Integralismo, fascismo e bolsonarismo: convergências, diferenças e relações entre economia, ideologia e poder
Objetivo
Analisar comparativamente o fascismo europeu, o integralismo brasileiro e o bolsonarismo, identificando convergências e diferenças em suas bases sociais, orientações ideológicas, relações econômicas, formas de organização e práticas políticas. O estudo examina especialmente a presença histórica do fascismo e do nazismo no Sul do Brasil, suas relações com setores empresariais e instituições comunitárias e as transformações contemporâneas da extrema direita, articulando contribuições da historiografia, da teoria das representações sociais, da epistemologia da complexidade e da análise crítica das organizações.
Resumo
O artigo desenvolve uma interpretação histórico-comparativa das relações entre fascismo europeu, integralismo brasileiro e bolsonarismo, evitando tanto a identificação indiscriminada desses fenômenos quanto sua separação artificial. A partir das contribuições de Alastair Hamilton, Hélgio Trindade, Loraine Slomp Giron, René Gertz, Ana Maria Dietrich e João Fabio Bertonha, examina a formação dos movimentos fascistas, suas relações com o capitalismo, o anticomunismo, as organizações políticas e as comunidades de imigração no Sul do Brasil. Em seguida, incorpora estudos de Diego Aguiar, Michele Prado, João Cezar de Castro Rocha, Carles X. Senso Vila e da coletânea organizada por Santos e Miranda para compreender a formação do bolsonarismo, suas alianças econômicas e religiosas, suas estratégias de guerra cultural e a influência das plataformas digitais. A interpretação interdisciplinar aproxima essas pesquisas das contribuições de Serge Moscovici, Edgar Morin e Alberto Guerreiro Ramos, destacando as relações entre representações sociais, sistemas de ideias, organizações e políticas cognitivas. Sustenta-se que as tradições autoritárias apresentam continuidades significativas, mas suas manifestações históricas dependem de condições econômicas, institucionais e comunicacionais específicas.

Introdução — Comparar sem confundir, distinguir sem separar
A presença de movimentos autoritários na história política brasileira constitui um problema de investigação que ultrapassa a identificação de lideranças, partidos e regimes de governo. Sua compreensão exige examinar as relações entre condições econômicas, organizações sociais, representações ideológicas e disputas pelo poder. O fascismo europeu, o integralismo brasileiro e o bolsonarismo apresentam convergências importantes, mas surgiram em conjunturas diferentes e desenvolveram formas próprias de organização e mobilização.
O problema torna-se particularmente relevante quando consideramos a história do Sul do Brasil. A presença do fascismo italiano em comunidades de imigração do Rio Grande do Sul, investigada por Loraine Slomp Giron, e a atuação de organizações nazistas em regiões de colonização alemã, examinada por René Gertz e Ana Maria Dietrich, demonstram que a circulação dessas ideologias não se restringiu à Ação Integralista Brasileira. Envolveu também relações econômicas internacionais, instituições culturais, associações comunitárias e disputas entre grupos sociais.
As investigações sobre organizações neonazistas contemporâneas em Santa Catarina, especialmente na região de Blumenau e em outros municípios, acrescentam novas questões à pesquisa. A presença desses grupos, documentada em levantamentos e investigações de períodos determinados, não demonstra, por si mesma, uma continuidade organizacional com os movimentos dos anos 1930. Entretanto, exige investigar como determinadas representações racistas, antissemitas e autoritárias são reconstruídas e difundidas em condições sociais e tecnológicas diferentes.
A comparação também demanda atenção às relações entre fascismo e capitalismo. Os movimentos fascistas históricos apresentaram discursos de superação dos conflitos de classe e de reorganização da economia nacional, mas preservaram estruturas fundamentais da propriedade capitalista. O bolsonarismo, por sua vez, articulou tendências econômicas liberalizantes com conservadorismo moral, valorização da autoridade militar e mobilização de redes religiosas e digitais. Essas diferenças são indispensáveis para compreender a formação de suas respectivas coalizões políticas.
A investigação será desenvolvida em sete seções. A primeira examina a formação do fascismo europeu e suas relações com o capitalismo, incorporando a contribuição de Alastair Hamilton sobre a atração exercida pelo fascismo entre intelectuais. A segunda analisa o integralismo brasileiro a partir da pesquisa de Hélgio Trindade. A terceira investiga a presença do fascismo e do nazismo no Sul do Brasil, especialmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, articulando Giron, Gertz e Dietrich. A quarta acompanha as permanências e transformações das tradições autoritárias brasileiras após 1945, com destaque para o militarismo e o anticomunismo. A quinta examina as relações entre bolsonarismo, neoliberalismo, organizações empresariais e religião. A sexta discute a guerra cultural, as plataformas digitais e a política cognitiva, estabelecendo um diálogo interdisciplinar com Moscovici, Morin e Guerreiro Ramos. A sétima apresenta uma síntese comparativa das convergências e diferenças entre os fenômenos estudados.
A hipótese interpretativa que orienta o artigo é que o autoritarismo não se reproduz apenas por meio de instituições coercitivas ou lideranças políticas. Sua formação e permanência também dependem de organizações econômicas e culturais, representações sociais, sistemas de ideias e mecanismos de produção e circulação do conhecimento político. Compreender essas relações exige reconhecer as continuidades históricas sem desconsiderar as transformações que caracterizam cada conjuntura.
1. O fascismo europeu: crise histórica, capitalismo e mobilização política
O fascismo europeu surgiu em uma conjuntura marcada pelas consequências da Primeira Guerra Mundial, pela crise das instituições liberais, pela intensificação dos conflitos sociais e pela expansão dos movimentos socialistas e comunistas. Sua ascensão não pode ser explicada por uma causa isolada. A combinação entre instabilidade econômica, nacionalismo radicalizado, ressentimentos sociais, violência política e descrédito das instituições representativas criou condições favoráveis à formação de movimentos que prometiam reconstruir a unidade nacional mediante a concentração do poder.
Na Itália, Benito Mussolini organizou o fascismo como movimento de mobilização política que combinava nacionalismo, anticomunismo, violência contra adversários e valorização de uma liderança apresentada como expressão da vontade nacional. A Marcha sobre Roma, em 1922, marcou sua chegada ao governo, seguida por um processo de destruição progressiva das instituições democráticas. Na Alemanha, o nacional-socialismo desenvolveu características próprias, especialmente o racismo biológico, o antissemitismo como elemento estruturante da ideologia, o expansionismo territorial e o projeto genocida que culminou no Holocausto. Embora ambos pertençam à história dos fascismos europeus, suas diferenças não podem ser desconsideradas.
As relações entre fascismo e capitalismo constituem uma dimensão fundamental dessa história. Os movimentos fascistas apresentaram discursos críticos ao liberalismo econômico e prometeram superar os conflitos entre capital e trabalho mediante a organização corporativa da sociedade. Entretanto, sua chegada ao poder não significou a eliminação da propriedade privada dos meios de produção. Na Itália e na Alemanha, os regimes estabeleceram relações com setores empresariais e reorganizaram a economia de acordo com objetivos políticos, militares e nacionais, reprimindo organizações independentes dos trabalhadores.
Alastair Hamilton, em La ilusión del fascismo, demonstra que o fascismo exerceu atração sobre intelectuais, artistas e escritores que identificavam na ordem liberal uma sociedade decadente, incapaz de oferecer respostas às crises culturais e políticas do período. A promessa de renovação nacional, disciplina e transformação histórica mobilizou expectativas diversas, frequentemente contraditórias. A relativa indeterminação de determinados elementos da doutrina fascista permitia que grupos distintos projetassem sobre o movimento suas próprias concepções de ordem, modernidade e transformação social (3).
Essa contribuição é relevante porque demonstra que a adesão ao fascismo não pode ser explicada exclusivamente por interesses econômicos ou pela manipulação de populações desinformadas. Também envolveu processos de identificação intelectual, afetiva e cultural. O fascismo oferecia representações de pertencimento e autoridade que adquiriam significados diferentes conforme a posição social e as expectativas dos participantes.
A investigação de Hamilton permite, portanto, compreender a importância dos mitos políticos e dos sistemas de ideias. Entretanto, sua interpretação precisa ser articulada às pesquisas históricas sobre violência, racismo, repressão e relações de classe, para que a análise da atração intelectual pelo fascismo não obscureça suas consequências políticas e humanas.
2. O integralismo brasileiro: apropriação do fascismo e tradição autoritária nacional
A Ação Integralista Brasileira, fundada em 1932 sob a liderança de Plínio Salgado, constituiu a principal experiência de organização política de inspiração fascista no Brasil dos anos 1930. Sua formação ocorreu em uma conjuntura de transformações econômicas e sociais, crise da ordem oligárquica, expansão das disputas ideológicas internacionais e fortalecimento de projetos nacionalistas de reorganização do Estado.
A pesquisa de Hélgio Trindade, Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30, constitui uma referência fundamental para compreender a natureza do movimento. O autor examina suas origens, organização, doutrina, composição social e motivações de adesão, demonstrando a importância da influência dos fascismos europeus, sem reduzir o integralismo a uma simples reprodução de modelos estrangeiros (1).
O integralismo incorporou elementos característicos dos movimentos fascistas, como a valorização da autoridade, a organização hierárquica, o culto à liderança, a mobilização de massas, os rituais políticos e o anticomunismo. Entretanto, sua doutrina também expressava tradições brasileiras, especialmente o nacionalismo espiritualista, a defesa de uma ordem social cristã e a crítica ao individualismo liberal.
Trindade demonstra que a identidade integralista resultava de uma combinação de motivações. Sua pesquisa sobre antigos dirigentes e militantes identificou o anticomunismo como uma das principais razões declaradas para a adesão, acompanhado pela simpatia em relação aos fascismos europeus e pelo nacionalismo. A associação entre anticomunismo e admiração pelos movimentos fascistas revelou-se particularmente significativa. O autor reconheceu, contudo, os limites metodológicos da reconstrução retrospectiva dessas motivações, realizada décadas depois dos acontecimentos (1).
Essa dimensão empírica é importante porque impede interpretar o integralismo apenas por seus documentos doutrinários. As ideias formuladas pelas lideranças não eram necessariamente apropriadas de maneira uniforme pelos militantes. Diferentes grupos sociais podiam participar da organização por motivos religiosos, políticos, econômicos ou culturais.
O antissemitismo também integrou a história do integralismo, especialmente em correntes vinculadas a Gustavo Barroso. Sua presença, entretanto, não se distribuía uniformemente entre todos os dirigentes e participantes. Essa heterogeneidade não diminui a gravidade das formulações antissemitas, mas exige distinguir as diferentes correntes internas e suas posições doutrinárias.
A organização integralista desempenhava um papel fundamental na formação de identidades coletivas. Uniformes, símbolos, saudações, manifestações públicas e estruturas hierárquicas não eram apenas instrumentos de propaganda. Constituíam práticas de socialização política pelas quais os militantes aprendiam a reconhecer autoridades, interpretar acontecimentos e identificar adversários.
Essa dimensão permite estabelecer uma aproximação interpretativa com Alberto Guerreiro Ramos. As organizações não apenas executam atividades ou representam interesses: também influenciam os critérios pelos quais seus integrantes percebem e interpretam a realidade. Aplicada ao integralismo, essa perspectiva permite investigar como a organização contribuía para produzir e reproduzir determinadas representações de nação, autoridade, ordem e pertencimento.
O integralismo constitui, assim, uma experiência histórica na qual influências fascistas internacionais foram apropriadas e transformadas em condições políticas brasileiras. Sua compreensão exige reconhecer simultaneamente o parentesco com o fascismo europeu e as características próprias de sua inserção nacional.
3. Fascismo e nazismo no Sul do Brasil: imigração, economia regional e disputas políticas
A presença histórica do fascismo e do nazismo no Sul do Brasil demonstra que a circulação dessas ideologias não ocorreu exclusivamente por intermédio da Ação Integralista Brasileira. Ela também envolveu organizações vinculadas aos regimes europeus, instituições culturais, associações comunitárias, relações econômicas internacionais e disputas entre grupos sociais.
No RS, Loraine Slomp Giron, em As sombras do Littorio: o fascismo no Rio Grande do Sul, investiga a penetração do fascismo na Região de Colonização Italiana, especialmente na Serra Gaúcha. Sua pesquisa demonstra que a adesão ao fascismo não pode ser explicada apenas pelo sentimento de italianidade. A formação econômica regional, a diferenciação social das comunidades e os interesses de determinados grupos empresariais participaram da recepção e da circulação das ideias fascistas (10).
A autora examina uma sociedade que passava por transformações econômicas importantes, com o desenvolvimento de atividades comerciais e industriais e a consolidação de setores empresariais regionais. Nesse ambiente, as relações com a Itália fascista podiam adquirir significados econômicos e políticos, oferecendo possibilidades de prestígio, reconhecimento e fortalecimento de posições sociais.
Essa interpretação permite compreender que a ideologia não atua independentemente das relações econômicas. Determinados grupos podem aderir a projetos autoritários porque identificam neles possibilidades de preservar ou ampliar seus interesses. Entretanto, a análise de Giron também demonstra que as comunidades de origem italiana eram heterogêneas. Havia fascistas convictos, simpatizantes ocasionais, opositores do regime e pessoas que procuravam preservar vínculos culturais com a Itália sem assumir compromisso político com Mussolini.
A distinção entre fascismo italiano e integralismo brasileiro é particularmente importante. René Gertz, em sua resenha da obra de Giron, destacou a necessidade de aprofundar as relações entre esses movimentos, lembrando a expressiva presença eleitoral do integralismo em Caxias do Sul durante os anos 1930 (11). Essa observação demonstra que afinidades ideológicas não eliminavam diferenças organizacionais, sociais e políticas.
Em Santa Catarina, especialmente nas regiões de colonização alemã, a presença histórica do nazismo apresenta características próprias. Ana Maria Dietrich, em Nazismo tropical? O Partido Nazista no Brasil, investiga a organização do partido nazista no país entre 1928 e 1938, demonstrando sua vinculação à estrutura internacional comandada a partir da Alemanha (12).
A pesquisa identifica a formação de um núcleo nazista em Timbó, Santa Catarina, em 1928, antes da chegada de Hitler ao poder. A organização desenvolveu atividades de propaganda e articulação comunitária, integrando uma rede internacional de filiais do partido. A investigação demonstra, entretanto, que a experiência brasileira adquiriu características próprias em decorrência das condições políticas, culturais e institucionais nacionais.
As pesquisas de Gertz sobre germanismo, nazismo e integralismo no Sul do Brasil também permitem compreender as relações e os conflitos entre identidades étnicas, organizações políticas e projetos nacionalistas. A existência de comunidades de origem alemã não significava adesão generalizada ao nazismo, assim como a preservação da língua e das tradições culturais não constituía evidência de identificação com o regime de Hitler (13).
Essa diferenciação é indispensável para evitar explicações baseadas na origem étnica. As comunidades de imigração eram social e politicamente heterogêneas, e sua participação na vida brasileira envolvia interesses econômicos, experiências culturais e posicionamentos ideológicos diferentes.
A política de nacionalização desenvolvida durante o Estado Novo acrescentou outra dimensão ao problema. A repressão às organizações políticas estrangeiras e as restrições ao uso público de línguas de imigração atingiram tanto simpatizantes de regimes autoritários quanto pessoas que simplesmente preservavam vínculos culturais com seus países de origem. O enfrentamento de organizações fascistas e nazistas coexistiu, assim, com práticas nacionalistas coercitivas do próprio Estado brasileiro.
As manifestações neonazistas contemporâneas em Santa Catarina introduzem uma questão histórica adicional. Pesquisas e investigações policiais identificaram grupos organizados, circulação de propaganda racista e antissemita e utilização de ambientes digitais para articulação e recrutamento. Blumenau e outros municípios catarinenses aparecem em levantamentos sobre essas redes. Entretanto, os números divulgados em pesquisas realizadas em anos anteriores não devem ser interpretados como contagens atualizadas de organizações em atividade.
A presença desses grupos não demonstra uma continuidade institucional direta com o nazismo dos anos 1930. É necessário investigar os mecanismos de reconstrução ideológica, as formas contemporâneas de recrutamento, as relações entre organizações extremistas e os ambientes digitais, bem como as condições sociais que favorecem sua atuação.
A contribuição conjunta de Giron, Gertz e Dietrich consiste em demonstrar que as experiências fascistas e nazistas no Sul do Brasil precisam ser examinadas em suas condições históricas específicas. Suas relações com a economia regional, as organizações comunitárias e as disputas pelo poder são fundamentais para compreender tanto as adesões quanto as resistências.
4. Militarismo, anticomunismo e permanências autoritárias após 1945
A derrota militar do fascismo e do nazismo em 1945 não significou o desaparecimento de todas as suas ideias, representações e redes de sociabilidade. Entretanto, a sobrevivência de determinados elementos ideológicos não deve ser confundida com a continuidade institucional dos regimes derrotados.
João Fabio Bertonha, ao investigar a trajetória posterior do integralismo, demonstra que antigos militantes permaneceram ativos na vida política brasileira, participando de organizações partidárias e, posteriormente, estabelecendo relações com o regime militar instaurado em 1964. Essa permanência não significa que a ditadura tenha sido dirigida pelo integralismo ou constituído uma simples continuidade da Ação Integralista Brasileira (2).
A ditadura brasileira possuía fundamentos institucionais e geopolíticos próprios, relacionados à Guerra Fria, à Doutrina de Segurança Nacional e às disputas políticas internas. Entretanto, compartilhava com tradições autoritárias anteriores a valorização da hierarquia, a restrição do pluralismo político e a representação do comunismo como ameaça à ordem nacional.
O anticomunismo constitui uma das representações políticas mais persistentes nessa trajetória. Nos anos 1930, esteve associado à expansão internacional dos movimentos fascistas e às disputas sobre a organização econômica e social. Durante a Guerra Fria, integrou os discursos de segurança nacional e foi utilizado para legitimar a repressão a partidos, sindicatos, movimentos sociais e organizações consideradas subversivas.
A trajetória de Jair Bolsonaro, examinada no artigo que escrevi sobre a genealogia do bolsonarismo, permite reconhecer uma transformação posterior dessa tradição. Sua formação política esteve relacionada ao ambiente militar e às controvérsias da redemocratização. Ao longo de sua atuação parlamentar e de sua projeção nacional, incorporou a defesa de interpretações favoráveis à ditadura militar e a utilização recorrente do anticomunismo como instrumento de mobilização política (9).
A diferença histórica é significativa. No bolsonarismo, a categoria comunismo passou frequentemente a ser utilizada para identificar adversários diversos, incluindo partidos de esquerda, universidades, organizações não governamentais, movimentos sociais e setores da imprensa. Essa utilização ampliada não corresponde necessariamente às orientações políticas efetivas desses atores. Trata-se de uma representação que, em determinados discursos, reúne diferentes adversários sob uma categoria comum de ameaça.
Diego Aguiar, em O fascismo brasileiro: surgimento e ascensão do bolsonarismo, identifica características fascistas no movimento contemporâneo, destacando a idealização do passado autoritário, o anticientificismo, a oposição entre um grupo nacional considerado legítimo e seus adversários e a hostilidade a determinados direitos e grupos minoritários (7).
A interpretação de Aguiar é importante porque examina práticas e discursos concretos, mas precisa ser articulada a outras abordagens. A identificação de características fascistas não resolve automaticamente a classificação integral do bolsonarismo. É necessário distinguir a presença de repertórios autoritários, as práticas efetivamente desenvolvidas e as condições institucionais em que o movimento atua.
Michele Prado acrescenta a dimensão transnacional dessa transformação. O bolsonarismo incorporou estratégias contemporâneas de guerra cultural e repertórios da direita alternativa internacional, aproximando-se de formas de populismo iliberal que não podem ser explicadas exclusivamente pelas tradições militares brasileiras (5).
A comparação histórica permite reconhecer, portanto, permanências relevantes do militarismo e do anticomunismo, mas também transformações profundas em seus significados políticos. Essas representações atravessaram conjunturas diferentes, sendo apropriadas por organizações que possuíam objetivos, estruturas e alianças sociais próprios.
5. Capitalismo, neoliberalismo, religião e organizações da nova direita
As relações entre fascismo e capitalismo constituem um dos problemas centrais da comparação histórica. O fascismo italiano e o integralismo brasileiro apresentaram projetos corporativistas que pretendiam superar os conflitos entre capital e trabalho mediante a organização hierárquica da sociedade. Entretanto, essa pretensão não significava a eliminação da propriedade privada nem a democratização das relações econômicas.
Hamilton demonstra que o fascismo europeu reuniu orientações intelectuais contraditórias e prometeu uma transformação social que não se realizou nos termos anunciados. A preservação das estruturas fundamentais da propriedade capitalista e a repressão às organizações independentes dos trabalhadores evidenciam os limites de seu discurso de superação dos conflitos de classe (3).
O bolsonarismo desenvolveu-se em uma conjuntura econômica profundamente diferente, marcada pela expansão internacional do neoliberalismo, pela reorganização das relações entre Estado e mercado e pelo fortalecimento de organizações empresariais e intelectuais dedicadas à difusão de concepções econômicas liberais.
A coletânea Nova direita, bolsonarismo e fascismo: reflexões sobre o Brasil contemporâneo, organizada por Mayara Aparecida Machado Balestro dos Santos e João Elter Borges de Miranda, oferece contribuições importantes para compreender esse processo. Seus capítulos examinam a reorganização das direitas brasileiras, a atuação de institutos liberais, organizações empresariais e produtores de conteúdo político, bem como suas relações com o bolsonarismo (8).
O estudo de Elaine de Almeida Bortone sobre o Instituto Brasil 200 demonstra a importância de organizações empresariais na defesa de pautas econômicas liberais e na articulação com o governo Bolsonaro. A autora utiliza a concepção gramsciana de aparelhos privados de hegemonia para investigar como interesses econômicos podem ser transformados em orientações políticas difundidas na sociedade civil.
A pesquisa de Lidiane Elizabete Friderichs sobre o Instituto Liberal e o Instituto de Estudos Empresariais acrescenta a dimensão da formação intelectual e política da nova direita neoliberal. Essas organizações participam da produção e circulação de ideias sobre propriedade privada, mercado, Estado e políticas públicas, demonstrando que o neoliberalismo não constitui apenas um conjunto de medidas econômicas.
A coletânea também examina as relações entre redes internacionais de institutos liberais e o Movimento Brasil Livre (MBL). Essas conexões contribuíram para a formação de militâncias e para a circulação de agendas econômicas e políticas. Entretanto, é necessário distinguir as aproximações históricas entre essas organizações das divergências posteriormente desenvolvidas no interior da direita brasileira.
Os capítulos dedicados a Olavo de Carvalho e ao Brasil Paralelo ampliam a investigação para o campo da produção cultural. A formação de interpretações políticas e históricas, a disputa pela legitimidade do conhecimento e a construção de narrativas sobre a sociedade brasileira constituem dimensões importantes da atuação dessas organizações.
Essa abordagem permite reconhecer que a formação do bolsonarismo não resultou exclusivamente da trajetória pessoal de Jair Bolsonaro. Envolveu a articulação de redes empresariais, organizações religiosas, produtores culturais, lideranças políticas e setores militares, cujas convergências não eliminaram divergências internas.
A religião acrescenta outra dimensão relevante. O integralismo formulou uma doutrina espiritualista fortemente associada ao cristianismo e à defesa de uma ordem social hierárquica. O bolsonarismo, por sua vez, reuniu diferentes lideranças e organizações religiosas em uma sociedade marcada pela pluralização do campo cristão.
A participação de segmentos religiosos conservadores não permite, entretanto, identificar indistintamente o cristianismo com o bolsonarismo. Existem diferenças significativas entre denominações, lideranças e fiéis, inclusive quanto às concepções de democracia, justiça social e participação política.
A coexistência entre neoliberalismo econômico, conservadorismo religioso e valorização das instituições coercitivas constitui uma característica importante da coalizão bolsonarista. A defesa da redução de determinadas funções econômicas e sociais do Estado pode coexistir com a valorização de seu poder policial, militar e disciplinador.
Essa combinação não corresponde ao corporativismo fascista ou integralista, embora apresente convergências autoritárias em determinadas práticas políticas. A comparação exige compreender as diferenças entre projetos econômicos e investigar como interesses heterogêneos podem ser articulados em torno de uma mesma liderança.
A contribuição de Gramsci, mobilizada por autores da coletânea, permite examinar a disputa pela hegemonia na sociedade civil. A perspectiva de Guerreiro Ramos acrescenta a investigação das políticas cognitivas das organizações, isto é, das maneiras pelas quais elas influenciam a percepção da realidade e os critérios de legitimidade utilizados por seus participantes.
Essa articulação permite compreender que as organizações econômicas e culturais não atuam apenas na defesa de interesses materiais. Também participam da produção e circulação de representações sociais que influenciam a formação das identidades políticas.
6. Guerra cultural, plataformas digitais e política cognitiva: Morin, Moscovici e Guerreiro Ramos
A comparação entre fascismo histórico, integralismo e bolsonarismo exige considerar não apenas suas relações econômicas, organizações políticas e estratégias de mobilização, mas também os processos pelos quais determinadas interpretações da realidade são produzidas, compartilhadas e legitimadas socialmente. Essa dimensão torna-se especialmente importante no contexto contemporâneo, marcado pela expansão das plataformas digitais, pela reorganização dos meios de comunicação e pela crescente disputa em torno da credibilidade das instituições produtoras de conhecimento.
Os movimentos fascistas históricos desenvolveram estratégias de propaganda, utilizaram símbolos, organizaram manifestações públicas e construíram representações de unidade nacional, autoridade e ameaça política. Entretanto, essas práticas ocorreram em condições comunicacionais muito diferentes das atuais. O bolsonarismo desenvolveu-se em uma sociedade na qual plataformas digitais, aplicativos de mensagens e produtores descentralizados de conteúdo participam intensamente da formação das identidades políticas e da circulação de interpretações sobre os acontecimentos.
Michele Prado, em Tempestade ideológica, demonstra a importância das relações entre bolsonarismo, direita alternativa internacional e populismo iliberal. Sua investigação permite compreender como determinadas estratégias de guerra cultural foram apropriadas e transformadas no contexto brasileiro, especialmente mediante a construção de antagonismos políticos, a contestação de instituições estabelecidas e a circulação de narrativas que apresentam determinados grupos sociais como ameaças à ordem nacional (5).
João Cezar de Castro Rocha, em Bolsonarismo: da guerra cultural ao terrorismo doméstico, aprofunda a análise dos mecanismos comunicacionais e cognitivos que participam da radicalização política. Sua concepção de midiosfera extremista procura compreender a articulação entre diferentes meios de comunicação, redes sociais, aplicativos de mensagens e produtores de conteúdo que contribuem para a reprodução de narrativas políticas relativamente fechadas à contestação externa (4).
O autor também desenvolve a noção de dissonância cognitiva coletiva, em diálogo com a tradição da psicologia social inaugurada por Leon Festinger. Essa formulação permite examinar situações em que interpretações compartilhadas por determinados grupos resistem à confrontação com informações divergentes. É importante reconhecer, entretanto, que a extensão da teoria da dissonância cognitiva para processos políticos coletivos constitui uma elaboração interpretativa própria, que não deve ser confundida com a formulação original de Festinger.
Carles X. Senso Vila, em Fascismo mainstream, acrescenta uma dimensão econômica e tecnológica fundamental. O autor examina as relações entre a circulação de discursos extremistas, os modelos de funcionamento das plataformas digitais, os algoritmos de recomendação, a atuação de contas automatizadas e as transformações do jornalismo. Sua análise permite compreender que a disputa pela atenção dos usuários não constitui apenas um problema comunicacional, mas também uma dimensão da economia contemporânea (6).
As plataformas digitais operam mediante estruturas empresariais que estabelecem critérios de visibilidade, circulação e recomendação de conteúdos. Em determinados ambientes, mensagens capazes de provocar reações emocionais intensas podem alcançar grande difusão. Entretanto, seria inadequado afirmar que os algoritmos possuem, por si mesmos, uma orientação ideológica fascista ou que todos os modelos empresariais das grandes corporações tecnológicas produzem os mesmos efeitos políticos. O problema consiste em investigar como seus incentivos econômicos e suas decisões organizacionais interagem com práticas de mobilização e radicalização.
Essa discussão pode ser aprofundada mediante uma aproximação interdisciplinar entre Edgar Morin, Serge Moscovici e Alberto Guerreiro Ramos. Embora esses autores desenvolvam perspectivas diferentes, suas contribuições permitem compreender dimensões complementares das relações entre conhecimento, organizações e poder.
Em O método 4: as ideias, Edgar Morin investiga a organização dos sistemas de ideias, examinando suas condições de formação, reprodução e transformação. Uma de suas contribuições mais relevantes consiste em distinguir os diferentes modos de organização do pensamento, especialmente as relações entre teorias, doutrinas, ideologias e paradigmas (14).
Essa diferenciação é fundamental para compreender os movimentos autoritários. Uma teoria pode desenvolver mecanismos de abertura à crítica, à revisão de seus pressupostos e à incorporação de informações que contrariem suas expectativas. Uma doutrina tende a apresentar maior fechamento em torno de princípios considerados fundamentais, protegendo sua coerência mediante interpretações que reduzem ou rejeitam as contradições. Entretanto, não se trata de categorias absolutamente separadas: sistemas de ideias podem apresentar diferentes graus de abertura e fechamento, conforme suas condições de organização e seus ambientes de interação.
O conceito de paradigma acrescenta uma dimensão mais profunda à análise. Para Morin, os paradigmas orientam operações fundamentais de seleção, associação, distinção e organização do conhecimento. Sua influência não se restringe às opiniões conscientemente defendidas pelos indivíduos, pois participa das condições pelas quais determinados problemas se tornam visíveis e certas interpretações adquirem aparência de evidência.
Essa contribuição permite investigar como movimentos políticos constroem sistemas interpretativos nos quais acontecimentos diferentes são compreendidos mediante um conjunto relativamente estável de pressupostos. Representações de conspiração, ameaça permanente e decadência nacional podem adquirir funções organizadoras, fazendo com que informações contraditórias sejam reinterpretadas como confirmação das crenças anteriormente estabelecidas.
Entretanto, seria metodologicamente inadequado identificar todo pensamento político fortemente comprometido com determinados valores como uma doutrina fechada. A investigação precisa examinar os mecanismos concretos de produção do conhecimento, a disposição para considerar informações divergentes e as condições de revisão das interpretações.
Serge Moscovici, por sua vez, oferece instrumentos para compreender como o conhecimento é produzido e transformado nas relações sociais. Sua teoria das representações sociais demonstra que os indivíduos não interpretam a realidade de maneira isolada. Participam de processos comunicacionais e culturais mediante os quais determinados acontecimentos, conceitos e objetos adquirem significados compartilhados (15).
Dois processos são particularmente relevantes nessa perspectiva: a ancoragem e a objetivação. A ancoragem permite relacionar acontecimentos ou ideias pouco familiares a categorias e referências já conhecidas. A objetivação participa da transformação de conceitos abstratos em imagens, figuras e representações concretas que podem circular na vida cotidiana.
Esses processos ajudam a compreender como categorias políticas adquirem significados que ultrapassam suas definições históricas ou conceituais. O termo comunismo, por exemplo, pode ser utilizado em determinados discursos contemporâneos para classificar atores e instituições que não compartilham uma orientação comunista. Nesse caso, a categoria funciona como representação social de uma ameaça, reunindo acontecimentos e grupos diferentes sob uma interpretação comum.
A teoria de Moscovici também permite compreender a importância das interações sociais na formação das identidades políticas. As representações não são simplesmente transmitidas de maneira unilateral por lideranças ou organizações. Elas são apropriadas, reconstruídas e transformadas pelos grupos que delas participam, em processos atravessados por conflitos, experiências e relações de poder.
Essa contribuição complementa a análise de Castro Rocha. Enquanto a noção de midiosfera extremista permite examinar ambientes comunicacionais específicos, a teoria das representações sociais oferece instrumentos para investigar como os conteúdos que circulam nesses ambientes são apropriados e transformados pelos participantes.
A contribuição de Guerreiro Ramos acrescenta a dimensão organizacional e epistemológica. Em A nova ciência das organizações, o autor desenvolve uma crítica à centralidade da racionalidade instrumental e à tendência de subordinar diferentes esferas da existência humana aos critérios próprios do mercado (16).
Essa crítica permite compreender que as organizações não devem ser examinadas apenas como instrumentos técnicos destinados à realização de objetivos. Elas também estabelecem critérios de avaliação, legitimidade e reconhecimento que influenciam as maneiras pelas quais seus participantes interpretam a realidade. Em uma aproximação com a problemática das políticas cognitivas, podemos investigar como organizações econômicas, políticas, religiosas e comunicacionais favorecem determinadas formas de conhecimento e desvalorizam outras.
A perspectiva de Guerreiro Ramos é especialmente relevante para compreender as relações entre economia e ideologia. Organizações empresariais não participam da vida política apenas mediante financiamento ou defesa explícita de interesses materiais. Também podem atuar na formação de concepções sobre Estado, mercado, liberdade, eficiência, cidadania e legitimidade democrática.
Essa dimensão aparece nas pesquisas reunidas em Nova direita, bolsonarismo e fascismo, particularmente nos estudos sobre institutos liberais, organizações empresariais e produtores de conteúdo político. A atuação dessas instituições demonstra que a disputa ideológica envolve processos organizados de formação intelectual, circulação de ideias e construção de legitimidade social (8).
Entretanto, é importante distinguir as organizações que defendem posições econômicas liberais das que promovem práticas autoritárias. A existência de afinidades políticas ou de relações históricas entre determinados atores não permite atribuir indistintamente a todas essas organizações as mesmas orientações ideológicas. A investigação deve identificar suas propostas, práticas, alianças e transformações ao longo do tempo.
A aproximação entre Morin, Moscovici e Guerreiro Ramos permite desenvolver uma interpretação mais abrangente. Morin contribui para compreender a organização e os mecanismos de abertura e fechamento dos sistemas de ideias. Moscovici permite investigar a formação, a circulação e a transformação das representações sociais. Guerreiro Ramos oferece fundamentos para examinar a influência das organizações e da racionalidade econômica sobre as condições sociais de produção do conhecimento.
Essas perspectivas não são equivalentes nem devem ser artificialmente reunidas em uma teoria única. Sua contribuição está na possibilidade de estabelecer relações entre níveis diferentes de análise, preservando as especificidades de cada abordagem.
Essa articulação também permite aprofundar a comparação entre fascismo histórico, integralismo e bolsonarismo. Os movimentos fascistas e integralistas desenvolveram mecanismos de socialização política mediante organizações hierárquicas, símbolos, uniformes, rituais, jornais e manifestações públicas. O bolsonarismo incorporou formas de mobilização características da sociedade digital, nas quais a circulação de conteúdos pode ocorrer continuamente, ultrapassando os limites das organizações partidárias tradicionais.
A diferença não está apenas na velocidade ou na escala da comunicação. As plataformas digitais constituem organizações econômicas que participam da estruturação dos ambientes em que informações e interpretações circulam. Seus mecanismos de recomendação, seus modelos de remuneração e suas políticas de moderação influenciam as condições de visibilidade dos conteúdos, ainda que não determinem mecanicamente as interpretações dos usuários.
A análise da extrema direita contemporânea exige, portanto, compreender as relações entre interesses econômicos, estruturas organizacionais, representações sociais e sistemas de ideias. O autoritarismo não pode ser explicado exclusivamente pela manipulação comunicacional, pela crise econômica ou pela permanência de tradições políticas. Sua reprodução depende da interação entre essas dimensões, em condições históricas específicas.
Essa interpretação permite reconhecer convergências entre movimentos autoritários de diferentes épocas, sem ignorar as transformações econômicas, institucionais e tecnológicas que caracterizam suas experiências. Também contribui para compreender que a defesa da democracia envolve uma dimensão cognitiva fundamental: a preservação de condições sociais e institucionais que favoreçam o pluralismo, a reflexão crítica, a circulação de conhecimentos confiáveis e a possibilidade de revisão das próprias interpretações.
7. Convergências, diferenças e limites da comparação histórica
A comparação entre fascismo europeu, integralismo brasileiro e bolsonarismo permite reconhecer continuidades autoritárias sem desconsiderar as diferenças históricas que caracterizam cada experiência. A relevância dessa comparação não depende de demonstrar que os três fenômenos constituem manifestações idênticas de uma mesma doutrina. Consiste, sobretudo, em compreender como determinadas representações de autoridade, nação, ordem e ameaça política são apropriadas e transformadas em condições econômicas, sociais e institucionais diferentes.
O fascismo europeu desenvolveu-se em uma conjuntura marcada pelas consequências da Primeira Guerra Mundial, pela crise das instituições liberais, pela intensificação dos conflitos sociais e pela expansão dos movimentos socialistas e comunistas. Sua ascensão esteve relacionada à formação de organizações políticas capazes de mobilizar diferentes grupos sociais em torno de projetos nacionalistas e autoritários. Embora apresentassem discursos de superação dos conflitos entre capital e trabalho, os regimes fascistas preservaram estruturas fundamentais da propriedade capitalista e estabeleceram relações com setores empresariais, ao mesmo tempo que reprimiram organizações independentes dos trabalhadores.
O integralismo brasileiro apropriou-se de elementos dessa experiência internacional, incorporando-os às tradições políticas, religiosas e culturais nacionais. A pesquisa de Hélgio Trindade demonstra que o movimento reuniu diferentes motivações de adesão, destacando-se o anticomunismo, o nacionalismo e a simpatia pelos fascismos europeus. Sua organização hierárquica, seus rituais e sua doutrina espiritualista constituíram mecanismos de mobilização e socialização política que adquiriram características próprias no contexto brasileiro (1).
As pesquisas de Loraine Slomp Giron, René Gertz e Ana Maria Dietrich ampliam significativamente essa interpretação. A presença histórica do fascismo italiano e do nazismo no Sul do Brasil demonstra que a circulação dessas ideologias não ocorreu exclusivamente por intermédio do integralismo. Também envolveu relações econômicas internacionais, comunidades de imigração, organizações culturais e disputas entre grupos sociais. No Rio Grande do Sul, Giron evidencia a importância das relações entre setores empresariais regionais e o fascismo italiano. Em Santa Catarina, Dietrich e Gertz permitem compreender a atuação de organizações nazistas em determinadas comunidades de origem alemã, distinguindo a preservação de identidades culturais da adesão a projetos políticos autoritários (10) (12) (13).
Essa dimensão regional acrescenta um problema decisivo à comparação histórica: as ideologias não circulam independentemente das condições econômicas e organizacionais das sociedades. Sua recepção depende de interesses, conflitos, instituições e representações sociais que podem favorecer, modificar ou limitar sua influência. A existência de manifestações neonazistas contemporâneas em Santa Catarina exige novas investigações sobre essas relações, sem que se possa pressupor uma continuidade institucional direta com as organizações nazistas dos anos 1930.
O bolsonarismo emergiu em uma conjuntura profundamente diferente. Sua formação ocorreu em uma sociedade constitucionalmente democrática, marcada por desigualdades socioeconômicas persistentes, transformações do capitalismo, expansão das plataformas digitais e reorganização das direitas brasileiras. A valorização de interpretações favoráveis à ditadura militar, o anticomunismo e a mobilização de antagonismos políticos revelam afinidades com tradições autoritárias anteriores. Entretanto, suas alianças econômicas, religiosas e comunicacionais apresentam características próprias.
As interpretações de Diego Aguiar, Michele Prado e João Cezar de Castro Rocha permitem compreender dimensões diferentes desse fenômeno. Aguiar identifica características fascistas na formação e na atuação do bolsonarismo. Prado investiga suas relações com a direita alternativa internacional e o populismo iliberal. Castro Rocha examina a guerra cultural, a midiosfera extremista e os processos de radicalização política. Essas abordagens contribuem para o debate, mas não devem ser artificialmente reduzidas a uma classificação única, pois investigam dimensões distintas do movimento (7) (5) (4).
As relações econômicas constituem uma das diferenças mais significativas entre os fenômenos comparados. Enquanto o fascismo histórico e o integralismo formularam projetos corporativistas de reorganização hierárquica da sociedade, o bolsonarismo reuniu setores favoráveis ao neoliberalismo econômico, organizações empresariais, lideranças religiosas conservadoras e grupos que defendem o fortalecimento das instituições militares e policiais. Essa combinação evidencia que o autoritarismo político pode articular-se a projetos econômicos diferentes, não sendo possível deduzir suas características exclusivamente de uma determinada orientação econômica.
A comparação também demonstra a importância das transformações organizacionais e comunicacionais. O fascismo europeu e o integralismo desenvolveram mecanismos de socialização política baseados em partidos, organizações hierárquicas, rituais, símbolos e meios de comunicação de massa. O bolsonarismo incorporou ambientes digitais nos quais plataformas empresariais, produtores de conteúdo e comunidades conectadas participam intensamente da circulação de representações políticas.
A contribuição de Alastair Hamilton permite compreender que a atração exercida pelos movimentos fascistas não se restringiu aos interesses econômicos ou à manipulação política. Também envolveu intelectuais, sistemas de ideias e expectativas de renovação social. Essa dimensão aproxima a investigação histórica dos problemas epistemológicos desenvolvidos por Morin, Moscovici e Guerreiro Ramos, sem eliminar as diferenças entre seus referenciais (3).
Morin oferece instrumentos para compreender os mecanismos de organização, abertura e fechamento dos sistemas de ideias. Moscovici permite investigar a formação e a circulação das representações sociais. Guerreiro Ramos contribui para examinar como organizações econômicas, políticas e culturais influenciam os critérios pelos quais seus participantes interpretam a realidade. A articulação dessas perspectivas permite compreender que os movimentos autoritários não apenas defendem programas e mobilizam interesses, mas também participam da produção social do conhecimento político (14) (15) (16).
A comparação histórica conduz, portanto, a uma interpretação que reconhece simultaneamente as permanências e as transformações do autoritarismo. As continuidades ideológicas precisam ser investigadas em suas condições concretas de reprodução, enquanto as diferenças econômicas, institucionais e comunicacionais impedem a identificação indiscriminada de experiências separadas por quase um século.
A contribuição principal dessa perspectiva consiste em compreender que a formação de movimentos autoritários envolve relações entre economia, organizações, representações sociais e sistemas de ideias. Essas dimensões não atuam isoladamente, mas também não podem ser reduzidas umas às outras. Sua articulação constitui um problema interdisciplinar fundamental para a compreensão das transformações da política contemporânea.
Considerações finais — Autoritarismo, conhecimento e democracia
A investigação desenvolvida neste artigo demonstra que fascismo europeu, integralismo brasileiro e bolsonarismo apresentam convergências ideológicas e políticas relevantes, mas não constituem fenômenos historicamente idênticos. Sua comparação exige compreender as condições econômicas, institucionais, culturais e comunicacionais em que cada movimento se formou e adquiriu capacidade de mobilização.
A incorporação das pesquisas sobre o Sul do Brasil acrescenta uma dimensão fundamental à análise. As relações entre fascismo, nazismo, imigração, economia regional e organizações comunitárias demonstram que a circulação de ideologias autoritárias depende de condições sociais concretas. A história do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina revela formas particulares de apropriação dessas ideologias, bem como resistências, disputas e contradições que impedem qualquer interpretação homogênea das comunidades de imigração.
A análise do bolsonarismo amplia essa perspectiva ao incorporar as transformações contemporâneas das organizações econômicas, religiosas e comunicacionais. Sua formação não pode ser explicada exclusivamente pela permanência de tradições autoritárias brasileiras, nem pelas características das plataformas digitais. É necessário investigar como diferentes interesses e representações políticas foram articulados em uma conjuntura marcada pela reorganização das direitas, pelas disputas em torno do Estado e pelas transformações da esfera pública.
A aproximação entre Morin, Moscovici e Guerreiro Ramos permite aprofundar uma dimensão frequentemente secundarizada nas interpretações políticas: as relações entre conhecimento, organizações e poder. Os movimentos autoritários não se limitam a mobilizar interesses ou defender determinados projetos institucionais. Também participam da produção e circulação de representações que influenciam a percepção da realidade, a formação das identidades coletivas e os critérios utilizados para reconhecer a legitimidade de informações e argumentos.
Essa dimensão cognitiva não substitui a análise econômica ou institucional. Ao contrário, exige sua articulação. A reprodução do autoritarismo envolve processos históricos nos quais interesses materiais, relações organizacionais, sistemas de ideias e práticas comunicacionais interagem de maneira complexa.
A defesa da democracia, por sua vez, não pode depender apenas da preservação formal das instituições existentes. Também exige condições sociais que favoreçam a participação política, a redução das desigualdades, o pluralismo, a liberdade de investigação e a circulação pública de conhecimentos sujeitos à crítica. Uma democracia que preserva suas instituições, mas permite o aprofundamento da exclusão social e a deterioração das condições de formação do julgamento público, enfrenta dificuldades crescentes para sustentar sua legitimidade.
Compreender as relações entre fascismo, integralismo e bolsonarismo constitui, assim, uma contribuição para investigar os desafios contemporâneos da democracia. O problema não se resume à identificação de semelhanças entre movimentos autoritários de épocas diferentes. Consiste em compreender como determinadas representações de autoridade, ameaça e pertencimento encontram condições de reprodução e transformação em sociedades historicamente específicas.
Essa compreensão exige uma abordagem interdisciplinar capaz de religar economia, história, política, organizações e conhecimento, sem eliminar as diferenças entre essas dimensões. É nesse esforço de investigação crítica que reside a principal contribuição do estudo.
Referências
(1) TRINDADE, Hélgio. Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30. São Paulo: DIFEL, 1974.
(2) BERTONHA, João Fabio. O integralismo e sua história: memória, fontes, historiografia. 1. ed. Salvador: Editora Pontocom, 2016. 212 p.
(3) HAMILTON, Alastair. La ilusión del fascismo: un ensayo sobre los intelectuales y el fascismo, 1919–1945. Barcelona: Luis de Caralt, 1973.
(4) CASTRO ROCHA, João Cezar de. Bolsonarismo: da guerra cultural ao terrorismo doméstico: retórica do ódio e dissonância cognitiva coletiva. Belo Horizonte: Autêntica, 2023. 192 p.
(5) PRADO, Michele. Tempestade ideológica: bolsonarismo, a alt-right e o populismo iliberal no Brasil. São Paulo: Lux, 2021.
(6) SENSO VILA, Carles Xavier. Fascismo mainstream: periodismo, conspiraciones, algoritmos y bots al servicio de la extrema derecha. 2020. ISBN 978-84-09-23290-1.
(7) AGUIAR, Diego. O fascismo brasileiro: surgimento e ascensão do bolsonarismo. 1. ed. Rio de Janeiro: Mundo Contemporâneo, 2020.
(8) SANTOS, Mayara Aparecida Machado Balestro dos; MIRANDA, João Elter Borges de (org.). Nova direita, bolsonarismo e fascismo: reflexões sobre o Brasil contemporâneo. Ponta Grossa: Texto e Contexto, 2020. 463 p. (Coleção Singularis, v. 9).
(9) BOEIRA, Sérgio Luís. Genealogia do bolsonarismo: do capitão rebelde ao movimento político nacional (1986–2026). Blog pessoal, 20 set. 2026. Disponível em: https://www.websergioluisboeira.com/post/genealogia-do-bolsonarismo-do-capitao-rebelde-ao-movimento-politico-nacional-1986-2026.
(10) GIRON, Loraine Slomp. As sombras do Littorio: o fascismo no Rio Grande do Sul. 2. ed. Caxias do Sul: EDUCS, 2017. 280 p.
(11) GERTZ, René E. As sombras do Littorio: o fascismo no Rio Grande do Sul, de Loraine Slomp Giron. Estudos Ibero-Americanos, Porto Alegre, v. 20, n. 1, p. 237–240, 1994.
(12) DIETRICH, Ana Maria. Nazismo tropical? O Partido Nazista no Brasil. 2007. Tese (Doutorado em História Social) — Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007.
(13) GERTZ, René E. O fascismo no sul do Brasil: germanismo, nazismo, integralismo. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987.
(14) MORIN, Edgar. O método 4: as ideias: habitat, vida, costumes, organização. Porto Alegre: Sulina, 2011.
(15) MOSCOVICI, Serge. Representações sociais: investigações em psicologia social. Petrópolis: Vozes, 2015.
(16) GUERREIRO RAMOS, Alberto. A nova ciência das organizações: uma reconceituação da riqueza das nações. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getulio Vargas, 1981.
P.S.: Usei a IA GPT 6.1 na busca e organização das informações, e na elaboração da ilustração para o texto, que foi concebido, editado e revisado por mim.



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