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Entre o inconsciente e o algoritmo: surrealismo, moral conservadora e o vale-tudo das big techs

O surrealismo e o dadaísmo não foram apenas movimentos artísticos de ruptura formal. Ambos formularam, em linguagens distintas, uma crítica radical às instituições burguesas, ao racionalismo instrumental, à moral conservadora e às formas de repressão do desejo e da imaginação. Ao recolocar o inconsciente, o sonho, o absurdo e o choque no centro da experiência estética, essas vanguardas também abriram um campo crítico para pensar a modernidade como ordem disciplinar, produtivista e moralizante.



Essa crítica permanece atual. Em pleno capitalismo digital, instituições contemporâneas exaltam inovação, criatividade e liberdade de expressão, mas frequentemente se sustentam em dispositivos morais conservadores e em formas renovadas de repressão simbólica. O paradoxo se agrava quando grandes plataformas digitais exploram precisamente aquilo que o surrealismo e o dadaísmo trouxeram à tona — o nonsense, o choque, a deformação, a irrupção do reprimido — não para emancipar a imaginação, mas para capturar atenção, produzir engajamento e gerar lucro.


A crítica vanguardista às instituições burguesas


O surrealismo nasceu em reação ao racionalismo e à ordem moral do pós-guerra, defendendo a libertação do pensamento dos controles da razão e da censura moral. Nos manifestos e textos posteriores, o movimento rejeitou explicitamente valores burgueses como pátria, família, religião e trabalho, entendidos como pilares da domesticação do desejo e da imaginação. Seu núcleo teórico, associado ao automatismo psíquico e à influência da psicanálise, consistia na busca de uma verdade situada para além do controle consciente.


O dadaísmo, surgido em meio à Primeira Guerra Mundial, levou a contestação ainda mais longe no plano destrutivo. Sua recusa da lógica, do sentido estável e da própria ideia de arte correspondia a uma recusa mais ampla das instituições que legitimavam guerra, nacionalismo, autoridade e respeitabilidade burguesa. Ao transformar o absurdo em método, o dadaísmo negava tanto a cultura oficial quanto a crença de que a civilização europeia fosse portadora de racionalidade superior.


A diferença entre os dois movimentos é conhecida: o dadaísmo inclinava-se mais à negação e à antiarte, enquanto o surrealismo procurava construir uma nova experiência da realidade a partir do inconsciente. Mas ambos convergiam num ponto decisivo: a crítica à normalidade institucional como forma histórica de repressão, disciplina e empobrecimento da vida psíquica.


Religião, moral e repressão do inconsciente


Nesse horizonte, a religião aparece como questão ambivalente. Certos segmentos da tradição cristã mantiveram relações mais abertas com a natureza, com a pobreza voluntária e com formas de sensibilidade não centradas no utilitarismo, como se observa em linhagens franciscanas. Essa nuance, porém, não elimina o fato de que parte importante do cristianismo moderno reforçou uma moral de contenção dos impulsos, vigilância do corpo e suspeita em relação ao desejo.


A leitura psicanalítica da religião enfatiza justamente esse ponto. Textos de divulgação e análise psicanalítica sublinham que a repressão ou recalque afasta da consciência representações e desejos tidos como inaceitáveis, produzindo sintomas indiretos e reorganizando a vida psíquica sob o império da culpa. Quando segmentos religiosos de perfil conservador enfatizam pureza, autocontrole, pecado e vigilância moral, tendem a reforçar mecanismos de repressão do desejo e de neutralização da imaginação transgressora.


Sob esse prisma, a afinidade entre instituições burguesas e moralismo religioso não é casual. Ao recusar a anarquia simbólica do dadaísmo e a irrupção do inconsciente defendida pelo surrealismo, as instituições modernas frequentemente buscam estabilidade em dispositivos morais e religiosos que fornecem disciplina subjetiva e legitimação ética. O que se apresenta como defesa da ordem social e dos bons costumes também pode ser lido, em chave psicanalítica, como reforço do superego e contenção sistemática do desejo.


Inovação sem imaginação


Esse arranjo ajuda a esclarecer um paradoxo central das instituições contemporâneas. Empresas, universidades empresarizadas e burocracias gerenciais falam incessantemente em inovação, criatividade e liberdade de expressão. No entanto, essa inovação é em geral técnica, organizacional ou mercadológica, não envolvendo abertura efetiva ao dissenso radical, à experimentação subjetiva ou à crítica da ordem social.


Do ponto de vista das vanguardas, trata-se de uma inovação domesticada. O surrealismo associava criação à suspensão da ditadura da razão e à abertura ao sonho, ao erro, ao acaso e ao desejo. O dadaísmo, por sua vez, via na destruição do sentido estabilizado uma forma de expor a miséria da cultura oficial. Quando instituições celebram criatividade ao mesmo tempo que reforçam conservadorismo nos costumes e filtros morais rígidos, produzem um cenário em que a liberdade é admitida apenas nos limites funcionalmente úteis ao mercado.


Essa contradição ajuda a explicar por que discursos públicos sobre liberdade convivem com crescente retração imaginativa. Permite-se a inovação como performance, branding (construção e gestão da marca) e empreendedorismo; restringe-se a inovação como transformação do sensível, contestação da moral dominante ou reconfiguração do desejo social.


Big techs e a exploração do absurdo


É nesse ponto que entram as big techs. No debate contemporâneo, cresce a percepção de que grandes plataformas resistem à regulação democrática ao mesmo tempo que exercem enorme poder sobre circulação de informação, visibilidade social e formação da opinião pública. Em vez de funcionarem como arenas neutras, elas operam por algoritmos e modelos de negócio orientados a maximizar engajamento, tempo de permanência e monetização da atenção.


A expansão do chamado “AI slop” — vídeos, imagens e postagens gerados rapidamente por inteligência artificial, frequentemente falsos, grotescos, apelativos ou absurdos — mostra uma mutação importante da esfera pública digital. O conteúdo que choca, confunde ou fascina tende a obter circulação ampliada porque mobiliza reação imediata, comentário impulsivo, compartilhamento afetivo e curiosidade voyeurística. Nessa economia da atenção, o absurdo não cumpre função crítica; cumpre função extrativa.


A aproximação com o surrealismo e o dadaísmo é apenas formal e superficial. As plataformas reaproveitam procedimentos de choque, colagem, disjunção, nonsense e deformação, mas esvaziam seu conteúdo emancipatório. O que antes servia para desestabilizar a moral burguesa e a racionalidade disciplinar agora serve para ampliar cliques, manter usuários excitados e alimentar circuitos de consumo publicitário.


O inconsciente como recurso de mercado


Uma leitura psicanalítica ajuda a aprofundar esse diagnóstico. Freud descreve o sonho como realização disfarçada de desejos reprimidos, e a deformação onírica como mecanismo que torna esses desejos toleráveis à censura psíquica. No ambiente digital, imagens bizarras, memes extremos, narrativas conspiratórias e vídeos sintéticos podem operar como veículos de circulação deformada de impulsos recalcados, entre eles agressividade, medo, erotização difusa, pulsão de dominação e ressentimento.


A diferença é decisiva. No surrealismo, a irrupção do inconsciente pretendia ampliar a experiência, desorganizar a ordem moral e libertar a imaginação de seus grilhões. Nas plataformas, a irrupção do reprimido é administrada por algoritmos opacos e convertida em mercadoria comportamental. O inconsciente deixa de ser campo de emancipação para tornar-se matéria-prima de segmentação, retenção e lucro.


Em vez de elaboração simbólica, ocorre exploração pulsional. Em vez de crítica da sociedade repressiva, há adaptação lucrativa à sociedade repressiva, com uso calculado daquilo que ela própria reprime. Essa é uma das marcas mais perversas do capitalismo de plataforma: ele não elimina a repressão; ele a monetiza.


O novo paradoxo da modernidade mercadocêntrica


O resultado é um paradoxo histórico expressivo. As instituições modernas recusam a radicalidade estética e política de dadaísmo e surrealismo por considerá-la perigosa, anárquica ou incompatível com a ordem. Ao mesmo tempo, o mercado digital absorve seletivamente elementos dessas vanguardas — o choque, o absurdo, a deformação, o insólito — desde que sejam funcionalizados para extração de atenção e lucro.


Tem-se, assim, uma combinação instável: moral conservadora na regulação dos corpos, dos costumes e dos desejos; permissividade extrema na exploração comercial da fantasia, do escândalo e da excitação afetiva. A retórica empresarial de liberdade de expressão torna-se, nesse quadro, menos um compromisso democrático do que uma justificativa para a desresponsabilização das plataformas diante dos efeitos sociais de seus algoritmos.


Esse cenário sugere que a crítica surrealista e dadaísta mantém vigor analítico. Ela permite perceber que a modernidade contemporânea não superou a repressão do inconsciente; apenas reorganizou seus mecanismos. O conservadorismo moral continua operando como disciplina subjetiva, enquanto o mercado explora comercialmente os conteúdos reprimidos sob a forma de espetáculo digital, viralização e engajamento automatizado.


Considerações finais


A atualidade do surrealismo e do dadaísmo não está em repetir seus procedimentos formais, mas em reativar sua força crítica. Ambos ajudam a compreender que o conflito entre imaginação e ordem social não desapareceu; apenas mudou de escala e de mediação técnica. Hoje, esse conflito atravessa a relação entre plataformas digitais, moral conservadora, subjetividade e democracia.


Se a modernidade mercadocêntrica fala em inovação enquanto teme a liberdade imaginativa, seu impasse não é acidental. Trata-se de um sistema que precisa simultaneamente reprimir e explorar o desejo: reprimi-lo para manter ordem, produtividade e conformismo; explorá-lo para gerar consumo, atenção e lucro. É justamente nesse ponto que o legado crítico de surrealismo e dadaísmo volta a ser relevante, não como nostalgia das vanguardas, mas como abordagem para pensar a colonização contemporânea do inconsciente e os limites democráticos do capitalismo de plataforma.


P.S.: Usei IA Perplexity Pro no levantamento de informações e Adapta One na elaboração da imagem que ilustra esse artigo, tendo revisado a versão final, sobre a qual assumo inteira responsabilidade.

 
 
 

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