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Genealogia do bolsonarismo: do capitão rebelde ao movimento político nacional (1986–2026)

há 11 horas
36 min de leitura

Objetivo

Reconstruir a genealogia do bolsonarismo desde os antecedentes autoritários da política brasileira e a formação militar de Jair Bolsonaro até sua transformação em movimento político nacional, examinando as articulações entre militarismo, anticomunismo, violência política, organização familiar, religião, redes digitais, armamentismo, negacionismo científico, política socioambiental e aproximação com o trumpismo. O artigo procura compreender também como essas dimensões se relacionaram, sem que se estabeleça entre elas uma causalidade linear, com a contestação do sistema eleitoral, a tentativa de ruptura da ordem constitucional entre 2022 e 2023 e a persistência do bolsonarismo após a derrota eleitoral de 2022. Para isso, distingue fatos documentados, interpretações sociológicas, representações sociais, acusações ainda submetidas a julgamento e responsabilidades já estabelecidas judicialmente.


Resumo

O bolsonarismo não surgiu repentinamente na campanha presidencial de 2018, embora tampouco possa ser projetado retrospectivamente, como fenômeno já constituído, sobre toda a trajetória anterior de Jair Bolsonaro. Sua genealogia remete a tradições autoritárias brasileiras, à formação militar de Bolsonaro durante a ditadura, à mobilização corporativa que lhe deu projeção pública na década de 1980 e à posterior transformação de uma liderança inicialmente relacionada às demandas de militares e agentes de segurança em núcleo político familiar, movimento digital e força política nacional. Este ensaio toma 1986 como marco inicial da trajetória pública que posteriormente convergiria para o bolsonarismo, procurando compreender transformações, continuidades, rupturas e reconfigurações sem pressupor que o resultado estivesse contido na origem. A análise articula a teoria das representações sociais de Serge Moscovici, o pensamento complexo de Edgar Morin e a noção de política cognitiva de Alberto Guerreiro Ramos. Essa perspectiva permite compreender como representações aparentemente contraditórias — o militar indisciplinado que se torna defensor da ordem, o político profissional apresentado como outsider, o defensor de uma retórica de força transformado em vítima da violência, o nacionalista identificado com o trumpismo e o presidente que simultaneamente ocupa e confronta instituições do Estado — puderam coexistir e reforçar-se reciprocamente. O artigo examina ainda a formação do núcleo político familiar, as relações documentadas com personagens posteriormente associados às milícias, a comunicação digital, a facada de 2018, a mobilização religiosa, as trajetórias de Sergio Moro e André Mendonça, o armamentismo, a pandemia, o negacionismo climático, a política ambiental, o garimpo ilegal e a crise Yanomami. A contestação das urnas, a tentativa de golpe, os ataques de 8 de janeiro de 2023 e os planos de assassinato de autoridades são incorporados como acontecimentos de uma trajetória que não estava predeterminada em 1986, mas que torna impossível ignorar a violência e a construção política do inimigo como dimensões dessa genealogia.



Introdução — memória histórica e compreensão do presente


Para alguém que completa vinte anos em 2026, a eleição presidencial de 2018 ocorreu quando tinha aproximadamente doze anos. O impeachment de Dilma Rousseff pertence à sua infância; a ditadura militar, a redemocratização e a própria emergência pública de Jair Bolsonaro pertencem a um passado não vivido. Essa distância geracional não seria particularmente problemática se a formação da memória pública dependesse apenas da transmissão escolar, familiar e institucional. Entretanto, uma parcela crescente da experiência política contemporânea é mediada por vídeos curtos, memes, cortes de entrevistas, mensagens instantâneas e algoritmos que favorecem a circulação fragmentada e acelerada das informações. Personagens políticos podem, assim, reaparecer continuamente no presente, separados das trajetórias que os produziram.


Uma genealogia do bolsonarismo constitui, nesse sentido, também um exercício de memória histórica. Seu propósito não é procurar retrospectivamente uma essência imutável que estivesse inteiramente presente no capitão Bolsonaro dos anos 1980. O Bolsonaro de 1986 não era o presidente de 2019, assim como o movimento nacional posteriormente denominado bolsonarismo não pode ser reduzido à personalidade de seu principal líder. A genealogia procura compreender como relações, representações e estruturas se modificam no tempo, observando continuidades sem negar rupturas e reconhecendo que acontecimentos posteriores reconfiguram o significado atribuído aos anteriores.


Três perspectivas teóricas contribuem particularmente para essa tarefa. Serge Moscovici permite compreender as representações sociais como processos pelos quais grupos tornam inteligíveis acontecimentos, personagens e conflitos, ancorando o novo em categorias culturalmente disponíveis e objetivando ideias abstratas em imagens reconhecíveis (1). Edgar Morin, por sua vez, oferece instrumentos para analisar fenômenos nos quais elementos contraditórios não necessariamente se excluem, mas podem coexistir, interagir e retroagir uns sobre os outros (2). Essa perspectiva é especialmente útil diante de um fenômeno político no qual institucionalidade e antissistema, religião e agressividade, nacionalismo e transnacionalização, poder e representação da perseguição puderam coexistir.


Alberto Guerreiro Ramos acrescenta uma terceira dimensão, particularmente relevante para este ensaio. Em A nova ciência das organizações, cuja nova tradução brasileira foi publicada em 2022, Guerreiro Ramos dedica um capítulo à política cognitiva e outro à compreensão das organizações como sistemas epistemológicos. Sua crítica dirige-se à capacidade que determinados sistemas sociais possuem de naturalizar concepções particulares do ser humano e da sociedade, fazendo-as aparecer como se correspondessem à própria realidade (3). Aplicada ao campo político, essa perspectiva permite perguntar não apenas quais discursos persuadem mais pessoas, mas como determinadas categorias passam a organizar previamente aquilo que pode ser percebido como verdadeiro, legítimo, ameaçador ou aceitável.


Essa articulação entre representações sociais, complexidade e política cognitiva ajuda a evitar explicações monocausais. O bolsonarismo não pode ser compreendido exclusivamente pela crise econômica, pelo antipetismo, pela Operação Lava Jato, pelas Forças Armadas, pelas igrejas evangélicas, pela facada de 2018, pelas redes digitais ou pelas transformações internacionais das direitas. Cada uma dessas dimensões possui história própria. O problema sociológico está justamente em compreender como processos inicialmente distintos puderam aproximar-se e produzir uma configuração política capaz de reorganizar parte significativa das direitas brasileiras.


Antes de Bolsonaro: autoritarismo, integralismo e formação militar


A genealogia do bolsonarismo não começa com Bolsonaro. O Brasil conheceu diferentes tradições autoritárias durante o século XX, entre as quais se destacou a Ação Integralista Brasileira, fundada em 1932 e liderada por Plínio Salgado. O integralismo combinou nacionalismo, anticomunismo, hierarquia, conservadorismo moral e mobilização política de massas, constituindo uma das experiências mais importantes da direita radical brasileira anterior à Segunda Guerra Mundial (4).


Seria historicamente equivocado transformar o bolsonarismo numa simples continuação do integralismo. Os dois fenômenos pertencem a épocas profundamente diferentes, marcadas por estruturas sociais, sistemas de comunicação e contextos internacionais distintos. O reconhecimento dessa diferença, contudo, não exige ignorar a existência de repertórios políticos anteriores. A associação entre nacionalismo, anticomunismo, autoridade, ordem, conservadorismo moral e representação do adversário como ameaça à comunidade nacional antecede em muitas décadas a emergência de Bolsonaro.


Mais diretamente relacionada à sua trajetória está a ditadura iniciada em 1964. Bolsonaro ingressou na Academia Militar das Agulhas Negras em 1973 e formou-se em 1977, de modo que sua socialização profissional ocorreu quando as Forças Armadas não apenas constituíam instituições militares, mas ocupavam o centro do poder político. A doutrina de segurança nacional atribuía particular importância ao combate ao chamado inimigo interno, num ambiente em que oposição política, segurança nacional e anticomunismo podiam ser articulados de maneiras que ultrapassavam a competição democrática.


Naturalmente, não se pode deduzir das instituições em que alguém foi formado todas as posições que adotará décadas depois. A relevância dessa socialização torna-se mais evidente, porém, quando considerada à luz das manifestações posteriores de Bolsonaro sobre a ditadura. A Comissão Nacional da Verdade documentou a estrutura repressiva estabelecida durante o regime militar, incluindo práticas sistemáticas de prisão ilegal, tortura, execução e desaparecimento forçado (5). Em abril de 2016, durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff, Bolsonaro dedicou seu voto à memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. A documentação da Câmara registra a homenagem, que deu origem a representação por quebra de decoro parlamentar, cuja admissibilidade foi posteriormente rejeitada pelo Conselho de Ética (6).


O significado histórico dessa homenagem não consiste em estabelecer uma causalidade direta entre a ditadura e os acontecimentos de 2022. Sua importância está em mostrar que a violência política exercida pelo regime de 1964 não permanecia apenas como passado histórico: podia ser recuperada positivamente no interior de uma disputa política contemporânea. A questão da violência, portanto, não deve aparecer neste ensaio como característica psicológica de indivíduos, mas como problema político e histórico: interessa compreender em que circunstâncias a coerção, a repressão e até a eliminação do adversário passam a ser consideradas formas legítimas de ação.


1986–1988: o capitão rebelde e a entrada na política


A primeira projeção pública relevante de Bolsonaro ocorreu em setembro de 1986, quando, ainda capitão do Exército, publicou na revista Veja o artigo “O salário está baixo”, criticando a remuneração dos militares. A manifestação pública sem autorização da hierarquia resultou em punição disciplinar de quinze dias de prisão. No ano seguinte, a mesma revista publicou reportagem sobre um plano atribuído a Bolsonaro e ao capitão Fábio Passos da Silva envolvendo explosões em instalações militares como forma de pressionar por melhores vencimentos. Bolsonaro negou a acusação (7).


O caso passou por investigação militar, perícias contraditórias e Conselho de Justificação. O desfecho jurídico precisa ser registrado com precisão, especialmente porque esse episódio tem sido frequentemente simplificado no debate político. Em 16 de junho de 1988, o Superior Tribunal Militar julgou Bolsonaro não culpado por maioria de votos; quatro ministros votaram em sentido contrário (8). Não é correto, portanto, afirmar que ele tenha sido condenado ou expulso do Exército em consequência do caso.


A relevância genealógica encontra-se menos no resultado jurídico do que na transformação política que estava em curso. Bolsonaro havia percebido que uma insatisfação corporativa existente no interior das Forças Armadas podia ser convertida em visibilidade pública e, posteriormente, em representação eleitoral. Ao recorrer à imprensa e confrontar canais hierárquicos, tornou-se conhecido entre segmentos militares descontentes com salários e condições profissionais. Pouco depois, foi eleito vereador no Rio de Janeiro e, em 1990, deputado federal.


A trajetória produz aqui uma ambivalência que se tornaria mais visível com o passar das décadas. O oficial que alcançara notoriedade ao desafiar a disciplina institucional passaria progressivamente a construir sua identidade política em torno da defesa da disciplina, da autoridade e da ordem. Essa transformação não precisa ser tratada como simples incoerência pessoal. Do ponto de vista das representações sociais, a experiência do militar que enfrentou a hierarquia podia ser reinterpretada como demonstração de coragem para enfrentar estruturas consideradas injustas. A rebeldia contra determinada autoridade e a defesa de uma ordem mais ampla podiam, assim, tornar-se compatíveis na representação política que começava a ser construída.


Da representação corporativa à organização político-familiar


Durante os anos seguintes, essa trajetória deixou progressivamente de ser apenas individual. Carlos Bolsonaro iniciou carreira na política municipal, Flávio Bolsonaro construiu sua trajetória na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e Eduardo Bolsonaro chegaria posteriormente à Câmara dos Deputados. Décadas depois, Michelle Bolsonaro também adquiriria crescente protagonismo político, particularmente na articulação entre bolsonarismo, conservadorismo moral e identidades religiosas.


A família constituiu o núcleo mais estável da organização política formada em torno de Bolsonaro, mas o bolsonarismo nunca se limitou a ela. Em diferentes momentos aproximaram-se desse núcleo militares, policiais, lideranças religiosas, empresários, parlamentares, dirigentes partidários, comunicadores e influenciadores digitais. Essas aproximações não foram permanentes nem homogêneas. A história do movimento contém disputas, afastamentos, retornos e rupturas, o que torna inadequada a imagem de um bloco ideológico perfeitamente integrado.


A mesma precaução deve ser adotada quando se trata da relação entre bolsonarismo e direita brasileira. Bolsonaro não inventou a direita no Brasil, assim como as diferentes direitas brasileiras não se tornaram indistintamente bolsonaristas. O que ocorreu especialmente a partir da década de 2010 foi uma reorganização do campo político na qual uma liderança anteriormente periférica passou a exercer crescente capacidade de agregação. Conservadores tradicionais, liberais econômicos, militares, policiais, evangélicos, empresários, lavajatistas e grupos de direita radicalizada puderam convergir em determinadas conjunturas sem abandonar inteiramente suas diferenças.


Essa capacidade de articular grupos que não possuíam a mesma origem constitui uma das chaves para compreender a transformação de Bolsonaro. O deputado durante muito tempo conhecido sobretudo por posições corporativas, declarações polêmicas e defesa da ditadura passou a oferecer um ponto de convergência para insatisfações que tinham histórias distintas.


Rio de Janeiro: política, segurança pública e milícias


O Rio de Janeiro ocupa posição fundamental nessa genealogia, mas também exige especial cuidado metodológico. Milícias, contravenção, corrupção policial, grupos de extermínio e relações clientelistas entre agentes públicos e mercados ilegais possuem histórias anteriores ao bolsonarismo. A expansão das milícias fluminenses não pode ser explicada como criação da família Bolsonaro, nem a criminalidade organizada do estado pode ser reduzida a uma única corrente política.


Essa constatação não torna irrelevantes as relações documentadas entre integrantes da família e personagens posteriormente identificados em investigações sobre milícias. O caso de Adriano Magalhães da Nóbrega é particularmente significativo. Em 2005, Flávio Bolsonaro, então deputado estadual, propôs na Assembleia Legislativa a concessão da Medalha Tiradentes ao policial militar. A homenagem foi aprovada (9). Esse fato deve ser distinguido da caracterização criminal posterior de Adriano. Em janeiro de 2019, no âmbito da Operação Intocáveis, o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro denunciou Adriano e outros integrantes de uma organização criminosa que atuava em Rio das Pedras, Muzema e áreas próximas, apontando-o entre as lideranças do grupo. Em investigação posterior sobre o chamado Escritório do Crime, o MPRJ registrou sua ligação e influência sobre integrantes do grupo (10).


Essa sequência temporal é importante porque impede dois erros opostos. O primeiro seria projetar retrospectivamente sobre 2005 tudo aquilo que as investigações revelariam muitos anos depois e, com isso, atribuir automaticamente a Flávio Bolsonaro conhecimento que precisaria ser demonstrado por evidências próprias. O segundo seria tratar como irrelevante o fato de que uma pessoa posteriormente apontada pelo Ministério Público como liderança de organização criminosa havia sido homenageada politicamente por iniciativa de um integrante do núcleo familiar Bolsonaro. A genealogia precisa conservar simultaneamente os dois fatos, sem transformar proximidade política em responsabilidade criminal por associação.


A relação com o gabinete de Flávio Bolsonaro foi além da homenagem. Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, então mulher de Adriano, foi nomeada para o gabinete em 2007, e Raimunda Veras Magalhães, mãe dele, em 2016; ambas permaneceram vinculadas ao gabinete até 2018. Fabrício Queiroz, policial militar aposentado e assessor de Flávio, era amigo de Adriano e, segundo reportagens baseadas na investigação do Ministério Público do Rio, participou da indicação das duas. A investigação das chamadas “rachadinhas” sustentou que Danielle e Raimunda haviam repassado recursos a Queiroz e que contas relacionadas a Adriano também apareceram nas movimentações investigadas. Essas acusações, contudo, não resultaram em condenação de Flávio Bolsonaro: provas importantes da investigação foram anuladas por decisões do STJ e do STF, e Flávio sempre negou participação no esquema (11).


A inclusão dessa história exige, portanto, cuidado ainda maior com as categorias utilizadas. O emprego das duas mulheres no gabinete é um fato documental; a amizade entre Queiroz e Adriano também está documentada. Já as afirmações sobre a existência e o funcionamento de um esquema de rachadinhas pertencem ao campo das acusações formuladas na investigação, cujo desenvolvimento processual foi profundamente afetado pela anulação das provas. Relação pessoal, homenagem política, vínculo empregatício, proximidade eleitoral, associação com integrantes de organizações criminosas e participação criminal não são equivalentes. Confundi-las produz acusações frágeis; distingui-las permite identificar com maior precisão onde efetivamente existem interfaces entre política e criminalidade organizada.


O problema histórico mais amplo talvez não seja saber se determinada organização criminosa “pertence” a determinada corrente ideológica, mas compreender como estruturas políticas, policiais e administrativas podem tornar-se permeáveis à influência de mercados ilegais. Essa questão retornará mais adiante, quando examinarmos acontecimentos recentes no Rio de Janeiro.


Redes digitais e transformação da representação política


A expansão nacional do bolsonarismo dificilmente pode ser compreendida sem considerar a transformação do sistema de comunicação política. Durante grande parte da carreira parlamentar de Bolsonaro, a televisão, o rádio, os jornais e as estruturas partidárias funcionavam como intermediários fundamentais entre representantes e eleitores. A disseminação das redes sociais reduziu parcialmente essa mediação e permitiu a formação de circuitos comunicacionais próprios.


Carlos Bolsonaro teve papel importante na comunicação digital da família, embora a construção desse ecossistema não possa ser atribuída a um único personagem. Pesquisa sobre 194.710 mensagens publicadas em 21 grupos de WhatsApp de apoio a Bolsonaro durante a campanha de 2018 encontrou elevada concentração da produção de conteúdo em participantes muito ativos, circulação intensa de materiais provenientes de outras plataformas e iniciativas coordenadas destinadas tanto a neutralizar conteúdos considerados prejudiciais ao candidato quanto a mobilizar apoio para candidatos aliados (12).


Essa transformação comunicacional contribuiu para uma operação representacional particularmente importante. Bolsonaro ocupava cargos eletivos desde 1989 e estava na Câmara dos Deputados desde 1991; ainda assim, em 2018, podia ser reconhecido por parcela expressiva do eleitorado como alguém externo ao sistema político. A representação do outsider não dependia, portanto, da ausência objetiva de carreira política. Dependia da possibilidade de interpretar sua trajetória como permanência conflitiva dentro de um sistema ao qual supostamente nunca teria pertencido de fato.


Moscovici ajuda a compreender essa transformação porque as representações sociais não funcionam como biografias completas. Elas selecionam aspectos, simplificam relações e tornam personagens reconhecíveis por meio de imagens socialmente disponíveis. O militar, o pai de família, o cristão, o anticomunista, o defensor das armas e o político que dizia enfrentar aquilo que chamava de “sistema” podiam alcançar públicos diferentes sem necessidade de formar uma doutrina inteiramente coerente. A própria fragmentação do ambiente digital favorecia essa coexistência.


2013–2018: crise de representação e nacionalização


As manifestações de junho de 2013 não devem ser reinterpretadas retrospectivamente como movimento bolsonarista. Foram heterogêneas, comportaram demandas contraditórias e envolveram grupos de diferentes orientações políticas. Contudo, a crise de representação que se aprofundou nos anos seguintes alterou o campo de possibilidades no qual Bolsonaro atuava.


A recessão econômica, os escândalos de corrupção, a Operação Lava Jato, o impeachment de Dilma Rousseff, o crescimento do antipetismo, o desgaste dos partidos tradicionais e a expansão das redes digitais produziram um ambiente no qual características que anteriormente confinavam Bolsonaro a uma posição periférica puderam ser ressignificadas como sinais de autenticidade. O radicalismo que antes limitava sua expansão podia agora diferenciá-lo das elites políticas identificadas como responsáveis pela crise.


A candidatura presidencial de 2018 conseguiu reunir grupos cuja convergência estava longe de ser evidente alguns anos antes. Conservadores morais, parcelas das Forças Armadas e das polícias, setores empresariais, liberais econômicos, lideranças evangélicas, lavajatistas e eleitores mobilizados principalmente pelo antipetismo encontraram em Bolsonaro uma candidatura comum. Isso não significa que tenham passado a compartilhar uma única concepção de sociedade. O bolsonarismo nacional formou-se justamente pela capacidade de manter reunidos, ao menos durante determinado período, grupos que possuíam motivações diferentes.


É nesse sentido que o pensamento complexo de Morin se torna particularmente produtivo. Em vez de procurar uma causa única capaz de explicar o fenômeno, torna-se necessário observar como processos relativamente autônomos se associaram e passaram a produzir efeitos que nenhum deles produziria isoladamente.


A facada de 2018 e a transformação simbólica da violência


Em 6 de setembro de 2018, Bolsonaro foi esfaqueado durante ato eleitoral em Juiz de Fora. O atentado foi grave e alterou as condições da campanha. As investigações não demonstraram participação de partido ou organização política na ação de Adélio Bispo.


O significado político do acontecimento, entretanto, não pode ser reduzido à identificação de seu autor. Durante décadas, Bolsonaro havia construído parte de sua imagem pública em torno da força, das armas, da repressão à criminalidade e de declarações agressivas contra adversários. A facada introduziu uma inversão de grande potência simbólica: o político associado à retórica da força tornou-se vítima concreta de uma violência que quase lhe custou a vida.


Essa inversão permitiu reorganizar representações anteriores. A vítima podia ser percebida como perseguida; o sobrevivente podia adquirir a imagem daquele que fora preservado para cumprir uma missão; em ambientes religiosos, a sobrevivência podia ser interpretada providencialmente. O próprio nome “Messias” facilitava associações simbólicas que não haviam sido inventadas pelo acontecimento, mas que ganharam novas possibilidades de circulação depois dele.

A antiga filiação de Adélio Bispo ao PSOL também podia ser convertida, no ambiente das redes, numa sequência interpretativa muito mais simples do que aquilo que as investigações demonstravam. A passagem do indivíduo para sua antiga filiação partidária e desta para uma responsabilização difusa da esquerda ilustra como as representações sociais reduzem relações complexas a narrativas reconhecíveis. A investigação policial podia concluir que não havia organização partidária por trás do atentado, enquanto a representação política continuava circulando independentemente dessa conclusão.


A trajetória acumulava, assim, uma nova ambivalência. Bolsonaro podia continuar sendo reconhecido como defensor da força e, simultaneamente, como vítima da violência. Em vez de uma imagem necessariamente anular a outra, a condição de vítima podia fortalecer a representação do guerreiro que sobrevivera ao ataque de seus inimigos.


Ambivalências como componentes da representação política


As contradições acumuladas até 2018 não precisam ser interpretadas simplesmente como inconsistências que o eleitor deixou de perceber. Elas podem ser compreendidas como componentes de uma representação capaz de articular experiências diferentes. O capitão que havia enfrentado problemas disciplinares no Exército podia, décadas depois, representar a restauração da disciplina e da autoridade; o parlamentar que exercia cargos eletivos havia quase trinta anos podia ser reconhecido como outsider; o integrante de uma família progressivamente profissionalizada na política podia apresentar-se como adversário da velha política.


A perspectiva dialógica de Morin é útil precisamente porque evita a expectativa de que um fenômeno político complexo deva resolver todas as suas contradições para tornar-se socialmente eficaz. Em determinadas circunstâncias, posições antagônicas podem retroagir e reforçar-se. A resistência de instituições, imprensa ou adversários a Bolsonaro podia ser interpretada por seus críticos como reação às ações do próprio político e, simultaneamente, por seus apoiadores como evidência de que ele efetivamente enfrentava o sistema. Nesse circuito, a contestação da representação pode converter-se em elemento que a confirma.


Esse mecanismo tornar-se-ia particularmente importante depois da Presidência. Quanto maior o poder institucional ocupado por Bolsonaro, mais paradoxal se tornava a permanência da representação antissistema. Entretanto, a contradição podia ser resolvida cognitivamente pela ideia de que ocupar o governo não significava controlar o “sistema”, supostamente localizado em outras instituições, na imprensa, nas universidades, no Judiciário ou em burocracias estatais.


Religião, Michelle Bolsonaro e política cognitiva


A dimensão religiosa do bolsonarismo precisa ser tratada sem transformar o cristianismo ou o evangelicalismo em categorias políticas homogêneas. Igrejas e movimentos cristãos participaram historicamente tanto de projetos conservadores quanto de experiências comunitárias, movimentos sociais, defesa dos direitos humanos e resistência à ditadura. O problema relevante não é, portanto, a religião em si, mas as formas específicas pelas quais símbolos, identidades e autoridades religiosas podem ser articulados a projetos políticos.


Bolsonaro incorporou progressivamente uma linguagem que aproximava Deus, pátria, família, anticomunismo e conservadorismo moral. A facada acrescentou a possibilidade de uma narrativa providencial de sobrevivência, enquanto Michelle Bolsonaro passou a ocupar posição crescente na articulação com públicos religiosos. Essa dimensão tornou-se especialmente visível na indicação de André Mendonça ao Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro havia prometido nomear um ministro “terrivelmente evangélico”, e a proximidade religiosa entre Michelle e Mendonça, assim como a influência dela na defesa de sua indicação, foi documentada (13).


A política cognitiva de Guerreiro Ramos permite aprofundar a interpretação desse processo. Uma decisão constitucional — a escolha presidencial de um ministro do STF posteriormente submetida à aprovação do Senado — pode ser simultaneamente traduzida para outra linguagem, na qual a nomeação passa a ser compreendida como realização de um propósito transcendente. Não se trata de afirmar que uma interpretação religiosa seja necessariamente incompatível com a democracia, mas de observar que essa tradução altera o critério pelo qual a decisão é avaliada. Uma escolha político-institucional pode adquirir uma legitimidade adicional que não deriva apenas da Constituição ou das qualificações profissionais do indicado, mas de sua inserção numa narrativa religiosa.


Nesse ponto, a ideia das organizações como sistemas epistemológicos também se torna relevante. Instituições não apenas executam decisões; elas produzem critérios pelos quais determinadas formas de conhecimento e legitimidade são reconhecidas. Quando linguagens institucionais, religiosas e político-partidárias se sobrepõem, surge a questão de saber quais critérios prevalecem quando entram em conflito.


Moro, Lava Jato e uma convergência que encontrou limites


Sergio Moro chegou ao governo Bolsonaro por uma trajetória muito diferente daquela de André Mendonça. A Operação Lava Jato havia lhe proporcionado forte capital simbólico como juiz associado ao combate à corrupção. Sua entrada no Ministério da Justiça ajudou a aproximar o novo governo de setores para os quais a moralização da política constituía uma prioridade e que nem sempre compartilhavam o repertório militar, religioso ou familiar do bolsonarismo.


Essa convergência encontrou seu limite em abril de 2020, quando Moro deixou o governo acusando Bolsonaro de pretender interferir politicamente na Polícia Federal. As acusações deram origem ao Inquérito 4.831 no Supremo Tribunal Federal (14). Em 2022, relatório da Polícia Federal afirmou não ter encontrado elementos suficientes para comprovar criminalmente a interferência nos termos investigados. A história processual, contudo, não terminou ali: em outubro de 2025, atendendo a pedido da Procuradoria-Geral da República, o STF determinou a reabertura do inquérito para aprofundar as investigações.


A formulação histórica precisa preservar essa sequência. Não existe base para apresentar a interferência denunciada por Moro como fato criminal definitivamente estabelecido, mas tampouco é correto utilizar o relatório de 2022 como se tivesse encerrado definitivamente a questão. A reabertura posterior demonstra que o estatuto jurídico do caso continuava em desenvolvimento.


A própria trajetória política de Moro mostra por que é inadequado imaginar lavajatismo e bolsonarismo como fenômenos idênticos. Eles puderam convergir em 2018 e 2019, romper em 2020 e voltar a aproximar-se posteriormente. As alianças políticas, vistas genealogicamente, não são apenas encontros entre identidades prontas; modificam os próprios atores que delas participam.


André Mendonça, inteligência e independência institucional


A substituição de Moro por André Mendonça no Ministério da Justiça introduziu outra trajetória no centro do governo. Mendonça já havia ocupado a Advocacia-Geral da União e possuía, além da formação jurídica, identidade pública como pastor presbiteriano. Sua passagem pelo Ministério ocorreu num momento em que a relação entre governo, Polícia Federal, inteligência e oposição política estava particularmente tensionada.


Durante sua gestão veio a público a produção, pela Secretaria de Operações Integradas, de informações relativas a centenas de servidores da segurança pública e professores universitários identificados com o movimento antifascista. No julgamento da ADPF 722, o STF declarou inconstitucionais atos do Ministério da Justiça destinados à produção ou ao compartilhamento de informações sobre pessoas que exercessem legalmente direitos de expressão, reunião e associação, entendendo que o uso da inteligência para acompanhamento de escolhas políticas configurava desvio de finalidade (15).


O episódio é relevante para a genealogia porque permite observar concretamente a passagem da disputa política para a disputa sobre os limites do próprio conhecimento estatal. Serviços de inteligência existem precisamente para produzir informações que não estão disponíveis ao público em geral. Por isso, a questão sobre aquilo que o Estado pode legitimamente conhecer, registrar, cruzar e compartilhar sobre seus cidadãos possui implicações democráticas profundas. A política cognitiva deixa aqui de ser apenas disputa discursiva e adquire uma dimensão institucional.


A indicação posterior de Mendonça ao STF acrescentou outro nível a essa trajetória. Em setembro de 2026, já como ministro do Supremo e relator de procedimentos relacionados ao Banco Master, Mendonça determinou o afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada. A medida provocou conflito dentro do próprio Tribunal e, no momento em que este artigo é escrito, permanece inserida numa controvérsia institucional ainda não definitivamente resolvida (16).


Essa sequência não autoriza concluir que Mendonça seja parcial. Biografia política anterior, relações religiosas e decisões judiciais posteriores não constituem, por si mesmas, demonstração de parcialidade. O que tornam possível — e necessário — é examinar a tensão entre vínculos anteriores e as exigências institucionais de independência, impessoalidade e imparcialidade. Uma genealogia que procura compreender relações deve resistir tanto à ingenuidade de ignorá-las quanto à tentação de transformá-las automaticamente em prova de ilícito.


Armamentismo e capacidade regulatória do Estado


A política de armas constitui outra dimensão na qual discurso político, ação governamental e capacidade institucional precisam ser examinados conjuntamente. Durante o governo Bolsonaro houve forte ampliação do acesso legal a armas e crescimento dos registros. Auditoria do Tribunal de Contas da União constatou que 554.875 novas armas legalmente adquiridas entraram em circulação entre janeiro de 2020 e dezembro de 2021, sendo 366.587 registradas no Sinarm e 188.288 no Sigma. O TCU identificou ainda deficiências importantes na integração, confiabilidade e rastreabilidade dos sistemas federais de controle (17).


Esses dados não demonstram que as armas legalmente adquiridas tenham sido destinadas ao crime organizado, e seria incorreto utilizar a auditoria para sustentar tal afirmação. O problema institucional é diferente. Uma política destinada a ampliar rapidamente o acesso a armas ocorreu num contexto em que os sistemas responsáveis por controlar e rastrear esse arsenal apresentavam deficiências significativas. Isso abre uma questão empírica sobre a capacidade estatal de acompanhar os efeitos da política e impedir desvios para mercados ilegais.


A relação com o crime organizado, portanto, não deve ser pressuposta, mas investigada. A distinção é importante porque permite formular uma crítica institucional mais consistente: mesmo uma política defendida como ampliação de uma liberdade individual depende da existência de sistemas públicos capazes de conhecer, controlar e rastrear seus efeitos. A política cognitiva reaparece, aqui, ligada à própria capacidade informacional do Estado.


Pandemia, ciência e autoridade cognitiva


A pandemia de Covid-19 colocou a autoridade científica no centro do conflito político brasileiro. Epidemiologia, vacinação, uso de máscaras, distanciamento social, medicamentos e estatísticas de mortalidade deixaram de circular apenas nos espaços especializados e passaram a integrar intensamente a disputa política. Bolsonaro minimizou reiteradamente a gravidade da doença, entrou em conflito com governadores e autoridades sanitárias e defendeu tratamentos cuja eficácia não era sustentada pelas melhores evidências científicas disponíveis. A CPI da Pandemia investigou a atuação do governo federal e aprovou relatório recomendando diversos indiciamentos, inclusive o do presidente, enquanto parlamentares governistas contestaram as conclusões da comissão (18).


O significado desse conflito ultrapassa a avaliação de decisões sanitárias específicas. O que estava em disputa era também a autoridade para definir a realidade. Instituições científicas, universidades, Organização Mundial da Saúde, Ministério da Saúde, médicos dissidentes, lideranças políticas e influenciadores digitais disputavam legitimidade diante de uma população submetida simultaneamente a uma emergência sanitária e a uma avalanche de informações contraditórias.


A contribuição de Guerreiro Ramos ajuda a compreender por que esse conflito não pode ser reduzido à oposição simplista entre informação e ignorância. Sistemas sociais produzem critérios de validação e tornam determinados conhecimentos mais aceitáveis que outros. Quando comunidades políticas passam a reconhecer como confiáveis apenas as fontes previamente compatíveis com sua identidade, uma informação pode ser rejeitada não pelo conteúdo que apresenta, mas pela instituição da qual provém. O conflito cognitivo torna-se, então, também conflito de pertencimento.


Negacionismo climático, Amazônia e crise Yanomami


A disputa em torno da autoridade científica não começou com a Covid-19 e tampouco terminou com a pandemia. Jean Carlos Hochsprung Miguel analisou o negacionismo climático brasileiro como dispositivo estratégico associado a determinadas concepções político-econômicas e capaz de bloquear processos de governança ambiental (19). Outros pesquisadores caracterizaram o governo Bolsonaro como período de desmonte ou enfraquecimento de estruturas da política ambiental brasileira (20).


É importante separar essa interpretação acadêmica dos indicadores empíricos utilizados para avaliá-la. Segundo o PRODES/INPE, o desmatamento da Amazônia Legal passou de 7.536 km² em 2018 para 10.129 km² em 2019, 10.851 km² em 2020 e 13.038 km² em 2021. Em 2022 houve redução para 11.594 km², ainda muito acima do patamar registrado em 2018 (21). Esses números não permitem atribuir mecanicamente cada quilômetro desmatado a uma decisão presidencial, mas documentam que o período em que pesquisadores identificaram enfraquecimento da governança ambiental coincidiu com crescimento expressivo do desmatamento.


A crise Yanomami mostra como processos ambientais, econômicos e sociais podem tornar-se inseparáveis. Pesquisa realizada em nove aldeias examinou 287 amostras de cabelo e encontrou níveis de mercúrio superiores a 2 µg/g em 84% delas, enquanto 10,8% apresentavam concentrações superiores a 6 µg/g. Os níveis mais elevados estavam associados às regiões mais próximas da atividade garimpeira (22). O mercúrio, nesse caso, conecta exploração mineral ilegal, contaminação ambiental, saúde coletiva, direitos indígenas e capacidade estatal de controlar o território.


Essa relação permite reconsiderar também o significado político da soberania. A afirmação de que “a Amazônia é nossa” pode expressar resistência a pressões externas, mas soberania não se reduz à capacidade de rejeitar interferências estrangeiras. Um Estado soberano precisa também controlar efetivamente seu território, proteger populações submetidas à sua jurisdição e impedir que organizações ilegais estabeleçam estruturas econômicas e coercitivas próprias. Quando garimpo clandestino, pistas de pouso, financiamento, maquinário, circulação de armas e contaminação ambiental se articulam em áreas formalmente protegidas, a soberania deixa de ser apenas discurso diplomático e passa a envolver a capacidade concreta de governar.


Nacionalismo verde-amarelo e identificação com o trumpismo


A apropriação dos símbolos nacionais tornou-se uma das marcas visuais mais reconhecíveis do bolsonarismo. Bandeira, hino, verde-amarelo e camisa da seleção foram incorporados às manifestações políticas de tal maneira que a disputa partidária podia ser apresentada como disputa sobre a própria representação da nação. Essa operação possui importante consequência cognitiva: o adversário deixa de aparecer apenas como portador de outro projeto político e corre o risco de ser simbolicamente deslocado para fora da comunidade dos verdadeiros patriotas.


Esse nacionalismo conviveu com forte aproximação ideológica ao governo de Donald Trump. A literatura sobre política externa identificou no início do governo Bolsonaro uma ruptura com aspectos importantes da tradição diplomática brasileira, acompanhada por alinhamento com os Estados Unidos de Trump, antiglobalismo e aproximação com redes internacionais da nova direita (23). Eduardo Bolsonaro tornou-se personagem relevante nessas conexões, enquanto Ernesto Araújo chegou ao Itamaraty depois de produzir textos nos quais associava Trump à recuperação do Ocidente, do nacionalismo e do cristianismo.


Não é necessário tratar nacionalismo e alinhamento internacional como contradição insolúvel. As novas direitas demonstraram justamente a possibilidade de construir redes transnacionais de nacionalistas. A identificação com Trump podia ser apresentada não como submissão a outro país, mas como participação numa luta internacional comum contra inimigos igualmente transnacionalizados, entre os quais o globalismo, o comunismo e determinadas transformações culturais.


Essa operação amplia novamente a questão da política cognitiva. A categoria “patriota” deixa de designar simplesmente alguém comprometido com seu país e passa a integrar uma fronteira simbólica que separa pertencimento e não pertencimento. Quando a fronteira partidária é convertida em fronteira moral e nacional, o adversário político pode gradualmente ser representado não apenas como alguém que governa mal, mas como alguém que ameaça a própria existência da comunidade.


Da contestação das urnas à tentativa de ruptura constitucional


É justamente nesse ponto que a contestação do sistema eleitoral adquire importância central. A derrota de Bolsonaro em outubro de 2022 não inaugurou suas críticas às urnas eletrônicas. Alegações reiteradas sobre supostas vulnerabilidades e fraudes haviam circulado anteriormente sem apresentação de provas capazes de demonstrar a manipulação eleitoral anunciada. Isso significava que, quando ocorreu a derrota, já estava socialmente disponível uma representação que permitia interpretá-la não como decisão majoritária do eleitorado, mas como resultado de um sistema ilegítimo.


Do ponto de vista da política cognitiva, a sequência é importante porque a representação antecede o acontecimento e condiciona sua interpretação. Quando um grupo acredita previamente que determinado resultado somente poderá ocorrer mediante fraude, a ocorrência desse resultado tende a ser absorvida como confirmação da crença anterior. Evidências contrárias podem, então, perder capacidade de produzir revisão porque as próprias instituições responsáveis por fornecê-las já foram incorporadas à narrativa como partes do problema.


Segundo a acusação da Procuradoria-Geral da República posteriormente examinada pelo Supremo Tribunal Federal, a sequência que integrou a trama golpista incluiu a deslegitimação do sistema eleitoral, pressões e tentativas de obtenção de apoio militar e ações destinadas a impedir a sucessão presidencial. Em setembro de 2025, a Primeira Turma do STF condenou os oito réus do chamado Núcleo 1 ou Núcleo Crucial, entre eles Jair Bolsonaro e antigos integrantes de seu governo. O acórdão publicado em outubro registrou a responsabilização desse núcleo pelo planejamento e liderança das ações voltadas à tentativa de ruptura institucional (24).


Bolsonaro recebeu pena de 27 anos e três meses. O julgamento não eliminou divergências jurídicas dentro do próprio colegiado, mas produziu condenação por maioria. Posteriormente, o STF concluiu os julgamentos dos núcleos submetidos à Primeira Turma, individualizando as responsabilidades dos diferentes acusados.


Esse desenvolvimento altera o estatuto histórico do problema. A tentativa de golpe não pode mais ser tratada apenas como acusação formulada por adversários políticos ou como hipótese jornalística. Ela foi objeto de investigação, denúncia, instrução processual, contraditório, julgamento e condenações. Isso não elimina a necessidade de individualizar responsabilidades; ao contrário, torna essa distinção ainda mais necessária.


O 8 de janeiro e a transformação da representação em ação


Depois da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno de 2022, grupos de apoiadores de Bolsonaro permaneceram acampados diante de instalações militares, muitos deles reivindicando uma intervenção das Forças Armadas. Em 8 de janeiro de 2023, uma semana depois da posse do novo presidente, milhares de pessoas invadiram e depredaram as sedes do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal e do Palácio do Planalto.


O acontecimento não deve ser isolado da sequência anterior, mas tampouco todos os participantes podem ser tratados como se possuíssem o mesmo conhecimento, intenção e responsabilidade. Os processos judiciais distinguiram executores, organizadores, financiadores, agentes públicos e participantes cujas condutas foram consideradas menos graves, além de registrarem absolvições em determinados casos. Até janeiro de 2026, o STF informava que 1.399 pessoas haviam sido responsabilizadas criminalmente no conjunto dos processos relacionados aos atos antidemocráticos de 8 de janeiro (25).


A importância sociológica do episódio reside também na possibilidade de observar como determinadas representações podem inverter o significado subjetivo de uma ação. Se o líder é identificado com a verdadeira vontade nacional, se a eleição que o derrota é percebida como fraudulenta, se o Supremo é representado como agente de perseguição e se as Forças Armadas são imaginadas como instituição capaz de corrigir o resultado eleitoral, uma ação contra as instituições democráticas pode ser subjetivamente compreendida por seus participantes como defesa da própria democracia.


Essa inversão não se explica apenas pela existência de informações falsas isoladas. Ela depende de um sistema interpretativo no qual as instituições responsáveis por validar os fatos já perderam legitimidade. A política cognitiva alcança aqui um de seus pontos mais importantes: a disputa deixa de ocorrer somente sobre qual interpretação dos fatos é correta e passa a atingir os próprios critérios e instituições por meio dos quais fatos e legitimidades são reconhecidos.


Punhal Verde e Amarelo e a transformação do adversário em inimigo


A dimensão mais grave da violência revelada nos processos relacionados à tentativa de golpe aparece nos planos conhecidos como “Punhal Verde e Amarelo” e “Copa 2022”. No julgamento do Núcleo 3, o STF condenou nove dos dez réus, absolvendo um por insuficiência de provas. O Tribunal caracterizou o grupo como responsável pelo planejamento das ações mais violentas da organização, entre elas ações voltadas ao assassinato do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, do vice-presidente eleito Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes (26).


A individualização das responsabilidades permanece indispensável. A condenação de Bolsonaro no Núcleo 1 não equivale a atribuir-lhe automaticamente autoria pessoal do documento “Punhal Verde e Amarelo” ou de todas as ações operacionais planejadas por integrantes de outros núcleos. Da mesma maneira, a existência de interação entre integrantes dos diferentes grupos não elimina a necessidade de demonstrar aquilo que cada acusado efetivamente fez.


Feita essa distinção, o planejamento da eliminação física de autoridades modifica profundamente a análise histórica da violência. O episódio investigado no Exército nos anos 1980, a defesa posterior da ditadura, a homenagem a Ustra, as declarações favoráveis ao uso da força, o armamentismo e o planejamento homicida realizado por integrantes da trama golpista pertencem a momentos diferentes e não devem ser unidos por uma linha causal automática. Seria metodologicamente inadequado afirmar que o Punhal Verde e Amarelo já estivesse potencialmente contido no capitão de 1986.


A genealogia permite formular outra questão, mais complexa: de que maneira a representação do adversário político como ameaça existencial foi se tornando disponível e legítima para determinados grupos ao longo dessa trajetória? Em uma democracia, o adversário é alguém cuja proposta pode ser combatida e cuja candidatura pode ser derrotada, mas cuja legitimidade para continuar existindo e competir politicamente é reconhecida. Quando o adversário passa a ser representado como inimigo que ameaça a sobrevivência da nação, da família, da religião ou da liberdade, as fronteiras morais da ação política podem começar a deslocar-se.


Não se trata de afirmar que todo eleitor de Bolsonaro, todo conservador ou toda pessoa que rejeita Lula ou Alexandre de Moraes aceite a violência. Essa generalização seria empiricamente injustificável. O problema está em compreender como, dentro de uma configuração política ampla e heterogênea, determinados grupos puderam avançar da rejeição política para o planejamento da eliminação física de autoridades. É precisamente a diferenciação entre movimento, grupos radicalizados e responsabilidades individuais que permite estudar seriamente esse processo.


Da defesa da ordem à tentativa de ruptura da ordem


A tentativa de golpe permite reinterpretar uma ambivalência que atravessa a genealogia desde os anos 1980. Bolsonaro e o movimento formado em torno dele construíram parte importante de sua legitimidade com referências à lei, à ordem, à autoridade e às Forças Armadas. Décadas depois, integrantes centrais e operacionais da trama julgada pelo STF foram condenados por ações destinadas a impedir a alternância constitucional do poder.


Essa transformação não pode ser reduzida a uma frase paradoxal. Ela exige compreender como a própria ideia de ordem pode adquirir significados diferentes. Uma concepção democrática de ordem subordina governo, oposição, forças policiais e Forças Armadas a regras institucionais que continuam válidas mesmo quando produzem resultados indesejados para determinado grupo. Uma concepção substantivamente distinta pode considerar que existe uma ordem superior — moral, nacional ou histórica — cuja defesa justificaria a suspensão das regras quando estas produzem resultados percebidos como ilegítimos.


É nesse ponto que a memória da ditadura, o anticomunismo, a construção do inimigo, a deslegitimação eleitoral e a expectativa de intervenção militar podem relacionar-se sem que se transformem numa sequência determinista. A tentativa de ruptura constitucional não estava predestinada pela formação militar de Bolsonaro nem pela crise política de 2013. Ela se tornou possível dentro de uma configuração histórica na qual diferentes elementos foram progressivamente articulados.


2023–2026: derrota eleitoral sem desaparecimento do bolsonarismo


A derrota eleitoral, os acontecimentos de 8 de janeiro e as condenações posteriores não produziram o desaparecimento do bolsonarismo. Essa permanência constitui evidência de que o fenômeno havia ultrapassado a relação imediata entre Jair Bolsonaro e o exercício da Presidência.

Parlamentares, governadores, prefeitos, lideranças religiosas, influenciadores, organizações partidárias e redes digitais continuaram atuando. Ao mesmo tempo, o núcleo político tornou-se mais diferenciado. Michelle Bolsonaro ampliou sua presença na interface religiosa e partidária; Flávio, Carlos e Eduardo mantiveram funções próprias; antigos aliados afastaram-se ou voltaram a aproximar-se. O movimento passou, portanto, a enfrentar o problema de sua continuidade para além do governo e, potencialmente, para além da própria capacidade eleitoral de seu fundador.


A condenação de Bolsonaro acrescentou ainda uma nova camada à representação social construída ao longo de décadas. Para seus críticos, a condenação confirmou a gravidade dos atos investigados e julgados. Para parte de seus apoiadores, ela pôde ser incorporada à narrativa anterior de perseguição. Esse mecanismo mostra a força recursiva das representações sociais: uma instituição destinada a responsabilizar juridicamente o líder pode, dentro de um sistema cognitivo que já considera essa instituição persecutória, fornecer novo material para a própria representação da perseguição.


A decisão judicial possui efeitos jurídicos independentemente dessa disputa, mas não necessariamente encerra a disputa social sobre seu significado.


O retorno ao Rio de Janeiro: crime organizado e captura institucional


O Rio de Janeiro reaparece no final dessa genealogia sob uma perspectiva mais ampla. Durante muito tempo, as relações entre política e criminalidade organizada puderam ser apresentadas como episódios individualizados envolvendo determinado policial, parlamentar, contraventor, miliciano ou traficante. Investigações recentes tornam necessário considerar uma hipótese institucional mais abrangente: a possibilidade de redes criminosas desenvolverem capacidade de obter informações, influenciar agentes públicos, neutralizar investigações e penetrar estruturas estatais.


Em agosto de 2026, a Primeira Turma do STF recebeu por unanimidade denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República contra o ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar, o ex-deputado TH Joias e outros acusados. Segundo a acusação, existiam indícios consistentes de obstrução de investigações destinada a favorecer integrantes do Comando Vermelho. O recebimento da denúncia significa que os acusados passaram à condição de réus, não que tenham sido condenados (27).


O caso de Bacellar já envolvia investigação sobre vazamento de informações sigilosas e obstrução de operações relacionadas a organizações criminosas. A PGR sustentou que ele teria colaborado para frustrar mandados contra TH Joias, apontado nas investigações como aliado do Comando Vermelho. Essas são acusações submetidas ao processo judicial e devem continuar sendo apresentadas como tais.


Esses acontecimentos não demonstram que o bolsonarismo seja responsável pelo Comando Vermelho, pelas milícias ou pela histórica penetração do crime organizado na política fluminense. Tais fenômenos atravessam governos, partidos e períodos muito anteriores. A noção de um ecossistema político-criminal fluminense é mais adequada justamente porque evita reduzir redes complexas a uma única identidade ideológica.


Nesse contexto, o conceito de captura institucional pode ser mais fecundo do que a noção convencional de corrupção. A corrupção pode envolver a compra de uma decisão específica; a captura refere-se a processos pelos quais interesses privados ou criminosos conquistam capacidade mais duradoura de influenciar instituições, obter informações, neutralizar controles ou utilizar parcelas do aparelho estatal em benefício próprio. A relação entre esses processos e o campo bolsonarista precisa ser demonstrada empiricamente em cada caso, sem culpa por associação, mas também sem desconsiderar vínculos efetivamente documentados.


Representações sociais, complexidade e política cognitiva


Ao final dessa reconstrução, torna-se possível retornar às três perspectivas teóricas utilizadas desde o início. Moscovici ajuda a compreender como a figura de Bolsonaro foi socialmente constituída por representações que selecionaram aspectos diferentes de sua trajetória. Capitão, militar, pai, cristão, patriota, outsider, vítima, perseguido e “Messias” não constituem apenas características biográficas acumuladas. São imagens socialmente elaboradas que permitem a grupos distintos reconhecer no mesmo personagem expectativas e valores diferentes (1).


Morin ajuda a compreender por que essas representações não precisam formar uma unidade perfeitamente coerente. O bolsonarismo pôde apresentar-se como institucional e antissistema, religioso e agressivo, nacionalista e integrado a redes transnacionais da nova direita, defensor da autoridade e mobilizador de conflitos com instituições constituídas. A complexidade não consiste em eliminar essas contradições por meio de uma explicação totalizante, mas em compreender as relações pelas quais elementos antagônicos podem coexistir e produzir efeitos conjuntamente (2).


Guerreiro Ramos acrescenta uma questão decisiva. Ao discutir política cognitiva e organizações como sistemas epistemológicos, ele permite deslocar a análise da simples disputa entre opiniões para a investigação das estruturas que condicionam aquilo que uma sociedade reconhece como realidade legítima (3). Essa perspectiva ajuda a compreender por que disputas sobre eleições, pandemia, clima, Amazônia, religião, crime e instituições podem tornar-se simultaneamente disputas sobre as fontes autorizadas de conhecimento.


Nesse ambiente, categorias como povo, nação, patriotismo, sistema, comunismo, perseguição, liberdade e democracia deixam de funcionar apenas como conceitos abstratos. Elas organizam fronteiras de pertencimento e interpretação. Se determinada instituição é previamente classificada como parte do “sistema”, uma decisão desfavorável proveniente dela pode ser interpretada menos pelo conteúdo do processo que a produziu do que pela identidade atribuída à própria instituição. Se o adversário é previamente definido como ameaça à nação, sua vitória eleitoral pode ser percebida não como alternância legítima, mas como evidência de que algo externo à verdadeira vontade popular interferiu no processo.


É nesse sentido que a política cognitiva oferece uma ponte particularmente fecunda entre Guerreiro Ramos e Moscovici. As representações sociais mostram como grupos elaboram coletivamente significados; a política cognitiva permite observar como determinados sistemas e instituições estabilizam formas de conhecimento e interpretação. Morin, por sua vez, impede que essa articulação seja transformada numa causalidade simples, chamando atenção para retroações, contradições e consequências não previstas.


Considerações finais — genealogia, memória e democracia


O bolsonarismo não nasceu em 2018, mas tampouco estava inteiramente constituído em 1986. Sua genealogia revela a transformação de uma liderança inicialmente associada à mobilização corporativa de militares em núcleo político familiar e, posteriormente, em movimento nacional capaz de articular parcelas heterogêneas das direitas brasileiras. Esse processo envolveu transformações no sistema partidário, nas relações entre política e religião, nas formas de comunicação, nas disputas sobre ciência e meio ambiente e na própria representação da democracia.


O bolsonarismo não criou o autoritarismo brasileiro, o anticomunismo, as milícias, a contravenção, o conservadorismo religioso, o armamentismo, o negacionismo científico ou a violência política. Todos esses fenômenos possuem histórias próprias. Sua singularidade encontra-se menos na invenção desses elementos do que na capacidade de selecionar, atualizar e articular parte deles numa configuração política adaptada ao ambiente social e tecnológico do início do século XXI.


A tentativa de golpe de 2022–2023 obriga, contudo, a reconsiderar o peso da questão autoritária nessa trajetória. A defesa histórica da ditadura e a homenagem a Ustra não podem ser transformadas retrospectivamente em provas de que a ruptura constitucional era inevitável. Mas também deixam de poder ser tratadas simplesmente como excentricidades retóricas sem relação com a concepção de política e de conflito que se desenvolveu posteriormente. Entre o elogio à repressão exercida no passado e a tentativa de impedir a alternância de poder existe uma longa história que precisa ser reconstruída, e não presumida.


A contestação do sistema eleitoral mostra a importância de representações construídas antes dos acontecimentos. Quando a possibilidade de fraude é estabilizada previamente, a derrota pode ser absorvida como sua confirmação. Os acontecimentos de 8 de janeiro demonstram como representações dessa natureza podem contribuir para legitimar subjetivamente ações contra instituições democráticas. Os planos Punhal Verde e Amarelo e Copa 2022 acrescentam uma dimensão ainda mais grave, porque mostram que, dentro da organização julgada pelo STF, determinados integrantes avançaram da construção do inimigo para o planejamento de ações destinadas à eliminação física de autoridades. A diferenciação das responsabilidades estabelecida nos julgamentos é essencial para que a análise não transforme relações políticas em imputações indiscriminadas.


A violência emerge, portanto, como problema transversal, mas não como essência invariável do bolsonarismo nem como linha reta que ligaria automaticamente 1986 a 2022. Em momentos diferentes, ela aparece como memória positiva da repressão, retórica sobre criminalidade, defesa das armas, experiência real da vitimização pela facada, violência coletiva contra instituições e, entre integrantes específicos da trama golpista, planejamento operacional de assassinatos. Compreender essas diferenças é tão importante quanto reconhecer que todas elas participam de uma disputa mais ampla sobre os limites legítimos do conflito político.


A genealogia também impede simplificações sobre a criminalidade organizada. Milícias, tráfico e contravenção não podem ser causalmente atribuídos ao bolsonarismo. Entretanto, relações documentadas entre integrantes de seu núcleo político e personagens posteriormente associados às milícias, somadas às investigações recentes sobre possível penetração de organizações criminosas em instituições fluminenses, justificam a investigação das interfaces entre política, segurança pública, mercados ilegais e captura institucional. A precisão conceitual torna-se decisiva: proximidade pessoal, relação política, convergência de interesses, efeito de política pública, corrupção, captura institucional e cumplicidade criminal são fenômenos diferentes. Misturá-los enfraquece a análise; distingui-los permite compreender relações que de outro modo permaneceriam ocultas.


A própria trajetória de Bolsonaro mostra por que uma abordagem baseada na complexidade é necessária. O capitão que enfrentou a disciplina militar tornou-se defensor da autoridade; o parlamentar profissional pôde ser representado como outsider; o político identificado com a retórica da força tornou-se vítima concreta da violência; uma família progressivamente profissionalizada na política pôde construir sua identidade contra a velha política; um movimento intensamente nacionalista integrou-se a redes transnacionais do trumpismo; e um governo eleito pelo sistema constitucional entrou progressivamente em conflito com instituições desse mesmo sistema, até que integrantes de sua liderança e de núcleos associados foram posteriormente condenados pela tentativa de impedir a alternância de poder. Essas relações não se explicam pela simples denúncia da incoerência. Exigem compreender como contradições podem ser reorganizadas em representações politicamente eficazes.


É nesse ponto que a questão da memória retorna ao centro do ensaio. A fragmentação digital tende a separar acontecimentos de suas trajetórias. Um vídeo pode apresentar Bolsonaro como vítima da facada; outro, como militar; outro, como cristão; outro, como patriota; outro, como perseguido; outro, como defensor da liberdade. Cada fragmento pode conter algum elemento real e, simultaneamente, ocultar as relações históricas que lhe conferem significado.


A memória histórica realiza o movimento inverso porque procura religar aquilo que a fragmentação separa. Ao relacionar o capitão ao presidente, o parlamentar ao outsider, a defesa da ditadura ao discurso posterior sobre democracia, a retórica da força à experiência da facada, a profissionalização política familiar à crítica da velha política, a expansão das redes digitais à nacionalização do movimento, a contestação das urnas à reação à derrota eleitoral e os acampamentos diante dos quartéis aos acontecimentos posteriores, a genealogia não elimina as diferenças entre os momentos. Ao contrário, torna possível compreendê-las.


Essa reconstrução não determina a decisão política do cidadão, nem deveria fazê-lo. Sua contribuição democrática está em outra dimensão: oferecer condições para que personagens e movimentos sejam avaliados a partir de suas trajetórias, relações, transformações, ações e consequências, e não apenas pelas imagens fragmentárias que circulam no presente. Uma democracia depende da liberdade de escolha, mas a qualidade dessa escolha também depende da capacidade social de conservar memória, distinguir evidências de representações e compreender historicamente aquilo que o presente tende incessantemente a simplificar.


Referências

(1) MOSCOVICI, Serge. Representações sociais: investigações em psicologia social. Tradução de Pedrinho A. Guareschi. Petrópolis: Vozes, 2003.

(2) MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina, 2005.

(3) GUERREIRO RAMOS, Alberto. A nova ciência das organizações: uma reconceituação da riqueza das nações. Tradução de Francisco G. Heidemann e Ariston Azevedo. Florianópolis: Enunciado Publicações, 2022.

(4) TRINDADE, Hélgio. Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30. São Paulo: Difel, 1974.

(5) BRASIL. Comissão Nacional da Verdade. Relatório. Brasília: CNV, 2014. 3 v.

(6) BRASIL. Câmara dos Deputados. Conselho de Ética e Decoro Parlamentar. Notas taquigráficas da reunião de 8 de novembro de 2016: apreciação dos pareceres preliminares, incluindo representação em desfavor do deputado Jair Bolsonaro. Brasília: Câmara dos Deputados, 2016.

(7) BOLSONARO, Jair. O salário está baixo. Veja, São Paulo, ed. 939, 3 set. 1986; VEJA. Beco sem saída. Veja, São Paulo, 28 out. 1987.

(8) BRASIL. Superior Tribunal Militar. Conselho de Justificação nº 129-9. Ata da 41ª Sessão de Julgamento, 16 jun. 1988. Brasília: STM, 1988.

(9) RIO DE JANEIRO (Estado). Assembleia Legislativa. Projeto de Resolução nº 1067/2005. Autor: deputado Flávio Bolsonaro. Concede a Medalha Tiradentes e respectivo diploma ao 1º Tenente PM Adriano Magalhães da Nóbrega. Rio de Janeiro: Alerj, 2005. Resultado final: Resolução nº 931/2005.

(10) RIO DE JANEIRO (Estado). Ministério Público. Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado. Operação Intocáveis: MPRJ denuncia integrantes de organização criminosa que atua em Rio das Pedras, Muzema e adjacências. Rio de Janeiro: MPRJ, 22 jan. 2019. Ver também: MPRJ. Operação Tânatos: MPRJ denuncia integrantes do Escritório do Crime. Rio de Janeiro, 30 jun. 2020.

(11) NOGUEIRA, Italo. Clã Bolsonaro teve relação com suspeitos de envolvimento no crime organizado; relembre casos. Folha de S.Paulo, São Paulo, 31 maio 2026. Ver também: BBC NEWS BRASIL. O que se sabe — e o que falta saber — sobre o caso de Adriano da Nóbrega, miliciano do Rio morto na Bahia. 19 fev. 2020. As fontes reconstituem as nomeações de Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega e Raimunda Veras Magalhães no gabinete de Flávio Bolsonaro e as acusações formuladas na investigação das chamadas “rachadinhas”, posteriormente afetada pela anulação de provas pelo STJ e STF.

(12) PIAIA, Victor; ALVES, Marcelo. Abrindo a caixa preta: análise exploratória da rede bolsonarista no WhatsApp. Intercom: Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, São Paulo, v. 43, n. 3, 2020. DOI: 10.1590/1809-5844202037.

(13) CHAIB, Julia; HOLANDA, Marianna. Religião aproximou Mendonça de Michelle, que influiu na indicação do ministro. Folha de S.Paulo, São Paulo, 11 dez. 2021.

(14) BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Inquérito nº 4.831/DF. Rel. Min. Alexandre de Moraes. Brasília: STF. Investigação sobre alegações de interferência política na Polícia Federal.

(15) BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 722/DF. Rel. Min. Cármen Lúcia. Julgamento de mérito concluído em 13 maio 2022. Brasília: STF, 2022.

(16) PONTES, Felipe. Mendonça afasta Andrei Rodrigues da direção-geral da Polícia Federal. Agência Brasil, Brasília, 8 set. 2026.

(17) BRASIL. Tribunal de Contas da União. Acórdão nº 2.649/2022 – Plenário. Rel. Min. Augusto Nardes. Auditoria sobre sistemas federais de controle de armas de fogo. Brasília: TCU, 2022.

(18) BRASIL. Senado Federal. Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia. Relatório final. Brasília: Senado Federal, 2021.

(19) MIGUEL, Jean Carlos Hochsprung. A “meada” do negacionismo climático e o impedimento da governamentalização ambiental no Brasil. Sociedade e Estado, Brasília, v. 37, n. 1, p. 293–315, jan./abr. 2022. DOI: 10.1590/S0102-6992-202237010013.

(20) PAZ, Mariana Gutierres Arteiro da; SILVA JÚNIOR, Roberto Donato da; JACOBI, Pedro Roberto; LAUDA-RODRIGUEZ, Zenaida; MILZ, Beatriz. Guia para o desmonte da política ambiental brasileira. Ambiente & Sociedade, São Paulo, v. 25, e00003, 2022. DOI: 10.1590/1809-4422asoceditorialvu2022L5EDPT.

(21) BRASIL. Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. PRODES — Monitoramento do desmatamento da Floresta Amazônica Brasileira por satélite: taxas anuais de desmatamento na Amazônia Legal. São José dos Campos: INPE. Séries consolidadas 2018–2022.

(22) FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. Yanomamis de nove aldeias assediadas pelo garimpo estão contaminados por mercúrio. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2024.

(23) CASARÕES, Guilherme; FLEMES, Daniel. Brazil First, Climate Last: Bolsonaro's Foreign Policy. GIGA Focus Latin America, n. 5. Hamburg: German Institute for Global and Area Studies, 2019.

(24) BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação Penal nº 2.668/DF — Núcleo 1 da tentativa de golpe de Estado. Primeira Turma. Julgamento concluído em 11 set. 2025; acórdão publicado em 22 out. 2025. Brasília: STF, 2025.

(25) BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Em três anos, STF responsabilizou 1.399 pessoas por atos antidemocráticos de 8 de janeiro. Brasília: STF, 8 jan. 2026.

(26) BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação Penal nº 2.696/DF — Núcleo 3 da tentativa de golpe de Estado. Primeira Turma. Julgamento concluído em 18 nov. 2025. Brasília: STF, 2025.

(27) BRASIL. Supremo Tribunal Federal. STF aceita denúncia contra ex-deputados estaduais Rodrigo Bacellar e TH Joias. Brasília: STF, 20 ago. 2026.


P.S.: Usei a IA GPT 5-6 Sol na busca e na organização das informações, e na elaboração da ilustração para o texto, que foi concebido, editado e revisto por mim.

 

 
 
 

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