Religião, populismo e laicidade: Trump, Bolsonaro, Marina Silva e Lula
- Sérgio Luís Boeira
- há 1 dia
- 16 min de leitura
Objetivo
Analisar comparativamente as relações entre religião, populismo, liderança política e laicidade nos casos de Donald Trump, Jair Bolsonaro, Marina Silva e Luiz Inácio Lula da Silva, aplicando a grade conceitual construída nos dois primeiros ensaios desta trilogia. A análise procura compreender não apenas a presença de referências religiosas nos discursos políticos, mas sobretudo o que diferentes lideranças fazem politicamente com a religião: como reconhecem ou reduzem a autonomia dos cidadãos religiosos; como se relacionam com organizações e lideranças religiosas; como constroem as fronteiras entre povo e adversários; como respondem à ciência e ao risco; e em que medida preservam ou tensionam a laicidade do Estado e a multicentricidade da sociedade.
Resumo
A reemergência pública das religiões nas sociedades contemporâneas questiona interpretações lineares da secularização e modifica as formas de competição política na democracia de massas. Este terceiro ensaio de uma trilogia sobre religião, autonomia e poder aplica a grade conceitual desenvolvida nos dois textos anteriores a quatro lideranças: Donald Trump, Jair Bolsonaro, Marina Silva e Luiz Inácio Lula da Silva. A partir de Jung, Weber, Fromm, C. Wright Mills, Beck, Morin e Guerreiro Ramos, examinam-se diferentes modalidades de relação entre religiosidade pessoal, discurso religioso, mobilização eleitoral, populismo e laicidade. Argumenta-se que a presença da religião na política não constitui, por si mesma, populismo religioso nem ameaça ao Estado laico. A questão decisiva é como símbolos, crenças, organizações e identidades religiosas são convertidos — ou não — em recursos de legitimação, segmentação eleitoral e construção de um “povo” moralmente homogêneo. Trump e Bolsonaro apresentam formas particularmente intensas de articulação entre populismo, religião e nacionalismo; Marina Silva constitui um caso contrastante de religiosidade pessoal associada à defesa explícita da laicidade e à crítica da instrumentalização da fé; Lula combina referências religiosas recorrentes com uma concepção mais inclusiva e pluralista, próxima da religião civil, sem deixar de adaptar seu discurso à crescente relevância eleitoral dos públicos religiosos. A pandemia de Covid-19 funciona como situação crítica para a comparação, ao colocar lideranças diante das tensões entre ciência e convicção, responsabilidade e identidade, risco cosmopolita e nacionalismo. Conclui-se que esquerda e direita podem politizar a religião, mas não necessariamente da mesma maneira nem com as mesmas consequências para autonomia, pluralismo e democracia.

Introdução
Este ensaio constitui a terceira parte de uma trilogia sobre religião, autonomia e poder na modernidade contemporânea. O primeiro texto, Religião entre autonomia e autoridade: Jung, Weber, Fromm, Beck e Morin, construiu uma grade conceitual destinada a compreender a experiência religiosa para além das alternativas simplificadoras entre crença e secularização, tradição e modernidade. O segundo, Religião e populismo na modernidade reflexiva: autonomia, mercado e paraeconomia, ampliou essa abordagem mediante C. Wright Mills e Guerreiro Ramos, examinando a transformação do cidadão religioso em público eleitoral no contexto dos surveys, do marketing político, das redes digitais e da expansão da racionalidade mercantil.
Neste terceiro movimento, os critérios precedem deliberadamente os casos. Essa opção metodológica procura evitar que conceitos sejam escolhidos retrospectivamente para confirmar avaliações políticas previamente estabelecidas. A mesma grade será aplicada a lideranças situadas em posições distintas do espectro político. A simetria dos critérios não pressupõe simetria dos resultados.
A comparação entre Donald Trump, Jair Bolsonaro, Marina Silva e Luiz Inácio Lula da Silva é especialmente fecunda porque não corresponde simplesmente a dois representantes da direita contrapostos a dois representantes da esquerda. Trump e Bolsonaro apresentam aproximações entre populismo, nacionalismo e mobilização política do cristianismo; Marina Silva, embora profundamente religiosa e evangélica, destaca-se pela defesa explícita do Estado laico e pela crítica à instrumentalização eleitoral da fé; Lula incorpora reiteradamente Deus, fé e referências cristãs a seu discurso, mas tende a associá-los a democracia, igualdade, combate à pobreza e pluralismo religioso. Estudos comparativos dos discursos de Bolsonaro e Lula confirmam que ambos politizam a religião, embora de maneiras substantivamente distintas (8).
Essa comparação exige distinguir religiosidade pessoal, referência religiosa pública, religião civil, instrumentalização eleitoral da religião e populismo religioso. Um governante pode possuir fé intensa e preservar rigorosamente a laicidade; outro pode ter trajetória religiosa pouco consistente e utilizar eficazmente símbolos religiosos como instrumentos de construção política. A pergunta central não será, portanto, “em que acredita o líder?”, mas “o que o líder faz politicamente com a religião?”
A hipótese orientadora é que a democracia de massas contemporânea produz fortes incentivos para a politização da religião. Pesquisas eleitorais identificam segmentos; marketing transforma segmentos em públicos-alvo; organizações religiosas possuem capilaridade e autoridade simbólica; plataformas digitais ampliam a capacidade de mobilização; e lideranças políticas procuram converter identificação em votos. O populismo pode acrescentar outra operação: transformar determinados públicos religiosos em representação do “verdadeiro povo”.
A análise desenvolve-se inicialmente pela apresentação dos critérios comparativos. Em seguida são examinados Trump, Bolsonaro, Marina Silva e Lula. Uma seção específica trata da pandemia de Covid-19 como situação crítica, relacionando ciência, ética da responsabilidade, redes digitais, religião e nacionalismo vacinal. Finalmente, os quatro casos são comparados à luz da modernização reflexiva de Beck e da sociedade multicêntrica proposta pelo paradigma paraeconômico de Guerreiro Ramos.
1. Da religiosidade pessoal ao populismo religioso
A primeira distinção necessária é entre possuir religião e instrumentalizar politicamente a religião. A laicidade democrática não exige que políticos abandonem suas crenças ao assumir funções públicas. Tal exigência seria ela própria contrária à liberdade religiosa.
O problema surge quando ocorre uma passagem entre diferentes níveis: fé pessoal → referência religiosa pública → mobilização religiosa → segmentação eleitoral → construção político-religiosa do povo.
Essas passagens não são automáticas. Um candidato pode dizer que sua fé inspira sua preocupação com os pobres sem sustentar que cidadãos religiosos devam votar nele. Pode dirigir-se a uma comunidade religiosa sem pretender que ela constitua um bloco eleitoral homogêneo. Pode ainda reconhecer que valores provenientes de sua tradição precisam ser traduzidos em argumentos públicos capazes de alcançar cidadãos que não compartilham daquela fé.
O populismo religioso começa a tornar-se mais nítido quando a religião participa da fronteira moral entre o povo autêntico e seus adversários. A identidade política recebe então uma dimensão transcendente: “nosso povo”, “nossos valores”, “nossa religião” e eventualmente “nosso Deus” aproximam-se semanticamente.
A contribuição de Jung permite perguntar se essa construção favorece projeções coletivas da sombra; Fromm, se a autoridade religiosa fortalece autonomia ou submissão; Weber, quais consequências institucionais decorrem dessas alianças; Beck, se a individualização da crença é respeitada; Morin, se identidades complexas são reduzidas a pertenças exclusivas; e Guerreiro Ramos, se Estado, mercado, organizações religiosas e sociedade civil preservam sua relativa autonomia.
2. Trump: nacionalismo cristão e construção do “verdadeiro povo”
O caso de Donald Trump é particularmente revelador porque demonstra que populismo religioso não depende de uma biografia marcada por religiosidade intensa. A literatura norte-americana encontrou uma associação robusta entre nacionalismo cristão e voto em Trump já na eleição de 2016, mesmo controlando estatisticamente outras variáveis políticas e sociais (9).
Nesse caso, “cristão” pode funcionar menos como descrição da experiência espiritual individual do que como marcador de pertencimento civilizacional. A América imaginada como originariamente cristã estabelece uma fronteira entre aqueles considerados representantes autênticos da nação e aqueles percebidos como ameaça à sua identidade.
A literatura posterior mostra justamente essa articulação entre Trump, populismo e nacionalismo cristão. Símbolos bíblicos foram empregados para apresentar o líder como figura capaz de restaurar uma comunidade ameaçada, inclusive mediante analogias com personagens bíblicos como Ciro e Davi (10).
A grade de Jung permite interpretar a construção de adversários — elites progressistas, imigrantes, muçulmanos, secularistas — como potencial espaço de projeção da sombra coletiva. Fromm acrescentaria a promessa de proteção oferecida pela autoridade diante de um mundo percebido como ameaçador. Morin identificaria a redução da identidade complexa do cidadão à oposição entre “americanos verdadeiros” e aqueles cuja pertença à comunidade nacional se torna suspeita.
A religião, nesse caso, participa da construção política do povo. Essa articulação não permaneceu apenas discursiva. No segundo governo Trump, iniciado em 2025, foram criados institucionalmente o White House Faith Office e uma força-tarefa federal destinada especificamente a combater o que o governo caracteriza como preconceito anticristão. As medidas são justificadas oficialmente em nome da liberdade religiosa, mas demonstram também a centralidade adquirida pela categoria “cristã” na agenda governamental.
O caso Trump revela, portanto, uma tensão fundamental: proteção da liberdade religiosa e privilegiamento político de uma identidade religiosa majoritária não são necessariamente a mesma coisa.
3. Bolsonaro: “Deus acima de todos” e a maioria cristã
Jair Bolsonaro apresenta paralelos importantes com Trump, mas dentro da história religiosa e política brasileira. Sua ascensão ocorreu mediante forte aproximação com setores evangélicos e católicos conservadores, enquanto o slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” fundia explicitamente nacionalidade, religião e liderança política.
Bolsonaro reconheceu em diferentes ocasiões que “o Estado é laico”, mas acrescentou reiteradamente que “nós somos cristãos”. Em culto realizado no Congresso, foi além ao defender que esse espírito cristão estivesse presente “em todos os poderes” e anunciou a intenção de indicar ao Supremo Tribunal Federal um ministro “terrivelmente evangélico”.
A tensão entre maioria e pluralismo aparece aí com especial clareza. O Estado laico não existe porque uma sociedade não possui maioria religiosa. Existe justamente para que a existência de uma maioria não retire das minorias — nem dos indivíduos pertencentes à própria maioria — a liberdade de consciência.
O discurso bolsonarista também oferece exemplos especialmente nítidos da moralização da polarização. Em 2022, Bolsonaro afirmou que a disputa não era entre esquerda e direita, mas entre bem e mal, relacionando o “bem” às tradições e à religião da maioria brasileira.
Aqui Jung e Morin convergem: a oposição política transforma-se potencialmente em oposição moral absoluta, enquanto a identidade multidimensional do adversário é reduzida à categoria do mal.
Estudo comparativo dos discursos presidenciais caracteriza precisamente essa configuração como populismo religioso excludente, contrastando-a com a religião civil inclusiva de Lula (8).
4. Marina Silva: fé intensa e defesa da laicidade
Marina Silva oferece um caso teoricamente indispensável porque impede qualquer identificação simplificadora entre religiosidade intensa e populismo religioso.
Sua trajetória religiosa é explicitamente cristã e evangélica. Entretanto, Marina tem sustentado que o compromisso com o Estado laico não exige negar a própria fé. Em entrevista de 2014, relatou ter emitido parecer contrário a um projeto que obrigaria bibliotecas a manter Bíblias, argumentando que o Estado não poderia privilegiar uma tradição religiosa; afirmou também ter pago “um preço muito alto” por essa posição.
Mais recentemente, voltou a formular uma distinção que dialoga diretamente com nossa grade conceitual: evangélicos, católicos, integrantes de religiões de matriz africana e pessoas sem religião devem ser tratados como cidadãos. Marina critica simultaneamente duas posições: a tentativa de excluir a fé da esfera pública e a tentativa de instrumentalizá-la politicamente.
O caso Marina permite, portanto, estabelecer uma diferença crucial: religiosidade do sujeito ≠ instrumentalização política da religiosidade.
Em termos beckianos, a fé pessoal não precisa converter-se em “nosso Deus” político. Pode reconhecer “o Deus de cada um” — e também o direito daquele que não possui Deus.
Há aqui uma concepção substantiva de laicidade. O Estado laico não combate a religião; cria institucionalmente as condições para que diferentes experiências religiosas coexistam sem que uma delas disponha do poder coercitivo do Estado para impor-se às demais.
Marina constitui, assim, uma espécie de caso contrastante dentro da comparação: demonstra empiricamente que forte identidade religiosa e forte compromisso com a laicidade podem coexistir.
5. Lula: religião civil, inclusão e estratégia eleitoral
Lula apresenta configuração diferente. Sua linguagem política contém referências recorrentes a Deus, fé, cristianismo, solidariedade e trajetória pessoal. Entretanto, essas referências tendem a ser inseridas numa concepção inclusiva do povo.
Na posse de 2023, Lula afirmou, sob referência à proteção de Deus, que a fé poderia estar presente em diferentes templos, igrejas e cultos e que todos deveriam exercer livremente sua religiosidade.
A literatura comparativa propõe interpretar esse discurso como religião civil inclusiva. Deus funciona menos como marcador destinado a separar o verdadeiro povo de seus inimigos e mais como referência simbólica ampla associada a democracia, igualdade, solidariedade e pluralidade (8).
Isso não significa, entretanto, ausência de politização da religião. A mesma pesquisa que diferencia Lula de Bolsonaro conclui que ambos politizam a religião, embora de maneiras distintas. Lula atribui significado religioso à própria trajetória, emprega referências cristãs e procura dialogar com um eleitorado fortemente religioso.
É justamente aqui que Mills e nossa crítica ao “público religioso eleitoral” se tornam importantes. À medida que pesquisas identificam dificuldades eleitorais entre evangélicos, campanhas políticas podem ser incentivadas a modificar linguagem, agendas e aproximações com lideranças religiosas. A tensão entre reconhecimento legítimo dos cidadãos religiosos e segmentação mercadológica reaparece.
O caso Lula exige, portanto, uma avaliação mais nuançada: sua religião civil apresenta características muito mais compatíveis com pluralismo e laicidade do que o nacionalismo religioso excludente, mas a inclusão religiosa não elimina automaticamente o problema da instrumentalização eleitoral da fé.
6. Quatro lideranças, quatro relações entre religião e política
Os casos permitem abandonar uma escala simplificadora que iria simplesmente do “mais religioso” ao “menos religioso”. O contraste mais significativo aparece em outras dimensões:
Liderança | Modalidade predominante | Relação com a laicidade | Construção religiosa do povo |
Trump | nacionalismo cristão/populismo | tensionamento entre liberdade religiosa e favorecimento identitário cristão | forte |
Bolsonaro | populismo religioso cristão | reconhecimento formal acompanhado de forte tensionamento substantivo | muito forte |
Marina Silva | religiosidade pessoal pluralista | defesa explícita | fraca |
Lula | religião civil inclusiva | reconhecimento do pluralismo e da liberdade religiosa | moderada/inclusiva |
A tabela não pretende atribuir posições definitivas às quatro pessoas. Trata-se de tipos analíticos construídos a partir dos discursos e comportamentos examinados.
Ela revela, entretanto, algo importante: posição esquerda–direita e grau de religiosidade não explicam sozinhos a relação entre religião e democracia.
Marina e Bolsonaro podem ambos declarar intensa identidade cristã e, entretanto, atribuir significados políticos muito diferentes à laicidade. Lula e Bolsonaro podem ambos mencionar Deus e, entretanto, construir discursivamente relações diferentes entre Deus, povo e adversários. Trump demonstra, por sua vez, que a eficácia política do nacionalismo cristão não depende de o líder funcionar como modelo convencional de religiosidade.
7. A pandemia como situação crítica
A pandemia de Covid-19 oferece uma oportunidade extraordinária para testar a grade teórica porque submeteu lideranças políticas a uma situação na qual crenças, ciência, responsabilidade, liberdade individual e risco coletivo entraram em tensão.
Weber torna-se especialmente importante. Sua distinção entre ética da convicção e ética da responsabilidade permite compreender o problema sem identificar religião com irracionalidade. A questão não é possuir convicções, mas considerar as consequências previsíveis das decisões tomadas em nome delas.
Beck acrescenta a dimensão da sociedade mundial de risco. O vírus ignorava fronteiras nacionais, enquanto governos continuavam predominantemente estruturados segundo o Estado-nação.
Trump oferece um caso particularmente ambivalente. Seu governo promoveu a Operation Warp Speed, que acelerou desenvolvimento, aquisição e distribuição de vacinas, mas vinculou o projeto à prioridade nacional. Em dezembro de 2020, Trump determinou formalmente que os norte-americanos tivessem acesso prioritário às vacinas adquiridas pelo governo dos Estados Unidos. A literatura caracteriza essa combinação como uma modalidade de nacionalismo vacinal associada ao “America First”.
Bolsonaro apresentou outra configuração. Além de minimizar a gravidade da pandemia, transformou a vacinação em campo de polarização política e questionou especialmente a CoronaVac em meio ao conflito com o governador paulista João Doria e às tensões com a China. Estudos encontraram associação entre apoio a Bolsonaro e maior rejeição à vacina chinesa. Também houve alinhamento documentado entre discursos antivacina de Bolsonaro e de lideranças religiosas, reforçando a articulação entre negacionismo, nacionalismo religioso e identidade política.
A pandemia evidencia, entretanto, a ambivalência das redes digitais e da própria religião. O fechamento dos templos e a impossibilidade dos rituais convencionais de luto estimularam a migração de comunidades religiosas para espaços digitais. As mesmas redes capazes de propagar desinformação ofereceram também acolhimento, continuidade ritual e possibilidades de contato entre diferentes interpretações religiosas.
Em termos de Beck, poderíamos falar em duas possibilidades da modernização reflexiva: crise → incerteza → comparação → reflexividade ou crise → insegurança → autoridade → fechamento identitário.
A modernidade reflexiva não produz necessariamente sujeitos reflexivos; cria condições que obrigam indivíduos e instituições a responder à desestabilização das certezas tradicionais.
8. Nacionalismo vacinal e cosmopolitização
A pandemia revelou também aquilo que Beck denominou criticamente nacionalismo metodológico.
O problema epidemiológico era global, a produção científica transnacional e as cadeias produtivas das vacinas internacionais. Entretanto, a distribuição permaneceu fortemente organizada por Estados nacionais, capacidade de compra e interesses geopolíticos. A literatura sobre nacionalismo vacinal destaca precisamente a tensão entre emergência global e políticas de tipo “me first”.
Isso produz uma contradição interessante com o potencial universalista de diversas religiões. Cristianismo, islamismo e outras tradições ultrapassam, em princípio, as fronteiras do Estado-nação. Entretanto, religiões podem ser recontextualizadas nacionalisticamente: Deus → povo → nação.
Trump e Bolsonaro oferecem elementos particularmente importantes para examinar essa articulação. Beck sugere outro caminho: individualização → reconhecimento da pluralidade → cosmopolitização.
Morin acrescentaria a necessidade de reconhecer uma comunidade de destino terrestre: a humanidade compartilha riscos que não podem ser adequadamente enfrentados por identidades nacionais isoladas.
9. “O Deus de cada um” diante do Estado e do mercado
Os quatro casos permitem retornar ao problema central formulado nos dois primeiros ensaios.
Para Beck, a individualização religiosa abre espaço para que indivíduos reconstruam reflexivamente suas relações com as tradições. Mas essa autonomia pode ser comprimida por organizações religiosas, partidos, marketing político e plataformas digitais.
Guerreiro Ramos permite deslocar o problema da consciência individual para a organização institucional da sociedade. Uma sociedade centrada no mercado tende a converter: fiel → audiência; cidadão → consumidor; religião → segmento; liderança → marca; preferência → dado;
voto → conversão.
O paradigma paraeconômico propõe delimitar a racionalidade mercantil e preservar uma sociedade multicêntrica na qual diferentes formas de vida associada não sejam reduzidas aos critérios do mercado.
Isso modifica a própria concepção de laicidade. A democracia necessita de múltiplas delimitações: a religião não deve colonizar o Estado; o Estado não deve colonizar a religião; o mercado não deve colonizar a religião; as organizações religiosas não devem colonizar a consciência; os partidos não devem reduzir o cidadão religioso a segmento eleitoral.
Nesse sentido, “o Deus de cada um” requer uma sociedade multicêntrica.
10. O que os quatro casos permitem comparar
A comparação sugere que a variável fundamental não é simplesmente religião versus secularização nem direita versus esquerda.
É necessário observar simultaneamente pelo menos cinco dimensões: religiosidade pessoal do líder; uso público de símbolos religiosos; relação com organizações e lideranças religiosas; construção religiosa ou não religiosa do “povo”; compromisso substantivo com pluralismo e laicidade.
Trump e Bolsonaro aproximam-se mais claramente de formas de populismo religioso nas quais cristianismo, povo e nação tendem a convergir.
Marina demonstra que religiosidade pessoal intensa pode coexistir com delimitação explícita entre fé e Estado.
Lula ocupa posição intermediária e mais ambivalente: utiliza referências religiosas e reconhece a importância política dos públicos religiosos, mas tende a integrá-las numa religião civil inclusiva que reconhece pluralismo e liberdade religiosa.
Essas diferenças confirmam o princípio metodológico que orientou a trilogia: os mesmos critérios podem produzir resultados assimétricos.
Considerações finais
A análise de Trump, Bolsonaro, Marina Silva e Lula confirma que a reemergência pública da religião não pode ser adequadamente compreendida por uma narrativa simples de retorno à pré-modernidade. Estamos diante de fenômenos característicos da própria modernidade reflexiva: individualização religiosa, comunicação digital, marketing político, pesquisas eleitorais, organizações transnacionais, nacionalismos reativos e reconstrução reflexiva das identidades.
Os quatro casos mostram também que religiosidade e populismo religioso são fenômenos diferentes. Marina Silva constitui o contraste mais claro: uma liderança profundamente religiosa pode defender explicitamente o Estado laico e recusar que sua própria fé seja transformada em obrigação estatal. Sua posição demonstra que laicidade não equivale a ateísmo e que liberdade religiosa exige precisamente que o Estado não escolha a religião verdadeira.
Lula demonstra outra configuração. Seu discurso incorpora Deus e referências cristãs, mas tende a fazê-lo mediante uma religião civil inclusiva, associada a igualdade, solidariedade, democracia e liberdade religiosa. Isso não elimina a necessidade de examinar criticamente a utilização eleitoral da religião, sobretudo quando pesquisas e marketing incentivam a construção do “público evangélico” como segmento estratégico.
Trump e Bolsonaro apresentam maior aproximação entre religião, nacionalismo e construção populista do povo. Nesses casos, o cristianismo pode deixar de funcionar apenas como experiência religiosa e tornar-se marcador de autenticidade nacional. A oposição povo–elite adquire então potencial para converter-se em oposição entre bem e mal, tradição e degeneração, crentes autênticos e adversários da comunidade.
A pandemia de Covid-19 tornou essas diferenças especialmente visíveis. Diante de um risco global, ciência, religião e política foram obrigadas a confrontar incerteza, responsabilidade e morte. As redes digitais ofereceram simultaneamente acolhimento religioso e desinformação, reflexividade e fechamento identitário. A vacinação mostrou tanto a capacidade extraordinária da ciência internacional quanto a persistência do nacionalismo vacinal. Trump vinculou a aceleração científica das vacinas à prioridade nacional do America First; Bolsonaro transformou especialmente a CoronaVac em objeto de conflito político e identitário.
Beck ajuda a compreender a ambivalência: riscos cosmopolitas não produzem automaticamente consciência cosmopolita. Podem estimular cooperação e reflexividade, mas também nacionalismo, busca de certezas e fechamento identitário.
Jung acrescenta que o medo pode favorecer projeções da sombra; Fromm, que insegurança pode aumentar a demanda por autoridade; Weber, que convicções precisam confrontar responsabilidade pelas consequências; Mills, que cidadãos não podem ser confundidos com categorias estatísticas; Morin, que identidades particulares precisam ser religadas à condição humana comum; e Guerreiro Ramos, finalmente, que autonomia não pode depender apenas da consciência individual — necessita de instituições capazes de delimitar as pretensões totalizantes do Estado e do mercado.
A conclusão da trilogia pode então ser formulada de maneira mais precisa: o problema democrático não é que políticos tenham religião nem que cidadãos votem inspirados por suas crenças. O problema começa quando uma crença é convertida em critério de pertencimento ao “verdadeiro povo”, quando a autoridade religiosa é transformada em disciplina eleitoral e quando o poder estatal deixa de proteger a pluralidade para privilegiar uma identidade religiosa.
A alternativa tampouco consiste em expulsar a religião da esfera pública. Consiste em preservar condições para que exista efetivamente “o Deus de cada um” — inclusive o direito de cada pessoa não possuir Deus algum.
Para isso, o Estado laico é indispensável, mas insuficiente. É necessária também uma sociedade multicêntrica, na qual mercado, Estado, partidos, organizações religiosas e plataformas digitais tenham seus poderes delimitados. A laicidade protege a consciência contra a apropriação religiosa do Estado; a paraeconomia procura proteger a pluralidade das formas de vida contra a transformação do mercado em medida universal.
Nesse horizonte, talvez possamos inverter a lógica do populismo religioso. Em lugar de: nosso Deus → nosso povo → nossa nação → nossos adversários, uma democracia plural poderia sustentar: minha fé → sua fé ou não fé → nossa cidadania comum → nossa responsabilidade compartilhada.
Referências
(1) JUNG, Carl Gustav. Resposta a Jó [Antwort auf Hiob, 1952].
(2) WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo [Die protestantische Ethik und der “Geist” des Kapitalismus, 1904–1905; versão revista, 1920]; A política como vocação [Politik als Beruf, 1919].
(3) FROMM, Erich. O dogma de Cristo [Die Entwicklung des Christusdogmas, 1930]; A arte de amar [The Art of Loving, 1956].
(4) MILLS, C. Wright. A imaginação sociológica [The Sociological Imagination, 1959].
(5) GUERREIRO RAMOS, Alberto. A nova ciência das organizações: uma reconceituação da riqueza das nações [The New Science of Organizations: A Reconceptualization of the Wealth of Nations, 1981].
(6) MORIN, Edgar. O mundo moderno e a questão judaica [Le monde moderne et la question juive, 2006].
(7) BECK, Ulrich. O Deus de cada um [Der eigene Gott, 2008]. Ver também suas obras sobre sociedade de risco, modernização reflexiva, cosmopolitização e crítica ao nacionalismo metodológico.
(8) MEZZANOTTI, Gabriela; LØLAND, Ole Jakob. “From Religious Populism to Civil Religion: a Discourse Analysis of Bolsonaro’s and Lula’s Inaugural and Victory Speeches”. International Journal of Latin American Religions, v. 8, p. 279–304, 2024.
(9) WHITEHEAD, Andrew L.; PERRY, Samuel L.; BAKER, Joseph O. “Make America Christian Again: Christian Nationalism and Voting for Donald Trump in the 2016 Presidential Election”. Sociology of Religion, v. 79, n. 2, 2018.
(10) ADAMS, Samuel L. “The Bible in Christian Nationalist Rhetoric”. Interpretation, v. 78, n. 4, 2024.
(11) MIGLIORI, Chiara M. Religious Rhetoric in US Right-Wing Politics: Donald Trump, Intergroup Threat, and Nationalism. Cham: Palgrave Macmillan, 2022.
(12) BARROS JÚNIOR, Paulo Sérgio Ferreira. “Deus acima de todos: Bolsonaro, evangélicos e o voto nas eleições presidenciais de 2018 no Brasil”. Último Andar, 2021.
(13) DIAS, Kelvin Araújo da Nóbrega; NOBRE, Fábio Rodrigo Ferreira. “O negacionismo antivacina e o alinhamento nos discursos de Malafaia e Bolsonaro frente à pandemia de COVID-19 no Brasil”. Monções: Revista de Relações Internacionais da UFGD, v. 12, n. 24, 2024.
(14) “Vaccines as populist tropes in the COVID-19 pandemic”. Global Public Health, 2025. Estudo comparativo de Brasil, Estados Unidos e Filipinas, incluindo Bolsonaro e Trump.
(15) MARINA SILVA. Entrevistas e pronunciamentos sobre fé, política, cidadania e Estado laico, especialmente 2014 e 2026.
(16) BRASIL. Presidência da República. Discursos oficiais de Jair Bolsonaro, 2019–2022.
P.S.: Usei a IA GPT 5-6 Sol para buscar informações e elaborar a ilustração do texto, que foi concebido, editado e revisado por mim.



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