Grupo focal na pesquisa qualitativa: interação, intersubjetividade e produção do conhecimento nas Ciências Humanas
Objetivo
Analisar os fundamentos epistemológicos e metodológicos dos grupos focais na pesquisa qualitativa, tomando como referências centrais o livro Grupo focal na pesquisa em Ciências Sociais e Humanas, de Bernadete Angelina Gatti (2005), e o artigo Recomendações para a Realização de Grupos Focais na Pesquisa Qualitativa, de Luciana Karine de Souza (2020). O texto examina as possibilidades e limitações dessa modalidade de investigação, especialmente quanto à produção intersubjetiva dos dados, à composição dos grupos, ao papel do pesquisador, às relações de poder e aos procedimentos de interpretação. Busca também discutir suas potencialidades para pesquisas interdisciplinares, estabelecendo aproximações críticas com o paradigma da complexidade de Edgar Morin, a teoria das representações sociais de Serge Moscovici e a epistemologia qualitativa de Fernando González Rey.
Resumo
O grupo focal constitui uma modalidade de investigação qualitativa cuja especificidade reside na utilização das interações entre participantes como fonte de produção de dados e conhecimentos. Diferentemente da entrevista individual ou de uma entrevista coletiva conduzida por perguntas sucessivas, o grupo focal permite investigar como experiências, valores, representações e interpretações são manifestados, confrontados e reelaborados durante uma discussão coletiva. Com base nas contribuições de Gatti (2005) e Souza (2020), este ensaio examina os fundamentos metodológicos da técnica, suas condições de utilização e seus desafios analíticos. Argumenta-se que o rigor científico dos grupos focais não decorre da simples aplicação de procedimentos padronizados, mas da coerência entre o problema investigado, os pressupostos epistemológicos, a composição dos participantes, a condução das interações e a interpretação dos dados. A análise destaca os riscos de reducionismos psicológicos e sociológicos, a influência das relações de poder e a necessidade de reflexividade do pesquisador. Conclui-se que os grupos focais oferecem possibilidades relevantes para compreender processos de construção intersubjetiva de significados, especialmente quando articulados a perspectivas qualitativas, interdisciplinares e abertas à complexidade dos fenômenos humanos e sociais.

Introdução
A expansão das metodologias qualitativas nas Ciências Humanas e Sociais tem contribuído para questionar concepções de pesquisa fundamentadas exclusivamente na mensuração de variáveis, na padronização de respostas e na separação rígida entre sujeito e objeto do conhecimento. Esse movimento não implica rejeitar os métodos quantitativos, mas reconhecer que determinados fenômenos exigem abordagens capazes de compreender experiências, interpretações, relações sociais e processos de construção de significados que não podem ser adequadamente investigados apenas mediante indicadores numéricos.
Nesse contexto, os grupos focais constituem uma possibilidade metodológica particularmente fecunda. Sua utilização permite investigar não somente aquilo que os participantes pensam sobre determinado assunto, mas também como suas interpretações são expressas, confrontadas, justificadas e eventualmente transformadas durante a interação coletiva. O conhecimento produzido não resulta, portanto, da simples soma de opiniões individuais, mas de um processo social situado, condicionado pelas características dos participantes, pelo contexto da investigação e pelas relações estabelecidas durante a discussão.
O livro de Bernadete Angelina Gatti, publicado em 2005, constitui uma referência importante na literatura brasileira sobre o assunto. A autora examina os fundamentos da técnica, a organização dos grupos, a atuação do moderador, os procedimentos de análise e as potencialidades e limitações dessa modalidade de pesquisa. Uma de suas contribuições centrais consiste em reconhecer que as interações grupais devem integrar a própria análise, evitando a redução dos dados a manifestações individuais isoladas (1).
Quinze anos depois, Luciana Karine de Souza publicou um artigo que retoma e aprofunda questões metodológicas relacionadas à realização de grupos focais. Dialogando especialmente com David Morgan e Rosaline Barbour, a autora discute a distinção entre técnica e método, a seleção dos participantes, a condução das sessões, a combinação com outros procedimentos e a necessidade de aproveitar efetivamente as possibilidades interativas dessa modalidade de investigação (2).
A leitura conjunta dessas publicações permite identificar importantes convergências, mas também diferenças de ênfase. Enquanto Gatti oferece uma discussão sistemática que inclui o tratamento e a interpretação dos dados, Souza desenvolve uma análise comparativa de recomendações metodológicas, questionando procedimentos que frequentemente são transformados em regras rígidas.
O presente ensaio está organizado em sete seções. Inicialmente, examina a especificidade do grupo focal no âmbito da pesquisa qualitativa. Em seguida, discute a distinção entre técnica e método e as decisões relativas à composição dos grupos. A quarta seção aborda o papel do moderador e a reflexividade do pesquisador. A quinta analisa os procedimentos de interpretação e os riscos de reducionismo. A sexta examina as relações de poder e os limites da participação. Finalmente, a sétima desenvolve aproximações epistemológicas com Moscovici, González Rey e Morin, procurando compreender as potencialidades dos grupos focais para uma perspectiva interdisciplinar da produção do conhecimento.
1. A especificidade do grupo focal na pesquisa qualitativa
O grupo focal caracteriza-se pela reunião intencional de participantes que compartilham determinadas experiências ou condições relevantes para o problema investigado. Sob a orientação de um moderador, essas pessoas discutem questões relacionadas ao objeto da pesquisa, produzindo manifestações individuais e coletivas que constituem o material de investigação.
Gatti observa que a utilização dos grupos focais permite captar conceitos, sentimentos, atitudes, crenças, experiências e reações de maneira distinta daquela possibilitada por entrevistas individuais ou questionários. A discussão coletiva cria oportunidades para que os participantes esclareçam posições, expressem discordâncias e apresentem interpretações que podem não emergir em outras situações de pesquisa (1, p. 9-11).
Essa característica permite distinguir o grupo focal de uma entrevista coletiva. Numa entrevista coletiva, o pesquisador pode dirigir perguntas sucessivas aos participantes, obtendo respostas predominantemente individuais. No grupo focal, entretanto, a interação entre os integrantes é parte constitutiva da produção dos dados. A manifestação de uma pessoa pode estimular lembranças, provocar questionamentos, revelar contradições ou favorecer a elaboração de novas interpretações por outros participantes.
Gatti enfatiza que o interesse da pesquisa deve estar dirigido não apenas ao que os participantes expressam, mas também à maneira como pensam e por que pensam de determinada forma. Essa orientação desloca a atenção do registro isolado de opiniões para os processos sociais e comunicativos que participam de sua construção (1, p. 39-41).
Souza retoma essa perspectiva ao destacar que o grupo focal depende da produção efetiva de discussões interativas. A reunião de diversas pessoas não garante, por si só, a realização de um grupo focal. É necessário que ocorram intercâmbios de significados, esclarecimentos, aprofundamentos e questionamentos entre os participantes (2).
Essa distinção possui consequências epistemológicas importantes. As manifestações produzidas durante uma sessão não podem ser consideradas reproduções transparentes de opiniões previamente existentes. Elas são influenciadas pelas circunstâncias da discussão, pelas experiências compartilhadas, pelas diferenças entre os participantes e pelas intervenções do moderador.
Desse modo, o grupo focal oferece possibilidades para compreender a realidade social como um processo relacional, sem pressupor que as interpretações produzidas numa sessão representem automaticamente as posições estáveis dos participantes em outros contextos.
2. Grupo focal como técnica, método e estratégia de investigação
A distinção entre técnica e método constitui um dos aspectos mais relevantes do artigo de Souza. A autora observa que os grupos focais frequentemente são apresentados como técnicas auxiliares de coleta de dados, embora possam ocupar uma posição central no desenho metodológico de determinadas pesquisas (2).
Quando utilizados em associação com entrevistas individuais, questionários ou observações, os grupos focais podem desempenhar funções complementares. Entretanto, quando constituem a principal fonte de produção dos dados e suas possibilidades interativas são exploradas sistematicamente, podem ser considerados um método de investigação em sentido mais abrangente, conforme a argumentação recuperada por Souza a partir de Barbour.
Essa distinção precisa ser compreendida com cuidado. A centralidade de um procedimento não resolve, por si só, todas as questões epistemológicas da pesquisa. O método envolve decisões articuladas sobre o problema investigado, os fundamentos teóricos, a produção dos dados, os critérios de interpretação e a construção das conclusões.
A contribuição de Gatti é especialmente importante nesse sentido. A autora insiste que a utilização dos grupos focais deve decorrer das características do problema de pesquisa e dos objetivos pretendidos. O procedimento não deve ser escolhido simplesmente porque permite reunir diversas pessoas em uma mesma ocasião ou porque parece oferecer economia de tempo (1, p. 12-15).
Souza também discute as possibilidades de combinação entre grupos focais e outros procedimentos. Uma entrevista individual pode permitir aprofundar experiências pessoais, enquanto a discussão coletiva oferece oportunidades para compreender como determinadas interpretações são negociadas socialmente. Da mesma forma, os grupos focais podem contribuir para elaborar questionários, interpretar resultados de levantamentos ou investigar questões que emergem de pesquisas anteriores (2).
Essa abertura metodológica é relevante porque permite superar uma oposição simplificadora entre pesquisas qualitativas e quantitativas. A utilização de diferentes procedimentos pode ampliar a compreensão do fenômeno investigado, desde que suas contribuições sejam articuladas criticamente.
Não se trata de considerar que a acumulação de técnicas garanta automaticamente maior rigor científico. O que importa é a coerência entre os procedimentos escolhidos e as dimensões do problema que se pretende compreender.
3. Composição dos grupos: diversidade, experiências compartilhadas e relações sociais
A composição dos grupos constitui uma das decisões metodológicas mais importantes da investigação. Não existe uma configuração universalmente adequada, pois a seleção dos participantes depende do problema de pesquisa, das características do universo investigado e das condições necessárias para favorecer uma discussão produtiva.
Gatti argumenta que a composição deve considerar características comuns capazes de aproximar os participantes do tema, mas também diferenças que favoreçam a emergência de perspectivas variadas. A homogeneidade não significa identidade de opiniões. Refere-se, principalmente, à existência de determinadas experiências, condições ou características que tornam possível a participação significativa na discussão (1, p. 18-23).
Essa observação permite compreender por que a diversidade constitui uma dimensão importante da investigação qualitativa. Um grupo composto exclusivamente por pessoas que compartilham as mesmas interpretações pode produzir discussões limitadas. Entretanto, uma heterogeneidade excessiva, especialmente quando acompanhada de diferenças hierárquicas acentuadas, pode dificultar a comunicação e inibir determinados participantes.
Souza aprofunda essa questão ao discutir a amostragem intencional, a segmentação dos grupos e a possibilidade de trabalhar com pessoas que já se conhecem. A autora questiona a recomendação rígida de que os participantes devam necessariamente ser desconhecidos entre si. Grupos preexistentes podem oferecer oportunidades relevantes para compreender relações e processos sociais que já fazem parte da experiência cotidiana dos participantes (2).
Essa possibilidade apresenta, contudo, dificuldades específicas. Pessoas que compartilham relações profissionais, familiares ou comunitárias podem evitar determinados assuntos, receando consequências posteriores à pesquisa. O compromisso ético com a confidencialidade também se torna mais complexo, pois o pesquisador pode proteger os registros sob sua responsabilidade, mas não controlar integralmente aquilo que os participantes revelarão posteriormente.
O número de participantes também precisa ser definido em função dessas condições. Gatti trabalha com grupos relativamente pequenos, destacando a necessidade de assegurar oportunidades de manifestação e aprofundamento das discussões. Souza recupera recomendações de Morgan e Barbour que variam conforme os objetivos, as características dos participantes e a experiência do moderador (1; 2).
O mesmo princípio se aplica à quantidade de sessões e de grupos. A utilização de um único encontro pode ser suficiente para determinadas investigações exploratórias, mas estudos que pretendem compreender diferenças entre segmentos sociais ou aprofundar interpretações emergentes podem exigir diversos grupos e encontros sucessivos.
Souza discute o critério de saturação, segundo o qual a realização de novos grupos pode deixar de acrescentar elementos substantivamente novos à investigação. Entretanto, esse critério não deve ser aplicado mecanicamente, pois depende da diversidade dos participantes, das características do problema e da profundidade das análises pretendidas (2).
A composição dos grupos, portanto, não representa apenas uma etapa preliminar de organização. Ela interfere nas condições de comunicação, nas possibilidades de confronto de interpretações e nos conhecimentos que poderão ser produzidos.
4. O moderador, a reflexividade e a produção dos dados
O papel do moderador constitui um elemento central para compreender a especificidade dos grupos focais. Diferentemente de um entrevistador que dirige sucessivamente perguntas aos participantes, o moderador procura favorecer a comunicação entre os integrantes do grupo, estimulando a apresentação de experiências, argumentos, divergências e esclarecimentos.
Gatti destaca que a condução deve evitar tanto a interferência excessiva quanto a ausência de orientação. O moderador precisa manter atenção aos objetivos da investigação, mas também reconhecer a possibilidade de surgirem questões imprevistas e interpretações que não haviam sido antecipadas no roteiro (1, p. 28-41).
Essa abertura não significa improvisação descontrolada. A flexibilidade metodológica exige preparação, conhecimento do tema, capacidade de observação e sensibilidade para compreender as condições em que as interações se desenvolvem.
Souza acrescenta uma discussão relevante sobre a formação do moderador. Em lugar de tratar a moderação como resultado exclusivo de características pessoais, como simpatia, cordialidade ou facilidade de comunicação, a autora valoriza o treinamento, o conhecimento teórico, o autocontrole e a capacidade de acompanhar criticamente a própria atuação (2).
Essa perspectiva permite introduzir a questão da reflexividade. O pesquisador não é um observador exterior às relações que investiga. Sua presença, suas perguntas, suas reações e suas escolhas metodológicas participam das condições em que os dados são produzidos.
Entretanto, reconhecer essa participação não significa afirmar que todas as interpretações possuem o mesmo valor ou que o conhecimento científico seja apenas uma construção arbitrária. O rigor da investigação exige explicitar os procedimentos utilizados, examinar criticamente as interpretações e relacionar os resultados às evidências produzidas.
Gatti observa que o moderador precisa estar atento não somente às manifestações individuais, mas também aos processos de interação que revelam como os participantes elaboram suas posições diante dos demais. Na discussão sobre as interações grupais, a autora chama a atenção para a importância das diferenças entre os participantes e para os processos de argumentação que podem tornar visíveis dimensões pouco percebidas inicialmente (1, p. 38-41).
Essa compreensão permite superar a ideia de que a neutralidade científica dependeria da eliminação da presença do pesquisador. Uma concepção reflexiva de rigor reconhece que o pesquisador participa do processo investigativo e, justamente por isso, precisa submeter suas próprias intervenções e interpretações à análise crítica.
5. Análise e interpretação: os riscos do reducionismo psicológico e sociológico
A análise dos dados constitui uma das contribuições mais relevantes do livro de Gatti. O terceiro capítulo, dedicado especificamente a essa questão, examina os procedimentos de organização, classificação, codificação e interpretação do material produzido durante as sessões.
A autora destaca que o trabalho analítico deve considerar os objetivos da pesquisa e os fundamentos teóricos que orientam a investigação. Não existe um procedimento único capaz de responder adequadamente a todos os problemas investigados por meio de grupos focais (1, p. 43-55).
Um aspecto particularmente importante aparece quando Gatti questiona a redução das manifestações dos participantes a unidades individuais isoladas. A análise não deve desconsiderar as sequências de interação, os contextos em que determinadas falas foram produzidas e as relações entre os participantes.
Nas páginas 49 e 50, a autora apresenta uma crítica aos reducionismos psicológico e sociológico. O primeiro pode ocorrer quando as manifestações são interpretadas exclusivamente como características individuais, desconsiderando a dinâmica coletiva. O segundo pode aparecer quando as particularidades das experiências e interpretações individuais são dissolvidas em categorias sociais abrangentes, como se os participantes fossem simples representantes de grupos ou posições estruturais (1).
Essa crítica merece destaque porque expressa uma preocupação epistemológica que ultrapassa a organização técnica dos dados. O problema consiste em compreender as relações entre indivíduos, grupos e contextos sociais sem reduzir uma dessas dimensões às demais.
A codificação do material, embora necessária em muitas pesquisas, também apresenta riscos. Quando as manifestações são fragmentadas em categorias temáticas, pode-se perder a sequência argumentativa que lhes confere sentido. Uma afirmação produzida como resposta a uma discordância, por exemplo, não possui necessariamente o mesmo significado quando considerada isoladamente.
Gatti não rejeita a categorização ou a utilização de recursos quantitativos. Sua preocupação está na necessidade de preservar a complexidade das relações investigadas e evitar que os procedimentos analíticos substituam a interpretação substantiva do fenômeno (1, p. 51-54).
Souza, por sua vez, concentra-se principalmente nas condições de realização dos grupos, mas também destaca a importância dos registros e dos procedimentos posteriores às sessões. A autora considera relevantes as anotações dos observadores, as reuniões da equipe de pesquisa e a revisão das intervenções do moderador. Esses procedimentos podem contribuir para aprofundar a análise e examinar criticamente as condições em que os dados foram produzidos (2).
A comparação evidencia uma complementaridade importante. Gatti desenvolve mais diretamente a problemática da interpretação, enquanto Souza amplia a discussão sobre as decisões metodológicas que antecedem e acompanham a produção dos dados.
Do ponto de vista epistemológico, essa articulação é fundamental. A qualidade da interpretação depende das condições de produção do material investigado, assim como a relevância das sessões depende da capacidade posterior de analisar suas interações e significados.
6. Relações de poder, ética e limites da participação
A utilização de grupos focais envolve problemas éticos e políticos que não podem ser reduzidos à obtenção de consentimento formal dos participantes. A participação numa discussão coletiva ocorre em condições sociais concretas, atravessadas por diferenças de escolaridade, experiências, posições institucionais, recursos culturais e relações de poder.
Gatti reconhece que determinadas características da composição dos grupos podem dificultar a comunicação e produzir constrangimentos. A presença de pessoas que ocupam posições hierárquicas diferentes, por exemplo, pode interferir nas possibilidades de manifestação e favorecer o predomínio de determinadas interpretações (1, p. 20-23).
Souza também examina situações em que os participantes apresentam condições de vulnerabilidade ou relações preexistentes. Sua análise evidencia que a adequação do grupo focal depende das características do problema e das condições necessárias para assegurar uma participação eticamente responsável (2).
Essas preocupações tornam-se particularmente relevantes nas pesquisas organizacionais. Uma discussão coletiva envolvendo dirigentes e trabalhadores de uma mesma instituição pode produzir manifestações condicionadas pelo receio de consequências profissionais. Do mesmo modo, um grupo composto por representantes de organizações com diferentes capacidades de influência pode apresentar assimetrias que dificultam a expressão de posições minoritárias.
O silêncio, nessas circunstâncias, não deve ser interpretado automaticamente como concordância. Pode expressar insegurança, discordância não verbalizada, desconhecimento, resistência ou outras condições que exigem atenção interpretativa.
Essa problemática também permite distinguir os grupos focais de processos mais abrangentes de pesquisa participativa. A existência de uma discussão coletiva não significa necessariamente que os participantes compartilhem o poder de definir os objetivos da investigação, interpretar os resultados ou decidir sobre suas consequências.
Um grupo focal pode ser conduzido de maneira respeitosa e aberta ao diálogo, mas permanecer inteiramente subordinado a um projeto definido previamente pelo pesquisador ou pela instituição responsável.
Por isso, é importante diferenciar participação discursiva e participação nas decisões. A primeira refere-se às possibilidades de expressão e interação durante as sessões. A segunda envolve a distribuição de poder sobre os rumos da investigação e sobre a utilização dos conhecimentos produzidos.
Essa distinção não constitui uma crítica à legitimidade dos grupos focais convencionais, mas permite reconhecer seus limites. Quando a pesquisa pretende promover processos de transformação social ou fortalecimento de organizações comunitárias, pode ser necessário articular os grupos focais a outras metodologias, como a pesquisa-ação, o planejamento participativo e diferentes formas de investigação colaborativa.
Nesses casos, a preocupação ética não se limita à proteção dos participantes. Envolve também a compreensão das relações entre conhecimento, poder e consequências sociais da pesquisa.
7. Grupo focal, intersubjetividade e paradigma da complexidade
As contribuições de Gatti e Souza permitem estabelecer aproximações com diferentes perspectivas epistemológicas, embora seja necessário distinguir aquilo que as autoras efetivamente desenvolvem das interpretações que podem ser construídas a partir de seus trabalhos.
Uma primeira aproximação envolve a teoria das representações sociais de Serge Moscovici. As representações sociais constituem formas de conhecimento produzidas e compartilhadas nas relações sociais, participando da interpretação da realidade e da comunicação entre indivíduos e grupos (3).
Nesse sentido, os grupos focais podem oferecer oportunidades para investigar como determinadas representações são mobilizadas, compartilhadas, questionadas e transformadas durante a interação. A discussão coletiva permite observar não apenas conteúdos representacionais, mas também processos comunicativos pelos quais esses conteúdos adquirem relevância social.
Entretanto, a identificação de opiniões semelhantes não é suficiente para caracterizar uma representação social. A análise exige fundamentação teórica e atenção aos processos históricos, culturais e comunicativos envolvidos em sua constituição.
Uma segunda aproximação pode ser estabelecida com a epistemologia qualitativa de Fernando González Rey. Sua perspectiva construtivo-interpretativa questiona a concepção de que os dados científicos sejam simplesmente recolhidos de uma realidade exterior e posteriormente classificados. O conhecimento é compreendido como um processo de construção teórica, no qual o pesquisador elabora interpretações e indicadores em diálogo com as expressões dos participantes (4).
Essa perspectiva permite aprofundar a compreensão dos grupos focais como situações de produção de informações e significados. Entretanto, González Rey não reduz a subjetividade ao discurso manifesto, nem considera que a interpretação científica possa ser derivada mecanicamente das declarações dos participantes.
O diálogo com essa epistemologia exige, portanto, compreender que as manifestações produzidas durante as sessões constituem elementos de um processo interpretativo mais amplo, e não expressões transparentes de uma realidade subjetiva previamente constituída.
Uma terceira aproximação envolve o paradigma da complexidade de Edgar Morin. A crítica aos reducionismos psicológico e sociológico apresentada por Gatti oferece um ponto de partida especialmente fecundo para esse diálogo.
Morin questiona as formas de conhecimento que isolam os elementos de seus contextos, separam dimensões interdependentes e reduzem fenômenos complexos a explicações unilaterais. Sua proposta de religação dos conhecimentos procura compreender as relações entre partes e todo, indivíduo e sociedade, organização e ambiente, ordem e desordem (5).
A investigação por grupos focais pode beneficiar-se dessa orientação quando considera simultaneamente as experiências individuais, os processos de interação, as condições institucionais e os contextos socioculturais em que os participantes estão inseridos.
A discussão coletiva pode produzir interpretações que não estavam plenamente formuladas antes do encontro. Entretanto, seria precipitado considerar qualquer manifestação inesperada como evidência de emergência no sentido epistemológico desenvolvido por Morin. A utilização desse conceito exige examinar como as interações contribuem para a constituição de configurações de sentido que não podem ser explicadas exclusivamente pelas manifestações individuais consideradas separadamente.
Outra contribuição do pensamento de Morin refere-se à reflexividade do conhecimento. O pesquisador precisa reconhecer que suas interpretações são condicionadas por teorias, conceitos, valores e paradigmas que orientam sua percepção da realidade. O conhecimento do conhecimento, desenvolvido especialmente no terceiro volume de O método, oferece fundamentos para examinar criticamente essas condições (5).
Essa preocupação pode ser ampliada mediante o diálogo com o quarto volume, dedicado às ideias, no qual Morin investiga a organização dos sistemas de ideias, as doutrinas, as teorias e os paradigmas (6). Os participantes de um grupo focal não expressam apenas experiências individuais; suas interpretações também podem estar relacionadas a sistemas de ideias socialmente organizados, que influenciam aquilo que consideram legítimo, verdadeiro, desejável ou possível.
Essa perspectiva é especialmente relevante para pesquisas sobre organizações, políticas públicas, movimentos sociais e conflitos ambientais. Diferentes participantes podem interpretar uma mesma situação a partir de referenciais institucionais, culturais e políticos distintos. A investigação qualitativa precisa compreender essas diferenças sem reduzi-las a opiniões descontextualizadas.
A aproximação entre grupos focais e paradigma da complexidade não significa, portanto, atribuir a Gatti ou Souza uma fundamentação moriniana que elas não reivindicam. Trata-se de desenvolver uma possibilidade de interpretação interdisciplinar a partir das contribuições metodológicas dessas autoras.
Considerações finais
A análise das contribuições de Bernadete Angelina Gatti e Luciana Karine de Souza evidencia que os grupos focais constituem uma modalidade relevante de investigação qualitativa, cuja especificidade está na utilização das interações entre participantes como fonte de produção de dados e conhecimentos.
O livro de Gatti oferece uma contribuição particularmente importante ao articular a organização e a condução dos grupos com os procedimentos de análise e interpretação. Sua crítica aos reducionismos psicológico e sociológico merece destaque porque demonstra a necessidade de compreender as manifestações individuais em relação às interações coletivas e aos contextos sociais.
O artigo de Souza amplia essa discussão ao examinar criticamente recomendações metodológicas, questionar a transformação de orientações em regras rígidas e defender a possibilidade de reconhecer o grupo focal como método quando ocupa posição central no desenho da investigação.
As duas publicações convergem na valorização da interação e na necessidade de coerência entre os objetivos da pesquisa e os procedimentos utilizados. Também contribuem para superar a concepção simplificadora segundo a qual o grupo focal seria apenas uma maneira econômica de entrevistar simultaneamente diversas pessoas.
Entretanto, a qualidade científica dessa modalidade de investigação depende de condições que ultrapassam a realização das sessões. A composição dos grupos, as relações de poder, a atuação do moderador, a documentação das interações e os procedimentos de interpretação precisam integrar um processo metodológico reflexivo e teoricamente fundamentado.
O diálogo com Moscovici, González Rey e Morin permite ampliar essas contribuições, especialmente no que diz respeito à produção social das representações, à construção interpretativa do conhecimento e à compreensão das relações entre indivíduos, grupos e contextos.
A perspectiva da complexidade oferece possibilidades para superar interpretações que isolam manifestações individuais ou dissolvem as singularidades dos participantes em categorias sociais abstratas. Entretanto, essa aproximação exige mais do que a utilização de conceitos associados à complexidade. Requer uma orientação metodológica capaz de contextualizar, relacionar e problematizar as diferentes dimensões do fenômeno investigado.
Conclui-se que o grupo focal não é intrinsecamente participativo, democrático ou epistemologicamente complexo. Suas potencialidades dependem das condições concretas de investigação, das escolhas metodológicas e da capacidade do pesquisador de reconhecer criticamente os limites de suas interpretações.
Compreendido dessa maneira, o grupo focal pode contribuir significativamente para pesquisas interdisciplinares interessadas não apenas em identificar opiniões, mas em compreender como sujeitos socialmente situados constroem, confrontam e transformam interpretações sobre a realidade em que vivem.
Referências
(1) GATTI, Bernadete Angelina. Grupo focal na pesquisa em Ciências Sociais e Humanas. Brasília: Líber Livro Editora, 2005. 77 p. (Série Pesquisa em Educação, v. 10).
(2) SOUZA, Luciana Karine de. Recomendações para a realização de grupos focais na pesquisa qualitativa. Psi UNISC, Santa Cruz do Sul, v. 4, n. 1, p. 52–66, 2020. DOI: https://doi.org/10.17058/psiunisc.v4i1.13500.
(3) MOSCOVICI, Serge. Representações sociais: investigações em psicologia social. Petrópolis: Vozes, 2003.
(4) GONZÁLEZ REY, Fernando Luis. Pesquisa qualitativa e subjetividade: os processos de construção da informação. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2005.
(5) MORIN, Edgar. O método 3: o conhecimento do conhecimento. Porto Alegre: Sulina, 1999.
(6) MORIN, Edgar. O método 4: as ideias: habitat, vida, costumes, organização. Porto Alegre: Sulina, 2001.
P.S.: Usei a IA GPT 5.6 Sol na busca e organização das informações, e na elaboração da ilustração para o texto, que foi concebido, editado e revisado por mim.



Comentários