Morin, Bachelard e a complexidade da condição humana: epistemologia, antropologia existencial e crítica literária
- Sérgio Luís Boeira
- 3 de jul.
- 9 min de leitura
Resumo: Este ensaio propõe uma leitura articulada de Gaston Bachelard e Edgar Morin a partir de quatro textos de apoio (Oliveira, 2007; Monteiro Neto, 2022; Silva, 2023; Lima, 2023), centrados na relação entre ambos e no paradigma da complexidade. Sustenta-se que a aproximação entre os dois autores permite deslocar a epistemologia de um terreno estritamente metodológico para uma reflexão mais ampla sobre a condição humana. A crítica bachelardiana às doutrinas de natureza simples e absolutas, bem como a crítica moriniana ao paradigma da simplificação, convergem na defesa de um pensamento capaz de religar sujeito e objeto, parte e todo, ordem e desordem, ciência e vida. Com base nisso, argumenta-se que as contribuições de Bachelard e Morin também oferecem um horizonte fecundo para a crítica literária, sobretudo quando se trata de justificar a permanência de grandes obras que condensam dilemas antropológico-existenciais decisivos. Nessa perspectiva, obras como Dom Quixote, Hamlet e Crime e Castigo podem ser compreendidas como formas privilegiadas de conhecimento do humano, precisamente porque resistem à classificação simples e dão expressão estética a conflitos morais, psíquicos, históricos e existenciais de alta complexidade.
Palavras-chave
Edgar Morin; Gaston Bachelard; epistemologia; complexidade; condição humana; crítica literária.

Introdução
A interlocução entre Gaston Bachelard e Edgar Morin permite reabrir uma questão central do pensamento contemporâneo: de que modo conhecer sem mutilar o real. Mais do que simples autores de referência para a filosofia da ciência, ambos figuram como pensadores de uma crise mais ampla do conhecimento, na qual entram em colapso as pretensões de transparência, linearidade e suficiência do paradigma clássico. Em registros diferentes, mas convergentes, Bachelard e Morin recusam a ideia de que o real possa ser legitimamente apreendido por meio de um pensamento simplificador, isto é, por uma inteligência que separa o que está ligado, reduz o múltiplo ao elementar e trata a incerteza como defeito provisório de um saber ainda incompleto.
Essa convergência é especialmente relevante porque autoriza um alargamento da própria noção de epistemologia. Já não se trata apenas de discutir critérios internos de validação do conhecimento científico, mas de interrogar o próprio sujeito do conhecimento, sua inserção no mundo, seus limites, suas ilusões e sua condição histórica. Em outras palavras, a epistemologia passa a tocar necessariamente problemas antropológicos, éticos e existenciais. É nesse ponto que a aproximação entre Bachelard e Morin se torna particularmente fecunda: ao criticar a simplificação do conhecimento, ambos abrem caminho para uma inteligência mais rigorosa da complexidade humana.
O objetivo deste ensaio é desenvolver essa hipótese em três movimentos. Primeiro, reconstituir o núcleo epistemológico da aproximação entre Bachelard e Morin, destacando sua crítica comum à simplificação e sua defesa de um conhecimento complexo. Em seguida, mostrar como essa crítica epistemológica desemboca em questões antropológico-existenciais, isto é, numa concepção do humano como realidade contraditória, relacional e inacabada. Por fim, sustentar que tal horizonte fornece também um critério robusto para a crítica literária e para a seleção das grandes obras da condição humana, como Dom Quixote, Hamlet e Crime e Castigo, obras que permanecem vivas precisamente porque exprimem, de forma estética e simbólica, o que há de mais denso, ambíguo e problemático na experiência humana.
Epistemologia e crítica da simplificação
O ponto de partida comum entre Bachelard e Morin está na recusa de uma inteligência satisfeita com a simplificação. No caso de Bachelard, essa recusa aparece na crítica às doutrinas de natureza simples e absolutas e na defesa de um espírito científico que se constrói contra a adesão imediata às aparências. O conhecimento, nessa perspectiva, não avança por continuidade com o senso comum, mas por rupturas, retificações e superações de obstáculos epistemológicos. Conhecer é desfazer evidências enganosas, vigiar as facilidades da razão e reconstruir criticamente o objeto.
Morin, por sua vez, retoma e desloca esse gesto crítico ao afirmar que a ciência moderna, apesar de sua extraordinária eficácia, foi organizada por um “paradigma da simplificação”, caracterizado pela fragmentação dos saberes, pela separação entre sujeito e objeto, pela redução do complexo ao simples e pela exclusão da desordem, da incerteza e da contradição. O paradigma da complexidade, em resposta, sustenta que o real só pode ser compreendido a partir de estruturas multidimensionais que se ligam e religam em uma totalidade todo-parte-todo, sem excluir o sujeito cognoscente do próprio processo de conhecimento. Não se trata de abolir a análise, mas de impedir que ela se converta em mutilação; não se trata de negar a ordem, mas de compreendê-la em relação dialógica com a desordem, as interações e a organização.
Essa inflexão tem enorme alcance filosófico. A epistemologia deixa de ser pensada como teoria abstrata de um sujeito soberano diante de um objeto passivo e passa a exigir uma abordagem em que conhecimento, humanidade e mundo sejam eixos inseparáveis. O trabalho de Benedito Monteiro Neto, ao examinar a passagem da epistemologia moderna à epistemologia complexa de Morin, mostra que o pensamento complexo se apresenta justamente como crítica às limitações do método moderno e como tentativa de reconstruir uma imagem menos mutiladora do conhecimento e do humanismo. Nesse sentido, a aproximação entre Morin e Bachelard não é um mero exercício comparativo, mas a identificação de uma mesma exigência: a reforma do pensamento contra seus automatismos simplificadores.
Da epistemologia à condição humana
Uma vez deslocada a epistemologia de seu enquadramento estritamente formal, emerge uma consequência decisiva: toda teoria do conhecimento carrega, de modo explícito ou implícito, uma certa teoria do humano. Em Morin, essa consequência é frontalmente assumida. O conhecimento não pode ser reduzido à informação, à descrição ou à teoria isolada, pois comporta diversidade e multiplicidade; além disso, o sujeito que conhece está em estreita comunicação com o objeto conhecido, em níveis físicos, biológicos, cerebrais, mentais, psicológicos, culturais e sociais. O homem não aparece, então, como instância exterior ao real, mas como ser inscrito na trama mesma do que busca conhecer.
Disso decorre uma visão antropológica profundamente antirreducionista. O humano não pode ser explicado adequadamente nem por um racionalismo abstrato nem por uma naturalização simplificadora, pois sua existência é atravessada por interdependências, incertezas, conflitos, emergências e contradições. A contribuição de Morin para o humanismo, tal como apresentada na dissertação de Monteiro Neto (2022), consiste justamente em propor uma regeneração do humanismo, em oposição à racionalização absoluta do mundo produzida por certos desdobramentos da modernidade. Em vez de um homem reduzido à função calculadora ou à posição de senhor externo da realidade, tem-se um ser vulnerável, reflexivo, situado, recursivo e inseparável de seu meio.
Bachelard, por outro lado, embora não desenvolva o mesmo vocabulário antropológico de Morin, também contribui para essa desestabilização do sujeito simplificado. Ao insistir na necessidade de vigilância epistemológica e na crítica às adesões imediatas do espírito, ele desautoriza a imagem de uma consciência transparente a si mesma. O sujeito do conhecimento não é origem pura da verdade, mas instância que precisa combater suas próprias ilusões, hábitos e facilidades. Assim, por vias distintas, ambos os autores conduzem a epistemologia para uma interrogação antropológico-existencial: conhecer passa a implicar uma certa experiência de limite, de incompletude e de complexidade do próprio sujeito.
É precisamente nesse plano que o problema da condição humana se impõe. Se a vida humana é atravessada por paradoxos — autonomia e dependência, razão e desmedida, ordem e caos, lucidez e cegueira — então não basta uma teoria do conhecimento fundada em separações rígidas. É preciso uma inteligência capaz de pensar o humano em sua contradição constitutiva, em sua vulnerabilidade histórica e em seu caráter dramaticamente inacabado. A epistemologia da complexidade, nesse sentido, não é apenas uma reforma das ciências, mas também uma via de acesso a uma compreensão mais densa da existência humana.
Complexidade e crítica literária
É nesse ponto que a literatura entra em cena não como adorno da reflexão, mas como campo privilegiado de inteligibilidade do humano. Se a condição humana excede os modelos simplificadores, então a literatura de alta potência estética e antropológica torna-se um espaço no qual essa complexidade se manifesta com singular intensidade. A contribuição de Morin e Bachelard para a crítica literária não consiste em oferecer um método fechado de interpretação de textos, mas em fornecer um horizonte de leitura capaz de reconhecer, valorizar e justificar obras que preservam a densidade contraditória da experiência.
Sob esse prisma, a grande obra literária é aquela que não reduz o humano a um esquema moral elementar, não estabiliza artificialmente seus conflitos e não elimina o paradoxo em nome de uma transparência ideológica ou psicológica. Ao contrário, ela sustenta ambiguidades, revela antagonismos, mostra as ligações entre interioridade e mundo, entre singularidade e história, entre imaginação e realidade, entre culpa e redenção. Em linguagem próxima à de Morin, pode-se dizer que a grande literatura é aquela que faz aparecer, em forma sensível, a unidade complexa do humano.
Essa perspectiva fornece também um critério seletivo para a tradição. Certas obras permanecem não apenas por seu acabamento formal, mas porque são capazes de expressar de modo inesgotável os grandes dilemas da existência. Leitores e críticos seguem reconhecendo em Dom Quixote (Miller, 2026) uma exploração duradoura da ilusão, da dignidade, da fragilidade e das tensões entre imaginação e realidade, além de sua relevância persistente para pensar a condição humana. Em Hamlet (Haque, 2026), a centralidade da peça se prende à maneira como Shakespeare dramatiza a dúvida, a hesitação, a mortalidade, a corrupção do mundo e a crise do agir, fazendo da tragédia uma meditação sobre a consciência e seus impasses. Já em Crime e Castigo (Souza: Viana, 2024), a permanência do romance de Dostoiévski decorre da intensidade com que ele encena orgulho, culpa, sofrimento, racionalização, violência e possibilidade de redenção, oferecendo um retrato extremo e profundamente complexo da interioridade humana.
Vistas a partir do horizonte Morin-Bachelard, essas obras não são apenas clássicos consagrados; são laboratórios da complexidade humana. Elas sobrevivem porque recusam classificações tranquilizadoras e porque fazem ver, em sua tessitura formal e dramática, aquilo que a epistemologia complexa conceitua: a insuficiência das explicações lineares, a inseparabilidade entre parte e todo, a convivência de elementos antagônicos no mesmo ser, a resistência do humano a toda redução definitiva. A crítica literária inspirada por esse horizonte não perguntará somente a que gênero uma obra pertence ou que escola ela representa, mas sobretudo que espessura de humanidade ela consegue tornar pensável e sensível.
Grandes obras da condição humana
A seleção de grandes obras da tradição não decorre, nesse quadro, de um cânone arbitrário nem de uma veneração puramente escolar. Ela pode ser justificada pela capacidade de certos textos de condensar, em forma esteticamente poderosa, os conflitos essenciais da vida humana. Dom Quixote dramatiza o atrito entre sonho e mundo, ideal e fracasso, comicidade e tragédia; sua força reside em mostrar que a dignidade humana pode coexistir com o desajuste, o engano e a ilusão. Hamlet põe em cena o escândalo da consciência reflexiva diante da ação, da morte e da corrupção, convertendo a hesitação em uma questão ontológica e moral. Crime e Castigo, por fim, encena a ruína das justificações abstratas quando confrontadas com a consciência culpada e com o sofrimento, mostrando que a vida moral e existencial do homem excede qualquer sistema racional simplificador.
Nada impede que esse conjunto se amplie: a mesma abordagem de leitura permitiria incluir Sófocles, Dante, Cervantes, Shakespeare, Dostoiévski, Kafka, Machado de Assis, Melville, Faulkner, Clarice Lispector, Virginia Woolf, Gabriel García Márquez ou Guimarães Rosa, desde que o critério permaneça o mesmo. Não se trata de selecionar obras por mera fama, mas por sua capacidade de pensar artisticamente o que há de mais profundo, contraditório e irredutível na aventura humana. A literatura altamente discutível, difícil de classificar e resistente à redução crítica simplificadora, longe de ser um problema secundário, torna-se então um dos lugares mais altos da inteligência do humano.
Conclusão
A leitura articulada de Bachelard e Morin permite compreender que a crítica ao paradigma da simplificação não diz respeito apenas à metodologia científica, mas à própria forma como o humano se pensa e se representa. Ao questionarem as doutrinas da simplificação, a separação rígida entre sujeito e objeto e a redução do real a esquemas unidimensionais, ambos os autores abrem caminho para uma epistemologia alargada, capaz de reencontrar na própria condição humana seu problema mais decisivo. A complexidade do conhecimento conduz, assim, à complexidade da existência.
É por isso que a literatura, longe de aparecer como domínio secundário, assume um lugar central nessa reflexão. As grandes obras da condição humana persistem porque conseguem exprimir, em formas singulares, aquilo que nenhuma teoria esgota: a contradição, a culpa, a esperança, a ilusão, a dignidade, a hesitação, a violência, a redenção, o sofrimento e a abertura do sentido. Nesse horizonte, Morin e Bachelard não apenas reformulam a epistemologia: oferecem também um referencial de alta exigência para a crítica literária, isto é, um modo de reconhecer nas obras maiores não a ilustração de conceitos, mas uma forma superior de conhecimento da experiência humana.
P.S.: Usei IA Perplexity Pro no levantamento de informações e Adapta One na elaboração da imagem que ilustra esse artigo, tendo revisado a versão final, sobre a qual assumo inteira responsabilidade.
Referências
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