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Para além da análise: discurso, conteúdo, compreensão e complexidade

4 de set.
14 min de leitura

Objetivo

Examinar criticamente os limites epistemológicos da análise de conteúdo e de diferentes modalidades de análise do discurso, mostrando que, embora ambas ofereçam instrumentos relevantes para a pesquisa em ciências humanas e sociais, o próprio predomínio do termo “análise” pode restringir a maneira como concebemos os processos de produção do conhecimento. A partir de Bardin, Bakhtin, da hermenêutica e do paradigma da complexidade de Edgar Morin, propõe-se compreender a pesquisa interpretativa como um processo mais amplo, no qual análise, diálogo, compreensão, interpretação, contextualização, explicação, religação e reflexividade são movimentos distintos, porém inseparáveis.


Resumo

A análise de conteúdo e a análise do discurso ocupam posição importante nas pesquisas qualitativas em ciências humanas e sociais. A primeira, particularmente na tradição de Laurence Bardin, oferece procedimentos sistemáticos de decomposição, codificação, categorização e inferência; a segunda compreende um conjunto plural de abordagens que enfatizam linguagem, práticas discursivas, contexto, historicidade, interação e relações de poder. Apesar de suas diferenças, ambas permanecem associadas à noção de “análise”, cuja tradição epistemológica está ligada à decomposição e à distinção de elementos. Este artigo questiona a suficiência dessa categoria para descrever o trabalho interpretativo realizado na pesquisa qualitativa. A partir da concepção dialógica de Mikhail Bakhtin, segundo a qual compreender implica responder à palavra do outro por meio de uma “contrapalavra”, da tradição hermenêutica, que destaca a circularidade entre parte e todo e a historicidade do intérprete, e do paradigma da complexidade de Edgar Morin, que enfatiza religação, recursividade, dialógica e reflexividade, argumenta-se que analisar constitui apenas um dos movimentos da produção do conhecimento. Propõe-se, assim, deslocar o foco de uma suposta “análise complexa” para uma abordagem complexa dos processos de compreensão e interpretação, capaz de preservar a contribuição das técnicas analíticas sem convertê-las em modelo geral do conhecimento.



Introdução


A expressão “análise de dados” tornou-se tão habitual na linguagem da pesquisa científica que raramente se pergunta o que significa, epistemologicamente, analisar. Fala-se em análise de conteúdo, análise de discurso, análise temática, análise textual, análise documental e inúmeras outras modalidades. A naturalização desse vocabulário pode, entretanto, encobrir uma questão fundamental: será que analisar descreve adequadamente tudo aquilo que fazemos quando procuramos compreender um fenômeno humano?


A questão torna-se particularmente relevante nas ciências humanas e sociais. Os fenômenos investigados envolvem linguagem, história, memória, valores, conflitos, relações sociais, subjetividade, instituições e processos de interpretação. Não se apresentam simplesmente como objetos exteriores que possam ser decompostos em unidades, variáveis ou categorias e posteriormente reconstruídos pelo pesquisador. São realidades nas quais os próprios sujeitos investigados produzem interpretações e nas quais o pesquisador também ingressa com sua formação, linguagem, experiência, pressupostos teóricos e horizonte histórico.


A análise de conteúdo sistematizada por Laurence Bardin constitui um caso particularmente importante. Sua contribuição metodológica dificilmente pode ser ignorada: oferece procedimentos para organizar grandes conjuntos de materiais, identificar unidades de sentido, construir categorias e produzir inferências (1). Mas justamente sua força metodológica permite perceber uma questão epistemológica mais ampla. Quando um texto, entrevista ou documento é fragmentado em unidades e posteriormente classificado, o pesquisador ganha determinadas possibilidades de conhecimento, mas também pode perder relações que existiam antes da fragmentação.


As análises do discurso procuraram enfrentar parte desse problema ao deslocar a atenção do conteúdo isolado para as condições sociais, históricas e linguísticas de produção dos sentidos. O Manual de análise do discurso em ciências sociais, coordenado por Lupicinio Iñiguez, evidencia a grande pluralidade existente nesse campo, reunindo tradições relacionadas à pragmática, aos atos de fala, à etnometodologia, a Foucault, à análise da conversação, à psicologia discursiva e à análise crítica do discurso (2). Essa pluralidade constitui uma riqueza, mas não resolve necessariamente o problema epistemológico: diferentes formas de análise continuam sendo formas parciais de aproximação do fenômeno.


A questão torna-se ainda mais interessante quando introduzimos Bakhtin. Se compreender significa responder à palavra do outro com uma “contrapalavra” (4), o pesquisador não está simplesmente analisando algo colocado diante dele. Está ingressando numa relação. A hermenêutica aprofunda essa mudança ao mostrar que toda compreensão se produz numa circularidade entre parte e todo e a partir de alguma pré-compreensão. Morin, por sua vez, permite religar esses problemas mediante os princípios da recursividade, da dialógica, da hologramaticidade e da inclusão do observador no processo de conhecimento (5).


O percurso deste texto desenvolve essa questão em seis movimentos. Inicialmente, discute-se o significado epistemológico da própria noção de análise. Em seguida, examinam-se as contribuições e limitações da análise de conteúdo e das análises do discurso. Depois, introduz-se a concepção bakhtiniana da compreensão como diálogo e resposta. A hermenêutica amplia a discussão para a historicidade e para a circularidade da compreensão. Finalmente, essas contribuições são colocadas em diálogo com Morin, permitindo questionar inclusive a expressão “análise complexa” e propor uma concepção mais abrangente dos processos de compreensão e interpretação.


1. Analisar é necessário, mas analisar não é compreender


Em seu sentido mais difundido, analisar significa decompor um objeto, distinguir seus elementos, estabelecer classificações e examinar as relações existentes entre as partes. A operação analítica desempenhou papel decisivo na constituição da ciência moderna e permanece indispensável à pesquisa. Não seria razoável, portanto, opor simplesmente análise e complexidade, como se pensar complexamente significasse recusar toda decomposição.


O problema é outro. Consiste em transformar uma operação necessária do conhecimento em modelo do próprio conhecimento. Paviani ajuda a esclarecer essa distinção ao mostrar que os processos analítico, dialético e hermenêutico possuem características próprias, embora possam combinar-se concretamente na atividade científica (3). A análise permite distinguir; a dialética introduz contradições, mediações e movimentos; a hermenêutica remete à compreensão e à interpretação. Na prática da pesquisa, esses processos frequentemente se interpenetram.


A dificuldade começa quando chamamos todo esse trabalho simplesmente de “análise”. Ao fazê-lo, podemos transportar inadvertidamente para a pesquisa qualitativa uma imagem segundo a qual primeiro se decompõe o objeto e depois, a partir das partes encontradas, reconstrói-se sua significação.


Morin permite perceber por que essa operação não é epistemologicamente inocente. O pensamento complexo não contesta a necessidade de distinguir, mas contesta a disjunção que transforma aquilo que foi metodologicamente separado em realidades independentes. Uma parte somente pode ser compreendida pelas relações que mantém com outras partes e com a organização da qual participa. Ao mesmo tempo, o todo não existe como entidade exterior às partes: constitui-se pelas interações entre elas.


Isso modifica a própria maneira de conceber o procedimento metodológico. Uma entrevista pode ser dividida em unidades de registro, mas cada unidade continua pertencendo a uma narrativa, a uma situação de interlocução, a uma trajetória biográfica, a um contexto institucional e a uma conjuntura histórica. O recorte pode ser necessário para investigar, mas não pode ser confundido com a ontologia do fenômeno investigado.


Por isso, a crítica moriniana não deveria ser formulada como rejeição da análise, mas como crítica de sua soberania epistemológica. Precisamos analisar e religar, distinguir e contextualizar, decompor e reconstruir relações. A análise torna-se, assim, um momento de um movimento cognitivo mais amplo.


2. Bardin: entre a fecundidade metodológica e o risco da redução


A análise de conteúdo de Laurence Bardin oferece uma demonstração particularmente clara dessa tensão. Sua importância decorre precisamente da possibilidade de transformar grandes quantidades de material comunicacional em conjuntos organizados de informações capazes de sustentar interpretações e inferências (1).


Não seria adequado reduzi-la a uma técnica quantitativa. Bardin não propõe simplesmente contar palavras. A inferência ocupa lugar central em sua proposta: procura-se passar dos elementos identificados no material às condições de produção, recepção e significação das mensagens. A análise de conteúdo contém, portanto, uma abertura interpretativa.


Entretanto, seu procedimento exige operações de recorte, codificação e categorização. É preciso estabelecer unidades, agrupá-las segundo determinados critérios e produzir alguma forma de ordenamento. É exatamente isso que torna o método operacionalmente poderoso. Mas é também aí que aparece sua limitação potencial.


Toda categoria é simultaneamente uma descoberta e uma construção. Ela permite tornar perceptível determinada regularidade, mas, ao fazê-lo, privilegia certos aspectos e deixa outros em segundo plano. Quando as categorias são tratadas apenas como instrumentos provisórios do pesquisador, isso não constitui necessariamente um problema. A dificuldade surge quando passam a parecer propriedades naturais do material.


A questão torna-se mais evidente diante da exigência de exclusividade entre categorias. Uma codificação rigorosa tende a buscar fronteiras suficientemente claras para que determinado fragmento possa ser classificado. Entretanto, fenômenos sociais frequentemente atravessam essas fronteiras. Um discurso pode expressar simultaneamente conformismo e resistência; uma organização pode combinar solidariedade e competição; uma política pública pode ampliar direitos enquanto reproduz mecanismos de exclusão.


A ambivalência não constitui necessariamente um defeito do dado. Pode constituir uma propriedade do fenômeno. Nesse ponto, o princípio dialógico de Morin oferece um contraponto importante. A realidade complexa pode comportar relações simultaneamente complementares, concorrentes e antagônicas. Forçar sua classificação numa alternativa exclusiva pode aumentar a confiabilidade técnica da codificação e, ao mesmo tempo, diminuir sua capacidade de compreender o fenômeno.


O mesmo problema aparece na questão das frequências. A recorrência de um tema pode ser importante, mas não constitui critério suficiente de relevância. A literatura contemporânea sobre análise de conteúdo reconhece que elementos raros, ausentes ou silenciados podem ser decisivos. Uma única hesitação numa entrevista, uma contradição inesperada ou um tema sistematicamente evitado pode ter importância interpretativa maior do que dezenas de respostas semelhantes.


A perspectiva complexa reforça justamente a atenção ao acontecimento, ao desvio, à emergência e à transformação. O que é estatisticamente residual pode anunciar aquilo que ainda não se tornou dominante.


Portanto, a questão não é escolher entre Bardin e Morin. É reconhecer que Bardin oferece instrumentos analíticos; Morin ajuda a impedir que esses instrumentos sejam confundidos com a totalidade do processo de conhecimento.


3. Análises do discurso: da crítica ao representacionismo ao risco do discursivismo


As análises do discurso realizaram um deslocamento importante em relação às abordagens centradas no conteúdo das mensagens. A linguagem deixou de ser concebida apenas como recipiente de significados ou representação de uma realidade exterior. Passou a ser compreendida como prática, interação e produção social de sentidos.


O Manual coordenado por Iñiguez deixa particularmente evidente que não existe uma única análise do discurso. Há uma constelação de perspectivas com diferentes fundamentos epistemológicos e metodológicos (2). Essa pluralidade constitui uma das principais virtudes da obra.

A atenção ao contexto, à historicidade, às relações de poder, às condições de enunciação e às posições dos sujeitos permite compreender dimensões que uma simples categorização temática poderia deixar invisíveis. A análise crítica do discurso, por exemplo, explicita que tanto o discurso quanto a própria atividade do analista constituem práticas sociais.


Contudo, o deslocamento do conteúdo para o discurso pode produzir uma dificuldade inversa. Se uma perspectiva analítica excessivamente categorial corre o risco de fragmentar o fenômeno, determinadas versões do construcionismo podem atribuir à linguagem uma capacidade constitutiva tão abrangente que a realidade extralinguística tende a desaparecer.


Morin oferece uma alternativa a essa polarização. O fato de conhecermos a realidade mediante linguagem, cultura, conceitos e interpretações não significa que a realidade se reduza a essas mediações. As ideias são necessárias ao conhecimento, mas não devem ser confundidas com aquilo que procuram conhecer.


Uma enchente é discursivamente significada, politicamente enquadrada e socialmente interpretada. Mas a água possui propriedades físicas. Uma epidemia produz discursos, classificações e disputas de sentido, mas envolve organismos, corpos e processos biológicos. A pobreza é conceituada de maneiras historicamente diferentes, mas também envolve condições materiais de existência.


A complexidade exige, portanto, evitar dois reducionismos simétricos: não reduzir os fenômenos humanos à sua materialidade, mas tampouco reduzir sua materialidade aos discursos produzidos sobre ela.


É nesse ponto que a passagem da análise para a compreensão começa a adquirir importância decisiva.


4. Bakhtin: compreender é entrar em diálogo


Bakhtin introduz uma mudança qualitativa nessa discussão porque sua concepção de compreensão não pode ser reduzida à operação analítica.


Spink e Menegon recuperam uma formulação particularmente expressiva: “A compreensão é uma forma de diálogo; ela está para a enunciação assim como uma réplica está para a outra no diálogo. Compreender é opor à palavra do outro uma contrapalavra” (4).


A formulação modifica a imagem tradicional do pesquisador diante de seu material. Se compreender é responder, o intérprete não funciona como receptor de um significado previamente encerrado no texto. A palavra do outro mobiliza conhecimentos, experiências, memórias, conceitos e outras vozes, provocando uma resposta.


Essa compreensão é denominada responsiva porque o interlocutor participa ativamente da produção de sentido. A tradição bakhtiniana contrapõe essa concepção ao modelo no qual o destinatário funcionaria essencialmente como decodificador de uma mensagem.


Mas há algo ainda mais importante: o interlocutor não aparece somente depois que o enunciado foi produzido. A expectativa de sua resposta já participa da produção do próprio enunciado. O locutor imagina seu interlocutor, pressupõe conhecimentos, antecipa objeções e adapta palavras e formas de expressão. Locutor e interlocutor são, portanto, interdependentes.


Essa concepção aproxima-se fortemente da recursividade moriniana. A resposta é produzida pelo enunciado, mas retroage sobre o processo discursivo e participa da produção dos enunciados seguintes. Não há simplesmente transmissão, mas circulação e transformação.


A “contrapalavra”, portanto, não deveria ser entendida como mera oposição. Ela pode concordar, questionar, complementar, reinterpretar ou deslocar aquilo que recebeu. Seu significado epistemológico está no fato de que compreender já significa participar da produção de um novo sentido.


Para a pesquisa qualitativa, a consequência é profunda: a interpretação produzida pelo pesquisador é também uma contrapalavra. Isso exige abandonar a ficção de que o pesquisador simplesmente extrai sentidos existentes no corpus.


5. Hermenêutica: o intérprete também é transformado pela compreensão


A hermenêutica acrescenta outra dimensão que não pode ser inteiramente absorvida pelo dialogismo bakhtiniano. Se Bakhtin evidencia que compreender significa entrar numa relação responsiva com a palavra do outro, a hermenêutica enfatiza que essa compreensão ocorre sempre a partir de uma história e de uma pré-compreensão.


Paviani chama atenção para a circularidade existente entre parte e todo e para a impossibilidade de separar inteiramente sujeito e objeto no processo compreensivo (3). Isso significa que o intérprete nunca chega completamente vazio diante de um texto, entrevista ou acontecimento. Possui linguagem, experiência, conceitos, expectativas e referências teóricas. A questão metodológica não consiste em eliminar magicamente essas condições, mas em torná-las reflexivamente disponíveis ao confronto com aquilo que está sendo interpretado.


Aqui encontramos uma diferença importante entre confirmar e compreender. Quando o pesquisador apenas reconhece no material aquilo que sua teoria já previa, não há propriamente ampliação da compreensão. A experiência hermenêutica torna-se epistemologicamente fecunda quando o texto, o interlocutor ou o acontecimento resiste às expectativas iniciais e obriga o intérprete a rever sua compreensão.


O material não é, então, matéria passiva sobre a qual aplicamos categorias. Ele pode produzir surpresa, estranhamento e revisão. O círculo hermenêutico não é, portanto, um círculo vicioso. A compreensão da parte modifica o todo; o novo horizonte do todo altera a compreensão da parte; e o movimento pode continuar.


Esse processo aproxima-se significativamente da contrapalavra bakhtiniana. A diferença é que a hermenêutica torna especialmente explícito que a resposta do intérprete pode modificar o próprio intérprete.


6. Morin: religar sem dissolver as diferenças


É nesse ponto que a contribuição de Morin ganha especial importância. O paradigma da complexidade não precisa substituir Bardin, Bakhtin ou a hermenêutica. Sua contribuição pode ser justamente evitar que cada uma dessas perspectivas se transforme numa explicação totalizante.


A análise permite distinguir. Bakhtin mostra que a compreensão é dialógica e responsiva. A hermenêutica evidencia a historicidade do intérprete e a circularidade entre parte e todo. Morin pergunta como manter essas dimensões simultaneamente distintas e relacionadas.


O princípio recursivo permite compreender que produtos e produtores entram em circuitos de determinação recíproca. Aplicado à linguagem, isso significa que sujeitos produzem discursos por meio de linguagens e culturas que, por sua vez, participaram da constituição desses sujeitos. Os discursos transformam relações sociais que condicionam novas produções discursivas.


O princípio dialógico permite preservar tensões que não precisam ser dissolvidas numa síntese definitiva. Palavra e contrapalavra, identidade e diferença, ordem e desordem, indivíduo e sociedade podem manter relações simultaneamente complementares e antagônicas.


O princípio hologramático acrescenta que aquilo que aparece numa parte pode carregar dimensões do todo ao qual pertence. Um enunciado individual contém marcas da língua, da cultura, da história, das instituições e dos grupos sociais que participaram de sua produção. Isso apresenta evidente proximidade com Bakhtin, para quem um enunciado é simultaneamente individual e social.


Finalmente, a reflexividade introduz o próprio pesquisador no circuito. Ele interpreta o discurso do outro, mas sua interpretação também possui condições históricas, culturais, institucionais e paradigmáticas de produção. Por isso, Morin insiste na inseparabilidade entre observação e auto-observação, crítica e autocrítica.


A compreensão passa, então, a envolver não apenas a pergunta “o que este discurso significa?”, mas também outras: de que relações históricas emerge? Com quais outras vozes dialoga? Que materialidades condicionam aquilo de que fala? Como minha própria posição participa da interpretação? O que no material resiste às categorias que trouxe comigo? E como essa resistência modifica minha compreensão?


Nesse sentido, Bakhtin, hermenêutica e Morin convergem sem se confundirem. Bakhtin oferece a dialogicidade da compreensão; a hermenêutica, sua historicidade e circularidade; Morin, sua religação multidimensional, recursividade e reflexividade.


7. Por que “análise complexa” também é uma expressão problemática


Chegamos, finalmente, a uma consequência que se volta inclusive contra o vocabulário inicialmente empregado nesta própria reflexão. Diante das limitações da análise de conteúdo e das análises do discurso, poderia parecer natural propor uma “análise complexa”. Entretanto, essa denominação merece ser questionada.


Se a crítica desenvolvida até aqui sustenta que analisar constitui apenas um dos movimentos do conhecimento, acrescentar o adjetivo “complexa” ao substantivo “análise” não resolve necessariamente o problema. Pode significar apenas uma análise com maior número de dimensões, categorias ou relações, preservando a centralidade epistemológica da decomposição.


O paradigma da complexidade exige algo diferente. Não se trata de realizar uma decomposição mais sofisticada, mas de reconhecer a necessidade de movimentos cognitivos heterogêneos. Em determinados momentos, será necessário separar e categorizar; em outros, reconstruir contextos; em outros, confrontar interpretações; em outros ainda, retornar ao campo ou ao corpus porque uma compreensão anterior tornou-se insuficiente.


Por isso, parece mais adequado falar em abordagem complexa dos processos de compreensão e interpretação. Essa denominação também precisa ser usada com prudência. Não se pretende criar mais um método a ser acrescentado ao repertório metodológico disponível. O pensamento complexo atua sobretudo no nível epistemológico: interroga os pressupostos que orientam o emprego dos métodos e impede que um procedimento particular seja transformado numa representação completa do processo de conhecer.


Bardin pode continuar sendo utilizado. As diferentes análises do discurso também. Bakhtin pode orientar a atenção à dialogia e à responsividade. A hermenêutica pode aprofundar a interpretação. A contribuição de Morin está em religar sem homogeneizar.


Nesse sentido, o pesquisador não precisa escolher entre análise, compreensão e interpretação. Precisa reconhecer quando está analisando, quando está interpretando, como está compreendendo e de que maneira esses movimentos retroagem uns sobre os outros.


Considerações finais


O percurso realizado permite reconsiderar uma expressão tão habitual que frequentemente passa despercebida: “análise de dados”. Não há motivo para bani-la do vocabulário científico. A análise constitui uma operação indispensável. O problema começa quando o termo passa a designar indistintamente tudo aquilo que ocorre entre a produção do material empírico e a formulação das conclusões de uma pesquisa.


A análise de conteúdo de Bardin evidencia a fecundidade e os riscos da decomposição metodologicamente controlada. As análises do discurso ampliam o horizonte ao introduzir linguagem, contexto, historicidade e poder, embora algumas de suas vertentes possam atribuir centralidade excessiva à discursividade. Bakhtin modifica o próprio conceito de compreensão ao mostrar que compreender significa responder. A hermenêutica acrescenta que toda resposta interpretativa ocorre a partir de um horizonte histórico e retorna sobre esse horizonte, podendo transformá-lo. Morin permite religar essas contribuições e acrescenta a necessidade de que o pesquisador reconheça sua própria participação no processo cognitivo.


Desse encontro não emerge uma nova técnica. E talvez essa seja justamente sua principal consequência. Uma perspectiva inspirada na complexidade não deveria competir com Bardin ou com alguma modalidade de análise do discurso oferecendo outra “análise”. Deveria perguntar pelas condições epistemológicas de utilização de todas elas.


A questão fundamental deixa, então, de ser apenas “qual técnica de análise devo aplicar ao corpus?”. Antes dela aparecem perguntas mais abrangentes: o que significa compreender este fenômeno? Que relações se perdem quando o decomponho? Que sentidos emergem quando retorno das partes ao todo? Que vozes estão dialogando? Que contrapalavra produzo como pesquisador? Que pressupostos orientam essa contrapalavra? E estou disposto a modificar minha interpretação quando o fenômeno resiste às categorias que inicialmente utilizei?


Essas perguntas não tornam a pesquisa menos rigorosa. Ao contrário, ampliam o significado do rigor. O rigor deixa de consistir somente na aplicação consistente de procedimentos e passa a incluir também vigilância epistemológica, contextualização, abertura à contradição, reflexividade e capacidade de religação.


É nesse sentido que talvez possamos condensar o argumento central deste texto: Analisar é distinguir para conhecer; compreender exige também relacionar, dialogar, interpretar e religar. O desafio de uma epistemologia da complexidade não consiste em eliminar o primeiro movimento, mas em impedir que ele colonize todos os demais.


Referências

(1) BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2016.

(2) IÑIGUEZ, Lupicinio (coord.). Manual de análise do discurso em ciências sociais. Petrópolis: Vozes, 2004.

(3) PAVIANI, Jayme. Epistemologia prática: ensino e conhecimento científico. Caxias do Sul: EDUCS, 2009.

(4) BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1995. Obra originalmente publicada em 1929.

(5) MORIN, Edgar. El Método IV: Las ideas: su hábitat, su vida, sus costumbres, su organización. Traducción de Ana Sánchez. Madrid: Ediciones Cátedra, 1992. (Colección Teorema, Serie Mayor). ISBN 84-376-1142-3

(6) GUIMARÃES, Gleny Terezinha Duro; PAULA, Marlúbia Corrêa de (orgs.). Análise de conteúdo e análise de discurso: reflexões teórico-metodológicas em diferentes vertentes. São Paulo: Alexa Cultural; Manaus: EDUA, 2022.

(7) SPINK, Mary Jane Paris; MENEGON, Vera Mincoff. Práticas discursivas e produção de sentidos: contribuições para a investigação em ciências sociais. In: IÑIGUEZ, Lupicinio (coord.). Manual de análise do discurso em ciências sociais. Petrópolis: Vozes, 2004.

(8) SPINK, Mary Jane Paris. Linguagem e produção de sentidos no cotidiano. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, 2010.


P.S.: Usei a IA GPT 5-6 Sol na busca e organização das informações, e na elaboração da ilustração do texto, que foi concebido, editado e revisado por mim.

 

 
 
 

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