Interdependência, representação e complexidade: Norbert Elias em diálogo com Moscovici e Morin
Atualizado: 13 de set.
Objetivo
Examinar a contribuição de Norbert Elias (1897–1990) para a compreensão das relações entre indivíduo, sociedade, conhecimento, poder, tempo e simbolização, identificando convergências e diferenças entre sua sociologia processual ou figuracional, a teoria das representações sociais de Serge Moscovici (1925–2014) e o paradigma da complexidade de Edgar Morin (1921–2026). O ensaio sustenta que Elias oferece uma perspectiva particularmente fecunda para compreender a constituição relacional e histórica dos indivíduos e do conhecimento, estabelecendo pontes com Moscovici e Morin sem que sejam apagadas as especificidades teóricas dos três autores. Ao final, indica-se um desdobramento da discussão em direção à obra de Alberto Guerreiro Ramos (1915–1982), que será objeto de um ensaio posterior.
Resumo
Norbert Elias desenvolveu uma sociologia processual fundada na crítica às dicotomias que separam indivíduo e sociedade, sujeito e objeto, estrutura e processo, natureza e cultura. Em suas análises das figurações sociais, das relações de poder, do tempo, do conhecimento e dos símbolos, os seres humanos aparecem como indivíduos interdependentes cuja formação somente pode ser compreendida historicamente. Este ensaio examina essa contribuição tomando como referência principalmente A sociedade dos indivíduos, Sobre o tempo, Conhecimento e poder e Teoria do símbolo, estabelecendo um diálogo com a teoria das representações sociais de Serge Moscovici e o paradigma da complexidade de Edgar Morin. Os três autores rejeitam o indivíduo isolado como unidade suficiente de explicação e questionam formas de conhecimento que separam fenômenos constitutivamente relacionados. As diferenças, entretanto, são fundamentais: Elias privilegia figurações, interdependências e processos históricos de longa duração; Moscovici investiga a produção, transformação e circulação das representações sociais; Morin formula princípios epistemológicos destinados a compreender relações recursivas, multidimensionais e complexas. Argumenta-se que Elias pode constituir uma importante ponte sociológica entre Moscovici e Morin. Nas considerações finais, a obra de Guerreiro Ramos é indicada como possibilidade de continuidade desse diálogo, especialmente por meio das noções de razão substantiva, delimitação social e política cognitiva.

Introdução
Norbert Elias é frequentemente associado sobretudo a O processo civilizador. Embora compreensível, essa identificação pode restringir a percepção da amplitude de seu projeto intelectual. Obras como A sociedade dos indivíduos, Sobre o tempo, Conhecimento e poder e Teoria do símbolo revelam um autor preocupado com questões que atravessam fronteiras convencionais entre sociologia, história, psicologia social, antropologia e teoria do conhecimento. Em diferentes momentos, Elias procura compreender como seres humanos simultaneamente produzem sociedades e são formados por processos sociais que começaram muito antes de seu nascimento.
Uma questão percorre esse conjunto de trabalhos: como compreender fenômenos humanos sem transformar em realidades separadas aquilo que existe em relação? A oposição entre indivíduo e sociedade é provavelmente o exemplo mais conhecido, mas não é o único. A crítica eliasiana alcança também as separações entre sujeito e objeto, estrutura e processo, natureza e cultura, conhecimento e linguagem. Sua resposta consiste menos na elaboração abstrata de uma teoria das relações do que na investigação de processos históricos nos quais essas relações efetivamente se constituem.
Essa perspectiva permite estabelecer um diálogo fecundo com Serge Moscovici e Edgar Morin. Moscovici enfrentou, no interior da psicologia social, o problema da articulação entre indivíduo e sociedade ao investigar a produção, circulação e transformação das representações sociais. Morin, por sua vez, colocou a fragmentação produzida pelo pensamento disjuntivo no centro de sua crítica epistemológica e propôs um paradigma capaz de distinguir sem separar e relacionar sem reduzir.
Há antecedentes para essas aproximações. Silva, Alves e Leite relacionaram a teoria figuracional de Elias à teoria das representações sociais de Moscovici, destacando figuração, interdependência, ancoragem e objetivação (1). Bastardas-Boada, por outro caminho, explorou aproximações entre a perspectiva figuracional e as ciências da complexidade, incluindo a obra de Morin (2). A articulação entre os três autores, tomando Elias como eixo principal, permanece, entretanto, muito menos explorada.
Este ensaio não pretende equiparar suas teorias nem estabelecer uma genealogia intelectual entre elas. A proposta é outra: partir da sociologia processual de Elias e observar como determinados problemas por ele enfrentados reaparecem, sob perspectivas diferentes, em Moscovici e Morin. Esse procedimento permite reconhecer convergências sem produzir equivalências artificiais. Ao final, será indicada ainda uma possível continuidade desse percurso por meio da obra de Alberto Guerreiro Ramos, cuja teoria substantiva da vida humana associada introduz questões que exigem tratamento específico e justificam um ensaio próprio.
1. Da oposição indivíduo-sociedade às relações de interdependência
Uma das contribuições fundamentais de Elias consiste em questionar a própria maneira pela qual se formulou historicamente o problema da relação entre indivíduo e sociedade. Se os dois termos são concebidos inicialmente como realidades separadas, torna-se depois necessário explicar como podem relacionar-se. Elias inverte o problema: indivíduos humanos são, desde o início, seres relacionados e interdependentes.
Em A sociedade dos indivíduos, ele rejeita tanto a concepção segundo a qual a sociedade seria apenas uma soma de indivíduos quanto aquela que a transforma numa realidade supraindividual dotada de existência própria. Aquilo que chamamos sociedade resulta de uma pluralidade de seres humanos relacionados, embora as configurações produzidas por essas relações não correspondam necessariamente às intenções de qualquer um deles isoladamente.
Essa formulação impede que o indivíduo seja tomado como unidade autossuficiente de explicação. Desde o nascimento, cada pessoa encontra relações familiares, linguagens, normas, conhecimentos, afetos e instituições que existiam antes dela. Isso não significa que sua individualidade desapareça sob uma determinação social absoluta. Ao contrário, é dentro dessas relações que se desenvolvem formas específicas de individualização.
A crítica de Elias ao homo clausus dirige-se justamente à representação de um indivíduo fechado em sua interioridade, separado de outros indivíduos e da sociedade por uma espécie de fronteira invisível. Teoria do símbolo permite perceber concretamente a insuficiência dessa imagem. A criança não inventa individualmente a linguagem pela qual se tornará capaz de pensar e comunicar-se. Ela ingressa num universo simbólico preexistente e somente mediante relações e diálogos com outras pessoas se constitui como indivíduo.
Individualização e socialização deixam, portanto, de constituir processos necessariamente antagônicos. A própria capacidade de distinguir-se como indivíduo pressupõe relações sociais, aprendizagem e comunicação. A individualidade não desaparece quando reconhecemos sua constituição social; torna-se, ao contrário, historicamente inteligível.
2. Figurações: relações sociais em movimento
O conceito de figuração permite a Elias aprofundar essa concepção relacional. Famílias, grupos profissionais, comunidades científicas, classes, cidades ou Estados não precisam ser imaginados como coisas que existem independentemente das pessoas, nem como simples agregados de ações individuais. São configurações relativamente estruturadas de seres humanos interdependentes.
A importância desse conceito está em deslocar a sociologia de entidades fixas para relações em movimento. Uma figuração possui características que não podem ser atribuídas a qualquer participante isoladamente, mas também não existiria sem os participantes e suas relações. É nesse sentido que Elias procura superar a oposição entre indivíduo e estrutura sem eliminar nenhum dos dois problemas.
Sua conhecida utilização da metáfora do jogo ajuda a compreender o argumento. Os participantes realizam movimentos próprios e possuem diferentes recursos, habilidades e possibilidades. Entretanto, à medida que seus movimentos se tornam interdependentes, o curso do jogo deixa de poder ser controlado por qualquer participante isolado. Forma-se uma configuração que resulta das ações de todos, mas não corresponde necessariamente ao projeto de nenhum deles.
A sociologia processual de Elias pode, assim, explicar um fenômeno fundamental da vida social: processos produzidos por seres humanos podem adquirir dinâmicas que nenhum ser humano planejou. Não é necessário recorrer nem a uma entidade supraindividual misteriosa nem à ideia de que tudo decorre das intenções dos agentes.
Essa concepção torna igualmente problemática a oposição rígida entre estrutura e processo. Uma figuração possui certa estrutura porque determinadas relações apresentam alguma continuidade, mas essa estrutura permanece submetida ao movimento das interdependências que a constituem. Estrutura e processo são dimensões distintas de uma realidade histórica relacional.
3. Poder como dimensão das interdependências
A mesma perspectiva modifica profundamente a concepção de poder. Em vez de tratá-lo simplesmente como substância ou propriedade possuída por determinados indivíduos, grupos ou instituições, Elias o compreende como uma dimensão das relações de interdependência.
Isso não significa negar concentrações extremamente desiguais de recursos e capacidades. Significa perguntar de que dependências essas desigualdades retiram sua eficácia. Mesmo uma relação muito assimétrica continua sendo uma relação, e sua transformação depende de mudanças nas redes de interdependência que sustentam determinado equilíbrio de poder.
Daí a importância da noção de equilíbrios móveis de poder. O poder não desaparece quando se torna relativamente estabilizado em instituições. Tampouco se limita ao Estado ou às relações explicitamente políticas. Ele atravessa relações entre grupos, gerações, classes, comunidades profissionais e produtores de conhecimento.
Conhecimento e poder evidencia a importância dessa problemática na obra de Elias ao aproximar questões relativas ao conhecimento, às mudanças nos equilíbrios de poder e à própria posição dos cientistas sociais.
A linguagem oferece outro exemplo. Em Teoria do símbolo, Elias observa que idiomas ou variedades de uma mesma língua podem ser socialmente hierarquizados de acordo com o poder e o status dos grupos que os utilizam. Ao mesmo tempo, a língua compartilhada exerce certa força sobre cada falante, pois a comunicação só permanece possível enquanto as inovações individuais não destruírem o código comum.
Temos aqui uma relação característica do pensamento eliasiano: indivíduos produzem e modificam formas sociais que, uma vez estabelecidas, passam a constituir condições para suas próprias ações. Não se trata de determinação unilateral, mas de interdependência.
4. Elias e Moscovici: a produção social do conhecimento
É nesse ponto que o diálogo com Serge Moscovici se torna particularmente fecundo. A teoria das representações sociais nasceu também da insatisfação com uma psicologia que tratasse o indivíduo como unidade cognitiva isolada e com formas de sociologia que transformassem o social numa realidade exterior aos processos de comunicação e interação.
Moscovici interessou-se pelas transformações que ocorrem quando conhecimentos, acontecimentos e objetos ingressam na vida cotidiana e passam a ser apropriados por diferentes grupos. As representações sociais não são simples cópias mentais da realidade. São formas de conhecimento produzidas e transformadas na comunicação, mediante as quais indivíduos e grupos interpretam acontecimentos, classificam experiências, atribuem sentidos e orientam práticas (3).
A proximidade com Elias torna-se especialmente clara quando Teoria do símbolo questiona a ideia de que o conhecimento esteja simplesmente localizado “dentro da cabeça” dos indivíduos. Elias observa que a própria ciência constitui um fato social e pressupõe relações entre gerações, cooperação, controvérsias e transmissão de conhecimentos.
Entretanto, a convergência não deve ocultar a diferença entre os problemas investigados. Moscovici concentra sua atenção nos processos sociocognitivos mediante os quais objetos e conhecimentos são apropriados, transformados e tornados familiares. Daí a relevância da ancoragem e da objetivação. Elias trabalha numa escala temporal mais extensa. Interessa-lhe compreender como estoques de conhecimento, linguagens e símbolos se formam ao longo de gerações e passam a constituir condições para a orientação de indivíduos que não participaram de sua elaboração inicial.
Essa diferença torna a aproximação mais interessante, e não menos. A teoria das representações sociais pode iluminar processos de produção e circulação de sentidos no interior das figurações; a perspectiva de Elias, por sua vez, recorda que essas representações se formam em redes historicamente constituídas de interdependência e dentro de patrimônios simbólicos que possuem histórias muito anteriores aos indivíduos que deles se apropriam.
5. Linguagem, símbolos e transmissão entre gerações
Teoria do símbolo amplia consideravelmente a importância de Elias para uma sociologia do conhecimento. A linguagem não aparece apenas como instrumento utilizado por indivíduos previamente constituídos. Ela participa de sua própria constituição como seres humanos capazes de comunicação, orientação e reflexão.
Cada indivíduo encontra uma língua que outros falaram antes de seu nascimento. Ao aprendê-la, apropria-se de um patrimônio simbólico produzido por gerações que não conheceu. A capacidade de transmitir conhecimentos simbolicamente permite uma acumulação histórica impossível caso cada geração precisasse reconstruir integralmente as experiências anteriores.
O conhecimento individual contém, nesse sentido, uma história social frequentemente invisível para quem o utiliza. Palavras e conceitos parecem evidentes porque são aprendidos muito cedo e empregados cotidianamente. Essa naturalização encobre o trabalho histórico de inúmeras gerações.
Elias observa que uma língua constitui uma herança de uma sucessão incalculável de gerações. Embora indivíduos possam enriquecê-la e modificá-la, sua capacidade de alteração encontra limites na necessidade social da comunicação.
Esse argumento permite aprofundar o diálogo com Moscovici. As representações sociais não surgem num vazio simbólico. Quando grupos ancoram uma novidade em categorias familiares, recorrem a linguagens, classificações, imagens e memórias socialmente disponíveis. Ao mesmo tempo, podem modificar esse patrimônio ao reinterpretá-lo. A transmissão, portanto, nunca é mera repetição. Cada geração recebe um mundo simbolicamente organizado e participa, em graus diferentes, de sua transformação.
6. Fantasia, representação e congruência com a realidade
Outro aspecto importante da contribuição de Elias encontra-se em sua recusa de uma concepção linear do progresso do conhecimento. A história humana não pode ser narrada simplesmente como substituição contínua da ignorância pela verdade. Conhecimentos podem combinar, em diferentes proporções, fantasia e maior ou menor congruência com aquilo que procuram representar.
A noção de congruência com a realidade é particularmente significativa porque permite a Elias evitar dois extremos. De um lado, rejeita uma concepção especular segundo a qual conhecer consistiria em produzir uma cópia mental perfeita do objeto. Símbolos são diferentes daquilo que simbolizam. De outro, não conclui que todas as interpretações sejam equivalentes. É possível aumentar a congruência entre conhecimentos e processos observados.
Esse argumento encontra importante interlocução em Moscovici. Representações sociais não devem ser julgadas simplesmente como versões deficientes do conhecimento científico. Desempenham funções de comunicação, interpretação e orientação e podem combinar informações, valores, imagens, afetos e elementos imaginários.
A aproximação entre Elias e Moscovici já foi explorada a partir da ideia de fantasia coletiva, utilizada por Elias e Scotson, e dos processos estudados pela teoria das representações sociais (1). A relação merece ser aprofundada porque permite compreender que fantasias compartilhadas podem adquirir eficácia social precisamente quando circulam em figurações concretas e participam das relações entre grupos.
Morin acrescenta outra dimensão a esse problema ao insistir que a possibilidade do conhecimento permanece inseparável das possibilidades de erro e ilusão (5). A racionalidade, nessa perspectiva, não pode ser identificada com uma capacidade humana infalível. Precisa permanecer aberta à revisão e ao confronto com aquilo que resiste às explicações produzidas.
Há, portanto, uma convergência importante entre os três autores. Nenhum deles aceita uma concepção ingênua do conhecimento como reprodução transparente do real; mas tampouco é necessário concluir que todas as interpretações possuem a mesma validade. A relação entre construção, representação e realidade permanece um problema aberto ao conhecimento e à crítica.
7. Elias e Morin: interdependência, processo e recursividade
A aproximação entre Elias e Morin ocorre principalmente no modo de compreender relações que tradições intelectuais modernas frequentemente transformaram em oposições.
A sociologia de Elias parte de processos concretos de interdependência. Os indivíduos constituem figurações, mas essas figurações influenciam as possibilidades de ação, percepção e formação dos próprios indivíduos. Aquilo que foi produzido nas relações humanas torna-se condição das relações posteriores, sem deixar de depender de seres humanos para continuar existindo.
Morin formula um problema semelhante em termos epistemológicos por meio do princípio da recursividade organizacional. A sociedade é produzida pelas interações entre indivíduos, mas, uma vez constituída, produz linguagens, culturas, normas e conhecimentos mediante os quais os próprios indivíduos se formam (4).
A convergência é significativa, mas deve ser delimitada. Elias não parte de um princípio geral de complexidade para interpretar a sociedade. Seu percurso é histórico-sociológico: são as investigações sobre processos civilizadores, formação dos Estados, individualização, poder, conhecimento, tempo e simbolização que o conduzem à centralidade das interdependências. Morin, ao contrário, procura formular um paradigma epistemológico capaz de atravessar diferentes domínios do conhecimento.
Por isso, seria inadequado transformar Elias retrospectivamente num teórico do paradigma da complexidade. Mais fecundo é reconhecer que sua sociologia apresenta características que podem ser compreendidas e ampliadas mediante o diálogo com Morin. Bastardas-Boada explora justamente essa possibilidade ao propor uma perspectiva complexo-figuracional, articulando contribuições de Elias às ciências da complexidade (2).
A relação entre ambos preserva, assim, a autonomia das duas obras. Elias mostra historicamente a formação e transformação de interdependências; Morin oferece recursos epistemológicos para compreender por que processos desse tipo desafiam formas lineares e disjuntivas de explicação.
8. Análise, síntese e crítica ao pensamento que separa
Há uma passagem de Teoria do símbolo que torna particularmente expressiva essa aproximação. Elias critica a tendência de tratar conhecimento, linguagem e pensamento como fenômenos independentes e observa que essa separação revela um desequilíbrio entre análise e síntese favorável à primeira.
O problema não está na análise em si. Distinguir componentes de um fenômeno é indispensável à investigação. A dificuldade surge quando a distinção metodológica se converte numa separação que faz parecer independentes processos que só podem ser compreendidos em relação.
É precisamente nesse sentido que a crítica de Morin ao pensamento simplificador dialoga com Elias. Para Morin, conhecer exige distinguir, mas também religar; analisar, mas também contextualizar. A simplificação ocorre quando a operação analítica perde de vista as relações mediante as quais as partes adquirem sentido dentro de conjuntos organizados (4).
A afinidade, portanto, é mais profunda do que uma coincidência terminológica. Ambos questionam hábitos intelectuais sedimentados que transformam em entidades separadas dimensões constitutivamente relacionadas. Elias chega a esse problema ao investigar sociedade e conhecimento em processos históricos; Morin o formula como questão paradigmática.
Moscovici ocupa posição igualmente relevante nesse diálogo. A própria constituição da psicologia social em sua obra procura impedir que fenômenos cognitivos sejam classificados antecipadamente como exclusivamente psicológicos ou exclusivamente sociológicos. As representações sociais existem justamente nesse espaço relacional: são produzidas por sujeitos sociais e, simultaneamente, oferecem repertórios simbólicos mediante os quais esses sujeitos compreendem a realidade.
Temos, portanto, não uma teoria comum aos três autores, mas três caminhos de crítica às consequências de um pensamento que transforma distinções necessárias em separações absolutas.
9. Natureza, cultura e constituição do humano
A crítica às separações reaparece em Elias quando se trata da relação entre natureza e cultura. A linguagem oferece novamente um exemplo privilegiado.
Os seres humanos possuem condições biológicas para aprender linguagens, mas nenhuma criança nasce falando uma língua específica. A capacidade biologicamente constituída só se realiza mediante relações com outros seres humanos e pela aprendizagem de sistemas simbólicos socialmente produzidos.
Teoria do símbolo procura justamente construir uma abordagem da capacidade humana de simbolização que não permaneça aprisionada em polaridades estáticas como natureza e cultura, abstrato e concreto. Elias procura compreender processos nos quais desenvolvimento biológico e desenvolvimento sociocultural precisam ser diferenciados sem serem separados.
A convergência com Morin é novamente significativa. Sua concepção do humano também questiona a fragmentação que entrega o organismo às ciências biológicas e a cultura às ciências humanas como se tratassem de realidades independentes. O ser humano é simultaneamente biológico e cultural e, justamente por isso, sua compreensão requer relações entre conhecimentos que a organização disciplinar frequentemente separa.
Elias, contudo, oferece uma contribuição própria ao mostrar que essa articulação não deve ser pensada apenas abstratamente. Ela ocorre em processos de aprendizagem, comunicação e transmissão simbólica pelos quais cada novo ser humano ingressa num mundo social já constituído.
10. Tempo, orientação e longa duração
A atenção aos processos de longa duração constitui uma das características mais marcantes da sociologia de Elias e diferencia sua contribuição das de Moscovici e Morin.
Sobre o tempo oferece talvez o exemplo mais radical. O tempo costuma parecer uma dimensão natural que simplesmente existe independentemente das sociedades. Elias não nega, evidentemente, a sucessão dos acontecimentos naturais. O que questiona é a transformação do “tempo” numa coisa ou substância separada dos processos utilizados pelos seres humanos para estabelecer relações entre sequências de acontecimentos.
Relógios e calendários exercem funções sociais de orientação, coordenação e regulação. Os indivíduos aprendem a utilizá-los desde cedo e, justamente por isso, podem experimentar o tempo como realidade exterior que exerce pressão sobre suas vidas.
Em Teoria do símbolo, o tempo aparece como um conceito de síntese de alto nível, um símbolo aprendido que permite relacionar diferentes séries de acontecimentos utilizando uma delas como referência para outra.
Esse argumento é exemplar da sociologia processual. Algo que parece natural e evidente para indivíduos contemporâneos pode resultar de uma história extremamente longa de diferenciação social, aprendizagem e produção simbólica.
Moscovici e Morin permitem dialogar com essa perspectiva, mas não a substituem. A teoria das representações sociais oferece recursos para investigar diferentes formas pelas quais grupos representam acontecimentos e temporalidades. O pensamento complexo, por sua vez, atribui importância decisiva à transformação, à emergência e à historicidade. Elias, entretanto, concentra-se especificamente na sociogênese das formas de orientação temporal, mostrando como elas se tornam parte da própria autorregulação dos indivíduos.
A longa duração não é, portanto, apenas uma preferência historiográfica. Constitui uma exigência epistemológica: sem ela, resultados de processos históricos podem ser confundidos com propriedades naturais e imutáveis da condição humana.
11. Três concepções relacionais do conhecimento
A comparação entre Elias, Moscovici e Morin permite perceber que os três recusam, cada um à sua maneira, a imagem de um sujeito isolado que produz conhecimento independentemente das relações sociais e históricas em que está inserido. Essa convergência não elimina diferenças importantes de escala teórica, objeto e procedimento intelectual.
Em Elias, o conhecimento deve ser compreendido no interior das figurações sociais. Os indivíduos aprendem linguagens, símbolos, classificações e formas de orientação que já existiam antes de seu nascimento e resultam de processos históricos de longa duração. Isso não significa que sejam simples receptores passivos. Apropriam-se desses recursos, utilizam-nos e podem modificá-los. Entretanto, essa capacidade de transformação está relacionada às redes de interdependência das quais participam. O conhecimento é simultaneamente socialmente herdado e historicamente transformável.
Moscovici desloca a atenção para um problema mais específico: como objetos, informações e conhecimentos passam a integrar o universo cotidiano de grupos sociais. Sua teoria permite observar os processos pelos quais aquilo que é inicialmente estranho, novo ou especializado pode tornar-se familiar, comunicável e incorporado à vida social. A representação não é apenas uma imagem mental de um objeto; participa da produção de sentidos, orienta práticas e organiza formas de comunicação.
Nesse aspecto, Moscovici oferece instrumentos para compreender com maior precisão processos sociocognitivos que, em Elias, aparecem inseridos numa teoria mais ampla das interdependências e da formação histórica dos estoques de conhecimento. Elias, inversamente, permite perguntar pela história das próprias categorias, linguagens e relações sociais dentro das quais as representações são produzidas.
Morin opera num plano epistemológico mais abrangente. Seu interesse não está apenas em descrever como indivíduos ou grupos produzem determinados conhecimentos, mas em questionar formas de organização do pensamento que isolam fenômenos que permanecem interligados. A crítica à fragmentação disciplinar, à redução e à simplificação leva-o a insistir na necessidade de contextualizar o conhecimento e reconhecer relações recursivas entre indivíduos, sociedade, cultura e sistemas de ideias.
É justamente nesse ponto que Elias assume uma posição especialmente interessante no diálogo. Sua sociologia figuracional mostra historicamente como indivíduos são formados em redes de interdependência e como linguagens, símbolos e patrimônios de conhecimento adquirem relativa autonomia diante de cada indivíduo particular. Moscovici aprofunda a dimensão psicossocial desses processos ao investigar a formação e circulação das representações. Morin, em outro nível, oferece princípios epistemológicos para compreender sua multidimensionalidade e recursividade.
Não se trata, contudo, de distribuir rigidamente funções entre os três, como se Elias explicasse a sociedade, Moscovici as representações e Morin a epistemologia. Suas obras ultrapassam essas fronteiras. O diálogo torna-se mais produtivo quando se reconhece que cada autor ilumina dimensões diferentes de um problema compartilhado: os seres humanos produzem conhecimentos dentro de relações sociais que os precedem, enquanto essas relações são continuamente reproduzidas e transformadas pelas práticas, interpretações e conhecimentos daqueles que delas participam.
12. Convergências sem fusão
A aproximação entre Elias, Moscovici e Morin somente se sustenta teoricamente se resistirmos à tentação de apagar as diferenças entre eles. Não se trata de encontrar equivalentes moscovicianos ou morinianos para cada conceito de Elias, nem de apresentar três vocabulários para uma mesma teoria.
A sociologia de Elias possui como núcleo a investigação de figurações, interdependências, equilíbrios de poder e processos de longa duração. Sua pergunta é histórica e sociológica: como configurações produzidas por seres humanos se desenvolvem ao longo do tempo e passam a constituir condições para a formação e a ação de outros seres humanos?
Moscovici concentra sua investigação na constituição social do conhecimento cotidiano. Seu problema envolve a transformação de conhecimentos e objetos em representações compartilhadas, as formas de comunicação pelas quais circulam e os processos sociocognitivos mediante os quais grupos tornam familiar aquilo que lhes aparece como novo ou estranho.
Morin coloca a questão em outro plano. Seu projeto procura transformar o próprio modo de organizar o conhecimento. O paradigma da complexidade não é uma sociologia das figurações nem uma psicologia social das representações, mas uma proposta epistemológica destinada a enfrentar redução, disjunção e fragmentação.
As diferenças de escala tornam possível uma complementaridade que desapareceria caso os conceitos fossem simplesmente identificados. A noção eliasiana de interdependência não é sinônimo da recursividade moriniana; figuração não equivale a representação social; congruência com a realidade não corresponde simplesmente à concepção moriniana de racionalidade aberta. São conceitos produzidos para responder a problemas distintos.
Entretanto, algo importante os aproxima: nenhum dos três se satisfaz com explicações construídas a partir de unidades isoladas. Relações, comunicações, contextos, processos e transformações fazem parte da própria constituição dos fenômenos investigados.
Talvez seja justamente por isso que Elias possa ocupar uma posição particularmente fecunda nesse diálogo. Sua sociologia oferece uma mediação entre os processos históricos de formação das relações sociais e os processos simbólicos mediante os quais os seres humanos conhecem essas relações e agem dentro delas. Moscovici permite aprofundar a dimensão representacional e comunicacional dessa experiência; Morin permite refletir sobre as exigências epistemológicas de um conhecimento capaz de não mutilar essas interdependências.
Considerações finais: de Elias a um novo diálogo com Guerreiro Ramos
A leitura articulada de A sociedade dos indivíduos, Sobre o tempo, Conhecimento e poder e Teoria do símbolo revela uma contribuição de Norbert Elias que ultrapassa consideravelmente os limites pelos quais sua obra é muitas vezes conhecida. O processo civilizador integra um projeto intelectual mais amplo: construir formas de conhecimento adequadas a uma realidade humana constituída por processos, relações e interdependências.
A crítica à separação entre indivíduo e sociedade ocupa posição central nesse projeto. Para Elias, indivíduos não existem fora das relações que participam de sua formação, mas sociedades também não existem independentemente dos indivíduos que as constituem. O conceito de figuração procura precisamente tornar inteligível essa relação sem reduzir um termo ao outro. O mesmo princípio relacional reaparece na concepção de poder, compreendido a partir de equilíbrios móveis de dependência, e na análise da linguagem, do conhecimento e dos símbolos.
Teoria do símbolo mostra com particular clareza o alcance epistemológico dessa perspectiva. Cada indivíduo ingressa num universo linguístico e cognitivo produzido por gerações anteriores. Ao apropriar-se dele, torna-se capaz de comunicar-se, orientar-se e produzir novos conhecimentos. A sociedade participa, portanto, da constituição da individualidade, enquanto indivíduos participam continuamente da reprodução e transformação dos patrimônios sociais de conhecimento.
É nesse ponto que o diálogo com Moscovici se torna especialmente produtivo. A teoria das representações sociais permite examinar com maior precisão os processos pelos quais conhecimentos são apropriados, comunicados e transformados na vida social. Elias acrescenta a essa problemática uma dimensão figuracional e histórica: representações são produzidas por indivíduos e grupos situados em redes de interdependência, utilizando linguagens e estoques de conhecimento que possuem histórias próprias.
O diálogo com Morin ocorre principalmente no plano epistemológico. A crítica eliasiana ao homo clausus, às separações entre indivíduo e sociedade e ao desequilíbrio entre análise e síntese encontra forte ressonância na crítica moriniana ao pensamento simplificador. Entretanto, a aproximação não autoriza transformar Elias em precursor do paradigma da complexidade. Elias chega às relações e interdependências por meio da investigação sociológica e histórica; Morin procura formular princípios mais gerais para uma reforma do pensamento.
Essa diferença ajuda a compreender a possível complementaridade entre os três autores. Elias oferece uma sociologia histórica das interdependências e das figurações; Moscovici aprofunda a compreensão dos processos psicossociais de produção e circulação das representações; Morin explicita as exigências epistemológicas de um pensamento capaz de distinguir fenômenos sem separá-los e relacioná-los sem reduzi-los.
A convergência mais profunda talvez esteja justamente na recusa da fragmentação. O indivíduo não pode ser compreendido sem sociedade, mas a sociedade não existe sem indivíduos. O conhecimento não pode ser separado da linguagem e da comunicação, mas não se reduz a elas. A natureza humana possui condições biológicas, mas realiza-se em processos culturais e sociais. Os conhecimentos recebidos do passado condicionam o presente, mas também podem ser transformados pelas gerações que deles se apropriam.
Nesse sentido, Elias pode funcionar como uma ponte sociológica entre Moscovici e Morin, desde que a metáfora da ponte não seja confundida com fusão teórica. Sua contribuição permite situar historicamente os processos relacionais nos quais conhecimentos e representações são produzidos e, simultaneamente, compreender como esses conhecimentos passam a participar da formação dos próprios indivíduos e das figurações sociais.
O percurso desenvolvido neste ensaio deixa, contudo, uma questão em aberto. Se indivíduos, conhecimentos e representações se constituem em figurações atravessadas por relações de poder, é possível perguntar também como determinadas formas de racionalidade e determinadas linguagens passam a delimitar aquilo que uma sociedade considera legítimo, possível ou racional. É nesse ponto que a contribuição de Alberto Guerreiro Ramos se torna particularmente relevante. Suas concepções de razão substantiva, delimitação social e política cognitiva introduzem uma dimensão crítica que merece ser examinada em seus próprios termos, sem convertê-la apenas em complemento às teorias aqui discutidas.
Essa continuidade permite também formular um problema que não poderia ser adequadamente desenvolvido nos limites deste artigo. A delimitação proposta por Guerreiro Ramos talvez possa ser relida, à luz de uma perspectiva processual, como possibilidade de reconfiguração das relações entre diferentes formas de vida associada. Recontextualizar a racionalidade instrumental significaria não suprimi-la, mas retirar-lhe a pretensão de constituir o critério universal da racionalidade humana. A contribuição de Elias poderia então permitir pensar a delimitação não como desenho estático de espaços sociais, mas como transformação histórica das interdependências e dos equilíbrios de poder que configuram mercado, Estado e outras formas de organização social.
Há ainda uma questão ontológica e epistemológica particularmente instigante para esse próximo diálogo: a relação entre o homo clausus criticado por Elias e o homem parentético formulado por Guerreiro Ramos. Elias questiona a imagem do indivíduo autossuficiente e fechado em si mesmo; Guerreiro Ramos enfatiza a capacidade humana de estabelecer distância reflexiva diante dos condicionamentos sociais e organizacionais. Em vez de oposição, talvez exista aí uma tensão produtiva. A reflexividade do homem parentético poderia ser compreendida não como independência das relações sociais, mas como capacidade, constituída dentro dessas próprias relações, de examiná-las criticamente e participar de sua transformação.
Esse será, portanto, o ponto de partida do ensaio seguinte. Guerreiro Ramos passará então para o centro da análise, em diálogo com Elias, Moscovici e Morin. A questão deixará de ser apenas como indivíduos, representações e conhecimentos se constituem nas relações sociais e passará também a incluir como essas relações podem ser criticamente delimitadas, recontextualizadas e reconfiguradas.
Mais do que reunir autores sob um mesmo rótulo, os dois ensaios poderão, assim, formar um percurso: primeiro, compreender com Elias a constituição histórica das interdependências e aproximá-la das representações sociais e da complexidade; depois, perguntar, com Guerreiro Ramos no centro, pelas possibilidades de reflexão crítica e transformação dessas próprias configurações.
Referências
(1) SILVA, Cleberson de Deus; ALVES, Edson Pantaleão; LEITE, Lucas Souza. Teoria figuracional e a teoria das representações sociais: aproximações e diálogos com Norbert Elias e Serge Moscovici. Perspectivas em Diálogo: Revista de Educação e Sociedade, v. 8, n. 17, p. 38-55, 2021.
(2) BASTARDAS-BOADA, Albert. Towards a complex-figurational socio-linguistics: some contributions from physics, ecology and the sciences of complexity. History of the Human Sciences, v. 27, n. 3, p. 55-75, 2014.
(3) MOSCOVICI, Serge. A representação social da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
(4) MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina, 2005.
(5) MORIN, Edgar. O método 3: o conhecimento do conhecimento. Porto Alegre: Sulina, 1999.
(6) MORIN, Edgar. O método 4: as ideias: habitat, vida, costumes, organização. Porto Alegre: Sulina, 1998.
(7) ELIAS, Norbert. La sociedad de los individuos. Barcelona: Ediciones Península, 1990.
(8) ELIAS, Norbert. Sobre el tiempo. México: Fondo de Cultura Económica, 1989.
(9) ELIAS, Norbert. Teoría del símbolo: un ensayo de antropología cultural. Barcelona: Ediciones Península, 1994.
(10) ELIAS, Norbert. Conocimiento y poder. Madrid: Ediciones de La Piqueta, 1994.
(11) ELIAS, Norbert; SCOTSON, John L. Os estabelecidos e os outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
P.S.: Usei a IA GPT 5-6 Sol na busca e organização das informações, e na elaboração da ilustração para o texto, que foi concebido, editado e revisado por mim.


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