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Paraeconomia, pensamento sistêmico e ecofeminismo: delimitar o mercado para sustentar a vida

Objetivo

Este ensaio tem por objetivo explorar convergências, complementaridades e tensões entre a teoria da delimitação dos sistemas sociais de Guerreiro Ramos, o pensamento sistêmico de Fritjof Capra e o ecofeminismo de Maria Mies e Vandana Shiva. A hipótese interpretativa é que essas perspectivas, embora originadas em tradições distintas e não redutíveis umas às outras, permitem compreender conjuntamente a crise contemporânea como problema econômico, organizacional, ecológico, epistemológico e de gênero. O diálogo é complementado pelas contribuições da economia substantiva de Karl Polanyi, da economia ecológica de Nicholas Georgescu-Roegen e pelas reflexões sobre economia social e solidária, fenonomia, isonomia e empoderamento feminino desenvolvidas em trabalhos anteriores.


Resumo

Guerreiro Ramos, Fritjof Capra e as ecofeministas Maria Mies e Vandana Shiva desenvolveram, por caminhos distintos, críticas profundas ao paradigma dominante das sociedades industriais. Guerreiro Ramos questionou o mercadocentrismo e a expansão da racionalidade instrumental, propondo a delimitação do mercado numa sociedade multicêntrica e uma ciência das organizações atenta aos requisitos ecológicos e às bases biofísicas da produção. Capra interpretou as crises sociais e ambientais como manifestações de uma crise de percepção associada ao paradigma mecanicista e vinculou a transição social ao declínio do patriarcado, da dependência dos combustíveis fósseis e à emergência de um paradigma sistêmico. Mies e Shiva, por sua vez, relacionaram patriarcado, desenvolvimento, ciência reducionista, exploração da natureza e invisibilização do trabalho de reprodução da vida. Este ensaio argumenta que o diálogo entre essas abordagens permite ampliar a ideia de delimitação do mercado: trata-se não apenas de conter a racionalidade econômica por critérios substantivos, mas de reconhecer a inserção da economia na sociedade, sua dependência dos sistemas biofísicos e os trabalhos, sobretudo femininos, que sustentam cotidianamente a reprodução da vida. Fenonomias, isonomias e experiências de economia social e solidária podem oferecer condições favoráveis a processos de autonomia, convivencialidade e empoderamento, sem que tais resultados sejam necessários ou garantidos. A sustentabilidade aparece, assim, como problema de reorganização multidimensional das relações entre mercado, sociedade, natureza e reprodução da vida.



Introdução


Grande parte do pensamento econômico e organizacional moderno desenvolveu-se supondo que economia, sociedade e natureza poderiam ser estudadas como domínios relativamente independentes. A empresa seria uma unidade econômica localizada num espaço determinado; a natureza, um conjunto de recursos disponíveis; o trabalho, principalmente atividade remunerada; e o desenvolvimento, expansão da produção, da renda e do consumo. Essa representação tornou-se progressivamente problemática diante da crise ecológica, das desigualdades sociais e de gênero e da crescente percepção de que nenhuma economia existe separadamente das relações sociais e dos sistemas vivos que a sustentam.


A crítica a essa concepção encontra-se, por caminhos diferentes, em Guerreiro Ramos, Fritjof Capra e no ecofeminismo de Maria Mies e Vandana Shiva. Em The New Science of Organizations, Guerreiro Ramos afirma que a teoria dominante das organizações não é adequada a todas as formas de atividade e que seu modelo de alocação de pessoas e recursos desconsidera requisitos ecológicos. Seu objetivo é substituir o modelo social centrado no mercado por uma concepção multicêntrica, na qual o mercado seja reconhecido como sistema necessário, porém limitado (1).


Capra, especialmente em O ponto de mutação, chega a problemas semelhantes por meio da crítica ao paradigma mecanicista. No estudo comparativo entre Guerreiro Ramos e Capra, mostrou-se que a crítica guerreiriana à razão instrumental e a crítica capriana ao mecanicismo são complementares: uma razão orientada primordialmente pelo cálculo e pela utilidade encontra correspondência numa concepção de natureza composta por objetos separáveis, manipuláveis e disponíveis à apropriação (2).


Mies e Shiva radicalizam a problemática ao mostrar que a expansão da racionalidade industrial e mercantil não afeta somente a natureza. Ela se articula historicamente com o patriarcado, a colonização, a desvalorização da subsistência e a invisibilização do trabalho realizado predominantemente pelas mulheres. O crescimento econômico pode, nessa perspectiva, coexistir com perda de autonomia, destruição ambiental e empobrecimento das condições concretas de reprodução da vida (3).


A aproximação entre essas perspectivas não autoriza, contudo, equivalências fáceis. Guerreiro Ramos não é um teórico ecofeminista; fenonomia não significa subsistência; isonomia não corresponde a uma comunidade ecofeminista; e o pensamento sistêmico de Capra possui fundamentos diferentes daqueles do paradigma paraeconômico. O interesse do diálogo encontra-se justamente em preservar as diferenças e perguntar o que cada perspectiva permite perceber nas demais.


O ensaio desenvolve esse argumento em seis movimentos. Inicialmente, examina a economia substantiva de Karl Polanyi e sua importância para Guerreiro Ramos. Em seguida, aborda Georgescu-Roegen, a crítica da “localização simples” e a concepção de organização duradoura. A terceira seção aproxima a razão instrumental de Guerreiro Ramos da crise de percepção e do mecanicismo criticados por Capra. A quarta introduz o ecofeminismo de Mies e Shiva, destacando reprodução da vida, patriarcado e invisibilidade econômica. A quinta retoma fenonomia, isonomia, economia social e solidária e empoderamento feminino, procurando evitar qualquer interpretação determinista da autorrealização. Por fim, propõe-se uma síntese em torno da ideia de delimitar o mercado para sustentar e regenerar a vida.


1. Polanyi e Guerreiro Ramos: da economia formal à economia substantiva


Uma das bases da crítica de Guerreiro Ramos à sociedade centrada no mercado está em Karl Polanyi. Na abertura de The New Science of Organizations, Guerreiro Ramos informa que sua teoria substantiva da vida humana associada recorre tanto à distinção entre racionalidade substantiva e funcional quanto à análise polanyiana da sociedade de mercado (1).


Polanyi distingue os sentidos formal e substantivo da economia. No primeiro, predominante na ciência econômica convencional, o problema econômico é interpretado por meio da escassez, da escolha e da otimização. No sentido substantivo, entretanto, economia diz respeito ao modo pelo qual os seres humanos asseguram sua existência material em relação entre si e com seu ambiente. A economia não constitui, portanto, uma esfera naturalmente separada da sociedade. Historicamente, observa Polanyi, ela esteve embedded, ou seja, inserida ou incrustada nas relações sociais; a sociedade de mercado representa uma situação histórica excepcional em que ocorre o movimento inverso: a sociedade tende a subordinar-se às exigências do mercado (4).


Guerreiro Ramos incorpora essa distinção e a transfere de maneira criativa para o campo organizacional. Assim como Polanyi diferencia o sentido formal e o substantivo da economia, Guerreiro Ramos propõe distinguir os significados formal e substantivo da organização. A empresa econômica formal é somente um tipo de organização possível e não deve fornecer os critérios universais mediante os quais todas as atividades humanas são concebidas.


Essa operação é fundamental para a teoria da delimitação. O problema não consiste em rejeitar mercado, eficiência, cálculo ou racionalidade instrumental. Tais elementos possuem legitimidade em determinados contextos. O problema surge quando critérios adequados a um enclave específico adquirem pretensão universal e passam a definir educação, política, relações comunitárias, trabalho, conhecimento e até a compreensão da pessoa.


A paraeconomia pode, nesse sentido, ser compreendida como tentativa de reconstruir institucionalmente uma sociedade na qual a economia volte a ocupar uma posição delimitada. A sociedade multicêntrica não elimina o econômico: reconhece vários sistemas sociais, diferentes critérios substantivos de vida e distintas formas de relacionamento entre pessoas. O mercado é um enclave, e não o centro ordenador da totalidade social (1).


2. Georgescu-Roegen, “localização simples” e organizações duradouras


A dimensão ecológica da obra de Guerreiro Ramos é particularmente evidente quando ele incorpora a contribuição de Nicholas Georgescu-Roegen. O economista romeno, posteriormente reconhecido como um dos principais fundadores intelectuais da economia ecológica, mostrou que a economia não constitui um fluxo circular autossuficiente. Todo processo econômico depende de matéria e energia e está submetido à irreversibilidade expressa pela segunda lei da termodinâmica (5).


Guerreiro Ramos considera a contribuição de Georgescu-Roegen uma das formulações mais penetrantes de uma ciência da alocação de recursos concebida como disciplina ecológica. Recupera explicitamente a ideia de que matéria-energia de baixa entropia disponível constitui uma dotação planetária limitada e que a produção não pode ser pensada sem considerar a transformação irreversível desses fluxos materiais e energéticos.


Essa reflexão articula-se à crítica de Alfred North Whitehead à falácia da localização simples. Na teoria organizacional convencional, observa Guerreiro Ramos, organizações e processos econômicos são concebidos como se não possuíssem conexões essenciais com a esfera biofísica. Entretanto, qualquer organização retira do ambiente matéria e energia e devolve resíduos e energia degradada. Ignorar essas relações produz simultaneamente esgotamento, poluição e deterioração das condições que possibilitam a permanência física, humana e social (1).


É nesse contexto que Guerreiro Ramos propõe uma “endurance-centered science of organizations”, expressão que pode ser traduzida como uma ciência das organizações orientada para a durabilidade ou permanência. A organização duradoura não é simplesmente aquela que consegue perpetuar juridicamente sua existência ou manter-se competitiva durante décadas. A permanência depende de uma relação adequada entre organização, sociedade e ambiente biofísico.


A distinção é decisiva. Uma organização pode ser financeiramente eficiente e ecologicamente destrutiva. Sua sobrevivência particular pode contribuir para comprometer a permanência dos sistemas dos quais depende. A própria noção de eficiência precisa, portanto, ser recontextualizada.


Essa dimensão modifica a compreensão da delimitação. Limitar o mercado não constitui apenas exigência ética ou política. Há também um fundamento biofísico: nenhum processo econômico pode expandir-se indefinidamente num planeta constituído por fluxos limitados de matéria e energia.


3. Guerreiro Ramos e Capra: razão instrumental, mecanicismo e crise de percepção


A aproximação entre Guerreiro Ramos e Fritjof Capra torna-se mais clara quando se observa que ambos criticam diferentes dimensões da mesma civilização industrial. Guerreiro Ramos concentra-se na transformação moderna da razão em cálculo de consequências e na expansão da racionalidade instrumental. Capra, por sua vez, identifica a persistência de uma visão cartesiano-newtoniana que concebe fenômenos como unidades separáveis e o universo segundo a metáfora da máquina (2).


O ensaio comparativo entre ambos mostrou que as duas críticas se reforçam reciprocamente. Se a natureza é concebida como exterior ao sujeito, composta por elementos isoláveis e disponíveis para manipulação, torna-se mais fácil submetê-la ao cálculo utilitário. Inversamente, uma cultura dominada pela racionalidade instrumental tende a privilegiar conhecimentos que possibilitem previsão, controle e exploração eficiente de objetos e recursos.

Capra interpreta as crises aparentemente setoriais da medicina, da economia, da energia, das relações sociais e do ambiente como manifestações de uma crise de percepção. A alternativa sistêmica enfatiza processos, relações, interdependências, retroalimentações e padrões de organização dos sistemas vivos (6).


É nesse ponto que a aproximação com o ecofeminismo ganha particular relevância. Capra identifica entre as grandes transformações da transição civilizatória o declínio do patriarcado, o declínio da era dos combustíveis fósseis e a mudança de paradigma. No plano econômico, associa essa transformação, entre outros aspectos, à valorização do trabalho doméstico e feminino e à descentralização energética e política (2).


Capra torna-se, assim, uma mediação particularmente fértil entre Guerreiro Ramos e Mies/Shiva. Com Guerreiro Ramos, compartilha a crítica ao industrialismo, à hipertrofia econômica e ao paradigma dominante; com o ecofeminismo, compartilha a crítica ao patriarcado e a defesa de uma visão relacional da vida.


4. Mies e Shiva: ecofeminismo e reprodução da vida


Em Ecofeminism, Maria Mies e Vandana Shiva articulam problemas que frequentemente são tratados separadamente: dominação das mulheres, destruição da natureza, colonialismo, ciência reducionista e expansão capitalista (3). Sua tese não consiste simplesmente em afirmar que mulheres estariam naturalmente mais próximas da natureza. O argumento mais fértil está na percepção de que sociedades industriais tendem a tornar invisíveis justamente os processos dos quais mais dependem.


A economia depende da capacidade regenerativa dos ecossistemas, mas frequentemente trata água, solos, biodiversidade e ciclos naturais como recursos disponíveis ou externalidades. De maneira semelhante, depende do trabalho de cuidado, alimentação, reprodução familiar e manutenção cotidiana da vida, mas grande parte dessas atividades permaneceu historicamente não remunerada, subvalorizada ou simplesmente ausente dos indicadores econômicos.


Shiva mostra que determinados processos descritos como desenvolvimento podem simultaneamente produzir crescimento monetário e empobrecimento material de comunidades. Quando recursos anteriormente utilizados para subsistência são mercantilizados, aquilo que aparece nas contas nacionais como crescimento pode significar redução de autonomia, aumento da dependência monetária e deterioração ambiental. No capítulo dedicado ao empobrecimento do meio ambiente, das mulheres e das crianças, a autora questiona precisamente a identificação automática entre crescimento econômico, bem-estar e desenvolvimento (3).


A perspectiva da subsistência desenvolvida no livro não deveria ser entendida simplesmente como defesa de retorno a formas sociais pré-industriais. Ela implica recolocar a produção e reprodução da vida como critério de avaliação da economia. A questão deixa de ser apenas quanto se produz e passa a incluir o que se produz, para quem, por quais meios, com quais impactos e às custas de quais trabalhos humanos e ecológicos.


É nesse ponto que a economia substantiva de Polanyi, a economia ecológica de Georgescu-Roegen, a delimitação de Guerreiro Ramos, o pensamento sistêmico de Capra e o ecofeminismo começam a formar uma constelação conceitual. As aproximações não eliminam suas diferenças, mas todas questionam, de modos distintos, a ideia de economia como sistema autônomo.


5. Fenonomia, isonomia e economia solidária: possibilidades, não garantias


A articulação entre teoria da delimitação, economia social e solidária e empoderamento feminino foi desenvolvida inicialmente a partir da hipótese de que os princípios da economia solidária — reciprocidade, autogestão, cooperação, participação e equidade — poderiam favorecer transformações nas condições de vida e atuação das mulheres (7). O próprio estudo, contudo, destacou uma contradição fundamental: organizações orientadas normativamente pela igualdade continuam inseridas numa sociedade desigual e podem reproduzir internamente a divisão sexual do trabalho, discriminações e assimetrias de poder.


Essa ressalva é fundamental. Uma cooperativa não se torna isonômica simplesmente porque possui estatuto democrático; uma organização solidária não supera automaticamente relações patriarcais; e participação formal não significa necessariamente igualdade substantiva.


Posteriormente, o problema foi reinterpretado por meio das noções de fenonomia e isonomia de Guerreiro Ramos. A hipótese passou a ser que processos de empoderamento feminino podem assumir características fenonômicas — autonomia relativa, criatividade, consciência crítica e expressão da singularidade — encontrando em espaços com características isonômicas condições para participação, reciprocidade, aprendizagem e ação coletiva (8).


Essa formulação exige, entretanto, uma importante cautela. Guerreiro Ramos não afirma que isonomias ou fenonomias produzam necessariamente autorrealização. Ele rejeita justamente a ideia de que a complexidade da realização humana possa ser resolvida por um único tipo de organização. A autorrealização é uma possibilidade complexa, e os diferentes sistemas sociais podem oferecer condições mais ou menos adequadas ao seu desenvolvimento.


A própria noção de isonomia deve ser lida nesse registro. Guerreiro Ramos descreve-a como um ambiente cujo propósito é permitir condições favoráveis à atualização dos participantes, reduzindo prescrições impostas e privilegiando relações entre iguais; isso não significa que toda experiência empírica denominada cooperativa, associativa ou comunitária corresponda a tal tipo ideal.


O ecofeminismo acrescenta uma questão adicional. Mesmo ambientes cooperativos podem reproduzir uma divisão na qual mulheres continuam responsáveis simultaneamente pelo trabalho produtivo, doméstico e de cuidado. Por isso, a isonomia formal precisa ser permanentemente confrontada com as condições concretas de participação.


Essa articulação também modifica a compreensão da autonomia. Em vez de concebê-la como independência absoluta, seria mais adequado entendê-la como autonomia na interdependência. O indivíduo não deixa de depender de outras pessoas, de comunidades e da natureza ao emancipar-se. O que pode mudar são a qualidade, a reciprocidade e a justiça dessas relações de interdependência.


6. Delimitar o mercado para sustentar e regenerar a vida


O diálogo entre esses autores permite distinguir pelo menos três fundamentos para a delimitação do mercado.


O primeiro é antropológico e ético. O ser humano não pode ser reduzido ao papel de trabalhador remunerado, consumidor ou maximizador de utilidade. Guerreiro Ramos sustenta que a vida humana é multidimensional e que a racionalidade instrumental possui legitimidade apenas dentro de limites específicos (1).


O segundo fundamento é sociopolítico. Uma sociedade multicêntrica deve preservar diferentes sistemas sociais, diferentes formas de associação e diferentes critérios de vida. Mercado, Estado, comunidades, associações e espaços de criação pessoal não podem ser submetidos indistintamente à mesma lógica.


O terceiro fundamento é biofísico. Organizações e economias existem dentro dos sistemas naturais, retiram matéria e energia desses sistemas e neles depositam resíduos. A “localização simples” da empresa é, portanto, uma abstração que pode ter utilidade analítica limitada, mas se torna perigosa quando convertida em representação da realidade.


O ecofeminismo acrescenta uma quarta dimensão que atravessa as anteriores: quem sustenta a reprodução da vida e quem suporta os custos invisibilizados da economia? Essa pergunta revela que os limites do mercado não dizem respeito somente à natureza abstratamente considerada. Envolvem relações de gênero, cuidado, trabalho doméstico, subsistência, territórios e conhecimentos tradicionalmente desvalorizados.


Pode-se, portanto, formular uma hipótese mais abrangente: mercadocentrismo, mecanicismo e patriarcado não são fenômenos idênticos, mas podem reforçar-se historicamente. A economia mercadocêntrica transforma cada vez mais dimensões da vida em mercadorias; o mecanicismo facilita a fragmentação e instrumentalização dos sistemas vivos; o patriarcado tende a desvalorizar trabalhos associados à reprodução e ao cuidado. O resultado pode ser uma civilização altamente produtiva em mercadorias e simultaneamente destrutiva de suas próprias condições de permanência.


As alternativas também não podem ser reduzidas a uma única instituição. Nem cooperativa, nem Estado, nem comunidade local, nem tecnologia ecológica constituem por si sós solução suficiente. A contribuição de Guerreiro Ramos é precisamente evitar a busca por uma forma organizacional universal: sociedades multidimensionais requerem pluralidade de sistemas e adequação entre diferentes atividades, escalas, tempos, espaços e formas organizacionais.


Nesse sentido, experiências de economia social e solidária podem funcionar como laboratórios sociais de delimitação, desde que não sejam idealizadas. Podem combinar atividade econômica com reciprocidade, participação e objetivos sociais; podem ampliar a voz das mulheres e favorecer processos de empoderamento; mas podem também reproduzir patriarcado, hierarquia, dependência do mercado e práticas ecologicamente insustentáveis. Seus potenciais precisam ser examinados empiricamente e criticamente (7; 8).


Conclusões


O cruzamento entre Guerreiro Ramos, Fritjof Capra, Maria Mies e Vandana Shiva revela uma convergência que não exige homogeneizar suas obras. Cada perspectiva ilumina uma dimensão particular de uma problemática civilizatória mais ampla.


Guerreiro Ramos mostra que o mercado é uma instituição historicamente particular que, ao se transformar em princípio organizador da sociedade, produz unidimensionalização. Sua teoria da delimitação pretende recuperar uma sociedade multicêntrica, composta por diferentes sistemas e racionalidades. Com Polanyi, ele reconhece a economia como socialmente inserida; com Georgescu-Roegen, reconhece que a produção está submetida a condições biofísicas; com Whitehead, critica a “localização simples” e propõe uma ciência das organizações voltada à permanência.


Capra acrescenta uma crítica epistemológica sistêmica. A crise econômica e ecológica não decorre apenas de decisões equivocadas dentro de um paradigma adequado, mas também de uma percepção fragmentada da realidade. Sua crítica ao mecanicismo e sua defesa da interdependência aproximam-se da crítica guerreiriana à racionalidade instrumental e abrem passagem para uma compreensão ecológica das relações sociais. O fato de Capra associar a mudança paradigmática ao declínio do patriarcado fortalece ainda mais essa passagem (2).


Mies e Shiva acrescentam uma dimensão que não ocupa o mesmo lugar nas outras abordagens: a relação entre patriarcado, apropriação da natureza e invisibilidade do trabalho de reprodução da vida. Com elas, a pergunta sobre os limites do mercado passa também a ser uma pergunta sobre gênero: que trabalhos e processos sustentam a vida sem serem reconhecidos como produção de riqueza?


A economia social e solidária, por sua vez, oferece um campo concreto e contraditório de experimentação. Seus princípios podem favorecer reciprocidade, participação, autonomia e processos de empoderamento, mas nada disso ocorre necessariamente. A mesma cautela vale para fenonomias e isonomias: são construções heurísticas que permitem compreender diferentes possibilidades de organização da vida associada, e não mecanismos capazes de assegurar autorrealização ou emancipação.


Talvez a principal contribuição do diálogo esteja, portanto, numa mudança de pergunta. Em vez de indagar apenas como produzir mais riqueza, torna-se necessário perguntar que riqueza, produzida por quem, mediante quais relações, dentro de quais limites e para sustentar que formas de vida.


Delimitar o mercado significa, nessa perspectiva, mais do que regular uma instituição econômica. Significa reconhecer que a economia está inserida na sociedade, que a sociedade está inserida na biosfera e que ambas dependem de processos cotidianos de cuidado, reprodução e regeneração que não podem continuar tratados como recursos ilimitados ou invisíveis. Uma sociedade substantivamente sustentável precisaria ser simultaneamente multicêntrica, ecologicamente situada e capaz de enfrentar as desigualdades de gênero que atravessam a própria reprodução da vida.


Referências

(1) GUERREIRO RAMOS, Alberto. The New Science of Organizations: A Reconceptualization of the Wealth of Nations. Toronto: University of Toronto Press, 1981.

(2) BOEIRA, Sérgio Luís. Ecologia política: Guerreiro Ramos e Fritjof Capra. Ambiente & Sociedade, ano V, n. 10, 1º semestre de 2002.

(3) MIES, Maria; SHIVA, Vandana. Ecofeminism. London: Zed Books, 1993.

(4) POLANYI, Karl. The Great Transformation: The Political and Economic Origins of Our Time. New York: Farrar & Rinehart, 1944.

(5) GEORGESCU-ROEGEN, Nicholas. The Entropy Law and the Economic Process. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1971.

(6) CAPRA, Fritjof. The Turning Point: Science, Society, and the Rising Culture. New York: Simon and Schuster, 1982.

(7) SIMON, Vanêssa Pereira; BOEIRA, Sérgio Luis. Economia social e solidária e empoderamento feminino. Ciências Sociais Unisinos, v. 53, n. 3, p. 532-542, set./dez. 2017.

(8) SIMON, Vanêssa Pereira; BOEIRA, Sérgio Luís. Fenonomia, isonomia, economia social e solidária: convergências no processo de empoderamento feminino? Revista de Ciências da Administração, v. 22, n. 56, p. 109-124, 2020.


P.S.: Usei a IA GPT-5.6 Sol para reunir informações e elaborar ilustração do texto, que foi concebido, editado e revisado por mim.

 
 
 

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