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Memória, pseudociência e cartesianismo: por que certas perguntas continuam interditadas?

Chamar uma ideia de “pseudociência” ou de “misticismo” nem sempre é um gesto de esclarecimento. Em muitos casos, é também um gesto de poder intelectual: uma maneira de fechar o debate antes de discutir, com o devido cuidado, quais são os critérios que definem o que conta como ciência legítima e quais são os pressupostos históricos que sustentam tais critérios. Quando o tema é memória, cérebro, inconsciente coletivo, sincronicidade ou campos mórficos, esse fechamento costuma ser ainda mais rápido, como se certas perguntas já viessem marcadas de antemão como indevidas.

O problema não está em defender rigor. O problema começa quando o rigor é confundido com um único modelo de racionalidade, herdeiro do dualismo cartesiano, da quantificação isolada e de uma concepção de natureza como mecanismo sem interioridade, sem historicidade e sem participação do observador. Nesse ponto, a acusação de pseudociência pode deixar de ser um instrumento crítico e passar a funcionar como dogma cultural.


A longa sombra de Descartes


René Descartes ocupa um lugar decisivo nessa história. Seu método ajudou a consolidar uma visão segundo a qual compreender algo cientificamente exige decompô-lo em partes, isolá-lo de seu contexto, representá-lo de maneira clara e distinta e, sempre que possível, traduzi-lo em linguagem matemática. O curioso é que o próprio Descartes atribuiu importância fundadora a três sonhos de 1619, nos quais teria intuído a possibilidade de unificar o saber; depois, porém, o racionalismo moderno tratou de marginalizar justamente esse solo imaginativo e simbólico da invenção científica.

Essa contradição é reveladora. A ciência moderna nasce também de metáforas, visões, intuições e reorganizações simbólicas do mundo, mas tende a legitimar-se como se estivesse purificada de tudo isso. Theodore Roszak criticou duramente esse movimento, vendo nele um empobrecimento da experiência e uma cisão entre mente, natureza e imaginação. A pretensão de objetividade pura teria custado caro: ao expulsar o sonho, o símbolo e a interioridade da produção do saber, a modernidade científica também estreitou a própria ideia de realidade.


O dado nunca vem sozinho


Um dos efeitos mais duradouros desse legado é a crença de que um dado só se torna verdadeiramente científico quando é mensurável, replicável e isolável de seu contexto. Esse critério tem força e utilidade evidentes, mas não é neutro nem universal. Edgar Morin observa que nenhum conhecimento escapa aos princípios organizadores que o tornam possível: todo dado já chega interpretado por um paradigma, por escolhas metodológicas, por metáforas orientadoras e por recortes do que pode ou não aparecer como relevante.

Isso significa que não existe dado “bruto” no sentido forte do termo. O que existe são dados produzidos em dispositivos de observação e interpretação. Medir não elimina o problema do sentido; apenas o desloca. Quando uma área do cérebro “acende” em um exame, quando um pombo volta para casa, quando um sonho reapresenta um símbolo ancestral, o que conta como explicação aceitável depende tanto do regime de prova adotado quanto da teoria implícita do que seja mente, matéria, causalidade e realidade.


O mainstream também pensa por metáforas


Há um equívoco recorrente em muitos debates contemporâneos: imaginar que a ciência dominante fala de forma literal, enquanto autores heterodoxos falariam de forma metafórica. Isso simplesmente não é verdade. A neurociência fala em “armazenamento” de memória, “traços”, “circuitos”, “códigos” e “redes”. A etologia fala em “mapa olfativo”, “bússola solar”, “paisagem acústica” e “rota”.

Essas metáforas não são detalhes de linguagem. Elas estruturam o visível, organizam o experimento e sugerem o tipo de causalidade que se espera encontrar. Dizer que um pombo usa um “mapa” não significa que ele carregue um atlas mental no sentido literal; significa que o pesquisador escolheu uma imagem cognitiva e espacial capaz de ordenar certos dados observáveis. O mesmo vale para “campos”, “arquétipos”, “inconsciente coletivo” e “ressonância”: o que muda não é a presença da metáfora, mas o tipo de empiria e de ontologia que se tenta sustentar por meio dela.


Jung e a realidade do símbolo


Jung é frequentemente tratado como figura “mística”, como se seu trabalho se resumisse a alegorias vagas e especulações espirituais. Essa leitura ignora o fato de que sua psicologia profunda se constrói sobre observação clínica, comparação de sonhos, análise de mitos e estudo rigoroso de recorrências simbólicas em diferentes culturas. O conceito de inconsciente coletivo não pretende nomear uma “substância mágica”, mas uma regularidade transindividual da psique, visível no reaparecimento de temas e formas que não se explicam apenas pela experiência individual imediata.


Jung não buscava uma verdade metafísica final. Buscava descrever o que aparece na experiência psíquica humana quando essa experiência é observada em profundidade. Seus arquétipos não são coisas prontas, localizáveis como objetos físicos, mas formas estruturantes que se manifestam em símbolos, narrativas e imagens recorrentes. Dizer que isso não é “científico” apenas porque não cabe no laboratório clássico é mais um sintoma da estreiteza do critério do que uma refutação efetiva do problema.


Sincronicidade e a crise da causalidade linear


Esse ponto se torna ainda mais interessante quando Jung se aproxima de Wolfgang Pauli para pensar a sincronicidade. A parceria entre ambos mostra que Jung não queria fugir da ciência, mas dialogar com a crise interna da própria ciência moderna. Se a causalidade linear era insuficiente para explicar certos fenômenos psíquicos significativos, e se a física do século 20 já havia abalado a segurança clássica com a relatividade, a indeterminação e correlações não locais, então o problema não podia mais ser resolvido simplesmente pela repetição do vocabulário mecanicista.

Seria exagerado dizer que sincronicidade “é física quântica”. Mas seria igualmente superficial negar a relevância do diálogo Jung–Pauli. O que ali aparece é a busca por uma linguagem capaz de pensar conexões significativas entre psiquismo e mundo sem reduzi-las a superstição nem a causalidade mecânica vulgar.


Sheldrake e a pergunta que incomoda


Rupert Sheldrake provoca reação ainda mais forte porque ultrapassa o plano fenomenológico e propõe uma hipótese ontológica abrangente: a natureza teria memória, transmitida por campos mórficos e ressonância mórfica. Seu gesto é ousado porque desafia a imagem de uma natureza regida apenas por leis fixas e atemporais. Em vez disso, sugere que hábitos se consolidam na natureza e condicionam formas, comportamentos e lembranças futuras.


É intelectualmente desonesto dizer que Sheldrake nada fez além de especular. Há experimentos, testes, documentação, controvérsias metodológicas e uma trajetória consistente de tentativa de produzir evidências em torno de hipóteses anômalas. A crítica séria a Sheldrake não é que ele não tenha dados, mas que os dados disponíveis ainda não sustentam, para a maioria dos cientistas, a escala ontológica de sua teoria. Esse é um debate legítimo. O que se torna problemático é transformar essa insuficiência controvertida em caricatura moral ou intelectual, como se qualquer desvio da ontologia dominante fosse, por definição, obscurantista.


O caso dos pombos e a pluralidade das explicações


A navegação dos pombos-correio oferece um bom exemplo. A etologia contemporânea propõe explicações robustas com base em olfato, magnetorrecepção, posição do sol, memória espacial, marcos visuais e até infrassom. Essas hipóteses são fecundas e merecem reconhecimento. Mas elas também mostram que a ciência trabalha por composição de modelos parciais, e não por uma transparência imediata do real.

Quando se diz que o pombo usa um “mapa” ou uma “bússola”, recorre-se a metáforas sofisticadas para ordenar mecanismos ainda complexos e parcialmente obscuros. A hipótese de Sheldrake, por sua vez, parece excessiva para o padrão de evidência hoje disponível, mas toca numa questão real: será que fenômenos vivos podem ser integralmente compreendidos apenas pela soma de mecanismos locais? A pergunta continua válida mesmo quando a resposta sheldrakeana não convence plenamente.


Memória: cérebro, símbolo e transindividualidade

Na neurociência atual, a memória já não é pensada como algo guardado em uma única “gaveta” cerebral. Fala-se em redes distribuídas envolvendo hipocampo, córtex, amígdala e outros sistemas, com diferentes modalidades de memória e diferentes circuitos de consolidação e evocação. Isso representa uma sofisticação importante em relação a localizações simplistas. Ainda assim, permanece uma tendência forte de reduzir a memória à sua infraestrutura neurobiológica, como se o fenômeno do lembrar pudesse ser esgotado por seus correlatos materiais.

É exatamente aqui que Jung e Sheldrake voltam a incomodar. Em registros distintos, ambos sustentam que existe algo na memória que ultrapassa o indivíduo isolado. Em Jung, isso aparece como inconsciente coletivo e arquétipos; em Sheldrake, como campos mórficos e hábitos da natureza. Nenhum dos dois elimina o cérebro. O que ambos recusam é a equivalência entre cérebro e totalidade da memória.


Pseudociência ou fechamento paradigmático?


Nem toda acusação de pseudociência é injusta. Há charlatanismo real, exageros e propostas imunes à crítica que merecem ser recusadas. Mas também há usos estratégicos dessa acusação para preservar fronteiras disciplinares, hierarquias institucionais e critérios de legitimidade que se apresentam como puramente racionais, embora estejam ligados a histórias filosóficas e interesses materiais muito concretos.


No século 21, a ciência não existe num vazio social. Ela se articula com plataformas tecnológicas, mercados, indústrias, financiamentos, prestígio institucional e regimes de utilidade. Nesse cenário, o que se traduz melhor em mensuração, aplicação e mercado tende a circular com mais força. Isso não falsifica automaticamente o mainstream, mas exige que suas acusações de neutralidade e universalidade sejam examinadas com mais cautela.


Entre o mecanismo e o sentido


Talvez o erro mais persistente do debate contemporâneo seja imaginar que existe apenas uma escolha: ou aderir ao reducionismo neurobiológico, ou cair em misticismo. A epistemologia da complexidade sugere outra via. Não se trata de abolir o rigor, mas de ampliá-lo, reconhecendo que fenômenos como memória, consciência, símbolo, orientação animal e experiência humana pedem articulação entre níveis distintos de realidade e de inteligibilidade.


A neurociência ilumina mecanismos indispensáveis. Jung ilumina a dimensão simbólica e transindividual da psique. Sheldrake, mesmo controverso, força a ciência a enfrentar a historicidade da natureza e os limites de sua ontologia corrente. O ponto não é declarar um vencedor. O ponto é manter abertas perguntas que a pressa classificatória do presente prefere encerrar cedo demais.


Uma questão que permanece

Talvez a pergunta mais decisiva não seja se Jung ou Sheldrake estão “certos” em sentido absoluto. Talvez seja outra: por que certas formas de pergunta sobre memória, psique, natureza e sentido despertam reações tão rápidas de desqualificação? Se a ciência quiser preservar sua força crítica, ela terá de continuar separando hipótese frágil de hipótese robusta, mas também terá de aprender a distinguir crítica racional de fechamento paradigmático. Sem isso, corre o risco de chamar de esclarecimento aquilo que, no fundo, é apenas defesa de uma narrativa dominante sobre o que pode ou não pode existir.

 
 
 

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