Os grandes números do BRICS/NDB em tempos de BRICS+ e Emergência Climática
- Sérgio Luís Boeira
- 5 de jul.
- 7 min de leitura
Os grandes números do BRICS deixaram de caber no antigo acrônimo de cinco economias emergentes. Com a ampliação para 11 membros, o bloco passou a reunir uma parcela da economia e da população mundial que o coloca em outro patamar de visibilidade geopolítica, ao mesmo tempo em que suas instituições financeiras — sobretudo o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) e o Arranjo Contingente de Reservas (CRA) — ganharam densidade operacional e relevância simbólica.
Mais do que repetir cifras impressionantes, o desafio é compreender o que esses números realmente medem. Em alguns casos, eles apontam para potência agregada; em outros, revelam assimetrias internas, limites institucionais e a lenta construção de alternativas à arquitetura financeira dominada pelo dólar.

BRICS, NDB e CRA
O BRICS original nasceu como fórum político de grandes economias emergentes e, aos poucos, procurou construir seus próprios instrumentos de coordenação econômica e financeira. Essa inflexão institucional se tornou mais clara com a criação do NDB (Novo Banco do BRICS) e do CRA (Acordo de Reserva Contingente), ambos anunciados na Cúpula de Fortaleza, em 2014, como respostas à baixa representatividade das economias emergentes nas estruturas tradicionais de Bretton Woods.
Os grandes números do próprio bloco já justificam atenção. Na configuração ampliada, os 11 membros do BRICS reúnem cerca de 40% da economia mundial em paridade de poder de compra e algo em torno de 45% da população global, segundo compilações recentes baseadas em dados internacionais e comunicações oficiais do grupo. Em 2024, o crescimento agregado do BRICS foi estimado em torno de 4%, acima da média mundial, e as projeções para 2025 também mantêm o bloco em ritmo superior ao do conjunto da economia global.
No plano bancário, o NDB foi estabelecido com capital autorizado inicial de US$ 100 bilhões e capital subscrito inicial de US$ 50 bilhões. O dado é importante porque permite distinguir capital autorizado de recursos imediatamente operacionais: o banco nasceu com uma arquitetura ambiciosa, mas sua consolidação dependeu de trajetória efetiva de aprovação de projetos e captação de recursos.
Essa trajetória já é visível. O relatório anual de 2024 informa que o NDB encerrou o ano com 105 projetos na carteira e US$ 35,152 bilhões em financiamento aprovado, além de 15 novas aprovações em 2024, somando US$ 4,511 bilhões. Em atualizações mais recentes, o banco informa 139 projetos aprovados e US$ 42,9 bilhões em financiamento acumulado, indicando expansão operacional e maior inserção no ecossistema dos bancos multilaterais de desenvolvimento.
Já o CRA trabalha com outro tipo de lógica. Seu volume total comprometido é de US$ 100 bilhões, mas as contribuições são assimétricas desde a origem: China com US$ 41 bilhões; Brasil, Rússia e Índia com US$ 18 bilhões cada; e África do Sul com US$ 5 bilhões. Enquanto o NDB foi desenhado com ênfase em simetria formal entre os fundadores, o CRA explicita a hierarquia interna do bloco em termos monetários e de capacidade de liquidez.
A leitura combinada desses dois instrumentos é esclarecedora. O NDB expressa a tentativa de construir uma institucionalidade própria com linguagem de igualdade soberana; o CRA, por sua vez, evidencia que o BRICS nunca deixou de ser atravessado por desigualdades estruturais, sobretudo pelo peso singular da China.
Eixo | Número-chave | Observação |
PIB do BRICS+ | Cerca de 40% da economia mundial em PPP | O bloco já supera o G7 nesse critério de agregação. |
População do BRICS+ | Cerca de 45% da população mundial | A expansão demográfica reforça a retórica de representatividade do Sul Global. |
Capital autorizado do NDB | US$ 100 bilhões | Não corresponde ao aporte imediato integral de cada membro. |
Capital subscrito inicial do NDB | US$ 50 bilhões | Ponto de partida institucional do banco. |
Carteira do NDB | 105 projetos e US$ 35,152 bilhões ao fim de 2024 | Em atualização posterior, o banco já registra 139 projetos e US$ 42,9 bilhões. |
CRA | US$ 100 bilhões | Com distribuição assimétrica entre os cinco fundadores. |
BRICS+
A passagem do BRICS ao BRICS+ marca uma nova fase histórica. O acrônimo original designava um núcleo relativamente homogêneo de grandes economias emergentes; a versão ampliada reúne potências industriais, gigantes demográficos, produtores de petróleo e gás e Estados com inserções regionais e perfis políticos muito diversos.
A entrada de Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã altera a escala e o significado do bloco. O BRICS+ deixa de ser apenas uma categoria financeira herdada do início dos anos 2000 e se converte em fórum mais amplo do Sul Global, com pretensão explícita de reequilibrar a governança internacional. Os grandes números funcionam, nesse contexto, como credenciais geopolíticas: não apenas o bloco reúne grande parte da população do planeta, mas também amplia seu peso energético, comercial e diplomático.
Essa expansão, contudo, aumenta também a heterogeneidade interna. Mais membros significam mais peso agregado, mas também maior dificuldade de coordenação estratégica, agendas nacionais mais díspares e tensões adicionais sobre financiamento, comércio, energia e posicionamentos diplomáticos. Em outras palavras, o BRICS+ amplia simultaneamente potência e complexidade.
Desdolarização e BRICS play
A agenda da desdolarização se fortalece precisamente nessa nova fase. O objetivo não é abolir o dólar de maneira súbita, mas reduzir a dependência estrutural de uma moeda cuja centralidade confere aos Estados Unidos vantagens econômicas e instrumentos de coerção geopolítica. Para os países do BRICS, isso envolve diminuir vulnerabilidades cambiais, ampliar margens de autonomia e construir mecanismos próprios de financiamento, liquidez e pagamentos internacionais.
O chamado “BRICS play” em matéria de desdolarização combina ambição estratégica com gradualismo prático. De um lado, há a defesa de maior uso de moedas locais no comércio, criação de sistemas de pagamentos alternativos ao SWIFT (Sociedade de Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais) e ampliação de instrumentos financeiros próprios. De outro, persiste a consciência de que o dólar segue como principal reservatório de liquidez global e moeda operacional central para boa parte do sistema financeiro internacional, inclusive para o próprio NDB.
Nesse arranjo, o NDB aparece como laboratório decisivo. O banco tem ampliado o financiamento em moedas locais e explicitado metas de elevar sua participação nesse tipo de operação, ao mesmo tempo em que procura diversificar fontes de captação e reduzir a dependência exclusiva dos mercados denominados em dólar. Ainda assim, dirigentes do banco reconhecem que o dólar segue dominante em várias camadas da operação financeira, o que confirma que a desdolarização do BRICS não é um evento, mas um processo de construção de redundâncias monetárias e institucionais.
O CRA e a proposta de sistemas alternativos de pagamentos compõem esse mesmo ecossistema. Em vez de anunciar o “fim do dólar”, o BRICS+ busca criar canais paralelos de compensação, reserva e liquidez que lhe deem maior capacidade de navegação estratégica em uma ordem monetária assimétrica. A desdolarização, assim, deve ser entendida mais como pluralização da infraestrutura financeira global do que como substituição imediata de uma moeda hegemônica por outra.
Perspectivas da governança mundial diante da emergência climática
Quando se olha para o BRICS+ e para o NDB à luz da emergência climática, a questão da governança mundial ganha outra camada. Não se trata apenas de como o bloco redistribui poder econômico ou monetário, mas de como ele se insere na disputa por uma arquitetura capaz — ou incapaz — de enfrentar a crise ecológica em tempo útil. Em 2020, análises ligadas ao próprio processo BRICS já apontavam que a crise climática se tornara "crise central" da agenda global, diante da insuficiência das respostas do G7, do G20 e das conferências da ONU.
Desde então, o papel do NDB foi se deslocando progressivamente em direção ao financiamento climático. Em comunicados recentes, o banco destaca que mais de metade de suas aprovações em 2024 teve foco climático, chegando a aproximadamente 55,3% do volume anual de financiamento, e que, ao longo da última década, foram aprovados cerca de 120 projetos no valor de 40 bilhões de dólares, com forte concentração em energia renovável, transporte limpo, água, saneamento e cidades sustentáveis. Em 2025, na sua reunião anual no Rio de Janeiro, o BRICS colocou explicitamente o climate financing como foco central do NDB, com compromisso político de elevar para 40% a parcela dos financiamentos voltados a iniciativas de desenvolvimento sustentável, transição energética e adaptação.
Ao mesmo tempo, o BRICS como bloco passou a se posicionar de forma mais explícita na governança climática. Documentos recentes, como a Leaders' Framework Declaration on Climate Finance e a chamada Rio Declaration, articulam a necessidade de uma agenda de bancos multilaterais de desenvolvimento (MDBs) maiores, mais ousados e mais eficazes e propõem mecanismos de mobilização de até 1,3 trilhão de dólares anuais em financiamento climático até 2035, com forte ênfase em adaptação, cooperação Sul-Sul e instrumentos como fundos florestais, green bonds e taxonomias sustentáveis. Em cúpulas e webinários ligados ao BRICS, representantes brasileiros e de outros países sublinham justamente essa passagem da fase de negociação para a fase de implementação, colocando o financiamento climático e a justiça climática como eixo da atuação do bloco.
Do ponto de vista da governança mundial, isso abre duas possibilidades simultâneas. De um lado, o BRICS+ e o NDB podem funcionar como vetores de pressão sobre a ordem existente, ao insistir em financiamento climático em escala, em instrumentos voltados a adaptação e em uso de moedas locais e mecanismos próprios de garantia para projetos verdes em países do Sul Global, reduzindo a dependência de um sistema de crédito em que o Norte define prioridades e condicionalidades. De outro, o bloco precisa enfrentar suas próprias contradições: muitos membros do BRICS têm forte dependência de combustíveis fósseis e trajetórias de desenvolvimento intensivas em carbono, o que limita sua capacidade de falar, ao mesmo tempo, como ator emergente da governança climática e como parte do problema que ela tenta resolver.
Na prática, isso significa que as "perspectivas da governança mundial diante da emergência climática" passam pela maneira como o BRICS+ e o NDB vão articular três dimensões: a) a agenda de desdolarização e autonomia financeira; b) a ampliação do financiamento climático, com foco em adaptação, transição energética e justiça climática; c) a coerência entre seus próprios modelos de desenvolvimento e as metas de neutralidade de carbono e de contenção do aquecimento global.
Se essa articulação for bem-sucedida, o BRICS pode ocupar um lugar relevante na reorganização da governança climática, não apenas como bloco que reivindica mais financiamento, mas como ator que produz instrumentos concretos de transição justa para o Sul Global. Se não for, haverá o risco de que os grandes números — PIB, população, carteira do NDB, promessas de climate finance — continuem pesando mais como retórica geopolítica do que como resposta efetiva à emergência climática que já atravessa o século XXI.
P.S.: Usei IA Perplexity Pro no levantamento de informações e Adapta One na elaboração da imagem que ilustra esse artigo, tendo revisado a versão final, sobre a qual assumo inteira responsabilidade.
Ver também outros textos sobre BRICS publicados no Blog:
No dia 19/06/2026: BRICS: de conceito de mercado a projeto de ordem multipolar
No dia 26/06/2026: Hurrell e Troyjo: da promessa dos BRICS à prova da realidade
No dia 30/06?2026: Stuenkel e Bueno: história, regras e disputas no mundo dos BRICS



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