top of page

Bolsonarismo: guerra cultural, política cognitiva e poder

há 3 horas
17 min de leitura

Atualizado: há 13 minutos

Objetivo

Examinar a formação histórica do bolsonarismo e sua experiência governamental entre 2019 e 2022, considerando suas relações com a crise da representação política, as tradições autoritárias brasileiras, a guerra cultural, a política cognitiva e as transformações institucionais e administrativas do Estado. Busca-se articular contribuições da história, da sociologia, da ciência política e da administração pública, distinguindo processos históricos documentados, interpretações teóricas e resultados de pesquisas empíricas.


Resumo

O ensaio investiga o governo Jair Bolsonaro (2019–2022) como parte de uma trajetória política mais ampla, reconstruída desde a década de 1980 até 2026. A análise articula seis obras acadêmicas e três artigos dedicados à genealogia do bolsonarismo, às relações entre integralismo, fascismo e bolsonarismo e à guerra cultural como objeto de investigação da política cognitiva. Marcos Nobre contribui para a compreensão da crise de representação e dos limites do sistema político brasileiro. João Cezar de Castro Rocha examina a influência de Olavo de Carvalho, a guerra cultural e a retórica do ódio. Diego Aguiar e Tarso Cabral Violin apresentam interpretações que relacionam o bolsonarismo às tradições fascistas e autoritárias, enquanto os estudos organizados por Leonardo Avritzer, Fábio Kerche e Marjorie Marona, bem como por Carlos Aurélio Pimenta de Faria e Luciana Leite Lima, investigam as relações institucionais e as mudanças nas políticas públicas. O conceito de política cognitiva, de Alberto Guerreiro Ramos, é colocado em diálogo com as contribuições de Serge Moscovici e Edgar Morin para examinar as relações entre linguagem, sistemas de ideias, representações sociais e poder. O ensaio distingue a formação do movimento, o exercício do governo e sua continuidade posterior, identificando questões que permanecem abertas à investigação interdisciplinar.


Palavras-chave: Bolsonarismo; governo Bolsonaro; democracia brasileira; política cognitiva; guerra cultural; políticas públicas; complexidade.



Introdução


A compreensão histórica e política do governo Jair Bolsonaro exige distinguir a trajetória individual de uma liderança, a formação de um movimento político e a experiência de exercício do poder Executivo federal. Embora esses processos estejam relacionados, possuem temporalidades, organizações e mecanismos próprios. A trajetória parlamentar de Bolsonaro antecedeu em várias décadas sua eleição presidencial, enquanto as redes políticas associadas ao bolsonarismo continuaram atuando depois do encerramento do mandato, em dezembro de 2022.


Essa distinção orienta o artigo Genealogia do bolsonarismo: do capitão rebelde ao movimento político nacional (1986–2026) (7), que amplia o horizonte temporal da investigação. A proposta genealógica permite reconstruir acontecimentos, identificar continuidades e transformações e evitar que a eleição de 2018 seja tratada como origem absoluta do movimento. Ao mesmo tempo, impede que características observadas no bolsonarismo contemporâneo sejam automaticamente projetadas sobre toda a trajetória anterior de Bolsonaro.


A análise histórica precisa considerar também as condições institucionais e sociais nas quais esse movimento se desenvolveu. O processo de redemocratização, a Constituição de 1988, a organização do presidencialismo de coalizão, as transformações partidárias e a crise de representação intensificada a partir de 2013 constituem elementos relevantes. A contribuição de Marcos Nobre (4) situa-se precisamente nessa dimensão, ao investigar as relações entre o funcionamento do sistema político e os limites históricos da democracia brasileira.


Entretanto, as instituições não explicam isoladamente os processos de formação de identidades políticas. O artigo Olavo de Carvalho e a guerra cultural: política cognitiva da extrema direita no Brasil (8) propõe incorporar o conceito de política cognitiva de Alberto Guerreiro Ramos, articulando-o às análises de João Cezar de Castro Rocha (2), Serge Moscovici e Edgar Morin. Essa perspectiva desloca parte da investigação para os sistemas de ideias, as representações sociais, os discursos e os mecanismos de circulação de informações.


A terceira contribuição complementar, desenvolvida em Integralismo, fascismo e bolsonarismo: convergências, diferenças e relações entre economia, ideologia e poder (9), consiste em estabelecer critérios históricos para a comparação entre experiências políticas de épocas distintas. O diálogo com Diego Aguiar (1) e Tarso Cabral Violin (3) permite examinar interpretações acadêmicas sobre fascismo, conservadorismo, neoliberalismo e bolsonarismo, sem pressupor equivalência entre essas categorias.


Finalmente, as coletâneas organizadas por Avritzer, Kerche e Marona (6) e por Faria e Lima (5) permitem examinar a passagem da mobilização política ao exercício do governo. Enquanto a primeira reúne estudos sobre relações institucionais e conflitos políticos, a segunda investiga mecanismos de transformação das políticas públicas, incluindo mudanças administrativas, capacidades burocráticas e respostas organizacionais.


O problema central deste ensaio consiste, portanto, em compreender como processos históricos, sistemas de ideias, representações sociais e estruturas institucionais interagiram na formação do bolsonarismo e durante o governo federal de 2019 a 2022. A análise estende-se aos acontecimentos posteriores para distinguir a experiência governamental da continuidade do movimento político.


1. Antecedentes históricos: autoritarismo, integralismo e redemocratização


A história política brasileira apresenta diferentes experiências de organização autoritária do poder, entre as quais se destacam o integralismo da década de 1930, o Estado Novo e o regime militar iniciado em 1964. Esses fenômenos desenvolveram-se em conjunturas distintas, com organizações, bases sociais e orientações econômicas específicas. Sua utilização como referências para compreender o bolsonarismo exige, portanto, explicitar os critérios de comparação.


O artigo sobre integralismo, fascismo e bolsonarismo (9) recupera estudos históricos sobre os movimentos fascistas europeus e suas manifestações brasileiras, destacando as relações entre nacionalismo, anticomunismo, organização política, economia e poder. A comparação não depende apenas da identificação de semelhanças discursivas, mas também do exame das estruturas organizacionais e das condições históricas em que cada movimento surgiu.


Essa preocupação metodológica é importante para o diálogo com Diego Aguiar (1), que investiga aproximações entre o bolsonarismo e características atribuídas ao fascismo. Seu livro dedica capítulos ao culto à ditadura militar de 1964, às realidades alternativas, ao anticientificismo, à identificação grupal e à divisão entre grupos políticos.


O regime militar de 1964–1985 constitui uma referência histórica específica para o estudo do bolsonarismo. As disputas sobre a memória da ditadura, a interpretação da segurança nacional e o papel das Forças Armadas aparecem tanto na análise de Aguiar quanto na de João Cezar de Castro Rocha (2), que dedica parte de seu livro às relações entre guerra cultural, Doutrina de Segurança Nacional e o projeto ORVIL.


É necessário, entretanto, distinguir continuidade institucional, influência intelectual e apropriação simbólica do passado. A presença de referências à ditadura militar em discursos contemporâneos não significa que as estruturas políticas posteriores sejam idênticas às do regime de 1964. A Constituição de 1988 estabeleceu um sistema multipartidário, eleições periódicas, separação de poderes e mecanismos de proteção de direitos fundamentais que configuram um contexto institucional diferente.


A investigação histórica do bolsonarismo deve considerar simultaneamente essas diferenças e as disputas sobre a memória do autoritarismo. O problema não se resolve pela simples identificação ou rejeição de analogias, mas pela análise das características efetivamente compartilhadas e das transformações ocorridas entre os períodos.


2. Genealogia do bolsonarismo: trajetória militar, carreira parlamentar e movimento nacional


O artigo genealógico (7) propõe acompanhar a trajetória de Jair Bolsonaro desde sua projeção pública como capitão do Exército, em 1986, até a formação de um movimento político nacional e sua continuidade depois do governo. Essa periodização permite distinguir acontecimentos biográficos, processos organizacionais e mudanças na comunicação política.


Na década de 1980, Bolsonaro ganhou projeção pública em um contexto de reivindicações relacionadas à carreira militar. Sua posterior entrada na política eleitoral inaugurou uma trajetória parlamentar prolongada, durante a qual assumiu posições públicas sobre segurança, Forças Armadas, memória do regime militar e outros temas.


A formação do bolsonarismo como movimento nacional não pode, contudo, ser identificada automaticamente com o início dessa carreira. A passagem de uma liderança parlamentar para uma organização política de alcance nacional envolveu mudanças nas alianças, nas redes de comunicação, nas formas de mobilização e nas relações com diferentes grupos sociais.


O artigo (7) examina também a formação de um núcleo político familiar e a ampliação das redes de apoio. Esses elementos podem ser investigados como processos de organização política que ultrapassam a trajetória individual do presidente, embora permaneçam relacionados à sua liderança.


A teoria das representações sociais de Serge Moscovici oferece uma perspectiva para compreender como diferentes grupos constroem imagens de personagens políticos. Uma liderança pode ser representada de maneiras distintas, dependendo das experiências, identidades e expectativas dos grupos que a interpretam.


A perspectiva de Edgar Morin acrescenta a necessidade de considerar interdependências, contradições e transformações. A constituição de um movimento político não precisa resultar de um planejamento único e linear. Pode envolver convergências entre atores com interesses distintos, adaptações organizacionais e mudanças decorrentes de acontecimentos não previstos.


Essa abordagem permite examinar a formação do bolsonarismo como processo histórico aberto, em vez de tratá-lo como consequência inevitável da trajetória militar e parlamentar de Bolsonaro.


3. Crise da representação política, presidencialismo de coalizão e eleição de 2018


A contribuição de Marcos Nobre (4) permite relacionar a formação do bolsonarismo às transformações do sistema político brasileiro. No trecho disponibilizado de Limites da democracia, o autor distingue o presidencialismo de coalizão de sua interpretação sobre o pemedebismo.


O presidencialismo de coalizão refere-se à necessidade de construção de maiorias parlamentares em um sistema presidencialista multipartidário. O pemedebismo, na formulação de Nobre, corresponde a um padrão histórico específico de organização política, associado a mecanismos de negociação e bloqueio institucional.


A distinção é importante porque a existência de coalizões parlamentares não determina, por si só, a orientação política de um governo nem os resultados de suas decisões. O funcionamento concreto das coalizões depende das regras institucionais, da distribuição de forças partidárias e das estratégias dos atores envolvidos.


As manifestações de junho de 2013, a crise econômica posterior, a Operação Lava Jato, o impeachment de Dilma Rousseff e a eleição de 2018 compuseram uma conjuntura de mudanças nas relações entre sociedade e representação política. Esses acontecimentos possuem causas e características distintas, embora tenham interagido ao longo do período.


Bolsonaro foi eleito presidente em 2018 com 57.797.847 votos, correspondentes a 55,13% dos votos válidos no segundo turno, segundo o Tribunal Superior Eleitoral.


A legitimidade eleitoral do mandato deve ser distinguida das controvérsias relacionadas ao exercício do governo. Essa separação é explicitada por João Cezar de Castro Rocha (2), que reconhece o resultado eleitoral de 2018 ao iniciar sua análise das disputas políticas posteriores.


A passagem da campanha ao governo introduziu exigências institucionais que não se confundiam com as formas de mobilização eleitoral. A formação de maiorias no Congresso, as relações com o Judiciário e as competências dos governos estaduais e municipais passaram a integrar diretamente o exercício do poder.


Dessa maneira, a contribuição de Nobre permite compreender uma dimensão do problema: a relação entre a crítica ao sistema político e a necessidade de atuar dentro de suas estruturas constitucionais.


4. Guerra cultural e política cognitiva: Olavo de Carvalho em diálogo com Guerreiro Ramos, Moscovici e Morin


A investigação da guerra cultural constitui uma dimensão central para compreender a formação dos discursos e das identidades associados ao bolsonarismo. João Cezar de Castro Rocha (2), em Guerra cultural e retórica do ódio, dedica-se à análise da ascensão das direitas, do sistema de crenças relacionado a Olavo de Carvalho e das relações entre discursos políticos, memória histórica e disputas sobre a verdade factual.


A organização do livro evidencia essa preocupação. Seus capítulos examinam o sistema de crenças de Olavo de Carvalho, a guerra cultural bolsonarista, a Doutrina de Segurança Nacional e o projeto ORVIL. A conclusão aborda a dissonância cognitiva e a verdade factual, situando o problema do conhecimento no centro da interpretação proposta pelo autor.

O artigo Olavo de Carvalho e a guerra cultural: política cognitiva da extrema direita no Brasil (8) acrescenta uma perspectiva conceitual ao aproximar essa investigação do pensamento de Alberto Guerreiro Ramos. Em A nova ciência das organizações, Guerreiro Ramos desenvolve o conceito de política cognitiva para discutir as relações entre linguagem, interesses organizados e formas socialmente condicionadas de interpretação da realidade.


A política cognitiva não deve ser confundida com toda atividade de comunicação política. A defesa pública de ideias, a disputa entre projetos de sociedade e a crítica a instituições fazem parte das práticas políticas. O problema investigado por Guerreiro Ramos envolve os mecanismos pelos quais determinadas formas de linguagem podem orientar a compreensão da realidade segundo interesses específicos, inclusive mediante distorções conceituais.


Essa distinção permite estudar a guerra cultural em diferentes níveis. No plano discursivo, interessa identificar as categorias utilizadas para representar acontecimentos, instituições e adversários. No plano organizacional, cabe investigar os atores que produzem e difundem essas representações. No plano social, torna-se necessário compreender como diferentes públicos recebem, reinterpretam e compartilham as mensagens.


A teoria das representações sociais de Serge Moscovici contribui para esse terceiro nível. As representações não constituem simples reproduções individuais de informações recebidas. Elas são elaboradas socialmente, circulam nas interações cotidianas e participam da formação de identidades e interpretações compartilhadas.


Edgar Morin acrescenta outra dimensão ao problema. Em sua reflexão sobre o conhecimento do conhecimento e sobre os sistemas de ideias, especialmente nos volumes terceiro e quarto de O método, Morin investiga as relações entre produção do conhecimento, organização das ideias e condições socioculturais de sua elaboração. Ideologias, doutrinas, teorias e paradigmas não são conceitos equivalentes, embora participem dos processos pelos quais os indivíduos e os grupos interpretam o mundo.


A articulação entre Guerreiro Ramos, Moscovici e Morin permite compreender a política cognitiva como um campo de investigação que relaciona linguagem, representações sociais, sistemas de ideias e relações de poder. Nesse sentido, o artigo (8) oferece uma perspectiva complementar à análise de Castro Rocha, ao situar a guerra cultural em um problema mais abrangente de produção, organização e circulação do conhecimento.


As plataformas digitais introduzem novas condições para esses processos. A comunicação política contemporânea envolve redes de interação, sistemas de recomendação, mecanismos de compartilhamento e organizações que controlam infraestruturas tecnológicas. Entretanto, a análise dos efeitos dessas plataformas requer evidências específicas sobre circulação das mensagens, características dos públicos e mudanças de comportamento.


A política cognitiva pode, portanto, funcionar como uma categoria de articulação interdisciplinar, desde que sua utilização não substitua a demonstração empírica dos mecanismos investigados.


5. Integralismo, fascismo, conservadorismo e neoliberalismo: aproximações e diferenças conceituais


O artigo Integralismo, fascismo e bolsonarismo: convergências, diferenças e relações entre economia, ideologia e poder (9) propõe examinar experiências políticas de épocas distintas mediante critérios históricos e conceituais. Essa preocupação permite estabelecer um diálogo com Diego Aguiar (1) e Tarso Cabral Violin (3), que recorrem ao conceito de fascismo em suas interpretações do bolsonarismo.


O fascismo italiano, o nazismo alemão e o integralismo brasileiro desenvolveram-se em condições históricas próprias, especialmente no contexto das transformações políticas e econômicas do período entreguerras. A análise comparativa precisa considerar suas diferenças organizacionais, suas relações com o Estado, suas bases sociais e suas orientações econômicas.


Diego Aguiar (1) investiga características do bolsonarismo que interpreta como aproximações com tradições fascistas. O autor examina, entre outros temas, a valorização de um passado idealizado, o anticientificismo, a identificação grupal e as formas de representação dos adversários políticos.


Tarso Cabral Violin (3) desenvolve outra formulação ao propor a categoria de fascismo-neoliberal brasileiro do século XXI. Sua obra apresenta uma revisão de interpretações sobre o fascismo, incluindo discussões de autores como Umberto Eco, Michael Mann e Jason Stanley, além de dedicar uma parte específica ao neoliberalismo e outra às relações entre integralismo e bolsonarismo.


Na seção iniciada na página 97, Violin apresenta a interpretação de Antonio Negri sobre as relações entre formas contemporâneas de autoritarismo e neoliberalismo. A seção iniciada na página 100 desenvolve a interpretação do próprio autor sobre o bolsonarismo. Essas formulações devem ser compreendidas como posições teóricas identificáveis, e não como classificações consensuais da experiência brasileira.


O debate acadêmico também inclui interpretações alternativas. A própria obra de Violin apresenta uma seção dedicada à categoria de nacional-populismo, associada a Roger Eatwell e Matthew Goodwin ( p. 109 e seguintes). A presença dessa discussão demonstra a necessidade de explicitar os critérios empregados nas diferentes classificações.


A relação entre bolsonarismo e neoliberalismo exige distinguir ideologia política e orientação econômica. Durante o governo Bolsonaro, o Ministério da Economia, sob a direção de Paulo Guedes, apresentou iniciativas de liberalização econômica, privatização e concessões. Ao mesmo tempo, a comunicação política de diferentes integrantes do governo incorporou referências conservadoras, nacionalistas, religiosas e militares.


A coexistência dessas orientações constitui um objeto de investigação sobre a composição das alianças políticas e as relações entre diferentes projetos de Estado. Ela não significa que todas as correntes presentes no governo compartilhassem uma doutrina única.


A contribuição do artigo comparativo (9) consiste justamente em exigir que as aproximações históricas sejam acompanhadas da identificação das diferenças entre conjunturas, organizações, orientações econômicas e formas de exercício do poder.


6. O exercício do governo: instituições, burocracia e políticas públicas (2019–2022)


A passagem da mobilização política ao exercício do governo federal modifica o objeto da investigação. A formação de um movimento político envolve disputas de representação, construção de identidades, comunicação e alianças. A atuação governamental depende também de regras constitucionais, competências administrativas, recursos orçamentários, relações federativas e mecanismos de implementação.


A coletânea organizada por Leonardo Avritzer, Fábio Kerche e Marjorie Marona (6) oferece uma perspectiva sobre essas relações institucionais. Seu sumário contempla estudos sobre o Executivo e o gabinete presidencial, as relações com o Congresso Nacional, a Câmara dos Deputados, os partidos políticos e o Supremo Tribunal Federal.


A coletânea organizada por Carlos Aurélio Pimenta de Faria e Luciana Leite Lima (5), publicada em 2024, concentra-se nas transformações das políticas públicas durante o governo Bolsonaro. Os organizadores utilizam as categorias de desmonte, resiliência e refundação para investigar mudanças em instrumentos, capacidades administrativas e orientações governamentais.


Na introdução, Faria e Lima apresentam o desmonte das políticas públicas como eixo interpretativo da coletânea. Essa formulação pertence aos organizadores e orienta os estudos reunidos, que examinam diferentes setores e modalidades de mudança institucional.


Luciana Leite Lima e Roberta Cardoso Piedras (p. 55 e seguintes) investigam as mudanças nas políticas públicas federais a partir do relatório final do gabinete de transição governamental de 2022. Segundo a síntese apresentada na própria coletânea, as autoras identificam alterações especialmente relacionadas aos instrumentos das políticas e às capacidades administrativas, observando diferenças entre políticas sociais e econômicas.


A análise das capacidades administrativas é aprofundada por Gabriela Spanghero Lotta, Michelle Fernandez, Olívia Guaranha e João Pedote. Os pesquisadores examinam a atuação de servidores federais diante das mudanças governamentais. A pesquisa utiliza 151 entrevistas com integrantes da burocracia de diferentes órgãos e setores que atuaram entre 2019 e 2022.


O estudo da burocracia introduz uma dimensão que não pode ser reduzida à orientação política do Executivo. A implementação de políticas públicas envolve conhecimentos profissionais, procedimentos administrativos, competências legais e relações entre organizações. Esses elementos condicionam a forma pela qual decisões políticas são executadas, modificadas ou submetidas a controles institucionais.


A coletânea apresenta ainda estudos setoriais sobre saúde, educação, segurança pública, direitos humanos e assistência social. Telma Menicucci investiga a política de saúde, Carlos Roberto Jamil Cury examina a educação; Luis Flávio Sapori e José Luiz Ratton estudam a segurança pública; e Luciana Pazini Papi e colaboradoras analisam direitos humanos e assistência social.


A diversidade desses estudos permite compreender que as mudanças governamentais não se manifestam necessariamente da mesma maneira em todos os setores. Cada política possui trajetórias institucionais, recursos, organizações executoras e relações federativas específicas.


6.1. Pandemia, conhecimento científico e coordenação federativa


A pandemia de covid-19 constitui um caso relevante para investigar as relações entre decisões governamentais, conhecimento científico e organização federativa.


Soraya Vargas Côrtes, na coletânea de Faria e Lima (5), examina as respostas do governo federal à pandemia e à crise socioeconômica. A autora distingue as medidas sanitárias das iniciativas econômicas, considerando suas características e sua evolução ao longo do período.


Segundo a apresentação do estudo na própria coletânea, Côrtes identifica diferenças entre a condução das medidas sanitárias e a abrangência das ações econômicas. Essas conclusões pertencem à análise da autora e devem ser relacionadas aos indicadores e documentos utilizados na pesquisa.


O tema também se relaciona à política cognitiva. A emergência sanitária envolveu disputas públicas sobre a autoridade do conhecimento científico, a interpretação de evidências, as recomendações de especialistas e as competências dos diferentes níveis de governo.


Entretanto, a análise dessas controvérsias exige distinguir os discursos públicos, as decisões administrativas, as medidas efetivamente implementadas e os resultados sanitários. Não é metodologicamente suficiente deduzir os efeitos de uma política exclusivamente a partir das declarações de seus dirigentes.


A CPI da Pandemia, instalada no Senado Federal em 2021, produziu um relatório final sobre ações e omissões investigadas durante a emergência sanitária. Suas conclusões constituem documentação parlamentar e devem ser diferenciadas de decisões judiciais e de resultados de pesquisas acadêmicas.


6.2. Meio ambiente, políticas sociais e capacidade de implementação


A relação entre orientações governamentais e capacidades administrativas também aparece nos estudos sobre política ambiental. A coletânea de Faria e Lima (5) inclui investigação sobre os instrumentos de fiscalização do desmatamento na Amazônia. Essa abordagem permite examinar mudanças organizacionais, recursos administrativos e relações entre diferentes agentes públicos envolvidos na política ambiental.


A análise ambiental pode ser relacionada aos dados oficiais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, que permitem acompanhar a evolução anual das áreas desmatadas. Entretanto, a interpretação das causas dessas variações exige considerar fatores econômicos, territoriais, institucionais e administrativos. Os registros oficiais do INPE mostram que o desmatamento anual na Amazônia Legal passou de 7.536 km² em 2018 para 10.129 km² em 2019, atingiu 13.038 km² em 2021 e ficou em 11.594 km² em 2022. Esses indicadores descrevem a evolução da área desmatada, mas a investigação de suas causas exige considerar fiscalização, ocupação territorial, conjuntura econômica e outras variáveis.


O mesmo cuidado se aplica às políticas sociais. Os capítulos dedicados à assistência social, aos direitos humanos e à educação examinam setores que possuem trajetórias históricas e mecanismos de implementação próprios.


O estudo das políticas públicas, portanto, permite relacionar a dimensão ideológica da experiência governamental às condições concretas de atuação do Estado, preservando a distinção entre orientações declaradas, decisões administrativas e resultados observados.


7. O bolsonarismo após o governo: continuidade política e mudanças institucionais (2023–2026)


O encerramento do mandato presidencial em dezembro de 2022 não correspondeu ao encerramento da atuação política de Bolsonaro nem ao desaparecimento das organizações e redes associadas ao bolsonarismo. Essa distinção é central para o artigo genealógico (7), cujo horizonte temporal se estende até 2026.


O período posterior ao governo introduziu novas condições institucionais. A atuação política passou a ocorrer fora do Executivo federal, em um contexto de reorganização de alianças, disputas eleitorais e desdobramentos judiciais relacionados a acontecimentos anteriores e posteriores à transição presidencial.


Os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, as investigações sobre a tentativa de ruptura constitucional e os processos judiciais subsequentes integram esse período. Sua análise exige distinguir responsabilidades individuais estabelecidas em decisões judiciais, interpretações sobre a atuação de organizações políticas e processos mais amplos de identificação coletiva.


A continuidade do bolsonarismo também pode ser investigada por meio de suas redes de comunicação. O artigo sobre Olavo de Carvalho e a guerra cultural (8) propõe examinar a permanência e a transformação de determinados repertórios discursivos. Essa perspectiva permite formular hipóteses sobre continuidades intelectuais, sem presumir que semelhanças entre mensagens demonstrem influência direta ou coordenação organizacional.


O estudo da continuidade política deve considerar, ainda, a diferença entre liderança pessoal, organização partidária e movimento social. Esses elementos podem apresentar vínculos estreitos, mas não possuem necessariamente as mesmas estruturas, objetivos e formas de atuação.


A extensão da genealogia até 2026 permite compreender o bolsonarismo como um fenômeno político cuja trajetória ultrapassa o período presidencial de 2019 a 2022, sem tratar todas as suas manifestações históricas como equivalentes.


Considerações finais


A incorporação dos três artigos complementares modifica a estrutura do ensaio ao relacionar três dimensões de investigação: a formação histórica do bolsonarismo, os sistemas de ideias e representações que participaram de sua constituição e as condições institucionais de exercício do governo.


A perspectiva genealógica permite distinguir a trajetória individual de Bolsonaro, a formação de suas redes políticas, a eleição de 2018 e a continuidade do movimento depois de 2022. A análise histórico-comparativa sobre integralismo e fascismo acrescenta critérios para examinar aproximações e diferenças entre experiências políticas desenvolvidas em conjunturas distintas. A abordagem da guerra cultural, por sua vez, introduz a política cognitiva como um problema que relaciona linguagem, conhecimento, interesses organizados e relações de poder.


O diálogo entre Guerreiro Ramos, Moscovici e Morin amplia essa última dimensão. Enquanto a política cognitiva permite investigar a relação entre linguagem e interesses, a teoria das representações sociais examina a elaboração coletiva dos significados e a perspectiva da complexidade contribui para compreender a organização dos sistemas de ideias e suas interdependências.


Esses referenciais se articulam às contribuições de Marcos Nobre sobre a crise de representação política, às interpretações de Diego Aguiar e Tarso Cabral Violin sobre as relações entre bolsonarismo e fascismo, à análise de João Cezar de Castro Rocha sobre a guerra cultural e aos estudos institucionais e administrativos reunidos nas duas coletâneas.


A experiência governamental de 2019 a 2022 constitui, nesse conjunto, um campo específico de investigação. O estudo das relações entre Executivo, Legislativo, Judiciário, burocracia e governos subnacionais permite examinar como orientações políticas interagem com competências legais, recursos administrativos e mecanismos de controle. As pesquisas sobre políticas públicas acrescentam evidências sobre mudanças institucionais e respostas organizacionais que não podem ser deduzidas exclusivamente dos discursos políticos.


A análise interdisciplinar exige, assim, distinguir os diferentes níveis envolvidos no fenômeno: acontecimentos históricos, trajetórias individuais, organizações políticas, sistemas de ideias, representações sociais, instituições estatais e resultados de políticas públicas. Esses níveis estão relacionados, mas não são intercambiáveis.


A questão teórica que articula o ensaio pode ser formulada nos seguintes termos: como processos históricos, sistemas de ideias, representações sociais, organizações políticas e estruturas institucionais interagem na formação de movimentos políticos, em sua experiência de governo e em sua continuidade posterior?


O estudo do bolsonarismo entre 1986 e 2026 oferece elementos para investigar essa questão, preservando a diferença entre documentação histórica, resultados empíricos e interpretações teóricas.


Referências

(1) AGUIAR, Diego. O fascismo brasileiro: surgimento e ascensão do bolsonarismo. Rio de Janeiro: Mundo Contemporâneo, 2020.

(2) ROCHA, João Cezar de Castro. Guerra cultural e retórica do ódio: crônicas de um Brasil pós-político. Goiânia: Caminhos, 2021. ISBN 978-65-89552-01-7.

(3) VIOLIN, Tarso Cabral. Bolsonarismo: o fascismo-neoliberal brasileiro do século XXI. Porto Alegre: Editora Fi, 2022.

(4) NOBRE, Marcos. Limites da democracia: de junho de 2013 ao governo Bolsonaro. São Paulo: Todavia, 2022.

(5) FARIA, Carlos Aurélio Pimenta de; LIMA, Luciana Leite (org.). As políticas públicas do governo Bolsonaro: desmonte, resiliência e refundação. Porto Alegre: Jacarta Produções, 2024. 291 p. ISBN 978-65-991391-5-4.

(6) AVRITZER, Leonardo; KERCHE, Fábio; MARONA, Marjorie (org.). Governo Bolsonaro: retrocesso democrático e degradação política. Belo Horizonte: Autêntica, 2021. ISBN 978-65-5928-023-0.

(7) BOEIRA, Sérgio Luís. Genealogia do bolsonarismo: do capitão rebelde ao movimento político nacional (1986–2026). Blog Sérgio Luís Boeira, 2026. Disponível em: https://www.websergioluisboeira.com/post/genealogia-do-bolsonarismo-do-capitão-rebelde-ao-movimento-político-nacional-1986-2026.

(8) BOEIRA, Sérgio Luís. Olavo de Carvalho e a guerra cultural: política cognitiva da extrema direita no Brasil. Blog Sérgio Luís Boeira, 2026. Disponível em: https://www.websergioluisboeira.com/post/olavo-de-carvalho-e-a-guerra-cultural-política-cognitiva-da-extrema-direita-no-brasil.

(9) BOEIRA, Sérgio Luís. Integralismo, fascismo e bolsonarismo: convergências, diferenças e relações entre economia, ideologia e poder. Blog Sérgio Luís Boeira, 2026. Disponível em: https://www.websergioluisboeira.com/post/integralismo-fascismo-e-bolsonarismo-convergências-diferenças-e-relações-entre-economia-ideologi.

(10) GUERREIRO RAMOS, Alberto. A nova ciência das organizações: uma reconceituação da riqueza das nações. Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas, 1989.

(11) BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Resultados das eleições presidenciais de 2018. Brasília: TSE, 2018.

(12) BRASIL. Senado Federal. Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia: relatório final. Brasília: Senado Federal, 2021.

(13) BRASIL. Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Projeto Prodes: monitoramento do desmatamento na Amazônia Legal. São José dos Campos: INPE.


P.S.: Usei a IA GPT 6.1 na busca e organizações das informações, e na elaboração de uma ilustração para o texto, que foi concebido, editado e revisado por mim.

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

©2019 by Prof. Dr. Sérgio Luís Boeira. Website construido com tecnologia Wix.

bottom of page