer é traduzir e reconstruir
Com Edgar Morin, a discussão alcança um nível epistemológico mais abrangente. A pergunta deixa de ser apenas como demarcar ciência e senso comum ou como garantir validade à pesquisa qualitativa. É necessário examinar as próprias condições do conhecimento.
Em O método 3: o conhecimento do conhecimento (6), Morin rompe com a metáfora do conhecimento como espelho. Conhecer não significa simplesmente reproduzir uma realidade exterior. O conhecimento envolve processos de tradução e reconstrução.
Essa concepção não implica negar a realidade. Existe um real que resiste às nossas construções e pode desmenti-las. Mas não possuímos acesso imediato e transparente a ele. Percepções, linguagens, categorias, teorias e paradigmas participam daquilo que conseguimos conhecer.
Daí a necessidade de reintroduzir o sujeito. A ciência clássica procurou frequentemente construir sua objetividade mediante a exclusão epistemológica do observador. Para Morin, porém, o sujeito que conhece não pode ser efetivamente eliminado, porque é ele quem percebe, seleciona, organiza, interpreta e teoriza.
E esse sujeito não é apenas um indivíduo psicológico. Suas condições de conhecimento são cerebrais, biológicas, antropológicas, linguísticas, sociais, culturais e históricas. Por isso, o conhecimento precisa tornar-se também conhecimento do conhecimento.
Nesse sentido, Morin amplia a problemática bourdieusiana. Bourdieu insiste na vigilância sobre as pré-noções, a linguagem e a inserção social do sociólogo. Morin incorpora essa dimensão, mas amplia o foco: o pesquisador precisa refletir também sobre as condições antropológicas, cognitivas, culturais e paradigmáticas mediante as quais conhece.
Morin também permite reler Moscovici. As representações sociais podem ser compreendidas como processos coletivos de tradução e reconstrução da realidade. O conhecimento científico que circula socialmente não chega intacto aos grupos; é reconstruído. Da mesma forma, problemas, categorias e representações existentes na sociedade retornam à ciência e influenciam aquilo que ela escolhe investigar e a maneira como formula seus objetos. A relação deixa, então, de ser linear. Torna-se recursiva.
6. Da ruptura à religação
Chegamos, assim, a uma configuração bastante diferente daquela expressa pela concepção convencional de ciência e senso comum.
Não se trata de substituir a oposição tradicional por seu inverso. A crítica ao positivismo não implica afirmar que senso comum e ciência sejam equivalentes. Também não implica considerar a pesquisa qualitativa necessariamente mais próxima da verdade por trabalhar com experiências ou significados.
Bourdieu mostra que a familiaridade precisa ser problematizada. O senso comum contém pré-noções que podem ser indispensáveis à vida cotidiana, mas que não podem simplesmente ser transformadas em conceitos sociológicos. A ruptura é necessária.
Moscovici, entretanto, mostra que aquilo com que se rompe não é simplesmente ignorância ou erro. O senso comum produz conhecimentos, interpretações, representações e práticas sociais. Pode, portanto, tornar-se objeto legítimo da ciência.
Demo demonstra que o afastamento de uma concepção positivista não elimina a necessidade de demarcação. Cientificidade envolve critérios formais e políticos e supõe objetivação, discutibilidade, crítica e autocrítica.
Laperrière mostra que a pesquisa qualitativa pode aproximar-se da experiência cotidiana sem perder rigor, desde que desenvolva procedimentos de validação, contextualização, reflexividade e confronto crítico entre interpretações e material empírico.
Morin permite religar o conjunto. Se todo conhecimento é tradução e reconstrução, nem a ciência nem o senso comum constituem espelhos da realidade. Ambos pertencem à condição humana do conhecer, embora seus procedimentos, instituições, controles críticos, objetivos e modos de validação sejam distintos.
Podemos representar esse processo como um circuito: experiência cotidiana → senso comum → representações sociais → problematização científica → ruptura e vigilância → construção do objeto → pesquisa e interpretação → objetivação e crítica → conhecimento científico → circulação social → novas representações e experiências.
Esse circuito contém retroações. O conhecimento científico modifica o senso comum; as representações sociais participam da formulação de problemas científicos; os pesquisadores levam consigo conhecimentos e categorias socialmente adquiridos; a ciência pode corrigir representações cotidianas, mas também pode alienar-se de suas condições sociais de produção.
Por isso, ruptura e religação não constituem termos excludentes. A ruptura torna possível distinguir sem confundir. A religação impede que a distinção se converta em separação absoluta.
Considerações finais
O problema das relações entre ciência e senso comum revela-se mais complexo quando diferentes afastamentos do positivismo são colocados em comparação.
O manual de Machado (1), tomado aqui como ponto de partida, expressa uma concepção ainda marcada pela distinção convencional entre ciência racional e senso comum associado a experiências, sentimentos, tradições e conhecimentos não testados. Entretanto, ao admitir também certa continuidade entre ambos, revela uma tensão que permite abrir a discussão epistemológica.
Bourdieu responde a essa tensão afirmando a necessidade de ruptura. Porém, sua ruptura não é positivista: ela se dirige tanto contra as pré-noções da sociologia espontânea quanto contra a ilusão empirista de fatos dados e técnicas neutras. Por isso desemboca em vigilância epistemológica e reflexividade.
Moscovici desloca o debate ao transformar o senso comum em objeto privilegiado da psicologia social. As representações sociais permitem compreender como conhecimentos são produzidos, apropriados e transformados coletivamente. Ciência e senso comum permanecem diferenciados, mas não isolados.
Podemos sintetizar essa complementaridade afirmando que Bourdieu chama atenção para aquilo que o senso comum pode introduzir inadvertidamente na ciência; Moscovici mostra também aquilo que a ciência introduz, transformado, no senso comum.
Demo acrescenta uma concepção ampliada de demarcação científica. Formalidade e política não são esferas inteiramente separadas: cientificidade envolve coerência, consistência, objetivação e discutibilidade, mas também intersubjetividade, relevância social e ética.
Laperrière responde a uma questão metodológica decisiva. A proximidade da pesquisa qualitativa com sujeitos, experiências, linguagens e contextos não significa abandono da cientificidade. Ao contrário, exige a construção de critérios capazes de incorporar reflexividade, subjetividade e interpretação sem dissolver o rigor.
Morin permite finalmente reformular a questão em um horizonte mais amplo. Uma teoria científica não constitui um espelho do real; é tradução e reconstrução. Reintroduzir o sujeito significa reconhecer que o conhecimento é produzido sob condições cognitivas, antropológicas, sociais, culturais e históricas que também precisam ser conhecidas.
Dessa perspectiva, cientificidade não pode ser definida simplesmente como distância máxima em relação ao senso comum. Ela pode ser concebida como capacidade de produzir uma relação crítica, reflexiva, argumentada e metodologicamente controlada com as experiências e representações do mundo social.
Talvez seja essa a síntese fundamental do percurso: romper, para não confundir;vigiar, para não naturalizar;representar e interpretar, para compreender; objetivar e discutir, para preservar a cientificidade; reintroduzir o sujeito, para reconhecer as condições do conhecimento; e religar, para não transformar distinções necessárias em separações mutiladoras.
Referências
(1) MACHADO, Marília Gabriella. Metodologia Científica. Marília, SP: Faculdade Católica Paulista, 2022.
(2) POPPER, Karl R. A lógica da pesquisa científica. São Paulo: Cultrix, 1972.
(3) BACHELARD, Gaston. A formação do espírito científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.
(4) BOURDIEU, Pierre; CHAMBOREDON, Jean-Claude; PASSERON, Jean-Claude. El oficio del sociólogo: presupuestos epistemológicos. 2. ed. México: Siglo XXI, 2008.
(5) DEMO, Pedro. Metodologia do conhecimento científico. São Paulo: Atlas, 2000.
(6) MORIN, Edgar. O método 3: o conhecimento do conhecimento. Porto Alegre: Sulina, 1999.
(7) MOSCOVICI, Serge. La psychanalyse, son image et son public. Paris: Presses Universitaires de France, 1961.
(8) LAPERRIÈRE, Anne. Os critérios de cientificidade dos métodos qualitativos. In: POUPART, Jean et al. A pesquisa qualitativa: enfoques epistemológicos e metodológicos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.
P.S.: Usei a IA GPT 5-6 Sol na busca e organização das informações, e na elaboração da ilustração para o texto, que foi concebido, editado e revisado por mim.


Comentários