Olavo de Carvalho e a guerra cultural: política cognitiva da extrema direita no Brasil
Objetivo
Analisar a contribuição de Olavo de Carvalho (1947–2022) para a formação cultural e política das novas direitas brasileiras, especialmente do bolsonarismo, tomando como fundamento teórico o conceito de política cognitiva de Alberto Guerreiro Ramos (1915–1982). Busca-se compreender como a distorção da linguagem, a construção de inimigos políticos e a deslegitimação de instituições produtoras de conhecimento podem condicionar interpretações coletivas da realidade. A análise articula as contribuições de Alvaro Bianchi, João Cezar de Castro Rocha, Edgar Morin, Serge Moscovici, Manuel Castells e Shoshana Zuboff, examinando também as possibilidades de continuidade e transformação do repertório olavista na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro em 2026.
Resumo
A ascensão das novas direitas brasileiras envolve transformações históricas, culturais e comunicacionais que ultrapassam a competição eleitoral. Nesse processo, Olavo de Carvalho desempenhou papel relevante na formação de redes intelectuais, na difusão do anticomunismo e na construção de uma concepção de guerra cultural. Este artigo investiga esse fenômeno a partir do conceito de política cognitiva formulado por Alberto Guerreiro Ramos, que permite examinar a utilização de linguagens distorcidas para induzir interpretações da realidade favoráveis a determinados interesses. A contribuição de Alvaro Bianchi situa o olavismo na formação histórica das novas direitas, enquanto João Cezar de Castro Rocha esclarece as relações entre guerra cultural, retórica do ódio e radicalização política. Edgar Morin e Serge Moscovici aprofundam a análise dos sistemas de ideias e das representações sociais. Manuel Castells e Shoshana Zuboff contribuem para compreender as condições tecnológicas e econômicas da comunicação digital. Argumenta-se que a guerra cultural pode constituir uma modalidade de política cognitiva quando distorções sistemáticas da linguagem condicionam a percepção coletiva dos acontecimentos e favorecem interesses políticos. A investigação também considera a hipótese de permanência desse repertório no bolsonarismo contemporâneo, distinguindo continuidades discursivas de influências diretamente comprovadas.
Palavras-chave: política cognitiva; Guerreiro Ramos; Olavo de Carvalho; guerra cultural; bolsonarismo; democracia.

Introdução
A crise contemporânea da democracia envolve transformações que ultrapassam o funcionamento dos partidos, dos governos e das instituições representativas. Entre elas, destaca-se a intensificação das disputas pela interpretação pública da realidade, pela credibilidade das informações e pela legitimidade das instituições responsáveis pela produção e circulação do conhecimento. A expansão das plataformas digitais ampliou essas disputas, permitindo que mensagens políticas alcançassem públicos numerosos e diversificados, frequentemente mediante procedimentos de comunicação orientados para a mobilização emocional e a produção de antagonismos.
Nesse contexto, a expressão guerra cultural passou a ocupar lugar destacado na interpretação das novas direitas. Entretanto, sua utilização exige cuidado. Em sociedades democráticas, a disputa entre valores, concepções de mundo e interpretações históricas constitui uma manifestação legítima do pluralismo. O problema surge quando essa disputa envolve a distorção sistemática de informações, a fabricação de representações desqualificadoras dos adversários e a rejeição indiscriminada de instituições produtoras de conhecimento.
A contribuição de Alberto Guerreiro Ramos oferece um fundamento teórico especialmente relevante para compreender esse fenômeno. Em A nova ciência das organizações: uma reconceituação da riqueza das nações, publicado em 1981, o sociólogo brasileiro desenvolve uma crítica à sociedade centrada no mercado e examina os mecanismos pelos quais determinados interesses podem orientar a percepção social da realidade. No capítulo dedicado à política cognitiva, Guerreiro Ramos analisa a utilização consciente ou inconsciente de linguagens distorcidas que induzem indivíduos e grupos a interpretar acontecimentos de acordo com interesses particulares (1).
Essa perspectiva permite investigar a guerra cultural para além da propaganda e da circulação de notícias falsas. O problema envolve as relações entre linguagem, conhecimento, poder e organização social. Determinadas concepções de mundo podem adquirir legitimidade pública não apenas pela consistência de seus argumentos, mas também pela repetição de mensagens, pela formação de comunidades interpretativas e pela desqualificação de fontes de informação consideradas adversárias.
A trajetória de Olavo de Carvalho (1947–2022) constitui um caso importante para essa investigação. Sua atuação como escritor, polemista e professor de cursos livres contribuiu para a formação de redes de seguidores que passaram a disputar espaço na esfera pública brasileira. Seu pensamento combinou conservadorismo cultural, anticomunismo e críticas persistentes às universidades, aos meios de comunicação e a setores da intelectualidade.
A interpretação de Alvaro Bianchi permite situar essa trajetória no processo histórico de formação das novas direitas, evitando atribuir a um único intelectual a responsabilidade por transformações políticas mais amplas (2). João Cezar de Castro Rocha, por sua vez, examina os procedimentos discursivos da guerra cultural e da retórica do ódio, contribuindo para compreender como adversários políticos podem ser representados como inimigos (3).
A análise é complementada pelas contribuições de Edgar Morin, Serge Moscovici, Manuel Castells e Shoshana Zuboff, que permitem examinar, respectivamente, os sistemas de ideias, as representações sociais, o poder comunicacional e a exploração econômica dos comportamentos nas plataformas digitais.
O artigo está organizado em cinco seções. A primeira apresenta o conceito de política cognitiva e sua relação com a racionalidade instrumental. A segunda examina a trajetória de Olavo de Carvalho e sua participação na formação das novas direitas. A terceira discute a guerra cultural, a retórica do ódio e os processos de organização das crenças. A quarta analisa as transformações digitais da comunicação política. A quinta investiga as possibilidades de continuidade e adaptação do repertório olavista na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro em 2026. As considerações finais discutem as implicações desses processos para a autonomia intelectual e a democracia.
1. Guerreiro Ramos: política cognitiva e racionalidade instrumental
A contribuição de Alberto Guerreiro Ramos para a compreensão das relações entre linguagem, conhecimento e poder constitui o fundamento teórico deste artigo. Em A nova ciência das organizações, o autor desenvolve uma crítica à expansão dos pressupostos da sociedade centrada no mercado para o conjunto da existência humana. Seu argumento central é que os critérios de eficiência, competição e cálculo econômico, embora pertinentes a determinadas atividades, não devem ser transformados em princípios universais de organização da vida social (1).
Essa crítica está relacionada à distinção entre racionalidade instrumental e racionalidade substantiva. A primeira orienta-se predominantemente para a escolha de meios eficientes em relação a objetivos estabelecidos. A segunda envolve a reflexão crítica sobre os próprios objetivos, seus fundamentos éticos e suas consequências para a existência humana. O problema surge quando a racionalidade instrumental passa a orientar indiscriminadamente instituições e relações sociais que deveriam preservar finalidades próprias.
No quinto capítulo da obra, intitulado “Política cognitiva: a psicologia da sociedade centrada no mercado”, Guerreiro Ramos examina a utilização consciente ou inconsciente de linguagens distorcidas para orientar a interpretação da realidade segundo interesses específicos. Sua análise recupera debates antigos sobre retórica e persuasão, particularmente a crítica de Platão aos sofistas, demonstrando que a manipulação dos significados não constitui uma invenção contemporânea.
A política cognitiva distingue-se, entretanto, da comunicação política em geral. Em uma democracia, a persuasão e a disputa de interpretações são legítimas e necessárias. O fenômeno identificado por Guerreiro Ramos envolve especificamente a utilização de distorções que condicionam a compreensão dos acontecimentos e podem favorecer interesses particulares apresentados como se fossem universais.
A linguagem, nessa perspectiva, não constitui apenas um instrumento neutro de transmissão de informações. Ela participa da construção social da realidade e pode contribuir para naturalizar relações de poder, legitimar interesses e limitar a capacidade crítica dos indivíduos. Uma representação reiteradamente difundida pode adquirir aparência de evidência, mesmo quando seus fundamentos são frágeis ou contraditórios.
Guerreiro Ramos também reconhece que esses processos não dependem necessariamente de manipulação deliberada. Determinados padrões cognitivos podem ser reproduzidos por indivíduos e organizações que não reconhecem plenamente seus condicionamentos. Essa observação é importante para evitar interpretações conspiratórias, nas quais toda distorção seria resultado de um centro único de comando.
A relação entre política cognitiva e sociedade centrada no mercado adquire especial atualidade diante da comunicação digital. Quando mensagens políticas circulam em plataformas cujo funcionamento econômico depende da atenção dos usuários, sua eficácia pode ser avaliada prioritariamente pelo alcance, pela capacidade de mobilização e pelo engajamento produzido. Nessas condições, a popularidade de uma mensagem corre o risco de ser confundida com sua legitimidade, enquanto a consistência factual pode tornar-se secundária.
A crítica de Guerreiro Ramos não implica rejeitar o mercado, a tecnologia ou a comunicação persuasiva. Seu alcance é mais profundo: trata-se de questionar a transformação de critérios instrumentais em referências absolutas para a vida social. A comunicação democrática precisa ser examinada também segundo sua contribuição à autonomia intelectual, ao esclarecimento público e à capacidade de julgamento dos cidadãos.
Nesse contexto, a atitude parentética, desenvolvida pelo autor em sua reflexão sociológica, oferece uma referência importante. Ela expressa a capacidade de estabelecer distância crítica em relação aos condicionamentos sociais e organizacionais, evitando que as exigências dos sistemas sejam automaticamente confundidas com os valores fundamentais da existência humana.
A análise da guerra cultural olavista a partir de Guerreiro Ramos permite, portanto, formular uma questão central: em que condições determinadas linguagens políticas deixam de favorecer o esclarecimento e passam a induzir interpretações distorcidas da realidade, restringindo a autonomia crítica dos cidadãos?
2. Olavo de Carvalho e a formação das novas direitas brasileiras
A emergência das novas direitas brasileiras resulta de um processo histórico que não pode ser reduzido à eleição de Jair Bolsonaro em 2018. Suas raízes envolvem a permanência do anticomunismo, as transformações do conservadorismo religioso, a expansão de organizações liberais e ultraliberais e as reações a mudanças culturais e políticas ocorridas após a redemocratização. A partir dos anos 2000, a expansão da internet acrescentou novas possibilidades de articulação entre indivíduos e grupos que compartilhavam críticas à esquerda, ao Partido dos Trabalhadores e a determinadas orientações culturais.
Nesse contexto, Olavo de Carvalho desenvolveu uma trajetória singular. Sua atuação intelectual antecedeu a consolidação das redes sociais, mas encontrou nelas condições favoráveis de expansão. Por meio de livros, artigos, cursos, vídeos e intervenções públicas, construiu uma rede de seguidores que reconheciam nele uma autoridade intelectual alternativa às universidades e aos meios tradicionais de produção do conhecimento.
Alvaro Bianchi contribui para compreender esse fenômeno ao situar Olavo no interior de um movimento mais amplo de reorganização das direitas. Em entrevista publicada na revista Em Tese, da Universidade Federal de Santa Catarina, em 2021, Bianchi examina a guerra cultural e a atuação de Olavo como organizador de uma concepção de mundo, recorrendo a categorias associadas à tradição gramsciana (2).
A perspectiva de Antonio Gramsci permite compreender por que movimentos políticos investem na formação de intelectuais, na criação de instituições culturais e na disputa por espaços educacionais e comunicacionais. Para Gramsci, o poder político não se sustenta exclusivamente mediante a coerção exercida pelo Estado. Sua estabilidade depende também da construção de consensos e da organização de concepções de mundo que orientam práticas sociais (4).
O caso de Olavo apresenta um paradoxo interessante. Embora tenha combatido sistematicamente o marxismo e denunciado a influência de Gramsci na cultura brasileira, sua atuação pode ser examinada mediante categorias desenvolvidas pelo próprio pensador italiano. A formação de seguidores, a construção de referências intelectuais alternativas e a disputa pela legitimidade das instituições culturais são processos que podem ser interpretados como formas de organização ideológica na sociedade civil.
Isso não significa afirmar que Olavo tenha adotado conscientemente uma estratégia gramsciana. A comparação é analítica, não uma identificação entre projetos intelectuais distintos. O olavismo desenvolveu uma interpretação fortemente anticomunista dos conflitos culturais, frequentemente atribuindo a seus adversários uma capacidade de coordenação e influência cuja extensão precisa ser demonstrada empiricamente.
O exame direto de seus textos permite compreender melhor essa concepção. Em A nova era e a revolução cultural: Fritjof Capra & Antonio Gramsci, publicado em 1994, Olavo aproxima correntes intelectuais distintas no contexto de uma interpretação abrangente das transformações culturais contemporâneas (5). A associação entre fenômenos heterogêneos constitui um aspecto importante de sua construção argumentativa, pois permite reunir acontecimentos e tendências diferentes em uma narrativa geral sobre mudanças culturais e disputas ideológicas.
Em O imbecil coletivo, publicado em 1996, a crítica à intelectualidade brasileira assume maior centralidade (6). O próprio título apresenta uma caracterização desqualificadora de um conjunto de interlocutores, embora a avaliação do conteúdo da obra exija examinar os argumentos desenvolvidos em cada texto. A crítica aos meios acadêmicos e culturais passa a integrar uma interpretação mais ampla sobre a suposta deterioração da vida intelectual brasileira.
Na apresentação pública de sua trilogia, em agosto de 1996, Olavo relacionou A nova era e a revolução cultural, O jardim das aflições e O imbecil coletivo como partes de um projeto intelectual articulado. Essa documentação permite reconhecer que sua interpretação abrangente da crise cultural não foi construída retrospectivamente por seus críticos, mas apresentada pelo próprio autor como parte de sua produção intelectual.
A questão relevante, à luz de Guerreiro Ramos, não consiste em rejeitar a legitimidade da crítica às universidades ou às correntes intelectuais. Essas instituições e concepções podem e devem ser examinadas criticamente. O problema surge quando diferenças históricas e conceituais são reduzidas a uma narrativa abrangente de antagonismo, sem demonstração suficiente das relações propostas.
A contribuição de Bianchi permite evitar a personalização excessiva desse processo. O olavismo não criou isoladamente as novas direitas, mas contribuiu para organizar culturalmente setores desse movimento, oferecendo referências intelectuais, uma linguagem de confronto e interpretações compartilhadas da realidade. Sua influência deve ser compreendida em articulação com transformações políticas, religiosas, econômicas e comunicacionais mais amplas.
3. Guerra cultural, retórica do ódio e sistemas de ideias
Em Guerra cultural e retórica do ódio, publicado em 2021, João Cezar de Castro Rocha examina a transformação do conflito político em um confronto permanente, marcado pela desqualificação dos adversários e pela produção reiterada de antagonismos (3). Sua análise contribui para compreender a guerra cultural não apenas como disputa entre valores, mas como prática comunicacional capaz de modificar as relações entre lideranças, seguidores e instituições.
Em uma sociedade democrática, a existência de adversários é indispensável. Partidos, movimentos e cidadãos defendem interesses e concepções de mundo diferentes, frequentemente incompatíveis. O problema emerge quando o adversário deixa de ser reconhecido como participante legítimo da vida pública e passa a ser representado como ameaça absoluta à sociedade. Nessa situação, a controvérsia argumentativa tende a ceder espaço à hostilidade, à caricatura e à suspeição generalizada.
Em Bolsonarismo: da guerra cultural ao terrorismo doméstico, publicado em 2023, Castro Rocha aprofunda sua investigação sobre a radicalização política e as consequências da retórica do ódio (7). A obra relaciona estratégias discursivas, desumanização dos adversários e comportamentos de setores radicalizados do bolsonarismo. O autor também situa sua análise em um projeto intelectual mais amplo, dedicado à retórica do ódio e à dissonância cognitiva coletiva.
A passagem da hostilidade discursiva à violência política, entretanto, não constitui um processo automático. A radicalização depende de condições históricas, organizacionais e institucionais que precisam ser examinadas. A contribuição de Castro Rocha permite investigar como determinadas representações dos adversários podem favorecer a legitimação de práticas autoritárias, sem transformar a linguagem em causa única dos acontecimentos.
O diálogo com Edgar Morin acrescenta uma dimensão importante a essa interpretação. No terceiro volume de O método, dedicado ao conhecimento do conhecimento, Morin examina as relações entre conhecimento, erro e ilusão, demonstrando que a atividade cognitiva está sujeita a condicionamentos que nem sempre são reconhecidos pelos próprios sujeitos (8). No quarto volume, dedicado às ideias, analisa os sistemas de pensamento e sua capacidade de desenvolver mecanismos de organização e relativa autonomia (9).
A distinção entre teoria e doutrina é particularmente relevante. Uma teoria orientada por princípios críticos deve permanecer aberta à revisão de suas hipóteses diante de novas evidências. Uma doutrina relativamente fechada tende a reinterpretar informações contraditórias de maneira a preservar suas premissas fundamentais. Quando toda contestação passa a ser compreendida como confirmação da existência de um inimigo, o sistema interpretativo pode adquirir características autorreferentes.
A teoria das representações sociais de Serge Moscovici permite compreender como essas interpretações são construídas e compartilhadas coletivamente. Mediante processos de ancoragem e objetivação, acontecimentos complexos podem ser associados a categorias familiares e transformados em imagens socialmente reconhecíveis (10). Expressões como “marxismo cultural” e “globalismo”, por exemplo, podem funcionar como referências abrangentes para interpretar acontecimentos distintos, ainda que seus significados variem entre grupos e contextos.
A articulação entre Guerreiro Ramos, Morin e Moscovici permite distinguir processos que frequentemente são confundidos. Toda sociedade produz representações e sistemas de ideias, mas nem toda representação constitui uma distorção cognitiva. A especificidade da política cognitiva está na utilização de linguagens distorcidas que orientam interpretações da realidade segundo determinados interesses.
Essa distinção é indispensável para uma análise rigorosa do olavismo. Não basta identificar linguagem agressiva, convicções fortes ou críticas às instituições. É necessário examinar proposições concretas, confrontá-las com evidências e investigar os procedimentos pelos quais determinadas interpretações são apresentadas como verdades incontestáveis.
A guerra cultural pode constituir uma modalidade de política cognitiva quando a construção dos antagonismos depende de distorções sistemáticas que reduzem a capacidade de julgamento dos públicos envolvidos. Sua crítica, entretanto, precisa preservar o mesmo compromisso com evidências e abertura ao contraditório que exige de seus objetos de investigação.
4. Plataformas digitais e mercantilização da comunicação política
A expansão das plataformas digitais modificou profundamente as condições de produção, circulação e recepção das mensagens políticas. A comunicação pública, anteriormente organizada em grande medida por jornais, emissoras de rádio e televisão e instituições especializadas, passou a incorporar redes descentralizadas de produtores de conteúdo, influenciadores, organizações políticas e usuários comuns. Essa transformação ampliou as possibilidades de participação, mas também criou novos problemas relacionados à confiabilidade das informações, à fragmentação dos públicos e à concentração do poder tecnológico.
Manuel Castells contribui para compreender essas mudanças ao examinar as relações entre comunicação e poder na sociedade em rede. Em Communication Power, demonstra que a capacidade de influenciar processos comunicacionais constitui uma dimensão central das relações contemporâneas de poder (11). Em Ruptura: a crise da democracia liberal, relaciona as transformações da comunicação à crise de legitimidade das instituições representativas e à emergência de lideranças que se apresentam como alternativas aos sistemas políticos estabelecidos (12).
O olavismo encontrou nesse ambiente condições favoráveis de expansão. Embora sua produção intelectual tenha começado antes da consolidação das redes sociais, a internet permitiu ampliar a circulação de seus conteúdos e estabelecer relações relativamente diretas com seguidores. Cursos, vídeos, transmissões e publicações digitais contribuíram para a formação de comunidades interpretativas que compartilhavam referências intelectuais e concepções de mundo.
Shoshana Zuboff acrescenta outra dimensão ao problema ao investigar o capitalismo de vigilância, caracterizado pela apropriação de dados comportamentais e sua utilização em processos de previsão e influência sobre comportamentos humanos (13). Sua análise permite compreender que as plataformas digitais não constituem espaços neutros de circulação de mensagens. Seus modelos econômicos, sistemas de recomendação e mecanismos de publicidade influenciam as condições de visibilidade dos conteúdos.
A relação entre Zuboff e Guerreiro Ramos é particularmente fecunda. Embora suas obras tenham sido produzidas em contextos distintos, ambas permitem examinar como interesses econômicos podem condicionar comportamentos e interpretações da realidade. Guerreiro Ramos investigou a expansão da racionalidade instrumental e dos padrões cognitivos da sociedade centrada no mercado; Zuboff analisa a transformação da experiência humana em fonte de dados comercialmente exploráveis.
A guerra cultural digital pode produzir, nesse contexto, benefícios políticos para determinados grupos e benefícios econômicos para plataformas cuja rentabilidade depende, em parte, da atenção e do engajamento dos usuários. A produção permanente de controvérsias pode alimentar ambos os processos, ainda que seus participantes não compartilhem os mesmos objetivos.
Essa dinâmica apresenta características de retroalimentação positiva: mensagens provocativas geram reações que ampliam sua circulação, produzindo novas interações e aumentando sua visibilidade. A própria reação crítica pode contribuir involuntariamente para a difusão de conteúdos que pretende contestar. Entretanto, os efeitos dos algoritmos não são uniformes nem determinam automaticamente as escolhas políticas. Dependem das arquiteturas tecnológicas, dos comportamentos dos usuários e das condições culturais e institucionais de cada sociedade.
A interpretação de Guerreiro Ramos permite compreender o problema fundamental: quando a eficácia comunicacional passa a ser medida prioritariamente pela capacidade de mobilização e pelo engajamento, a consistência factual das informações pode tornar-se secundária. A popularidade de uma mensagem não demonstra sua veracidade, assim como sua repetição não substitui a fundamentação histórica ou científica.
A democratização da comunicação exige, consequentemente, mais do que a ampliação do acesso às redes. Envolve transparência sobre os sistemas de recomendação, proteção dos dados pessoais, pluralismo informacional e fortalecimento da capacidade crítica dos cidadãos.
5. O legado olavista e a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro em 2026
A morte de Olavo de Carvalho, em janeiro de 2022, não significou o desaparecimento das redes intelectuais e políticas que se desenvolveram em torno de sua atuação. Seu legado permaneceu presente em publicações, cursos, canais digitais e grupos políticos que continuaram a mobilizar determinadas interpretações da realidade brasileira. Entretanto, a continuidade dessas ideias não deve ser confundida com sua reprodução integral por todas as lideranças bolsonaristas.
A campanha presidencial de Flávio Bolsonaro em 2026 oferece uma oportunidade para investigar a permanência e a transformação desse repertório. A hipótese central é que determinados procedimentos associados à guerra cultural olavista podem continuar operando mesmo quando seus conteúdos e sua apresentação pública são adaptados às necessidades de uma campanha eleitoral.
Essa hipótese precisa ser examinada mediante a distinção entre influência intelectual direta e continuidade de procedimentos comunicacionais. A presença de anticomunismo, críticas às instituições ou linguagem de antagonismo não demonstra, isoladamente, influência direta de Olavo. Esses elementos possuem trajetórias históricas mais amplas e podem ser apropriados por atores políticos que não compartilham integralmente suas concepções.
O debate presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro, realizado em 18 de outubro de 2026, oferece um exemplo contemporâneo. Segundo a cobertura jornalística, o encontro foi marcado por acusações pessoais e confrontos envolvendo familiares, corrupção e relações políticas, embora também tenham sido discutidas propostas de governo.
Esses acontecimentos demonstram a intensidade do antagonismo eleitoral, mas não autorizam atribuir automaticamente os procedimentos de qualquer candidato ao olavismo. A identificação de política cognitiva exige examinar a veracidade das afirmações, os enquadramentos discursivos utilizados e os interesses que podem ser favorecidos por determinadas distorções.
Um episódio anterior oferece material mais específico para a investigação das continuidades culturais. Em outubro de 2026, uma transmissão digital associada à campanha de Flávio Bolsonaro utilizou o nome do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido judicialmente como torturador durante a ditadura militar, entre suas palavras-chave. O episódio foi noticiado no contexto da disputa por audiência entre transmissões políticas.
A referência a Ustra não demonstra, por si só, influência intelectual direta de Olavo de Carvalho. Entretanto, evidencia a permanência de repertórios simbólicos associados à direita autoritária brasileira, cuja relação com o bolsonarismo antecede a campanha de 2026. Sua utilização em ambientes digitais permite investigar como referências históricas controversas podem adquirir funções de identificação política, provocação e mobilização de públicos.
A contribuição de João Cezar de Castro Rocha permite compreender a importância desses procedimentos na construção de antagonismos e na disputa pela atenção pública. A perspectiva de Guerreiro Ramos acrescenta a necessidade de investigar como determinadas representações da história e da política podem condicionar interpretações coletivas da realidade.
A continuidade do olavismo deve ser compreendida, portanto, como uma hipótese sobre a reprodução e a transformação de repertórios políticos e comunicacionais, e não como simples transmissão linear das ideias de um intelectual para um candidato. Sua demonstração exige pesquisas sobre discursos, redes de atores, conteúdos digitais e estratégias de comunicação.
A campanha de 2026 apresenta elementos que justificam esse aprofundamento, mas uma análise rigorosa precisa distinguir fatos documentados, interpretações plausíveis e relações causais ainda não demonstradas.
Considerações finais
A trajetória de Olavo de Carvalho constitui uma referência importante para compreender a reorganização intelectual e comunicacional das novas direitas brasileiras. Sua influência desenvolveu-se mediante a articulação entre produção de conteúdos, formação de seguidores, crítica às instituições culturais e construção de uma linguagem política marcada pelo anticomunismo e pela denúncia de ameaças ideológicas.
A interpretação de Alvaro Bianchi permite situar essa trajetória em um processo histórico mais amplo, evitando a personalização excessiva das explicações sobre a ascensão do bolsonarismo. João Cezar de Castro Rocha acrescenta uma dimensão fundamental ao investigar os procedimentos discursivos da guerra cultural e suas possíveis relações com processos de radicalização política.
Entretanto, a contribuição teórica central deste artigo encontra-se no conceito de política cognitiva formulado por Alberto Guerreiro Ramos. Sua análise demonstra que a utilização de linguagens distorcidas pode contribuir para orientar interpretações da realidade segundo interesses particulares, inclusive quando os agentes envolvidos não possuem plena consciência dos mecanismos que reproduzem.
A articulação entre Guerreiro Ramos, Bianchi e Castro Rocha permite compreender a guerra cultural olavista como um fenômeno que envolve simultaneamente a organização de concepções de mundo, a produção de antagonismos e a possibilidade de utilização de distorções discursivas para influenciar interpretações coletivas da realidade.
O diálogo com Edgar Morin e Serge Moscovici amplia essa interpretação ao demonstrar que as disputas políticas envolvem sistemas de ideias, representações sociais e processos coletivos de formação de crenças. As contribuições de Manuel Castells e Shoshana Zuboff permitem reconhecer que a expansão das plataformas digitais modificou as condições de circulação dos discursos políticos, criando possibilidades de participação e novas formas de concentração de poder e influência comportamental.
A campanha presidencial de Flávio Bolsonaro em 2026 apresenta elementos que justificam investigar a continuidade de determinados procedimentos associados à guerra cultural olavista. Entretanto, a demonstração de uma influência direta exige pesquisas adicionais sobre discursos, redes de atores, conteúdos digitais e estratégias de comunicação. A identificação de semelhanças não deve substituir a comprovação de relações históricas e organizacionais.
A principal conclusão deste ensaio é que a guerra cultural olavista pode ser investigada como uma modalidade de política cognitiva, no sentido formulado por Guerreiro Ramos, quando a utilização de linguagens distorcidas contribui para condicionar interpretações da realidade e favorecer determinados interesses políticos.
Essa conclusão não implica considerar toda disputa cultural como manipulação, tampouco reduzir a complexidade das novas direitas a um único modelo explicativo. A compreensão do fenômeno exige reconhecer suas dimensões históricas, culturais, cognitivas, tecnológicas e institucionais.
A atualidade de Guerreiro Ramos manifesta-se especialmente em sua defesa da autonomia humana diante da expansão da racionalidade instrumental. A crítica da política cognitiva não deve limitar-se à denúncia de distorções produzidas por adversários políticos. Precisa também reconhecer os condicionamentos que influenciam nossas próprias interpretações e fortalecer a capacidade de reflexão, autocrítica e reconhecimento do contraditório.
A defesa da democracia exige, portanto, não apenas instituições representativas e garantias jurídicas, mas também condições cognitivas, culturais e comunicacionais que permitam aos cidadãos interpretar criticamente a realidade e participar da vida pública com autonomia.
Referências
(1) RAMOS, Alberto Guerreiro. A nova ciência das organizações: uma reconceituação da riqueza das nações. Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas, 1981.
(2) ZAMBELLO, Aline Vanessa; SILVA, Ivan Henrique de Mattos e; DI CARLO, Josnei. Olavo de Carvalho e a guerra cultural das novas direitas: entrevista com Alvaro Bianchi. Em Tese, Florianópolis, v. 18, n. 2, p. 67–79, set./dez. 2021. DOI: https://doi.org/10.5007/1806-5023.2021.e83706.
(3) ROCHA, João Cezar de Castro. Guerra cultural e retórica do ódio: crônicas de um Brasil pós-político. Goiânia: Editora e Livraria Caminhos, 2021.
(4) GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999–2002. 6 v.
(5) CARVALHO, Olavo de. A nova era e a revolução cultural: Fritjof Capra & Antonio Gramsci. Rio de Janeiro: Instituto de Artes Liberais; Stella Caymmi Editora, 1994.
(6) CARVALHO, Olavo de. O imbecil coletivo: atualidades inculturais brasileiras. Rio de Janeiro: Faculdade da Cidade Editora, 1996.
(7) ROCHA, João Cezar de Castro. Bolsonarismo: da guerra cultural ao terrorismo doméstico. São Paulo: Autêntica, 2023.
(8) MORIN, Edgar. O método 3: o conhecimento do conhecimento. Porto Alegre: Sulina, 2005.
(9) MORIN, Edgar. O método 4: as ideias: habitat, vida, costumes, organização. Porto Alegre: Sulina, 2005.
(10) MOSCOVICI, Serge. Representações sociais: investigações em psicologia social. Petrópolis: Vozes, 2003.
(11) CASTELLS, Manuel. Communication Power. Oxford: Oxford University Press, 2009.
(12) CASTELLS, Manuel. Ruptura: a crise da democracia liberal. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
(13) ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.
P.S.: Usei a IA 6.1 na busca e organização das informações, e na elaboração de ilustração para o texto, que foi concebido, editado e revisado por mim.


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